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HAKLI-GEÇERLİ NEDENLE YAPILAN FESİH TÜRÜ OLARAK ŞÜPHE FESHİ

DÖRDÜNCÜ BÖLÜM

1. ŞÜPHE FESHİNİN HUKUKİ NİTELİĞİ

1.1. HAKLI-GEÇERLİ NEDENLE YAPILAN FESİH TÜRÜ OLARAK ŞÜPHE FESHİ

Samico não constrói sua gravura a partir do diferente, do exótico, mas do vivido. Desse modo, seu ponto de vista não precisou sofrer um grande deslocamento em seu espaço cultural para encontrar uma vertente. Nesse processo de uma busca identitária, acontece uma descentralização quanto à formulação da identidade nacional. Mais do que do Brasil, sua obra carrega características da identidade nordestina, valoriza as particularidades e as diferenças, o processo de identificação ocorre em um campo diferente do nacional. De certo modo é um fragmento da identidade nacional. Traz a questão de que a identidade pode ser constituída a partir de fragmentos, de divergências, não de uma unidade.

Nesse processo de formulações de identidades Stuart Hall aponta que o sujeito pode ser composto por várias identidades, que são formadas e transformadas continuamente em relação à forma pelas quais são representados ou interpelados nos sistemas culturais. A partir da multiplicação dos sistemas de representação cultural e de significação, se formula uma multiplicidade de identificações possíveis. Os entendimentos de modernidade em fins do século XIX e no século XX já traziam questões com relação à sociedade moderna como descontinuidade, fragmentação, ruptura e deslocamento, que a levavam a ser vista como uma sociedade de mudança constante, rápida e permanente36. A gravura de Samico se insere nesse processo de deslocamento e multiplicação de identidades. A perspectiva do Armorial apresenta uma identidade periférica como proposta de identificação de uma nação. Não apenas deslocada com relação aos centros de hegemonia cultural da nação, mas formada a partir de laços estreitos com a cultura popular.

Para Hall, houve cinco avanços nas teorias sociais que contribuíram com um descentramento do indivíduo localizado no interior das grandes estruturas sustentadoras da modernidade. A Sociologia posicionou o indivíduo em processos de grupo e em normas coletivas. Formulou uma explicação de como os indivíduos são formados subjetivamente por meio de relações sociais amplas e como os processos e estruturas são sustentados pelos papéis que os indivíduos desempenham neles. Dentro dessa realidade, surge o indivíduo isolado, desarticulado dos processos e estruturas, anônimo e impessoal entre a multidão. Esse indivíduo deslocado, segundo Hall, prenuncia os avanços nas teorias sociais que contribuíram com o deslocamento do indivíduo e consequentemente das identidades. O primeiro avanço está na tradição do pensamento marxista, que diz que o homem faz a sua história segundo as

condições que lhe são dadas. O segundo é a descoberta do inconsciente por Freud, a identidade passa a ser entendida como formada ao longo do tempo por meio de processos inconscientes, e não é inata. O terceiro é o trabalho do linguista Ferdinand de Saussure, a língua entendida como um sistema social. É possível produzir significados apenas conforme as regras e os sistemas de significados daquela cultura. O quarto diz respeito ao estudo de Michel Foucault sobre o “poder disciplinar”, exercido pelas instituições que policiam e disciplinam as populações modernas. O quinto descentramento é o impacto do feminismo como crítica teórica e como movimento social, parte da questão da identidade única e a substitui pela questão da diferença sexual37.

De certa forma, algumas das colocações de Hall apresentadas acima têm pontos de contato com aspectos abordados por essa pesquisa. Como será abordado mais adiante, os estudos sobre a memória coletiva demonstram como a memória do grupo contribui para a formação da memória do indivíduo. O mesmo quanto à memória dos lugares. Analisaremos como Samico recebe deslocamentos em sua obra, em sua maneira de produzir, quando se insere em grupos diferentes e se desloca entre cidades e seus conjuntos de relações culturais. Dessa maneira, o artista moldou sua gravura conforme as condições estabelecidas, gerando uma integração entre o arcaico e o moderno. Foi nesse processo de deslocamentos que Samico buscou na memória sua vivência como vertente temática. Suas gravuras são reflexos de suas lembranças, mas apenas carregam elementos da memória, produzidas por um longo processo de elaboração intelectual que organiza esses elementos. O conteúdo de sua memória surge como fundamento para a formação da identidade do artista, na troca entre indivíduo e ambiente, em condições culturais muitas vezes contraditórias. Sua obra está situada dentro da estrutura moderna, do sistema de produção de arte na contemporaneidade, como esteve ligada às instituições modernas. A partir dessa localização, atuou no sentido de deslocamento da formulação entre o indivíduo e as condições sociais e da formação da identidade por processos inconscientes.

A procura de Samico, e seus companheiros armoriais, em produzir uma arte com características nacionais demonstra como as identidades nacionais são pensadas a partir de representações. São compostas também por instituições culturais e símbolos. Hall indica cinco elementos que contribuíram com a organização de um discurso quanto às identidades nacionais. Um está apoiado na narrativa das nações, contadas nas histórias e literaturas nacionais, na mídia e na cultura popular. Outro dá ênfase nas origens, na continuidade, na

tradição e na intemporalidade. Um terceiro se apoia em tradições inventadas, como um conjunto de práticas repetidas que tem o intuito de invocar uma continuidade com um passado histórico. O quarto se trata de um mito fundacional, que localiza a origem da nação do povo e seu caráter nacional em um passado distante que se perde no tempo. Por fim, a noção de identidade nacional, segundo Hall, também está baseada na idéia de um povo puro, ou original38. Observamos como o discurso quanto à formulação das identidades nacionais se fundamenta em representações do passado, colocando, mesmo que de modo conflitante, o arcaico na representação da nação moderna. O conflito das identidades ocorre a partir do próprio surgimento das nações, que foram constituídas por grupos culturais distintos. Também são compostas por diferentes classes sociais, de modo que não apenas as diversidades, mas também as desigualdades, são inerentes à nação, o que impede a formação de um conteúdo homogêneo. Por isso acreditamos que não é possível pensar a identidade da nação como um conteúdo único, ou unificador, mas como um conjunto de fragmentos diversos, resultado de hibridações interculturais.

