• Sonuç bulunamadı

Antes de Freud, acreditava-se que os únicos pensamentos e falas possíveis seriam os intencionais, aqueles que empregamos no dia-a-dia e que permitem aos sujeitos estabelecerem a comunicação cotidiana. Em a Interpretação dos Sonhos, Freud aponta para a existência de uma outra maneira muito especial de pensar, uma fala involuntária e excêntrica, que irrompe muitas vezes em meio a um discurso consciente sem ter sido provocada pelo eu.

Essa outra fala que se apresenta, por exemplo, nos sonhos, nos atos falhos ou nos chistes, se diferencia radicalmente do pensamento consciente, no sentido de que é um pensamento que não calcula, não julga. Para a maioria das pessoas, tais lapsos da fala não têm nenhum significado especial, sendo considerados erros sem sentido. Freud, entretanto, passou grande parte de sua vida tentando desvendar tais discursos involuntários.

12 As próximas seções deste capítulo têm como objetivo fazer uma introdução aos conceitos fundamentais da

psicanálise lacaniana, o que, quase sempre, não é uma tarefa trivial. A iniciação a esse pensamento, em especial aos textos do próprio Lacan, pode ser uma experiência difícil, pois ele é quase incompreensível numa primeira leitura, como, aliás, enfatizado por vários de seus comentadores. Só depois de vagar, por algum tempo, como que em um labirinto pouco iluminado, foi possível após muitas idas e vindas, alguma compreensão da estrutura de seu discurso. O resultado, embora ainda tenha ficado aquém de um ponto ideal, pareceu-me que apresenta os conceitos mais necessários para a análise dos dados que será feita adiante. Para a elaboração desse capítulo contei com a ajuda, além dos vários textos, citados ao longo do capítulo, com importantes discussões ocorridas em três situações distintas: durante os Seminários “O Desejo nas Formações do Inconsciente” e “Os 4 Conceitos da Psicanálise”, ministrados pelo psicanalista Juan F. Peña; durante as reuniões do grupo de estudo coordenado pela professora Sonia Petrocini da UEL; e durante os encontros do grupo de pesquisa em ensino de ciências e psicanálise, coordenador pelo professor Alberto Villani. A todos,

Baseado no estudo dos sonhos, Freud postulou que esse tipo de discurso se origina de um outro lugar psicológico, de uma outra instância, que foi chamada de inconsciente. Esse outro pensamento é visível principalmente nos sonhos e nos sintomas, mas todas as formações inconscientes, partilham de uma estrutura comum de funcionamento, que é uma estrutura de linguagem. Posteriormente, essa descoberta fundamental de Freud vai ser enunciada por Lacan através da máxima o inconsciente é estruturado como uma linguagem, a qual será discutida na próxima seção.

Originalmente, o termo inconsciente designava tudo aquilo que não era consciente. Freud afasta-se dessas primeiras concepções quando procura definir as relações dinâmicas, econômicas entre os diversos sistemas que comporiam o aparelho psíquico.

Inicialmente, Freud supôs que o psiquismo operasse como o esquema neurológico do arco-reflexo (Nasio, 1995:15). O arco reflexo é um sistema formado por duas extremidades, uma sensível e uma motora, sendo que as excitações externas, entendidas como um input de energia, são captadas pela extremidade sensível criando-se uma tensão interna, que é descarregada pela resposta motora na outra extremidade. Do ponto de vista termodinâmico, o arco-reflexo funciona como um homeostato, ou seja, um sistema que procura regular a energia interna, transformando os acréscimos de tensão em movimento.

Para Freud, o aparelho psíquico operaria da mesma maneira, observando-se, entretanto, que, no caso do aparelho psíquico, a excitação e a ação posterior não são físicas propriamente, mas representações, marcas no psiquismo. Estamos, portanto, em constante tensão psíquica, alimentada continuamente tanto por impressões provocadas pelas sensações e emoções vindas do exterior quanto pelas necessidades internas (pulsões). É uma experiência desagradável, sentida pelo organismo como um desprazer, cuja eliminação plena, caso fosse possível (o que, de fato, não acontece), conduziria ao prazer absoluto. Como o arco reflexo, o aparelho psíquico também obedeceria a um princípio homeostático, ou seja, tenderia a reduzir a tensão, evitando o desprazer e buscando o prazer. Isso é o que Freud denominou princípio do prazer13.

Três razões são apontadas para explicar a impossibilidade do esvaziamento completo da tensão psíquica. Em primeiro lugar, isso não seria possível porque a fonte de tensão é inesgotável. Em segundo lugar, a resposta psíquica à excitação não é uma ação motora direta, como já mencionado, mas uma representação da ação, como uma imagem, um pensamento ou uma fala. Ou seja, a resposta é mediatizada por uma representação que

13 Prazer aqui não significa necessariamente sensação agradável, pois muitas vezes ele é experimentado pelo

consciente como um sofrimento. No sentido freudiano, prazer deve ser entendido como uma baixa de tensão (Nasio, 1995:23).

só permite uma resposta parcial ao estímulo. Há, em uma ponta, um influxo contínuo de energia e, na outra, apenas um extravasamento parcial.

