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2) Mevzuat değerlendirmesi:

4.3.1 Gelişen Nanotıp

Neste capítulo vamos ver qual o lugar e as principais estratégias discursivas sobre as relações raciais na atualidade, a partir das propostas conceituais de Michel Wieviorka e da análise das estratégias discursivas sobre racismo, principalmente no discurso midiático, do pesquisador holandês Teun A. Van Dijk.

5.1 Raça, uma construção político-social

O racismo é um objeto de estudo do campo das relações raciais. Aqui vamos localizá-lo na prática social contemporânea.

O discurso sobre raça e racismo transformou-se consideravelmente ao longo da História. É grande a distância entre suas expressões clássicas (abordadas no capítulo 3 desta dissertação), vinculadas à ciência, e suas formas contemporâneas, que se referem cada vez mais à ideia de diferença.

Hoje, à luz da ciência genética, sabemos não fazer mais sentido falar em raça. Baseada nos estudos sobre o mapeamento genético humano, a biologia derrubou quaisquer tentativas de se falar biologicamente de raça, uma vez que não há diferenças genéticas significativas entre um ser humano e outro que justificasse o conceito.

Porém, no campo da sociologia, da ciência política, dos estudos da comunicação, o racismo é um fenômeno de forte e grande presença, exatamente porque em suas formas contemporâneas, o racismo trata da relação entre pessoas.

le racisme consiste à caracteriser un ensemble humain par des attributs naturels, eux-mêmes associes à des caractéristiques intellectuelles et morales qui valent pour chaque individu relevant de cet ensemble et, à partir de là, à mettre éventuellement en oeuvre des pratiques d´inferiorisation et d´exclusion.

(WIEVIORKA, 1998, p. 7)29.

Para Wieviorka, o racismo hoje, na Europa (seu campo de estudo e observação) está ligado à expansão dos movimentos migratórios, principalmente de pessoas vindas para a Europa de países que são ex-colônias europeias.

Para estudá-lo e tentar compreendê-lo, Wievorka vai então situar o racismo fora do quadro das ciências biológicas e genéticas. Sua proposta de aproximação vem da

29 “O racismo consiste em caracterizar um conjunto humano por seus atributos naturais, eles mesmos

associados a características intelectuais e morais que valem para cada indivíduo pertencente àquele grupo e, partir daí, a colocar eventualmente em ação práticas de inferiorização e de exclusão” (versão livre de minha autoria).

tradição da pesquisa anglo-saxônica, que nos abre a possibilidade de se falar de relações raciais (race relations), como vimos no capítulo introdutório desta dissertação.

O sociólogo vai, então, diferenciar os princípios de inferiorização e diferenciação do racismo. Wieviorka conceitua segregação e discriminação:

a) segregação: opera por uma lógica de diferenciação (como o apartheid sul- africano ou o racismo nas periferias negras de Chicago, nos Estados Unidos, onde a segregação está atrelada à exclusão social);

b) a discriminação: opera por uma lógica de hierarquização. “Elle apparaît aussi dans la façon dont les groupes victimes du racisme sont traités dans les médias (…) lorsqu´ils sont oubliés, méconnus30”, diz Wieviorka, citando a obra de Ralph Ellison, The Invisible Man, sobre o negro americano, publicado nos Estados Unidos, em 1952. Em Ellison, o sujeito negro ora não aparece ora está presente e é um ser violento e perigoso.

Ele também questiona a influência da mídia europeia no fenômeno do racismo, ao afirmar que os meios de comunicação insistiriam em produzir e difundir “de la haine ou des prejugés racistes”31 (WIEVIORKA, 1998, p. 10) para analisar a produção contemporânea do racismo nas sociedades europeias e sua relação com a imigração de trabalhadores, a crise de instituições como a escola, os debates e controvérsias em torno do anti-racismo e as possibilidades de políticas específicas.

Outro importante nome na pesquisa sobre racismo e discurso hoje é o holandês Teun Van Dijk. Em suas pesquisas feitas principalmente na Europa, mas também nos Estados Unidos, Van Dijk tem concluído que a exclusão e a marginalização das minorias hoje na Europa resultam do limitado acesso dessas minorias a bens socioeconômicos e simbólicos (portanto ao discurso e aos espaços comunicativos). Van Dijk aponta que essas minorias, geralmente, não estão presentes nos governos e legislativos nacionais, na mídia, e estão pouco presentes na academia e no mundo corporativo. Estão, portanto, pouco representadas nos discursos desses campos sociais.