As novas combinações de espaço e tempo, geradas pelos processos que atuam em uma escala global, causam uma transformação em como as identidades são localizadas e representadas. Para Hall, o processo de globalização implica no afastamento da idéia de sociedade como um sistema delimitado, para se concentrar na forma como a vida social se ordena ao longo do tempo e do espaço. Isso modifica as relações dos indivíduos com as identidades culturais. O autor aponta que as identidades nacionais permanecem fortes no que diz respeito aos direitos legais e à cidadania. Em outros sentidos, se afrouxam dando espaço a identidades locais, regionais e comunitárias e também a formas de identificações globais. Essa tensão entre local e global na transformação das identidades remonta a duas formas de vínculo, ou pertencimento. Uma particularista, voltada às especificidades, aos lugares e acontecimentos locais, outra universalista, que visa identificações maiores, como a “humanidade”39. Acreditamos que a gravura de Samico se articula entre esses dois pólos. Por

um lado remete a um aspecto particular, uma manifestação da cultura popular do Nordeste brasileiro, a literatura de cordel. No entanto, esse gênero de literatura oral tem incorporado em seu conteúdo uma enorme variedade cultural por seu aspecto de mobilidade, de se modificar, de assumir novas formas segundo o contexto e a época. Não foi apenas por meio da literatura de cordel, as formulações religiosas do artista também estão refletidas nas suas gravuras.

38 HALL, op. cit. pp. 52 – 55. 39 Ibid., pp. 71 – 76.

Nesse processo de incorporação intercultural, acreditamos que os conteúdos aportam seus significados na medida em que são integrados a um objeto. Entendemos que esses atributos plurais são passados para a obra de Samico e dessa maneira refletem uma forma de identificação universalista.

A valorização da identidade local foi a estratégia adotada pelos artistas armoriais nas suas representações da identidade nacional. O que colocou em evidência uma particularidade da sociedade. Esse processo é identificado na gravura “Juvenal e o dragão”, voltada especificamente para um tema da literatura de cordel. A composição da gravura também se organiza segundo particularidades da gravura popular nordestina, sintética de elementos, clara, preocupada em ilustrar um tema. A tendência em direção a uma homogeneização ocorre junto com um interesse pela diferença e a mercantilização da etnia. Segundo Hall, a globalização caminha paralelamente com um reforçamento das identidades locais. Junto com o impacto do global há um interesse pelo local. Ao criar nichos de mercado, a globalização explora a diferenciação local. O global não substitui o local, mas produz novas identificações globais e locais, promove um alargamento do campo das identidades e proliferação de novas posições de identidade, junto com um aumento da polarização entre elas. O autor considera a possibilidade do processo de globalização levar a um fortalecimento de identidades locais ou à produção de novas identidades. O fortalecimento de identidades locais pode ser visto como reação dos grupos étnicos dominantes que se sentem ameaçados pela presença de outras culturas, também o recuo em grupos comunitários a identidades mais defensivas como reação a experiências de exclusão. No processo de produção de novas identidades, uma identidade continua a existir junto a uma gama de outras diferenças, tem um caráter posicional e conjuntural. A identidade e a diferença estão articuladas e entrelaçadas em identidades diferentes sem se anularem40. Foi no processo de reação a um sentido homogeneizante que surgiu o Movimento Armorial. As tradições estavam bem enraizadas, havia uma elite local integrada aos processos modernos, mas também aos processos culturais populares, que tinha consciência do valor simbólico do objeto para o qual se voltou, da tradição local. Diante da confrontação com uma cultura homogeneizante, ocorreu um fortalecimento da identidade local, não como a afirmação de grupos dominantes diante da diversidade cultural, mas como um processo defensivo.

A memória coletiva carrega conteúdos que se adaptam às condições sem que ocorram necessariamente mudanças bruscas. Assim, idéias antigas podem coexistir e se integrar a

novas formas de pensamento e relações sem que isso signifique uma contradição. Para Hall, na pluralização das identidades, muitas se tornam mais políticas, se organizam em torno de tomadas de posições, são mais plurais e diversas, menos fixas e unificadas. Algumas agem em um sentido de recuperar algo anterior aos processos de modernização, transitam entre diferentes posições, retiram recursos de diferentes tradições culturais e são produtos de cruzamentos. Outras aceitam que estão submetidas ao plano da diferença e é improvável que sejam unitárias. Negociam com novas culturas sem serem assimiladas nem perder completamente suas características, são o produto de várias histórias e culturas interconectadas41. No entanto, não há incompatibilidade em um indivíduo ou um grupo circular ou adotar posições identitárias que se aproximem das tradições e das transformações. A obra de Samico indica que são condições que podem ser compatíveis e até mesmo complementares. Não foi preciso negar a tradição para aceitar as transformações nas relações entre os indivíduos e as sociedades. A manutenção de uma tradição na memória coletiva ocorre muito mais em função de uma flexibilidade do que de uma rigidez. Nessa flexibilização, as tradições exercem uma troca com outras culturas sem que precisem necessariamente abdicar de suas características.