Mas há uma terceira razão, ainda mais fundamental, que consiste em um processo denominado por Freud de recalcamento, o qual pode ser entendido como uma barreira energética que separa as representações internas do aparelho psíquico em dois conjuntos ou sistemas de representações. O primeiro grupo, majoritário, é denominado sistema

inconsciente, sendo constituído pelas representações pulsionais, imagens (acústicas, visuais, tácteis) de coisas impressas no inconsciente, muito carregadas de energia, que procuram o prazer imediato de uma descarga total. O segundo grupo chamado sistema pré-

consciente/consciente, busca igualmente o prazer, mas procura reduzir a tensão lentamente, de forma controlada segundo o princípio da realidade14. Entretanto, a barreira do

recalcamento não consegue separar plenamente os dois sistemas, de modo que, vez em quando, elementos inconscientes irrompem abruptamente na consciência de forma incompreensível para o sujeito, proporcionando uma descarga parcial da energia pulsional. A função do recalcamento é evitar uma descarga imediata e total que destruiria o equilíbrio do aparelho psíquico.

Em síntese, o funcionamento do aparelho psíquico obedece, segundo Freud, a um esquema a quatro tempos (Nasio, 1995:25): (i) um movimento contínuo de energia busca o extravasamento total, o prazer absoluto; (ii) a barreira do recalcamento se opõe ao movimento; (iii) a parte da energia que não consegue transpor a barreira permanece no interior, aumentando a excitação; (iv) a parte que consegue transpor a barreira exterioriza- se sob a forma de um prazer parcial.

As formações inconscientes que conseguiram ultrapassar a barreira do recalcamento são percebidas de várias formas: os atos involuntários, incompreensíveis conscientemente, como os atos falhos, chistes, sonhos, esquecimentos e outros pensamentos imprevistos; as manifestações patológicas que fazem sofrer, como os sintomas neuróticos e psicóticos, as imagens obsedantes, etc; as relações afetivas com as pessoas, coisas, em especial as fantasias ou os comportamentos e escolhas amorosas inexplicadas, os desejos, etc.

Antes de 1920, Freud entendia o funcionamento do aparelho psíquico fundamentalmente através do princípio do prazer. Entretanto, esse princípio não explicava a repetição de situações desagradáveis, como as imagens de um trauma, a insistência de certos pesadelos e outras situações repetitivas da vida cotidiana que podem ser encontradas nas condutas, atos e discursos de pessoas normais, em jogos de crianças, etc. Qual seria

então a função dessa tendência à repetição de ações, que foi designada por Freud em Além

do Princípio do Prazer (Freud, 1920), de obsessão ou compulsão de repetição?

No caso de um trauma, que pode ser caracterizado como um evento que o sujeito não consegue integrar em suas representações ou recalcá-lo − isto é, abstraí-lo do campo da consciência − o seu constante retorno teria a função de tentar “dominá-lo e integrá-lo na organização simbólica do sujeito” (Chemama, 1995:191). Ou seja, a repetição teria a função de reduzir o trauma, o que, entretanto, acaba se revelando usualmente inoperante, uma tentativa inútil, que precisa ser sempre refeita, derivando daí o seu automatismo. Por outro lado, como o primeiro trauma é o do nascimento, Freud foi levado a supor que a repetição, de um modo geral, reflete a incapacidade do sujeito de apagar o trauma original, o que o levou à idéia da pulsão de morte, ou seja, a tendência do organismo a retornar a um estado primitivo desorganizado, “ao estado primordial de não-vida” (Chemama, ibid:181).

O que isso quer dizer? Simplesmente que a meta de toda a vida é a de conduzir o organismo diretamente à morte? Não exatamente. Como alerta Lacan, dizer que existe um princípio que tende a levar o animado ao inanimado não significa que isso seja feito pelo caminho mais curto ou por qualquer caminho, mas apenas pelos caminhos da vida (Lacan, 1985:107). Como diz Freud, na substância viva primitiva era fácil morrer e assim ela sucumbiu, sendo incessantemente criada de novo. Entretanto, em um certo momento, “as influências reguladoras exteriores se transformaram de tal maneira, que obrigaram a substância ainda sobrevivente a desvios cada vez mais consideráveis do primitivo curso vital e a rodeios cada vez mais complicados até alcançar o fim da morte” (Freud, ibid:544).

Na teoria analítica, a pulsão é a energia necessária para o funcionamento do sujeito, uma contínua fonte de excitação, como a libido (a pulsão sexual), por exemplo. Ao final de sua reflexão sobre as pulsões, Freud agrupou todos os movimentos libidinais sob o termo pulsão de vida, que procuram aumentar a tensão e que enfrentam a oposição da pulsão de morte, que aspira à calma.

Embora opostos estes dois movimentos sobre os quais repousa toda a teoria das pulsões, apresentam em comum uma tendência a repetir, a reproduzir uma situação passada, a reencontrar aquilo que já aconteceu, não importa se agradável ou desagradável, como uma necessidade de completar o que não foi concluído. Portanto a compulsão à repetição seria uma pulsão ainda mais primária e fundamental, uma insistência como diz Lacan, que estaria acima, ou além, do princípio do prazer:

“O para além do princípio do prazer está expresso no termo Wiederholungszwang. Este termo está impropriamente traduzido em francês

por automatisme de répétition, e creio estar dando-lhes um melhor equivalente com a noção de insistência, de insistência repetitiva ou insistência significativa. Esta função está na própria raiz da linguagem...” (Lacan, 1985:259).

Benzer Belgeler