30 “Ela aparece também numa maneira na qual os grupos vítimas do racismo são tratados na mídia (...)

quando são esquecidos, pouco conhecidos” (versão livre de minha autoria).

5.2 Estratégias discursivas

Na mídia britânica, por exemplo, após um longo estudo sobre as notícias sobre imigrantes no Reino Unido, Van Dijk concluiu que essa ausência nos espaços discursivos se traduz, no discurso midiático, na contraposição do “nós” (os britânicos, retratados como tolerantes e valentes) com o “eles” (os migrantes, retratados como criminosos, fraudadores, invasores ou assassinos”).

Esse discurso da mídia, para Van Dijk, tem uma característica de dominância. Uma de suas estratégias mais recorrentes é a negação.

definir de forma persuasiva o status quo étnico como “natural”, “inevitável”, ou até mesmo democrático, por exemplo, através da negação da discriminação ou racismo, ou através da desracialização (´de-racialising`) da desigualdade através de redefinições em termos de classe, diferença cultural. (VAN DIJK, 2008, p 96).

Para Van Dijk, as estratégias discursivas de negações do racismo têm suas subestratégias. A autorrepresentação, por exemplo. Ela é usada quando os locutores do discurso hegemônico ou “ideologias oficiais” (VAN DIJK, 2008) se sentem ofendidos se e quando percebidos como racistas. Suas expressões típicas nesses casos são, “não somos racistas”, em situações individuais, ou “não somos uma sociedade racista”. A autorrepresentação é, assim, uma defesa.

A base semântica da negação é a verdade como vista pelo escritor. Portanto, a negação do racismo na imprensa pressupõe que o jornalista ou colunista creia na natureza essencialmente tolerante de seu próprio grupo ou país em relação às minorias. Assim, a auto-representação positiva é um importante movimento no discurso jornalístico, e deve ser vista como negação argumentativa das acusações de anti-racistas.

(VAN DIJK, 2008, p. 177).

Outra estratégia importante, dentro da estratégia de negação, é também usada por quem é acusado de racismo de acusar por racismo. Van Dijk a chama de reversão. Nesses casos, “a pessoa que acusa o outro de racista é, por sua vez, acusada de racismo às avessas, de ser (...) intolerante, e de ´estar vendo racismo onde ele não existe`” (VAN DIJK, 2008, p. 159).

a) a negação do ato (“Eu não fiz/ não disse isso”); b) a negação do controle (“foi um acidente”). Figura 4 – “Erramos”

c) a negação da intenção (“eu não quis dizer isso”); d) a negação do propósito (“eu não disse isso para...”).

Uma outra estratégia identificada é que o discurso do racismo, tanto na Europa quanto nos Estados Unidos, reserva o conceito de racismo e racistas para os outros (muitas vezes em acusações mútuas ou a outros países/regiões do mundo), como as referências pelos europeus ao apartheid na África do Sul ou à escravidão nos Estados Unidos, em um exercício de autoexaltação nacionalista.

Há ainda uma outra estratégia, a de explicar fenômenos que poderiam ser classificados de racismo como incidentais ou individuais ou caracterizá-lo como um fenômeno temporário.

O fato é que “quanto mais flexível for o sistema de desigualdade, mais difícil será lutar contra ele (VAN DIJK, 2008, p. 167).

No Brasil, vamos analisar o discurso sobre as relações raciais hoje dentro da análise proposta para esta pesquisa, buscando as estratégias discursivas sobre relações raciais no Brasil e seus possíveis ecos no discurso de opinião do jornal O Globo.

Neste capítulo, vimos como os sociólogos Michel Wieviorka e Teun Van Dijk situam hoje o discurso sobre relações raciais. Para além da visão científico-biológica do Na edição de 24 fev.2009, O Globo reproduz charge do jornal New York Post, na qual dois policiais atiram em um chimpanzé e dizem “eles terão que encontrar outro para escrever o projeto de lei do estímulo [econômico]”. A charge dá margem à interpretação de que o chipanzé é uma alegoria do presidente Barack Obama. “Nós erramos”, desculpou-se o inglês Rupert Murdoch, dono do jornal, na semana seguinte à publicação da charge.

racismo, raça é entendida como uma construção social, que continua a ter importantes efeitos nos discursos hegemônicos e nas ideologias oficiais. Na mídia, as cadeias discursivas sobre o tema têm características específicas.

No próximo capítulo, vamos nos debruçar sobre o arquivo definido para esta pesquisa sobre o discurso sobre as relações raciais no Brasil desde sua fundação como ideal de país.