• Sonuç bulunamadı

Ao adentrar um espaço de formação e de aprendizagem que constitui uma CP, vê- se que os membros recém-chegados estão ainda se apropriando e fomentando maneira de ser, construindo sua própria identidade e se pautando na continuidade do projeto comum. No entanto, os R1 deverão encontrar um lugar em relação ao passado e para participar, eles devem ganhar algum tipo de acesso – mesmo que sutil – à história pela qual querem contribuir.

De acordo com WENGER (2010), como resultado, os recém-chegados não são necessariamente mais progressistas do que os veteranos, e eles não necessariamente buscam mudar a prática mais do que os membros estabelecidos o fazem. Normalmente, os novatos tendem a ter um investimento na continuidade dos processos, pois dessa forma facilitam uma conexão a uma história daqual eles não fizeram parte. Sua fragilidade os empurra muitos de seus esforços na direção de incluir a história de sua própria identidade na busca da continuidade.

Por outro lado, os veteranos, nesse caso R2 e preceptores mais antigos, costumam ter um investimento em sua prática, ainda que não necessariamente busquem uma continuidade, pois estão envolvidos na política da sua comunidade e com a confiança derivada da participação em uma história que eles já conhecem muito bem. Assim sendo, eles podem querer investir em um futuro que não esteja voltado para continuar, mas sim para dar novas asas. Eles podem, assim, acolher os novos potenciais oferecidos pelas novas gerações que são ainda menos reféns do passado.

Dependendo de como uma CP negocia a individualidade, o encontro geracional pode ter efeitos diferentes – com diferentes graus de ênfase em continuidades e descontinuidades entre veteranos e novatos que moldarão suas identidades em seus encontros. Estes encontros são sempre uma reunião complexa do passado e do futuro.

A entrada na Residência Multiprofissional consistiu para estes participantes além de motivações para compreender uma nova forma de fazer o trabalho, de principalmente, ver- se realizando os fundamentos da política do SUS na ESF. Como falamos anteriormente, esta é a busca comum ou o projeto compartilhado de seus participantes.

Assim sendo, a entrada na Residência é um processo de escolha, mas também de reconhecimento do campo de forças dentro da comunidade de prática, com seus caminhos e formas de se relacionar, que vão sendo desvendados paulatinamente ao longo do tempo. Muitos residentes vieram diretamente de suas graduações, outros vieram da própria Estratégia NASF de outros municípios, e outros eram servidores públicos de saúde de Fortaleza e ingressaram na Residência por motivos comuns: os objetivos de aprimorar-se enquanto ESF fazendo valer seus princípios de promoção, integralidade e interdisciplinariedade.

Como partem de categorias profissionais da saúde diversas entre si, observamos como elemento comum de suas narrativas que há um confronto (esperado, mas não menos surpreendente) com o ensino da graduação quando entram na prática dos serviços. Um confronto entre cursos de especialização em saúde e a formação da Residência. E, ainda, um confronto entre o trabalho no serviço e o trabalho no serviço enquanto residência. E sendo a Residência um espaço formativo em serviço há também o encontro do que vem a ser o ensino e o concreto da prática com seus desafios e potenciais.

Eu entrei, fiz a seleção e teve toda aquela euforia de passar, mas eu entrei no escuro, não sabia o que era que eu ia fazer. Adquiri o edital, mas eu não tinha noção de como era o interior de uma residência, só aquela coisa básica que eram sessenta horas semanais, mas também não sabia como era que se configurava as sessenta horas. (R1)

Quando ele falou de como é que você encara esse processo da residência, como é que foi esse processo, eu não consegui deixar de pensar na primeira frase na residência: “Isso aqui é sério?”[...] Realmente, eu entrei na residência sem saber o que era [...] esse processo, então fui descobrindo no decorrer. Então, no primeiro contato com todo mundo eu fiz essa pergunta numa ingenuidade mesmo, porque eu pensei que fosse um processo formativo como a gente tem desde o colégio, desde a faculdade, ou seja, aquela coisa assim mais burro de viseira mesmo, mas é um processo tão abrangente, um processo que você consegue, como a G. colocou muito bem: aprender de tantas formas diferentes. (R2)

A trajetória de entrada significa estar na periferia da comunidade e tomar consciência de suas características com o desenrolar do tempo. O termo ‘burro de viseira’ identifica-se com certo estreitamento do olhar, e ao longo da trajetória dos residentes e preceptores percebemos que a ‘viseira’ vai sendo retirada e colocada de lado ou, ao menos, reformulada, pois a ênfase será dada para ampliação do olhar clínico e de saúde sobre o sujeito social.

