Merece destaque a participação da equipe multidisciplinar nas ações periciais, em que se encontram os avanços quanto à ampliação dos profissionais na busca de melhor análise da situação de saúde sobre diversos ângulos dos saberes na avaliação das relações e processos de trabalho e saúde. Segundo a proposta Siass- Ufal, as atribuições são as seguintes:
a) Fornecer parecer especializado, privilegiando a clareza e a concisão, para subsidiar as decisões da equipe pericial;
b) Propor capacitação e atualização dos profissionais em perícia;
c) Encaminhar o periciado aos programas de promoção da saúde e prevenção de doenças, como dependentes químicos, programas de inclusão de deficientes, redução de estresse, controle de hipertensão arterial e de obesidade, dentre outros;
d) Avaliar, dos pontos de vista social e psicológico, os servidores que apresentam problemas de relacionamento no local de trabalho, assim como de absenteísmo não justificado;
e) Avaliar os candidatos aprovados em concurso público quanto às aptidões para o exercício do cargo, caracterização de deficiências físicas e sugestões de lotação;
f) Acompanhar o tratamento de saúde do servidor ou de pessoa de sua família, indicado pela perícia oficial em saúde;
g) Divulgar informações para o desenvolvimento de programas de prevenção; h) Promover a integração da equipe pericial com ações de vigilância e com os
programas de promoção à saúde e prevenção de doenças; i) Avaliar as atividades do periciado no local de trabalho;
j) Acompanhar o cumprimento das recomendações em caso de restrições de atividades;
k) Orientar os gestores na adequação do ambiente e do processo de trabalho; l) Realizar perícia oficial no corpo discente da Universidade, quando
solicitado pelo estudante, em sua situação de saúde;
m) Outras atribuições e competências que lhe forem delegadas.
Ressalta-se que os atestados ou pareceres dos psicólogos, fisioterapeutas, fonoaudiólogos, terapeuta ocupacional e outros profissionais de saúde poderão ser usados para fins de embasamento pericial, como documentos complementares. Tais documentos, por si só, não são suficientes para justificar faltas por motivo de doença.
Em relação às atribuições propostas para a equipe multiprofissional de perícia oficial em saúde, observa-se que abrange as mais diversas áreas de atuação dos profissionais de saúde já mencionados. Dois elementos são fundamentais para ampliar as ações dessa equipe multidisciplinar para as relações estabelecidas nessa construção coletiva: a descentralização do poder decisório sobre a hegemonia do profissional médico, portanto, afirmando-se enquanto poder centralizador, decisão das ações de saúde do trabalhador, os pareceres, ou atestados de outros profissionais, por si só, não são suficientes para justificar o afastamento do servidor.
Outro elemento é a relativa autonomia dos demais profissionais de saúde do trabalhador. Esses profissionais complementam, fundamentam, mas não decidem, ou seja, não podem legalmente permitir o afastamento ou justificar a falta do servidor por motivo de doença.
O processo de autonomia profissional, segundo estudos de Pires (2008), segue na área da saúde uma hierarquia: médico, depois os profissionais de saúde de nível superior, e, no grau mínimo, as equipes intermediárias - auxiliares e técnicos de enfermagem, e assim sucessivamente.
Giffoni (1993) demonstra também a hierarquia burocrática do pessoal do Estado nas estâncias federal, estadual e municipal, na qual o nível de disputa pelo poder decisório passa por essa relação, que dificulta a agilidade e racionalidade dos processos. Com isso, se reconhece que a mudança na formação das equipes de peritos é um avanço multiprofissional. Mas grandes desafios colocam-se à frente, para uma relação mais democrática e participativa, principalmente na visibilidade dos processos de trabalho que podem provocar o adoecimento do servidor público.
Chama-nos a atenção, ainda, que, apesar da saúde do trabalhador, nos moldes Siass, buscar superar o conceito de medicina ocupacional, na avaliação pericial, o trabalhador é o periciado, o investigado, ou seja, a relação do sujeito é de objeto da avaliação, no qual os documentos apresentados, os atestados, são determinantes para a decisão do médico perito, em detrimento das necessidades desse sujeito social.
