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6. SONUÇ VE GELECEK ÇALIŞMALAR

6.2. Gelecek Çalışmalar

As encenações de Meyerhold foram um campo fértil para as primeiras experimentações de Eisenstein, desenvolvendo uma série de recursos de filmagem, posicionamento de câmera, montagem e edição de filmes que entraria para a galeria

das grandes inovações do mundo cinematográfico. Especificidades relacionadas ao cinema não serão aqui nosso foco. Entretanto, não podemos deixar de pontuar algumas considerações sobre o papel de Eisenstein, assim como o de Dziga Vertov dentro do movimento construtivista e, mais do que isso, do desenvolvimento de um novo olhar sobre a arte do século XX e de uma perspectiva diversa no que se refere

à organização de seu modus operandi38.

Empreendendo uma série de novas técnicas de operação e edição dos filmes, Eisenstein desenvolveu uma linguagem peculiar de montagem de suas obras, a partir da qual acreditava que a tarefa de editar apresentaria um potencial muito além do que simplesmente exibir cenas ou momentos filmados. Para o cineasta, a recombinação dos quadros e a colisão de cenas, numa sequência não necessariamente lógica, poderiam resultar em interessantes efeitos sobre o público, gerando tensões, inclusive de natureza ideológica, a partir das metáforas construídas na manipulação da película.

Seus métodos de montagem39 fizeram história entre os cineastas, sendo

considerados referências fundamentais da história cinematográfica. Mais do que desenvolver técnicas de edição ou aprimorar os modos de produção dos filmes, Einsenstein trouxe ao cinema uma dimensão intelectual, imprimindo-lhe um sentido político dentro da lógica do construtivismo russo. Nesse sentido, o cinema será visto como um artifício de utilidade prática (e talvez sua formação em engenharia tenha sido aí um importante catalisador), não como “criação”, mas montagem industrial,

38 Como ressalta Dixon (2007), Eisenstein aprimoraria suas pesquisas com outro diretor que também

exibia projeções fílmicas em seus espetáculos: seu nome era Nikolai Foregger. A maior parte da produção de Foregger estava relacionada ao mundo do ballet. Sua cena era caracterizada pela hibridação de várias formas artísticas: constituía-se a partir da dança clássica, commedia dell’arte, música e circo.

39 A palavra “montagem”, em referência ao ambiente industrial e seus processos mecânicos, será

também especialmente escolhida por Eisenstein para conceber o processo de concepção de seus filmes, por ele denominados como “montagens de atrações”. Como reforça Peter Wollen, "a linguagem quotidiana pediu emprestado à indústria um vocábulo que denota o conjunto da maquinaria, tubagem, ferramentas mecânicas. Este vocábulo admirável é "montagem" (o que quer dizer conjunto) e, embora não esteja em voga, apresenta todas as qualificações para vir a estar. Muito bem! Que as unidades de impressão combinadas num todo se exprimam por um termo dual, meio industrial e meio musical. Assim foi fundido o termo ‘montagem de atracções’” (WOLLEN, 1984, p. 38).

baseada nos moldes de um mesmo sistema taylorista que havia inspirado Meyerhold. Como complementa Dixon:

Eisenstein’s montage technique thus effected shocks to both sensory and intelectual reception, in a praxis he compared to the rapid and cumulative explosions that activate the internal combustion engine. His artistic philosophy is akin to Meyerhold’s in relating art to industrial labor, and just as Meyerhold had offered a Taylorization of the theater, Eisenstein announced a Taylorization of cinema40 (DIXON, 2007, p. 65).

Os modos de produção artística e as técnicas de atuação que Meyerhold e Eisenstein compartilhariam fazem emergir um aspecto bem interessante para reflexão. Enquanto o teatro, na busca pela desnaturalização da representação e no

resgate de uma certa teatralidade41, encontra no cinema caminhos para a abstração

da cena, trazendo a esfera do subjetivo para o palco, o cinema começa a dar os seus primeiros passos em direção à formulação de sua especificidade como forma

artística42, o que será particularmente construído sob o minucioso cientificismo de

Eisenstein.

