Na gravura “A luta dos homens”, (fig. 19) é percebida a oposição hierárquica entre o alto e o baixo, correspondente ao bem e ao mal. Na parte superior, uma figura do sol se situa entre uma área texturizada acima dele e uma área branca, no centro da gravura. Na área branca central, dois cavaleiros são representados, cada um portando uma espada com a lâmina em chamas, se enfrentam virados de frente um para o outro, simetricamente. Na área inferior, são figurados um animal híbrido segurando um punhal, inserido em uma espécie de botija. A forma está cercada de uma área preta e tem seu interior preenchido com uma textura linear vertical. Seu contorno é interrompido apenas na parte superior, onde estabelece um contato com a área central. No fundo do animal, uma textura geométrica presente em outras de suas gravuras compõe uma área como se fossem folhas.
O sol é um símbolo cósmico identificado com a manifestação do divino, determina um ciclo temporal natural no cotidiano dos indivíduos, é fonte de luz e da vida na Terra. Invoca um significado ambíguo ao remeter à adoração pagã do astro. Sua representação com paralelos e meridianos indica a preocupação do artista com a geometrização da forma. Os cavaleiros se confrontam em um embate frontal com suas espadas erguidas sobre suas
Fig. 19 – Gilvan Samico – A luta dos homens, 1977. Xilogravura, 84,5 x 46 cm.
cabeças63. Não há necessariamente uma luta corporal entre os cavaleiros (fig. 20), mas uma medição de forças, como na gravura “A luta dos anjos” (fig. 21).
Nesse caso, o enfrentamento é entre os homens, não diretamente entre forças divinas ou demoníacas, mas entre semelhantes, talvez instigados pela criatura situada na área inferior. A interrupção do contorno dessa área feita na parte superior, acrescida com as linhas verticais que a preenchem internamente, projetam a vista nessa direção, como se esse mundo subterrâneo estivesse causando a luta entre os homens. A parte do círculo, que tem o sol representado em seu interior se estende sobre a área central, como uma influência do céu sobre a terra.
O animal, híbrido de bode e humano (fig. 22), é representado de modo muito semelhante ao demônio figurado na gravura “O pecado” (fig. 23).
63 HEINZ-MOHR, op. cit. Um querubim com uma espada flamejante foi colocado guardando a árvore da vida após a expulsão de Adão e Eva do paraíso e São Miguel também tem uma espada flamejante. p. 148.
Fig. 20 – Gilvan Samico – A luta dos homens, 1977. Detalhe.
Fonte: Samico: 40 anos de gravura
Fig. 21 – Gilvan Samico – A luta dos anjos, 1968. Detalhe.
A posição corporal, principalmente das pernas, é semelhante, mas enquanto em uma das gravuras o demônio possui chifres e sustenta uma maçã vermelha em sua língua entre as figuras de um homem e de uma mulher, nessa gravura o animal segura um punhal vermelho sobre sua cabeça. Sua cauda também desenvolve uma curva, mas, diferente daquela, aponta para o centro de si mesmo. A representação do bode indica uma particularidade da cultura nordestina, um animal resistente à seca, típico dessa região. A criatura com pés de bode está associada com o demônio. No fundo do animal híbrido, a forma que se assemelha com folhas é preenchida com uma textura também encontrada no fundo do demônio representado na outra gravura.
São transformações operadas nas imagens em seu deslocamento temporal, na transposição do mundo imaginário para um mundo sensorial. As formas e os símbolos são ressignificados toda vez que o artista elabora uma nova gravura e recorre ao universo imaginário propiciado por sua relativa autonomia do mundo exterior. O mesmo tratamento gráfico observado pode ser encontrado na gravura “A espada e o dragão”, na base sobre a qual é representado o dragão. São sinais das modificações sofridas pelas formas conforme passam por um deslocamento temporal. O uso da textura passa a ser cada vez mais elaborado, e composto com outras formas. A relação entre a gravura “A luta dos homens” (fig. 19) e “A espada e o dragão” (fig. 05) pode ser feita pela tensão criada entre o mundo celestial, o mundo terrestre e o mundo subterrâneo.
Fig. 22 – Gilvan Samico – A luta dos homens, 1977. Detalhe.
Fonte: Samico: 40 anos de gravura
Fig. 23 – Gilvan Samico – O pecado, 1964. Detalhe.
As duas gravuras apresentam a oposição hierárquica entre o alto e o baixo, já mencionado, em ambas a área celestial invade, se sobrepõem ao espaço terrestre com metade de um círculo, como uma expansão do céu. O sol da primeira gravura parece ter-se transformado na estrela situada dentro do quadrilóbulo da segunda, as duas figurações apresentam a mesma cor. Os cavaleiros se enfrentam na primeira gravura, na segunda, contudo o cavaleiro não está mais associado ao mundo terrestre, mas no celestial, compartilhando o espaço com a estrela e os outros símbolos cósmicos. Não carrega uma espada flamejante, mas tem uma chama sobre sua cabeça, nesse caso a espada está cravada no peito do dragão, como sinal da justiça divina. Os três cavaleiros estão associados à cor azul, cor própria da nobreza, enquanto na primeira gravura a cor está na roupa dos homens, na segunda está na sela do cavalo64. A cor também é uma linha de ligação entre o demônio, figurado na primeira gravura e o dragão, representado na segunda. O movimento descrito pelo
64 PASTOREAU, Michel. Bleu. Histoire d’une couleur. Paris : Editions du Seuil, 2006. Utilizada inicialmente pelos reis da França no século XII em homenagem à Virgem, a cor azul passou a ser largamente difundida nos séculos XIII e XIV como uma cor de prestígio entre os nobres, inicialmente na França e depois entre a cristandade ocidental. O lendário Rei Arthur é representado com frequência vestido de azul a partir de meados do século XII. pp. 52 – 53.
Fig. 19 – Gilvan Samico – A luta dos homens, 1977. Xilogravura, 84,5 x 46 cm.
Fonte: Samico: 40 anos de gravura
Fig. 05 – Gilvan Samico – A espada e o dragão, 2000. Xilogravura, 93 x 48,7 cm.
braço do demônio termina segurando um punhal vermelho sobre o corpo, assim como o movimento descrito pela labareda que sai da garganta do dragão e tem na parte superior a cor vermelha. As áreas que estão uma sobreposta pelo demônio e outra abaixo do dragão se relacionam tanto pela forma da textura como pela sugestão de um elemento vegetal. Nas duas gravuras as linhas horizontais que definem uma textura estão associadas ao espaço celestial, uma na área do céu, outra preenchendo metade do quadrilóbulo.
Também as linhas verticais que fazem uma textura no preenchimento da área inferior da gravura “A luta dos homens”, seguem a mesma orientação que o fundo na área ocupada pelo anjo do mal na gravura “A luta dos anjos”, assim como a orientação horizontal das linhas na área ocupada pelo anjo do bem encontra referência nas linhas horizontais que fazem a textura da área situada sobre o sol da gravura “A luta dos homens”. A cor azul encontrada na roupa do anjo também está nos trajes dos cavaleiros, assim como na sela do cavalo representado na gravura “A espada e o dragão”. Observamos como as formas são alteradas e remodeladas ao serem remanejadas no processo criativo de Samico. Ao utilizar formas encontradas em sua memória, mesmo que semelhantes, nunca serão as mesmas, mas ainda assim as formas e as imagens irão aparecer insistentemente para o artista, assim, certos conteúdos são incorporados, na medida em que as formas carregam significados. Esses conteúdos irão contribuir com a ressignificação das imagens, porém sem determinar sentidos únicos.