A subjetividade de cada trabalhador deve ser considerada, assim como as diferenças, o modo de vida e a história profissional, aspectos que serão analisados com mais profundidade, por meio dos dados pesquisados, e que serão apresentados no próximo capítulo.
Pontua-se a necessidade de os profissionais avaliarem o processo saúde- trabalho, de modo a não culpabilizar unicamente o trabalhador, e que a intervenção da equipe multiprofissional favorece uma análise mais ampla, em todos os aspectos biopsicossociais da saúde do trabalhador.
Sobre a falta de integração entre as ações de saúde e os demais setores, afirma o entrevistado, profissional de saúde do Siass-Ufal:
Os exames admissionais não são completos, porque não existe uma descrição das atividades/atribuições/cargo que os servidores vão exercer, faltando exames específicos para cada cargo/função a ser desempenhada (Entrevista com Profissional de Saúde do Siass-Ufal).
A desarticulação entre os serviços de saúde, a equipe multiprofissional e os gestores é muito reclamada por todos, nas redes de referência do Siass, que solicitam resolução por parte dos gestores.
Outros desejam que haja menos resistência das equipes de saúde que discordam da implantação do Siass devido às precárias condições de trabalho dessas unidades:
O SIASS foi implantado de qualquer maneira, sendo necessário avançar para efetivar as diretrizes que são propostas, as condições de trabalho ainda não são tão boas (falta de impressora, o sistema on-line ainda tem dificuldades para se manter conectado, material, a estrutura física precisa melhorar). Em relação à capacitação para o Siass, é considerada boa. Em relação à equipe, os peritos são poucos, devido ao processo de interiorização que vem ocorrendo na Ufal, o pessoal da interiorização está praticamente sem atenção, falta carro para realização das perícias (Entrevista com Profissional de Saúde do Siass-Ufal).
Conforme relatos dos servidores profissionais de saúde entrevistados, as condições de trabalho da própria equipe da saúde do trabalhador são precárias, em termos da falta de todo tipo de recurso: material, equipamentos, pessoal.
A falta de material é um dos maiores problemas encontrados no serviço público, e todos os entrevistados a relatam como um dos condicionantes que dificultam o fazer profissional e é fator de estresse, como não poderia ser diferente nos serviços de saúde do servidor.
O que comprova mais uma vez a falta de investimento do MPOG na tão preconizada Pass. Mas os profissionais reconhecem a necessidade da implementação do Siass no controle dos gastos com licenças e afastamentos, porém, é preciso que se invista na prevenção e promoção de saúde, como a melhor política para reduzir as licenças e promover o bem-estar na vida do servidor público.
Outra diferença entre a política de saúde do trabalhador da área privada, regida pela CLT-PNSST e a política do servidor público, regido pelo RJU-Pass, está na realização dos exames admissionais, que são de responsabilidade do empregador. No serviço público, os servidores são responsáveis por custear seu exame ou devem fazê-lo nos serviços públicos de saúde, como SUS, Hospital Universitário, etc.
As funções específicas dos profissionais que compõem a perícia oficial de saúde encontram-se na íntegra no projeto Siass, nos anexos desta tese. A iniciativa e a construção dessa equipe interdisciplinar é um dos pontos relevantes para o processo avaliativo pericial em sua totalidade, o que possibilita a ampliação avaliativa que considere os determinantes biopsicossocial.
Com isso, se reconhece que existem alguns abusos na concessão das licenças, dos afastamentos e das aposentadorias, que poderão ser corrigidos e não generalizados, como se essas exceções fossem regras e todos os servidores passassem a ser tratados como malandros, preguiçosos, que não gostam de trabalhar, denegrindo a identidade do servidor público.
