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Organizamos o relato desta investigação em seis partes. Nesta primeira parte, denominada Primeiras Palavras, relatamos as origens e o contexto dessa pesquisa. Além disso, justificamos a relevância desse trabalho e incluímos as questões de pesquisa, a abordagem da pesquisa, os procedimentos de coleta e análise de dados e uma descrição geral dos capítulos que compõem o relato dessa pesquisa.

Na segunda parte, intitulada “A Temática Ambiental como um Campo de Inserção no Ensino”, apresentamos o nosso referencial teórico. Nessa parte do trabalho, nós defendemos a idéia de que a crise ambiental é um aspecto da crise da modernidade, ou seja, é um elemento da crise da própria visão de mundo instituída pela modernidade.

Além disso, nessa segunda parte, procuramos destacar aquilo que entendemos ser as principais implicações das sínteses produzidas pelos ambientalistas para nossas práticas educativas, dentre elas as críticas direcionadas aos setores de produção social e às questões relacionadas com o conhecimento. Por fim, procuramos apontar algumas implicações concretas destas questões para o professor de Física. Neste sentido, destacamos as questões de natureza controversa como centrais para trabalhos educativos com conteúdos de Física que visam abordar aspectos da temática ambiental.

Na terceira parte, “A Física como Ciência e o conhecimento escolar: as experiências formativas e as práticas pedagógicas”, procuramos estabelecer algumas relações entre a experiência escolar que o futuro professor de Física vivencia ao longo do seu processo formativo e a visão que ele possui sobre Física e ensino de Física.

Na quarta parte, aqui denominada “Os temas controversos, o ensino de Física e os futuros professores de Física” procuramos analisar em que medida os futuros professores de Física reconhecem e compreendem os complexos aspectos que levam à concepção de um tema controverso relacionado com a atividade científica e com os produtos das Ciências Naturais. Também procuramos identificar os posicionamentos dos futuros professores de Física diante da possibilidade de abordar temas controversos em suas práticas de ensino de

Física e analisar os caminhos percorridos por eles quando se propõem a abordar temas controversos em atividades de ensino.

Na quinta parte desse trabalho, aqui denominada “A Temática Ambiental e o Ensino de Física: futuros professores de Física e práticas pedagógicas”, consideramos pertinente analisar o posicionamento dos futuros professores de Física em relação aos aspectos da temática ambiental. Além disso, identificar o caminho realizado pelos futuros professores de Física que decidem abordar alguns aspectos da temática ambiental em suas atividades de ensino. Por fim, identificar e analisar as possibilidades e os limites que se apresentam aos futuros professores de Física que abordam aspectos da temática ambiental em suas práticas de ensino.

Na sexta e última parte, realizamos nossas considerações finais e indicamos possíveis caminhos para futuros trabalhos.

2 A temática ambiental como um campo de inserção no ensino

Esperamos pela luz, mas contemplamos a escuridão.

Isaías 59:9 A Natureza e as leis da Natureza escondem-se à noite; Deus Disse: “Faça-se Newton” e tudo foi luz. Alexander Pope Nada é maravilhoso demais para ser verdade. Comentário atribuído a Michael Faraday

A visão de mundo moderna foi construída a partir de um processo no qual confluíram idéias, personalidades e produtos que mudaram definitivamente a perspectiva de mundo do homem. As conseqüências deste movimento são definitivamente paradoxais, pois, ao mesmo tempo em que possibilitaram ao homem ganhos materiais inimagináveis, também impuseram deslocamentos que sucessivamente implantaram na modernidade a imagem do vazio, de uma economia fluida, de um poder sem centro de uma sociedade muito mais de troca do que de produção (TOURAINE, 2002). Além disso, as conseqüências práticas e sociais de um conhecimento científico que se queria infalível, não puderam ser consideradas exclusivamente positivas diante da explosão de duas bombas atômicas e de uma crise ambiental sem precedentes na história humana.

Parece-nos que, de modo definitivo, esvai-se a idéia de neutralidade científica e de produção de conhecimentos desinteressados. As conseqüências maléficas da associação da atividade científica com os meios sociais de produção e a indústria bélica deixam bem clara a configuração que existe entre as dimensões da epistemologia, da axiologia e da práxis.

Para Carvalho (2005), é a partir das conseqüências ambientais e sociais da aplicação do conhecimento e da tecnologia que intelectuais e pensadores vinculados aos movimentos ambientalistas acabam por elaborar sínteses inovadoras sobre a nossa compreensão da realidade. O autor destaca em seus trabalhos aqueles aspectos do ideário ambientalista que propõem novos paradigmas para a apreensão e análise da realidade.

