À primeira vista, parece danoso um modelo de liberalismo político deter um caráter neutralista e pluralista, porém a necessidade de cooperação que surge em uma sociedade marcada por esse pluralismo parece sugerir que grande variedade de valores e crenças – características de uma sociedade democrática – seja levada em consideração quando se trata de promover uma teoria da justiça imparcial e sem apelos a concepções morais particulares. Nesse sentido, uma neutralidade significa um plano de abstenção quanto às concepções religiosas, concepções de felicidade ou mesmo concepções particulares de bem, o que Rawls chama de assumir uma posição equidistante154 frente às concepções orientadoras da vida das pessoas.
153 PL, I, conf. III, §2.
154 RAMOS, César A. “A fundamentação política da ideia de pessoa e sociedade em Rawls”. In: Justiça e
Política: ‘Homenagem a Otfried Höffe’ (ogs. Draiton G. de Souza; Nythamar F. de Oliveira. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2003, p. 502.
Se o liberalismo político deve levar em consideração esta pluralidade de concepções de bem presente na sociedade democrática moderna para garantir e salvaguardar as liberdades individuais de seus membros, bem como os projetos de vida pessoais de cada um, tal proposta de neutralidade exige esse distanciamento às teorias do bem, ou seja, o liberalismo político não tem a pretensão de assumir nenhuma forma de bem, particular ou coletivo, em detrimento de outra concepção supostamente inferior ou algo do gênero. O ‘ambiente’ pluralista no qual se movimenta uma teoria liberal faz com que a concepção de justiça como equidade seja a melhor opção para a ideia de uma sociedade bem-ordenada, na medida em que, através dela, é possível considerar o pluralismo razoável e garantir que esta seja justa, duradoura e estável.
Uma teoria que se proponha reestruturar o modelo contratualista a partir de uma base construtivista precisa saber como garantir a unidade social e, também no âmbito da razão pública, oferecer a solução para os conflitos que surgem. Se Kant inaugura essa proposta de uma deontologia liberal com bases no contratualismo, a teoria tomada como parâmetro para analisar este problema é o neocontratualismo de Rawls. No prefácio da tradução francesa de A Theory o autor reconhece a necessidade de reformular algumas posições de seu texto original (1971) em relação à teoria prática kantiana. Dentre elas, a concepção de pessoa que, em vez de ser uma apropriação pura e simples de uma ideia baseada no conceito kantiano de dignidade do ser humano, tenta não incorrer nos problemas metafísicos que supostamente ocorrem na obra do filósofo moderno. É por isso que a concepção de pessoa em Political liberalism é política, de modo que há uma ênfase normativa nas a) qualidades morais do agente – o senso de justiça e a concepção de bem, um reforço na ideia de pessoa como b) representação e, por fim, a ênfase no aspecto das c) relações (cooperação social)155.
O elemento a) diz respeito à necessidade normativa dos indivíduos possuírem como qualidades, do ponto de vista moral, a capacidade de ter concepções de bem (plano racional de vida) e também a capacidade de ter um senso de justiça para aplicar os princípios de justiça e agir segundo suas representações (determinações). Essas capacidades são morais porque os agentes, estando em uma relação de igualdade
155 Rawls já esclarece a interpretação de sua concepção de pessoa como metafísica. Aqui, ele diz que
mesmo que faça uso de ‘certas teses metafísicas’ sobre a natureza das pessoas enquanto agentes políticos, deveriam elas serem entendidas como pressupostos metafísicos tão gerais que não diriam respeito a uma visão particular de metafísica. Assim, na medida em que não nega essa interpretação, o uso do método de esquiva lhe permite esclarecer esse ponto desta maneira: “Nesse caso, pareceriam relevantes para a estrutura e o conteúdo de uma concepção política de justiça” (PL, rodapé, citação nº 31, p. 72). O debate se estende para as considerações de Daniel Brudney e Paul Hoffman.
estabelecida a partir dessa disposição, podem deliberar e assumir responsabilidades políticas, justamente porque permitem escolhas (racionais) na posição original que servirão de parâmetro normativo. Desse modo, a concepção política de pessoa permitirá a Rawls estabelecer este dispositivo heurístico primeiro, bem como determinar esse caráter de representação dos indivíduos enquanto pessoais livres.
O elemento b) é uma extensão dessa necessidade que a posição original requer, ou seja, a concepção de pessoa deve permitir essa possibilidade de representação para a construção hipotética nesse dispositivo. Na medida em que os princípios de justiça são adotados como necessários, a qualidade normativa de um senso de justiça e o razoável permitirão que a pessoa alcance sua concepção plena, pois suas capacidades são efetivadas: “(...) a [capacidade] racional, pela defesa da pessoa representante daquilo que ela presume ser melhor para a pessoa representada; e a razoável quando a pessoa pode por em prática em sociedade o senso de justiça, a partir da decisão racional do seu representante”156. Desse modo, pode-se dizer que a concepção política de pessoa corresponde a esses três níveis: das partes na posição original, dos cidadãos na sociedade bem-ordenada e, finalmente, o ‘nosso’ (daqueles que examinam uma concepção política de justiça).
