Um dos princípios norteadores do pensamento complexo é o hologramático, o qual “não apenas a parte está no todo, mas o todo está na parte” (MORIN, 2011a, p.74).
Em suas suas atividades acadêmicas, o estudante interage a todo o momento e por isso, suas relações são oportunidades de reflexão e aprendizado. Os estudantes identificaram a prática hospitalar e na atenção básica como uma possibilidade de interação com diversos profissionais, citando o PIN e estágios, com destaque para o Internato de Enfermagem. Consideramos que o estudante desde o ingresso na graduação precisa desenvolver competências para interagir com grupos, nos diferentes locais onde ocorre o ensino-aprendizagem, sejam eles salas de aula, laboratórios de habilidades, campos de práticas e estágios e até mesmo nos espaços comuns onde estabelece contato com os outros colegas.
Outra perspectiva hologramática sobre o contexto do CI é que o estudante em si também constitui-se em uma parte frente ao todo dos estudantes. Ele movimenta-se na série em meio há muitos outros estudante vivenciando diferentes estratégias durante a formação. O estudante apreende e articula esses diversos aprendizados para construir o conhecimento e mesmo apresentando certas dificuldades para desenvolvê-lo, vai realizando em sucessivas tentativas. Nestas tentativas cada um aprende e percebe suas dificuldades como algo normal e que pode ser ponto de apoio para novas oportunidades de aprendizado. O próprio movimento de conseguir refletir sobre a ação e aplicá-la em outros contextos é uma transposição das estratégias para fins de mudança de olhar.
Assim, podemos pensar na perspectiva do princípio hologramático que sempre existe a possibilidade da transposição de formas de aprender para outras. Pensando nas formas de aprender que ocorrem no contexto do estudante, podemos perceber o esforço, desenvolvimento e superação que estão contidos, por exemplo, na preparação de um seminário. Na apresentacao o estudante não consegue expressar o todo, ou a completude do processo de desenvolvimento, construção, desconstrução e reconstrução, os seus erros no percurso. Nessa totalidade do processo de aprender ocorrem vários outros processos envolvidos,
leituras, aprofundamentos teóricos e a própria recursividade do ir e vir da correção.assim, este momento representa que “o todo é menos do que a soma das partes” referido por Morin (2010, p.261).
Novos conhecimentos adquiridos possibilitam um novo olhar sobre a realidade multidimensional e contribuem de maneira significativa no decorrer da graduação e na sua formação do estudante enquanto ser humano e como profissional. Todo este entrelaçamento de novas oportunidades, novos aprendizados, transposição de aprendizados, do estabelecimento de uma rede de ajuda mútua nos remete às incertezas dos processos. Cada estudante responderá de maneira própria aos estimulos recebidos durante a formação, porém sabe-se que cada um terá suas necessidades e dificuldades diferentes, pois são seres únicos e muito marcados pelos seus contextos, sociedades e cultura nos quais convivem.(MORIN, 2011).
O trabalho em equipe envolve problemas multidimensionais, de origem sociais, econômicas, psicológicas e hierárquicas. E não há como separar umas das outras. O princípio hologramático precisa se fazer presente diante do ensino relacionado ao trabalho em equipe, já que este princípio opera pela interação dos indivíduos sendo o produto final numa visão totalizadora e contextualizada. É preciso ter um conhecimento que visualize as organizações, os sistemas, o conjunto, que são realidades existentes no trabalho em equipe. Este princípio vai além do reducionismo, que só vê as partes, e do holismo que só vê o todo. É uma ideia que rompe com o pensamento unidimensional (MORIN, 2011).
A arte de contextualizar e globalizar são fundamentais para o ser humano que o ensino parcelado atrofia. O conhecimento torna-se pertinente quando é capaz de situar a informação em seu contexto. É necessário que o princípio hologramático esteja presente na educação, que o conhecimento das partes ao todo seja completado do todo no interior das partes. Este princípio remete à articulação de binários: parte-todo, simples-complexo, local-global, unidade-diversidade, particularuniversal. Trata-se de uma visão que rompe com os antigos esquemas simplificantes (MORIN, 2009, p.58).
O princípio do currículo em espiral tem como um dos objetivos proporcionar sucessivas aproximações e contextualizações. Ao estudante cabe buscar desenvolver estes desempenhos que são essenciais a sua formação para o
trabalho em equipe (GARANHANI et al., 2012). Esta configuração permite deduzir que, no curso em estudo, o princípio hologramático está sendo empregado.
Guimarães (2013) em seu estudo neste mesmo curso encontrou que o princípio hologramático está sendo empregado na percepção dos professores. Afirma que desde o primeiro ano são trabalhados alguns conceitos considerados mais amplos, como conexões entre os membros da equipe, relacionamento interpessoal e autoconhecimento, bem como conceitos relativamente mais simples como assiduidade, responsabilidade, vínculo e objetivos do trabalho em equipe. São situações vivenciadas pelos estudantes nas quais a parte não consegue separar-se do todo, trata-se de uma ideia de totalidade, em que não há dissociação.
A autora também comenta:
O trabalho em equipe é difícil, pela própria complexidade das relações humanas. Para que ele seja aprendido e desenvolvido pelo estudante, é necessário experiência por meio de sucessivas aproximações, pela convivência e pela própria maturidade que o estudante vai desenvolvendo ao longo do curso. (GUIMARÃES, 2013, p 76).
Em nosso estudo, na percepção dos estudantes encontramos no decorrer das quatro séries que o processo de interagir com os colegas, com os professores, com outros profissionais de saúde, foi se desenvolvendo a cada oportunidade.
A complexidade é uma mudança profunda no pensamento, uma tomada de decisão. É preciso que os educadores dirijam seus olhares para o mundo..O conhecimento para desenvolver habilidades para o trabalho em equipe favorece um conjunto de práticas e um campo especialmente rico relacionado ao pensamento complexo. Isso nos leva ao entendimento de que o todo possui certo número de qualidades e propriedades que não se encontram nas partes quando separadas (MORIN, 2010, p.562).
Assim também acontece com o ensino de habilidades para o trabalho em equipe, é necessário um olhar para o todo, para a complexidade das relações e ações. Essa vivência, experiência e contextualização é que possibilita a compreensão do tema em estudo.
As relações com os variados ambientes ajudam a construir um novo ser, um estudante que percebe a multidimensionalidade do ser complexo nessa visão hologramática, do ser (parte) em seu ambiente/cultura (todo), faz com que perceba a sua própria construção como um ser que aprende e que esta constituição. Isto ocorre por meio do conhecimento, o que revela a noção moriniana de reintrodução do conhecimento em todo o conhecimento.
Os desempenhos, habilidades e competências encontrados nos registros dos documentos dos módulos curriculares e os dados dos grupos focais com os estudantes evidenciaram que a temática em estudo encontra-se presente em todos os anos do curso, o que favorece a construção de saberes necessários ao desenvolvimento desta competência. No entanto, observou-se poucas relações entre os módulos e as séries de forma explícita e formalizada. Este resultado evidencia que o conhecimento pode estar sendo construído de forma fragmentada, ou seja, a temática pode estar sendo abordada por partes e não na totalidade da formação (MORIN, 2011).
Observamos na análise dos documentos e dos grupos focais que o estudante vai gradativamente se aproximando de diferentes equipes de trabalho e sendo inserido nelas. No entanto, observa-se que, por vezes, ainda falta o que Morin chama de relação entre as partes, pois nem sempre as vivências e atividades são discutidas e refletidas em seu contexto, globalidade e multidimensionalidade. Assim, reforçamos que cabe ao professor estimular e apoiar este debate.