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5.4.1 Grupos focais

A técnica do grupo focal é capaz de gerar diálogos entre seus participantes e demonstrar a forma como seus membros de relacionam, criando muitas vezes consensos e também dissensos entre o grupo (MINAYO, 2006). No entanto, também é atribuída a essa técnica sua capacidade de funcionar como uma entrevista em grupo que gera tensões, conflitos, acordos que podem e devem ser considerados como dados significativos nas interações sociais dentro dos grupos. Assim sendo, cria-se por meio do grupo focal um viés operativo e processual capaz de gerar reflexões em seus integrantes (KIND, 2004). Ou seja, não funciona apenas para coletar informações de seus participantes, mas também para gerar processos reflexivos e transformadores em seus sujeitos.

No caso desta pesquisa, foram realizados nos três grupos focais: um apenas de preceptores do programa de residência, com nove participantes; e os outros dois grupos focais com 17 residentes, sendo um grupo de R1 (cinco participantes) e outro com R2 (12 participantes). Todos foram convidados a participar voluntariamente após apresentação coletiva do projeto de pesquisa.

A facilitação dos grupos foi realizada por convidado no papel de moderador como forma de manutenção da transparência e de certa isenção na condução dos diálogos, já que em diversas ocasiões estive no papel de participar de aulas para esses residentes. No entanto, os convidados para a condução dos GFs apresentaram apropriação dos conteúdos e conhecimentos necessários para o domínio no tema a ser suscitado dentro do grupo. Estive presente nos grupos focais como observadora, permanecendo atenta e capaz de gerar síntese e análise do processo dentro grupo.

• Participação livre e espontânea dos sujeitos após apresentação do projeto de pesquisa e Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) (em anexo). • Anotações das informações ou gravações de voz após consentimento dos

participantes, resguardando as identificações pessoais dos participantes em sigilo profissional e de pesquisa.

• O número de participantes variou entre 5 e 12 participantes no grupo, convidados previamente e em pactuações prévias com os coordenadores das residências.

• Utilizamos um roteiro-guia (em anexo) para abordar os aspectos levantados e debatidos dentro do grupo e que nortearam as propostas levantadas como objetivo já exposto desta pesquisa.

O critério majoritário de inclusão dos participantes nos grupos focais foi a necessidade de os residentes estarem há pelo menos seis meses de processo dentro da Residência. Os R1 já estavam no final do primeiro ano ou pelo menos com dois terços do tempo de inserção no grupo. No entanto, esse critério não precisou necessariamente excluir participantes novatos, caso houvesse, pois essa característica poderia trazer sentidos significativos dentro do aporte teórico que escolhemos para análise dos resultados. A experiência de participantes novatos com veteranos viabiliza a integração existente e sua inter-relação dentro do programa, no qual poderemos focar melhor as práticas de aprendizagem estabelecidas entre os grupos.

Como tratamento do material obtido nos grupos focais, realizamos a transcrição literal das falas dos participantes, mantendo sua sequência lógica e de conteúdo. Optamos por retirar, em determinadas falas, marcadores da linguagem verbal como ‘né’, ‘assim’ e ‘então’, por exemplo. Esta opção deu-se para que a fala depois de escrita ficasse mais compreensível para o leitor, levando em consideração que será realizada a análise dos conteúdos e não dos discursos. Também procuramos manter o sigilo de identificação dos participantes, suprimindo ou substituindo trechos onde eram referidos nomes ou categorias profissionais. Apenas em certos momentos optamos por manter, por considerar importante para a análise do contexto, a referência da categoria profissional a que estava sendo relatada, e nesse caso, trocamos as possíveis identificações de residentes e preceptores para ‘participante 1’, ‘participante 2’ e assim por diante.

5.4.2 Observação livre

Além do material que foi coletado nos grupos focais, propus neste estudo específico acrescentar uma coleta de campo nos centros de saúde da família, utilizando a técnica de observação livre entre os membros da Residência Multiprofissional, registrando relações, possíveis acordos e desacordos e modos de aprendizagem social dentro das interações no serviço. Os serviços escolhidos para o campo foram os CSFs conveniados com a Residência, como afirmado anteriormente, localizados na SER V e VI. Compõe ao todo oito CSFs, sendo quatro deles de locação dos residentes que passam a maior parte de sua carga horária neles. No entanto, outros cenários de aprendizagem, como a ESP, equipamentos sociais ou mesmo o espaço do SMSE para rodas de aprendizagem e apresentações de estudo de caso, compartilhado, inclusive, muitas vezes com a residência médica em saúde da família, também foram garantidos em nossa observação.

A observação livre aconteceu durante o período de dois meses em turnos semanais pré-discutidos com as equipes do serviço, entre eles os residentes e preceptores, acompanhando os encontros entre eles, além de possibilitar a observação da inserção in acto de outros atores, como usuários, outros profissionais do serviço e gestores locais.

O conceito de observação participante é uma técnica oriunda da pesquisa etnográfica e tem como objetivo registrar, num instrumento convencionado de diário de campo, todas as observações que não estejam vinculadas a entrevistas formais, portanto, comportamentos, conversas informais, gestos, impressões, usos, costumes do grupo (MINAYO, 2006). Nesse caso, a observação se dirigirá ao ambiente do centro de saúde citado acima, focando principalmente as relações entre preceptores e residentes. Nesse sentido, ficamos atentos às congruências e incongruências do que foi dito nos grupos focais e o que é feito na prática, e em como se dão as relações hierárquicas entre os pares e entre seus opostos, assim como os repertórios que estão sendo naturalizados dentro do grupo.

Benzer Belgeler