Ao tratar dos cidadãos inseridos em um contexto de relação como é a sociedade estabelecida pelo contrato, levanta-se o problema da autonomia daqueles, ou seja, a sociabilidade humana reforça ou reduz a liberdade do indivíduo? Na vida social é permitido estabelecer projetos de vida particulares, bem como buscar meios de atingir os mesmos. Por outro lado, considerações sobre um bem mútuo permitem sociabilidade entre os indivíduos na medida em que, desenvolvida a capacidade para um senso de justiça, tais seres são inclinados a cooperarem uns com os outros. Entretanto, esta razoabilidade requer essa condição racional anterior do indivíduo como representante no dispositivo heurístico em questão – no caso, a posição original –, na qual o conteúdo empírico social do eu não se faz presente devido a um véu de ignorância que permite estabelecer os termos justos da cooperação social à medida que são estabelecidas bases justas e equitativas para todos. Tal contrato, imbuído desse caráter de imparcialidade no momento em que é acordado, permite o desdobramento dessa condição de racionalidade e das vontades particulares para uma razoabilidade e a compreensão dos elementos de
156 RAMOS, César A. “A fundamentação política da ideia de pessoa e sociedade em Rawls”. In: Jusitça e
Política: ‘Homenagem a Otfried Höffe’ (ogs. Draiton G. de Souza; Nythamar F. de Oliveira). Porto Alegre: EDIPUCRS, 2003, pp. 501, 539, p. 506.
cooperação em termos de interesse coletivo. Determinada sua base justa (fair) de igualdade já na condição originária, os princípios de justiça ali acordados também serão justos, ou seja, justiça como equidade indica a justeza do próprio procedimento e, consequentemente, o resultado daí extraído157.
Rawls utiliza a concepção kantiana de eu para formular sua concepção de pessoa. A condição de imparcialidade da Wille para a escolha de ações corresponde à condição de ‘representação’ das partes na posição original e, em parte, do sujeito razoável presente na sociedade bem-ordenada (teoria ideal). Ao passo que na condição sensível da Willkür levam-se em consideração os desejos e motivações externos para a escolha pode ser tomada como o nós (teoria não-ideal). São esses dois compartimentos, grosseiramente falando, que compõe o constante equilíbrio reflexivo do modelo rawlsiano, em que uma representa o contexto empírico do próprio indivíduo e a outra justamente o abstrai dessa condição. O eu kantiano é marcado por uma forte dualidade e um apelo fundacional ao transcendental. Nesse sentido, a boa vontade kantiana afigura- se por exigir um forte apelo ao transcendental e, por isso mesmo, denota uma concepção de eu (transcendental) forte. Já Rawls propõe que sua concepção de pessoa determine um eu que faça uso do véu de ignorância como algo inerente ao dispositivo procedimental da posição original e parece conferir à pessoa, enquanto representação, uma condição mais fraca, uma vez que o véu de ignorância é um atributo do artifício da razão criado por Rawls e diz respeito tão somente ao próprio procedimento e não à concepção de pessoa158.
Entrementes, se é o conceito de boa vontade (Wille) que permite pensar o sujeito autônomo kantiano, o que possibilita considerar autônoma as escolhas das partes na posição original? Vale lembrar que Rawls interpreta o imperativo categórico como um dispositivo procedimental através do qual leis (princípios práticos) são instituídas. Do mesmo modo, a posição original é um procedimento que exige uma determinada concepção de pessoa e permite autonomia. Contudo, essa autonomia só é alcançada pelo uso desse procedimento, atrelando ao véu de ignorância a condição desse eu.
157 Não é difícil perceber a apropriação rawlsiana da filosofia prática kantiana, pois sua concepção de
pessoa se aproxima muito da condição de um sujeito com vontade em Kant. O sujeito na razão prática pura kantiana é um indivíduo capaz de observar a boa vontade (Wille) enquanto condição para que sua vontade seja autônoma, ou seja, sem nexos ou apelos ao empírico. Essa condição transcendental contrasta com o desejo (Willkür) que denota a condição empírica desse eu.
158 Interessantemente, Barry faz uma aproximação do véu de ignorância com o espectador judicioso
Resta saber por que existiria, assim, c) equitativadade na cooperação humana. Adotando-se que justiça como equidade é proveniente de um contrato estabelecido entre as pessoas, o pluralismo razoável permitiria um acordo estabelecido através de uma visão construtivista que estabelece os termos equitativos de cooperação social para estes. É irrelevante dizer que não é possível chegar a um consenso sobre uma doutrina abrangente específica (v. g., autoridade moral, textos sagrados etc.), porém o procedimento, quando formulado corretamente, permite um acordo de princípios e concepções razoáveis. Ora, o liberalismo político vai exigir uma concepção também política de justiça, a qual só pode ser alcançada mediante um consenso sobreposto. Por isso, Rawls endossa uma concepção política de construtivismo e se distancia de uma visão metafísica como, entende ele, é o construtivismo kantiano e mesmo o utilitarismo de Mill. Na sua proposta, os cidadãos podem encontrar princípios comuns e paralelamente professar suas mais profundas convicções razoáveis. Sua vida política (dos cidadãos) justifica compartilhar termos aceitáveis para todos os cidadãos razoáveis – livres e iguais – que os entendem como equitativos, fazendo uso de uma razão pública.
