• Sonuç bulunamadı

Iniciamos essa discussão articulando o sintoma somático com a constituição do sujeito, que acontece no âmbito da relação da criança com seu corpo e com o Outro da relação primordial. Essas questões serão pensadas com base no referencial psicanalítico, no qual está contida a idéia de que os modos de funcionamento somático encontram suas bases no tipo e qualidade do laço pais/filhos, que têm intima relação com o lugar que os filhos ocupam no desejo dos pais.

De acordo com Rannã (2004), a Psicossomática da criança serve de guia de compreensão à Psicossomática em geral, já que o modelo de entendimento dos sintomas somáticos deve ser buscado na infância, no âmbito das relações primordiais e nas etapas da organização pulsional. Essa idéia se encontra em Freud, nos seus Estudos sobre a Histeria, quando nos fala da importância das vivências da infância e dos modos subjetivos de inscrição dessas vivências no psiquismo, destacando o impacto destas inscrições na constituição do sujeito.

Isso não significa, entretanto, de acordo com a Psicossomática psicanalítica, que exista uma relação de sentido entre os sintomas somáticos e o infantil – este entendido como “reavivamento de marcas, lembranças e fantasias construídas e originadas em um tempo pré- histórico da vida do sujeito” – (GURFINKEL, 2004. p; 44), mas que o aparelho psíquico da criança, ainda precário, não consegue exercer plenamente sua função de organizador

pulsional. McDougall (2002), no entanto, acredita que as manifestações psicossomáticas têm uma história, ou, pelo menos, uma mitologia a ser reconstituída.

O resultado é que as excitações provenientes das urgências somáticas e das experiências interativas que invadem o corpo do bebê e não podem ser satisfeitas recaem sobre seu organismo, provocando todo tipo de desordem. É nesse momento que entra em cena o Outro cuidador que, sendo capaz de identificar as urgências instintivas que assolam o corpo do bebê, oferece os meios específicos de ‘satisfação pulsional’.

Vale ressaltar que o bebê, por sua própria condição de prematuridade, não consegue por si mesmo pôr em ação o principio do prazer, sendo por isso imprescindível a presença desse Outro cuidador na organização pulsional e satisfação da necessidade/desejo. O Outro – geralmente encarnado pela mãe – funciona, dessa forma, como uma película protetora aos estímulos internos e externos, ou seja, assume a função de para-excitação.

A para-excitação, contudo, não corresponde só ao aspecto objetivo, representado pela eficiência no atendimento às urgências físicas e psíquicas do bebê, mas compreende também um aspecto subjetivo, na medida em que a mãe supõe um sujeito no bebê, significando as demandas que este lhe dirige e lhe respondendo através de dons, a partir de seus próprios referencias inconscientes. A esse respeito, Rannã (1998) enfatiza o caráter fantasmático da interação, atribuindo à para-excitação um caráter intersubjetivo.

Além da função de para-excitação, a mãe (enquanto Outro) também precisa construir um corpo para o filho. Já discutimos, no capítulo sobre a constituição do sujeito, como ocorre a construção do corpo imaginário e sua intima relação com o desejo dos pais. Ressaltaremos, todavia, que nesse processo de investimento libidinal no corpo do filho, a anatomia fantasmática testemunhará a força do imaginário dos pais, assim como o lugar que o sujeito ocupa na economia libidinal da família (lugares simbólicos e imaginários, fruto do desejo inconsciente dos pais).

Tal como uma barra de ferro se transforma em imã pela ação de um campo magnético, o bebê vai estruturar-se a partir do efeito do Outro. Passa a existir um novo estado no ser, determinado por marcas mnêmicas libidinizadas. Emerge aí um novo corpo, com leis de funcionamento que vão além do biológico. Trata-se do corpo erógeno, pulsional, que já não se satisfaz com o alimento, mas com o próprio encontro. O corpo que vai se constituir daí em diante, é um corpo resultado da fusão de dois, que não é o corpo materno nem o corpo do bebê, mas o corpo pictográfico no bebê, efeito da sedução generalizada .(RANNÃ, 2003, p. 47).

