É preciso pensar a condição da mulher ao longo das épocas em sua articulação com acontecimentos históricos que contribuíram na produção de um comportamento distinto dos adultos em relação às crianças. O caráter circunstancial dos processos sucessórios ocorridos nos tronos da Europa, em séculos anteriores ao século XIV, época inclusive em que foi instituída a idade jurídica na França, é um dos elementos a ser considerado para entendermos essa condição. Em um estudo sobre o problema da sucessão ao governo de Luiz VIII da França do século XIII, que deixou como herdeiro Luís IX, uma criança de 12 anos, Le Goff (1999) fala sobre as inquietações e medos dos adultos diante de fatos como esses que podem ser encontrados também em textos da bíblia ―Infelicidade para ti, terra cujo rei é uma criança.‖ (Le Goff, 1999. p.87).
Nessa época, em se tratando de questões jurídicas, os limites de idade oscilavam muito e as regulamentações eram inconstantes e imprecisas. A condição de adulto no caso da sucessão de Luiz VIII, de acordo com a leitura de Le Goff (1999), esteve antes associada ao problema do prosseguimento da linhagem e da necessidade de assunção ao poder do que propriamente à idade dos candidatos. A tradição romana, por exemplo, não comportava uma ―maioridade legal‖ (Le Goff, 1999. p. 85) . No lugar de menores havia impúberes e a decisão de deixar de sê-lo era de responsabilidade do pai ou do tutor.
Outra condição de se tornar adulto se deu pela via do casamento, que além de cumprir a função de manutenção da linhagem, se realizava por conveniência dinástica e política. O casamento, vamos dizer, ―por amor‖ era na época inexistente
e só encontrava seu lugar na subversão dos costumes, ou seja, no rapto, no concubinato, no adultério e na literatura.
No Brasil de Pedro II (1825-1891), tal como na Europa, também foi possível tornar-se adulto pela via política. O infante alçou a coroa com 16 anos em 1841, celebração que foi acompanhada por manifestação de inquietações oficiais e populares, numa época em que aconteciam discussões em torno da antecipação da maioridade: ―Queremos Pedro II/embora não tenha idade/A nação dispensa a lei/E viva a maioridade‖, ou na boca do povo, ―Quem põe governança/Na mão de criança/Põe governança/No papo da onça.‖ (Schwarcz,1998. Citado por Vieira, 2004. p. 43)
Essa tendência à indistinção geracional entre adultos e crianças foi acompanhada pela igreja que também não favorecia a distinção do mundo da criança do mundo do adulto. O batismo de crianças em idade tenra no século XIII teve como objetivo intervir na produção da identidade dos sujeitos, mais no interesse de sua classificação como hereges, cristãos ou pecadores, do que como distinção geracional entre adultos e crianças. Nos hospitais, asilos e albergues gerenciados pela igreja para acolher os pobres e indigentes, também não existia tratamento distinto para adultos e crianças em situação de fragilidade e dependência.
Ariès (1987) observou em seus estudos que a indistinção entre adultos e crianças em várias circunstâncias perdurou até meados do século XVIII, e que essa mescla de idades poderia ser localizada por ocasião das festividades populares. Vieira (2004) acrescenta a essa discussão um elemento novo que analisa o lento deslocamento do comportamento cortês que distinguia nobreza da plebe na Idade Média. Essa distinção foi importante para a formação do comportamento civilizado, propiciado pelas mudanças sociais e políticas que ocorreram a partir do fortalecimento do Estado absolutista do século XV ao XVI. Motivada pelas perdas das funções guerreiras, uma nova corte se estabelece baseando-se em laços de interdependência entre seus membros, criando novas formas de civilidades e de distinção social, ao preço do desenvolvimento da autodisciplina, do controle dos instintos, das emoções, impondo a si mesma uma verdadeira ―economia das pulsões‖ (Elias, 1994).
Uma outra forma de distinção social dessa época se deu através da educação escolar. O ensino passou a ser organizado por idades entre as camadas altas, com ênfase na formação do adulto gentil e honrado mais do que numa distinção entre
adultos e crianças, ainda que nesse procedimento possam ser encontrados indícios de uma consciência geracional nascente e propícia à elaboração de futuras práticas pedagógicas voltadas exclusivamente para a infância.
Os tratados de educação da época prescreveram orientações para a formação das civilidades. Nesse sentido é exemplar a obra de Locke (1632-1704), Alguns pensamentos acerca da Educação (Locke,1693), relativa à formação do homem gentil, cuja centralidade esteve na necessidade de disciplinar corpo e mente no objetivo de educar os instintos e conter os mimos. Vieira (2004) indica que foi nesse longo processo de aprendizagem das civilidades que emergiu um novo adulto, […] consciente de sua função social na dinâmica geracional, como pai de família, como negociante, como administrador, ou como ocupante do poder ou como mãe de família e dona de casa. No século XVIII, a consagração do adulto honrado e civilizado, em distinção aos pobres e rudes, favoreceu também a distinção em relação à criança, pela expectativa social, produzida ao longo desses séculos em relação aos hábitos, aos costumes e aos comportamentos de um adulto civilizado. (Vieira.2004.p.46).
No interesse de nossa pesquisa é importante ressaltar nesse contexto de mudanças e na produção das distinções de comportamentos entre adultos, pobres e crianças, associado ao desenvolvimento do controle das pulsões para a produção do adulto civilizado, a distinção de comportamento entre os sexos. Vieira (2004) sustenta que, embora constante nos séculos anteriores, no século XIX consolidou-se um padrão de comportamento para as mulheres, com ênfase em um tipo especial de educação da mulher adulta. Isto pode ser comprovado pela ampliação das publicações especializadas nessa área. Na leitura dessa autora, vários acontecimentos concorreram para a produção da delimitação de um novo lugar para a mulher no curso da modernidade. Destaca-se entre eles, o desenvolvimento da família nuclear, as alterações no equilíbrio de poder entre os sexos, as mudanças ocorridas na divisão do trabalho, as formas de controle da sexualidade e da afetividade entre homens e mulheres e entre adultos e crianças, bem como o desenvolvimento dos saberes, do cuidado com o corpo e com a saúde.
Destaca-se, ainda entre os acontecimentos que concorreram para a instalação desse novo lugar da mulher no contexto da modernidade, o desenvolvimento dos sentimentos de vergonha e pudor e o apelo à razão. Estes sentimentos estiveram muito presentes em várias obras dos séculos XVIII em diante,
nos livros literários, nos tratados filosóficos, de medicina e nos manuais de economia doméstica.