Os preceptores da Residência, em sua grande parte, foram residentes anteriormente. Outros preceptores entraram na Residência mais recentemente, a convite da gestão ou por edital de seleção, já que estes participavam da rede pública de saúde como profissionais do NASF ou como profissionais da ESF. O interessante deste grupo específico, como já foi comentado, é que preceptores que não foram residentes anteriormente tiveram as mesmas peculiaridades de estarem na periferia da comunidade, com estranhamento dos processos de aprendizagem já instalados na comunidade.

Os preceptores de categoria apóiam tanto R1 como R2, o que os faz estabelecerem contatos com novatos e veteranos na comunidade. Os novatos, por estarem em tempos diferentes e ainda em processo de incorporação da estrutura da comunidade, dando-lhes novos aspectos para arejar novos conhecimentos e desafios, mas ao mesmo tempo apostando numa continuidade dos processos. É interessante a fala de um preceptor sobre o acompanhamento das turmas:

Uma nova turma [...]! Além de dar conta de processos inerentes a turma dois, que é

fechar processos de grupo e estabelecer outros co-autores pra determinadas

atividades e [ao mesmo tempo] começar tudo de novo numa aprendizagem de pessoas [R1], que, às vezes, passaram por aula de políticas públicas e às vezes não, não têm experiência. O perfil dessa turma é bem heterogêneo, alguns mais passivos e outros mais ativos na terceira turma. (P)

A recepção na fase inicial de entrada na Residência, no dia de acolhimento de novatos, é passada uma atmosfera estranha de não compreensão sobre o ‘ser da Residência’ e seu contexto de fragilidades dentro do município:

E eu me lembro que no primeiro dia, no dia da acolhida que foi um momento que a gente esteve na UECE, os servidores estavam não sei se desmotivados com o processo que eles estavam passando, não sei, sei que eles transpareceram pra gente assim, mas em todas as palavras: “gente tenham força, vocês vão conseguir” e tal. Então ficou todo mundo [R1] se perguntando: “O que é que acontece nessa residência?” Porque todo mundo falava “gente é difícil, mas é assim mesmo, não desista, todos já entraram com essa palavra força, não desistam”? Eu disse “meu Deus o negócio deve ser sério.” Quando começaram as atividades e tudo, teve o primeiro dia que a coordenação foi explicar, então as coisas começaram a se encaixar mais e como ia acontecer. (R1)

Por outro lado, a ‘recepção obscura’ que fora feita não gerou desmotivação dos novatos e a inserção nos território de trabalho e na prática:

Já começou esse suspense, essa ansiedade, e ao mesmo tempo uma felicidade por algo novo. (R1)

[Foi uma] coisa conquistada. Então, como os meninos já colocaram, todo o processo de início, de inserção na comunidade foi muito bom, ainda mais quem gosta desse

lado de se envolver na comunidade e estar ali conhecendo e fazendo a territorialização, foi muito gostoso esse período. (R1)

Em primeiro momento sempre assim uma sensação de muita animação e de muita novidade, uma sensação de conquista mesmo de ter conseguido chegar nesse lugar. (R1)

Percebemos que os R1 evocam sua história passada para reafirmar aquilo que é contínuo aos seus processos identitários dentro desta CP da RMSFC. Buscam reiterar o que já conhecem e o que não conhecem o que lhes é familiar e que lhes é estrangeiro:

Para mim particularmente foi muito mais complicado porque eu nunca havia estudado o SUS. Inclusive eu deixei isso claro na seleção, que eu não tinha experiência mesmo no SUS, mas que eu gostaria de ter. Então, para mim é um momento de muita animação, aí falando dos processos do território. (R1)

A chegada ao território – os meses que a gente ficou mais focado na territorialização – foi muito tranquilo pra mim, nesse sentido do território, porque era uma prática inserção que eu já tinha. Então, para mim era muito tranquilo caminhar nas comunidades, conversar com as pessoas, perceber o modo de vida e isso pra mim realmente não foi nenhuma grande novidade, e foi muito interessante pelo território que a gente vem chegando, que foi o Jangurussú e é muito rico de vida, de luta, de complexidade e de problemas também. Então, esse processo de território foi muito tranquilo, ao mesmo tempo dos processos pedagógicos e administrativos aqui da residência também já vem com um bocado de complicação. (R1)

A animação inicial com o território de prática e os processos de territorialização e planejamento participativo, ou seja, um caminho que começa a surgir na direção do conceito à pratica. No entanto, também já são percebidas as complicações com os processos pedagógicos e administrativos da estrutura formal do programa.

A configuração da trajetória começa a se delinear como uma‘entrada confusa’, pois já havia residentes e preceptores com seus códigos e repertórios comuns e a entrada no território apresenta-se como uma reanimação com a luta pelo espaço de trabalho e ressignificação da Residência.

Benzer Belgeler