A esse respeito, lembramos ainda o que Rannã (2003) nos diz quando articula a Psicossomática e o “infantil”, tomando a organização pulsional e a constituição subjetiva como eixo: “o enigma dos sintomas somáticos nos bebês poderia ser descoberto ao

atentarmos para as evidencias de sua relação com as etapas iniciais da instalação do circuito pulsional”. (P, 48).

O estudo do sintoma do corpo em bebês e crianças pequenas requer, portanto, uma leitura atenta dessa organização pulsional – básica para a constituição do sujeito – além de destacar a função do aparelho psíquico e do próximo cuidador na regulação da economia libidinal e no desencadeamento dos sintomas somáticos: “...muito dos enigmas do corpo da criança só podem ser desvendados a partir da história do encontro com o outro dos cuidados maternos, que vai lhe dar uma sexualidade e uma subjetividade”. (Rannã, 2003, p. 45).

A pulsão, constantemente enfatizada neste estudo e imprescindível na elaboração sintomática, põe em movimento o trabalho do aparelho psíquico que tem como fim dominar as excitações que chegam até ele, transformando-as em representações. Essas excitações provêm do corpo e são marcadas pelas ‘experiências de satisfação’, intensamente “libidinizadas” na relação com o semelhante.

É nessa relação com o próximo prestativo (como Freud o designou no Projeto, em 1895) que um circuito pulsional se instala no bebê, transformando seu organismo em corpo: “O organismo virgem é exposto ao outro, que demanda e cujo olhar é um espelho que aglutina, cristaliza e reflete uma imagem. O organismo transforma-se em corpo”. (SCHILLER, 2003, p 29). Destacamos, assim, a idéia de que a verdadeira divisão não é entre mente e corpo, mas entre corpo e organismo (ASSOUN, 1998). Esse corpo é uma estrutura formada na primeira infância por um conjunto de representações e associação entre símbolos e imagens.

O fenômeno psicossomático é, então, conforme Silveira (2003), “uma disfunção do corpo biológico em função de processos vividos pelo sujeito na passagem do corpo biológico para outra ordem, a ordem do pulsional, na qual a instintividade é substituída pela erogeneidade”. (P. 556).

Portanto, a Psicossomática psicanalítica compreende os sintomas somáticos a partir de uma falha na inscrição pulsional, o que pressupõe, por sua vez, uma ‘falha’ na função materna (já que é a ‘mãe’ quem efetua essa inscrição) ou nas vicissitudes da construção do corpo erógeno. Tal falha denota um empobrecimento da relação mãe/ bebê – imprescindível ao equilíbrio psicossomático – que, por sua vez, diz respeito à impossibilidade de a mãe se colocar como Outro fundador do circuito de desejo e demanda no filho. A mãe não consegue, pois, exercer seu papel de para-excitação. O bebê, sem ter ainda uma autonomia psíquica, descarrega no soma esses excessos, podendo originar, então, distúrbios funcionais.

(...) a clínica à escuta de pacientes somatizadores vem assinalando o lugar dos momentos iniciais da constituição do psiquismo nos destinos da organização libidinal. As experiências precoces delineiam modos de funcionamento somático a partir da constituição da imagem corporal. A clínica das somatizações nos solicita a acentuar o lugar fundamental da relação materno-filial na constituição subjetiva, possibilitando um espaço de elaboração psicossomático do bebê. (TEIXEIRA 2006, p 24).

A matriz dessa falha vem de uma impossibilidade de ocorrer a realização alucinatória da experiência de satisfação, quer por uma super-presença, quer por uma ausência de qualquer satisfação com o outro (RANNÃ, 2003).

O que tencionamos frisar nessa articulação conceitual é que Freud tem como proposta essencial em relação aos sintomas do corpo em crianças e bebês trazer à pauta os entraves do conflito humano quando do encontro com o Outro e das conseqüências de sua inserção na ordem da cultura.