40 “A técnica de montagem de Eisenstein assim efetuada abala a recepção tanto sensorial como

intelectual em uma prática que ele comparou a explosões rápidas e cumulativas que ativam o motor de combustão interna. Sua filosofia artística é semelhante à de Meyerhold ao relacionar a arte a um trabalho industrial e, assim como Meyerhold ofereceu uma Taylorização do teatro, Eisenstein anunciou um Taylorização do cinema”. (Tradução nossa).

41 Teatralidade essa que se situa diametralmente à obrigação mimética do realismo psicológico e que

Meyerhold buscará em suas referências sobre a commedia dell’arte e o circo, laboratórios nos quais experimentará sua biomecânica. Mais sobre esse resgate da teatralidade pode ser obtido na coletânea de ensaios da Profa. Béatrice Picon-Vallin, uma das maiores especialistas em Meyerhold, publicada no Brasil em 2008 (PICON-VALLIN, B. A cena em ensaios. São Paulo: Perspectiva, 2008)

. Como complementação, ainda citamos a singular análise do Prof. Jacó Guinsburg, Stanislavski Meierhold e Cia., publicada em 2001.

42 As primeiras experiências cinematográficas serão marcadas por um modus operandi muito similar

ao do teatro, o que se explica, em grande parte, devido à proximidade entre Eisenstein e Meyerhold. Como dissemos, o jovem cineasta empreenderá com vigor a biomecânica meyerholdiana em suas produções, o que as portaria de um caráter bastante teatral. Não é à toa que o cinema, além de ser concebido como uma técnica de simples reprodução de imagens, ainda enfrentaria o estigma de “teatro filmado”, o que comecará a fazer pouco sentido depois que Eisenstein começa a fazer da montagem do filme um novo processo de significação das cenas. Essa espécie de teatralidade dos filmes de Eisenstein pode ser muito bem notada nas personagens – e particularmente no protagonista – da trilogia de Ivan, O Terrível, que, infelizmente, não teve concluída sua última parte.

Interessante é perceber como esse novo “teatro”, que pretende se libertar das antigas formas, nasce já como forma híbrida, intersecção entre expressões artísticas diversas: une a secular commedia dell’arte às técnicas da nova forma do cinema, que ainda não pretende, nem de longe, ser considerada como criação, muito menos como arte. As precursoras da cena digital contemporânea, esses primórdios do uso da tecnologia elétrica na projeção de imagens no palco, já nascem filhas de mundos vários, convivendo em simultaneidade com o antigo e o inovador e, mais ainda, utilizando-se dos conflitos por isso gerados como potência inventiva.

Como ressalta Béatrice Picon-Vallin, esse movimento de relação com as novas tecnologias nunca deixou, no entanto, de se deparar com a resistência de determinados públicos, teóricos ou dos próprios artistas do teatro.

Temos ainda que lidar com reações do tipo: “Ah, teatro não tem nada a ver com tudo isso”, “O teatro é uma arte antiga que deve resistir diferenciando- se de todas as novas mídias”. Mas o teatro pode também resistir utilizando as tecnologias de outro modo, e se não as utiliza, isso deve ser como uma recusa consciente e justificada. De toda forma, não podemos pensar nosso mundo sem elas, e o teatro deve pensar, de uma maneira ou de outra, em sua presença e nas mutações que elas implicam (PICON-VALLIN, 2011, p. 205).

A trajetória que a tecnologia elétrica irá traçar como testemunha atuante no processo de desenvolvimento dessas novas formas híbridas, sejam elas identificadas a um processo de “teatralização do cinema” ou de “cineficação do

teatro”43, abre caminhos à compreensão do surgimento das experiências artísticas

as quais saltam aos nossos olhos em obras contemporâneas que mal podemos denominar. Teatro, cinema, dança e outras artes mesclam-se indefinidamente, tendo em grande parte dos casos as tecnologias digitais como um verdadeiro leitmotiv, fio de ligação entre recortes cênicos cada vez mais distantes de uma concepção dramática aristotélica.

43 O termo “cineficação” é empregado pela Profa. Béatrice Picon-Vallin para se referir, em linhas

gerais, a essa influência das técnicas e dos modelos de criação e produção do cinema sobre o teatro. Mais sobre a expressão pode ser lido na entrevista concedida por ela à 11ª edição da Revista Sala Preta (PICON-VALLIN, 2011), logo depois de ter ministrado um seminário na ECA/USP intitulado “Teatro e Novas Tecnologias”.

Benzer Belgeler