Além disso, vale destacar também as reflexões elaboradas por intelectuais dos diferentes ramos do conhecimento que buscam no processo de construção da modernidade algumas causas explicativas para as diferentes modalidades de crise que afetam o modo como o homem se organiza socialmente e como apreende a realidade.

A visão de mundo moderna aspirou ao domínio e ao controle completo da sociedade e da natureza que, neste caso, era vista como inóspita, impessoal e regida por leis mecânicas. O movimento moderno foi construído sob a promessa de um mundo novo, uma Nova Atlântida, um mundo limpo, reluzente e regido pelas certezas advindas de um conhecimento universal, infalível e total.

Porém, esta aspiração ao conhecimento total e infalível mostrou sua limitação diante dos grandes e complexos problemas advindos do processo de esgotamento do movimento inicial de libertação, da perda de sentido de uma cultura que se sentiu enclausurada na técnica e na ação instrumental, na separação entre sociedade e estado (TOURAINE, 2002). A crise ambiental sem precedentes é vista como sintoma dos limites da racionalidade (LEFF, 2002) e da criação de um terceiro Estado de não-objetos não previsto na constituição dos modernos (LATOUR, 2005).

A crise ambiental, deste ponto de vista, está intimamente articulada com uma crise de maior envergadura, ou seja, ela está vinculada à própria crise de visão de mundo moderna. Assim, a compreensão da problemática ambiental passa, necessariamente, pela apresentação e discussão dos principais aspectos que fundaram e alicerçaram esta visão de mundo.

A partir desses encaminhamentos, consideramos pertinente procurar compreender o processo da emergência da crise ambiental, a partir de um entendimento mais amplo do significado histórico da construção do mundo moderno.

Para iniciar este estudo, decidimos apresentar um breve relato do processo que vai da emergência até os indícios da derrocada do pensamento moderno. Pareceu-nos razoável apresentar este processo a partir de três etapas decisivas. Na primeira etapa, identificamos a emergência da visão de mundo moderna, na segunda etapa verificamos os aspectos que mostram a consolidação desta visão de mundo e, na terceira e última etapa, indicamos alguns aspectos que apontam para o declínio desta visão de mundo.

De modo mais específico, na primeira etapa - ascensão - descrevemos sucintamente os ideais modernos que emergiram no renascimento, na reforma e na revolução científica. Na segunda etapa - apogeu - destacamos a profusão e universalização dos ideais modernos para toda a sociedade. Na terceira etapa - declínio – apontamos os principais aspectos que indicam a existência de uma crise desta visão de mundo.

A partir da identificação da problemática ambiental como um aspecto da crise do pensamento moderno, poderemos verificar o significado mais amplo das propostas que buscam amenizar e, até mesmo, reverter algumas das principais crises ambientais. Dentre essas propostas inovadoras, escolhemos aquelas diretamente relacionadas com a construção

de modelos que consideram a complexidade da realidade, mais especificamente, que levam em conta a complexidade ambiental (LEFF, 2002).

Ao considerar as reflexões e as diferentes sínteses que procuram entender a emergência da temática ambiental, iremos constatar que algumas se apresentam com grande significado para as nossas práticas sociais, dentre elas aquelas diretamente relacionadas com a prática educativa.

As considerações que apontam para uma crise da racionalidade moderna e, sobretudo, para uma crise ambiental planetária e global relacionada com o desconhecimento do mundo (LEFF, 2002) possuem importantes significados para nossas práticas de ensino de Ciências Naturais. Nestes termos, as questões relacionadas com o significado assumido pelo conhecimento sistematizado diante desta crise apresentam grande relevância para o ensino das Ciências da Natureza e para atividades de ensino que consideram aspectos da temática ambiental.

No que diz respeito ao ensino de Física, de forma mais específica, as questões relacionadas com as concepções de conhecimento e com os significados que atribuímos ao processo de produção do conhecimento científico e as implicações da Ciência e da Tecnologia são fundamentais.

Dentre as implicações concretas para o ensino de Física, consideramos relevantes as propostas metodológicas que consideram a possibilidade de abordar temas controversos diretamente relacionados com a Ciência e a Tecnologia. Dilemas morais profundos e fascinantes acompanham as proezas decorrentes da aplicação de certas tecnologias, sobretudo quando consideramos a emergência da temática ambiental.

2.1 Modernidade: as etapas de um processo

Benzer Belgeler