Não cabe aos profissionais assumirem a posição de fiscais, mas de promover a saúde e até refletir sobre essas situações, se for o caso, com os servidores, e na identificação dos motivos que levam a tais comportamentos.
O que vem ocorrendo, no serviço público, é que alguns servidores possuem mais de um vínculo de trabalho. Ficam de licença e continuam trabalhando no setor privado. (Entrevista com Profissional de Saúde do Siass-Ufal).
Conforme ainda declara o profissional de saúde:
Instrumentos para resolver estas questões existem, o que falta é decisão política - administração para fiscalizar aqueles que estão de licença médica e continuam trabalhando nos hospitais, nos consultórios ... (Entrevista com Profissional de Saúde do Siass-Ufal).
Espera-se que seja superada a visão fragmentada, focal, em cima da doença (o periciado) apenas no que se refere à legalidade, para que venha à tona todo o contexto social que permeia as condições de saúde do servidor, inclusive a visibilidade das sobrecargas de trabalho no serviço público, prejudicando a qualidade de vida e a saúde.
Instrumentos para resolver essas questões existem, o que faltam são decisões político-administrativas para a fiscalização.
Explicitamente, é visível que, apesar dos três eixos que fazem a Pass, o que mais centraliza esforços, por parte do MPOG/SRH/COGSS, são as ações de implementação das perícias oficiais em saúde, principalmente quanto ao controle das licenças/afastamentos e aos gastos com seguridade social do servidor, cuja âncora está sendo o investimento na informatização das perícias, mediante o sistema de administração Siapenet-Saúde, que alimentará os dados referentes a licenças, doenças, etc., e o estabelecimento do perfil epidemiológico, subsidiando as ações de vigilância e promoção à saúde.
A prioridade para o Estado está posta de forma nítida; os demais eixos dependem muito das forças coletivas dos profissionais de saúde, dos servidores organizados, para pressionar a liberação dos investimentos para a integralidade das ações da saúde do servidor.
O eixo da vigilância e promoção à saúde necessita alavancar e fortalecer as ações por parte da coordenação-geral das unidades Siass, enquanto executores, e a participação dos servidores, com o seu conhecimento e controle social nas ações na área.
A unidade Siass-Ufal seguiu as diretrizes do MPOG, considerando as necessidades da realidade local, e a Noss 03, de 7 de maio de 2010, que define a promoção à saúde como o conjunto de ações dirigidas à saúde do servidor, por meio da ampliação do conhecimento da relação saúde-doença-trabalho. Visa ao desenvolvimento de práticas de gestão, de atitudes e de comportamentos que contribuam para a saúde nos âmbitos individual e coletivo.
A Siass-Ufal ainda tem como uma das principais estratégias, para efetivação da Noss, as avaliações dos ambientes e processos de trabalho, o acompanhamento da saúde do servidor e as ações educativas em saúde, pautadas nas metodologias de pesquisa e intervenção.
Portanto, a promoção em saúde perpassa por todas as instâncias, no compromisso administrativo dos gestores, na intervenção, extrapola a relação saúde-doença para atingir o ambiente, as relações e os processos de trabalho onde estão inseridos os trabalhadores. Não adianta tratar a doença sem provocar mudanças na relação saúde-doença-trabalho, o que implica decisão administrativa.
Estabelecer metas, fazer propostas, as administrações são peritas, mas provocar mudanças, comprometer-se com realizá-las, vão além de planejá-las e estabelecer decretos, resoluções. Passam por decisões administrativas, políticas e culturais, e de introduzi-las nos ambientes de trabalho.
As falas dos profissionais mostram a necessidade da participação de todos os sujeitos envolvidos no processo da Pass, que, ao ser implantada, não consegue caminhar na totalidade por falta de condições de trabalho; no caso, depende do gestor em todas as instâncias de resolução das providências: “A política foi
implantada num contexto muito precário, falta estrutura e pessoal qualificado para pôr em prática o Siass” (Entrevista com Profissional de saúde do – Siass-Ufal).