Isso permite à posição original ser o modo mais apropriado de articular os valores políticos, isto é, como uma doutrina política autônoma que representa os princípios políticos de justiça. Rawls a entende como uma ‘concepção política autônoma’159 que só é possível quando pessoas livres e iguais cooperam e alcançam termos equitativos. Porém, esses cidadãos são realmente autônomos? No entender de Rawls sim, pois o uso da razão prática permite autonomia justamente porque os valores políticos da justiça e da razão pública alcançados não são dados de fora ou, muito menos, impostos por uma doutrina abrangente ‘armada’ com bons argumentos (racionais) que, todavia, não são por nós adotados devido à sua irrazoabilidade. Logo, “(...) uma concepção política de justiça pode constituir o ponto focal de um consenso
sobreposto e, desse modelo, servir de base pública de justificação numa sociedade
marcada pelo fato do pluralismo razoável”160.
Rawls esclarece que, muitas vezes, o construtivismo político é um simples resultado de um agrupamento de concepções sem, todavia, dizer quais seriam estas concepções de pessoa, sociedade, ideia de razão prática e o papel público dos princípios
159 Cf. PL, I, §4. 160 PL, I, §4.
de justiça. Na verdade, o que existe é uma complementaridade. Podemos entender, v. g., as concepções de sociedade e pessoa como concepções da razão prática161 que indicam os atributos dos agentes que argumentam e expõem em que condições se resolvem as questões subjugadas a estes princípios. Dessa forma, a razão prática tem dois pontos de vista, “(...) princípios de razão e julgamentos práticos, de um lado, e pessoas, naturais ou artificiais, cuja conduta é moldada por esses princípios, do outro”162. Por isso, careceria de sentido os princípios da razão prática se não tivesse as concepções de pessoa e sociedade. Por sua vez, tais concepções que caracterizam os agentes, os quais raciocinam e esclarecem o contexto das razões práticas, só existem pelo seu uso com os princípios provenientes dessa razão prática.
Como se percebe, a concepção de sociedade – que não é construída – parte da ideia básica de que seus cidadãos cooperam a aceitam regras publicamente reconhecidas. Agora, uma concepção política de sociedade requer que as atividades cooperativas se estendam às metas principais dos indivíduos, traçadas ao longo de suas vidas. Além disso, é necessário que seus membros aceitem as regras e os procedimentos estipulados (regras do jogo), bem como que tenham uma concepção de ‘direito’ e de ‘bem’ que devem ser construídas.
E justiça como equidade tem o objetivo de construí-las a partir da “(...) utilização de princípios da razão prática conjugados às concepções políticas de sociedade e de pessoa”163. Sociedades que não são políticas, no sentido estrito rawlsiano, podem se fundamentar em qualquer base de justificação, seja de ordem religiosa, filosófica, moral etc. E, mesmo que esses princípios sejam construídos e disponham de um conceito de ‘direito’ e de ‘bem’, Rawls entende que seu alcance não é o de uma justiça como equidade, no máximo de uma doutrina abrangente, que é moral sem, contudo, ser política. Isso denota a importância da clareza dessas concepções de pessoa e sociedade, que são elementos essenciais para qualquer concepção de justiça e do bem164.
Em vista disso, quando se pergunta pela origem dessa cooperação social, é importante observar que quem coopera são indivíduos livres e iguais, embora
161 PL, III, §4. 162 Idem, ibidem. 163 Idem, ibidem.
164 Por isso, Rawls conclui: “Podemos dizer, então, que as concepções de sociedade e pessoa, e o papel
desempenhem papéis diferentes na sociedade. Em TJ, Rawls descreve que uma sociedade, enquanto sistema equitativo de cooperação, tem aspectos essenciais. A saber, uma cooperação social não é simples cooperação coordenada – de uma ordem absoluta ou metafísica –, pois os indivíduos de cooperação estão tutelados por regras e procedimentos publicamente reconhecidos165. Além disso, existem ideias básicas para uma cooperação equitativa – v. g., reciprocidade e mutualidade – que indicam o que “(...) cada participante pode razoavelmente aceitar, e às vezes deveria aceitar, desde que todos os outros o aceitem”166, ou seja, enquanto cooperam, os indivíduos querem promover o ponto de vista de seus próprios interesses. Uma atenção especial a este ponto leva a questionar sobre o tipo de interesse de que se trata: seria um egoísmo racional, sendo o auto-interesse simples uso dessa faculdade racional, sem o razoável? Ao que parece, não existe puro altruísmo, nem muito menos egoísmo puro, pois o fato de querer que desejos prevaleçam não parece ser um caso de egoísmo e ‘abrir mão’ de algo no reduz tudo a um altruísmo puro167. É o que Rawls irá chamar de altruísmo moderado e que, posteriormente, será melhor detalhado.