ABD Japonya
2. Geçici Depo
Interessam-nos algumas definições de experiência que Larrosa traz:
Experiência é o que nos passa, o que nos acontece, o que nos toca. Não o que se passa, não o que acontece, ou o que toca. A cada dia se passam muitas coisas, porém, ao mesmo tempo, quase nada nos acontece. (LARROSA, 2002, p.21)
A experiência é em primeiro lugar um encontro ou uma relação com algo que se experimenta que se prova. (LARROSA, 2002, p.25)
A experiência é a passagem da existência, a passagem de um ser que não tem essência ou razão ou fundamento, mas que simplesmente ex-istede uma forma sempre singular, finita, imanente, contingente. (LARROSA, 2002, p.25)
Para começar, poderíamos dizer que a experiência é isso que me passa. Não isso que passa, senão isso que me passa. (LARROSA, 2011, p.5)
A análise da sentença isso que me passa, feita por Larrosa (2011), deixa mais claro o conceito de experiência ao qual nos referimos. Comecemos com o isso. Esse pronome demonstrativo supõe a ideia de acontecimento, algo que não sou eu, algo que não depende de mim, que não é resultado de meus sentimentos, que significa outra coisa do que aquilo que eu digo, penso ou quero. Portanto, não há experiência sem a aparição de alguém estranho a mim ou de um acontecimento que seja exterior a mim e que não deve ser interiorizado, e se está fora de mim, chamaremos isso de “princípio de exterioridade” (LARROSA, 2011, p.5).
Podemos chamá-lo também de “princípio de alteridade”, porque isso que me passa, enquanto acontecimento, não sou eu, nem outra pessoa ou coisa como eu, mas algo que seja outro, completamente diferente, e não deve ser identificado (LARROSA, 2011, p. 6). O eu como fundamento da alteridade, na sua forma individual só pode existir através do contato com o outro. Isso que me passa também tem que ser alheio a mim, um acontecimento que não pode pertencer a mim ou ser apropriado por minhas palavras, por minhas ideias e vontades, acumulando mais um princípio para isso, o “princípio da alienação” (Op. cit., p. 6).
Continuando com o isso que me passa, veremos como o autor analisa o pronome reflexivo me. Se isso tem a ver com acontecimento, algo externo, que passa, o me sugere exatamente o contrário, algo interno, que me passa. Da mesma maneira, a experiência enquanto acontecimento é exterior a mim, mas o lugar da experiência sou eu, ela está em mim, em minhas palavras ou em meus sentimentos. É em mim onde a experiência tem lugar. Aqui agregamos três princípios criados por Larrosa (2011) para o me. O “princípio da reflexividade”, o “princípio da subjetividade” e o “princípio da transformação”.
O “princípio da reflexividade” (LARROSA, 2011, p. 7) caracteriza um movimento de ida e volta. De ida, porque a experiência supõe um movimento de saída de mim mesmo para algo externo, um encontro com o acontecimento; e de volta, porque a experiência supõe que o acontecimento me afeta, produz efeitos no que eu sou, nos meus sentimentos. O me também sugere que a experiência é sempre subjetiva, e o sujeito da experiência é sensível, vulnerável, capaz de deixar que algo lhe passe. Se é subjetiva, significa que a experiência é sempre de alguém, de um sujeito, que é particular, que não há experiência numa forma geral, apenas numa forma individual, portanto, “o princípio da subjetividade” (Op. cit., p. 7). Por fim, o “princípio de transformação” (Op. cit., p. 7) se faz nesse mesmo sujeito exposto e vulnerável, que está aberto à sua própria transformação. A experiência resulta numa formação ou transformação do sujeito por ele mesmo, e não de uma formação ligada à aprendizagem ou à educação, mas ligada à própria experiência do sujeito.
Por último, o verbo passar do isso que me passa. Esse passar transmite a ideia de passagem, de percurso, como uma aventura incerta que supõe riscos. Para o autor, a palavra experiência contém o ex de exterior e também per (radical indo-europeu) que tem a ver com travessia, caminho, viagem.
A experiência supõe, portanto, uma saída de si para outra coisa, um passo para outra coisa, para esse ex de que falamos antes, para esse isso de isso que me passa. Mas, ao mesmo tempo, a experiência supõe que algo passa desde o acontecimento para mim, que algo me vem ou me advém. (LARROSA, 2011, p. 8)
A esse passar da experiência, a esse perigo da travessia, podemos chamar de “princípio da passagem”. O sujeito da experiência é um território de passagem, é passional, não ativo, sendo que essa passividade não tem relação em ser passivo ou ativo na lógica da ação, mas na lógica da paixão; não significa que ele seja incapaz de ação, mas é uma ação distinta daquela da técnica e do trabalho: eis o “princípio da paixão”. A experiência é uma paixão, e essa paixão pode referir-se a um sofrimento ou padecimento.
Há na paixão um assumir os padecimentos, como um viver, ou experimentar, ou suportar, ou aceitar, ou assumir o padecer que não tem nada a ver com a mera passividade, como se o sujeito passional fizesse algo ao assumir sua paixão. (LARROSA, 2002, p. 26)
A paixão pode referir-se ao outro, a paixão pelo outro:
A paixão funda sobretudo uma liberdade dependente, determinada, vinculada, obrigada, inclusa, fundada não nela mesma mas numa aceitação primeira de algo que está fora de mim, de algo que não sou eu e que por isso, justamente, é capaz de me apaixonar. (LARROSA, 2002, p. 26)
Assim como a paixão pode referir-se a uma experiência do amor. O sujeito ama sua paixão, quer ser apenas a paixão, quer permanecer desejo, quer ser cativado, dominado por sua paixão. “O sujeito da experiência é como uma superfície de sensibilidade em que algo passa” (LARROSA, 2011, p. 8). Retomemos então, as várias dimensões da experiência:
- Exterioridade, alteridade e alienação têm a ver com o acontecimento, com o que é da experiência, com o isso do isso que me passa.
- Reflexividade, subjetividade e transformação têm a ver com o sujeito da experiência, com o quem da experiência, com o me de isso que me passa.
- Passagem e paixão têm a ver com o movimento mesmo da experiência, com o passar do isso que me passa. (LARROSA, 2011, p. 8)