No caso do serviço público, a reclamação da maioria dos setores refere-se às decisões sobre realização de concursos e contratação de pessoal, que não dependem exclusivamente da decisão da gestão da Ufal, mas da instância ministerial que coordena o quadro de pessoal do Estado brasileiro, e muitas vezes também está imbricado com a burocracia estatal, na criação de quadro qualificado, por exemplo, pode-se ter uma vaga x para determinado cargo superior, mas não ter a disponibilidade de transformá-lo em y.
Recentemente, com o número de profissionais que se aposentaram e a ampliação dos campi da Ufal pelo interior do estado, há carência de assistentes
sociais no serviço de assistência aos estudantes e aos serviços de saúde do trabalhador. Há vagas para o cargo de técnico em Assuntos Educacionais, de nível superior, e a Ufal propôs ao MEC transformar uma vaga para nomeação de uma assistente social, mas a resposta foi um ‘não’, baseado em argumentos legais, burocráticos.
Ao se fazer a crítica, sabe-se das dificuldades legais, burocráticas, políticas e culturais que permeiam as ações do Estado brasileiro, assim como as características do trabalho e do trabalhador na sustentabilidade dessa política de Estado.
Quanto à atuação do profissional da saúde, este também sofre a falta de condições adequadas de trabalho, fato que lhe provoca angústia, tensões, por causa das restrições em sua prática de promoção à saúde.
As condições precárias de trabalho causam estresse, descrédito, pois as intervenções, no momento, restringem-se à oralidade, ao detectar determinados espaços inadequados para o trabalho. Há morosidade em obter respostas da instituição, que venham a modificar o histórico detectado. Os servidores procuram saber como anda o seu processo, e¸desse modo o profissional acaba sofrendo pressões. Segundo o entrevistado, esse processo de respostas “é bastante truncado
e é característico do serviço público que não possui agilidade no atendimento das demandas nem dos usuários dos serviços de saúde e nem dos profissionais”
(Entrevista com Profissional da Saúde do Siass-Ufal).
Os profissionais reconhecem que, apesar dos nós, desafios e limites, a decisão de implantar o Pass, pelo Estado brasileiro, é um ganho para a saúde do trabalhador e para a sociedade, mesmo com todos os entraves postos para a efetivação da política da saúde do servidor.
Outro profissional da saúde declara:
Diz que as condições são precárias, mas salienta que esse primeiro passo é muito válido, pois é melhor fazer algo do que não fazer nada. A praticidade do sistema que concederá dados sobre o servidor em qualquer estado que o mesmo venha a trabalhar. Porém, há muito que ser discutido e melhorado para que haja uma verdadeira atenção à saúde do servidor (Entrevista com Profissional da Saúde do Siass-Ufal).
Mas também, para acontecer as ações de promoção à saúde, salienta um profissional de saúde da Siass-Ufal:
Deve trazer um comprometimento por parte dos profissionais em executar suas funções com responsabilidade e pôr em prática o que manda o
decreto. A legislação deve ser seguida à risca, posto que é ela que rege as atribuições dos profissionais em saúde... Tudo isto não deixa de ser um grande desafio, tanto para profissionais em saúde, governo e o próprio Estado brasileiro (Entrevista com Profissional da Saúde do Siass-Ufal). Na visão desse profissional, fazer cumprir a lei, por parte dos profissionais de saúde, é praticar uma boa política de saúde, e que é grande o desafio de concretizá- la, tanto por parte dos profissionais, quanto do governo e do País. Mesmo na perspectiva de garantia de direitos a que se reporta o profissional, falta, nessa convocatória, a participação social dos servidores públicos, principalmente nas ações de promoção, vigilância e controle social. O Estado vem avançando com os instrumentos legais sobre a saúde do trabalhador via a Perícia Oficial de Saúde, um instrumento de controle do Estado sobre o servidor na captação dos interesses puramente econômicos do que investimento na qualidade de vida e nas condições de trabalho e saúde.