Vale a pena recordar
O título já nos remete a um texto anterior: vale a pena recordar alguma coisa, ou seja, só se pode recordar algo com que já se teve contato anteriormente, o conhecido.
A expressão “vale a pena” é comumente utilizada na linguagem coloquial e em nível informal. Pode-se dizer que ela já foi cristalizada, sendo reconhecida por quase todos os falantes com alguma experiência da língua portuguesa. Ela sempre remete a uma significação de valor, de proveito.
Por exemplo, o programa vespertino da Rede Globo, que faz reprise de novelas, chama-se “Vale a pena ver de novo”. Com isso a Globo pretende chamar a atenção de seus telespectadores para o fato de que não obstante ser uma reprise, a novela que será retransmitida é de valor, portanto sendo oportuno passar algum tempo diante da televisão para revê-la.
Portanto, o título do editorial, através da intertextualização com os processos culturais que cristalizaram a expressão “vale a pena”, enfatiza que o editorial traz algo de valor. Nesse sentido, o esforço da leitura do texto é recompensado pela importância do seu conteúdo.
Desde o título se percebe a importância dos processos intertextuais, tanto para a significação quanto para a produção dos textos.
[“Eram tempos de guerra e tudo desmoronava”. Este é o clássico início da narração da história dos Focolares, descrevendo o dramático cenário da cidade de Trento, que viu nascer este Movimento durante a Segunda Guerra Mundial.]
O trecho em referência apresenta uma intertextualidade restrita e explícita – como o próprio editorial revela – com uma expressão bastante utilizada para iniciar o relato histórico do Movimento dos Focolares: “Eram tempos de guerra e tudo desmoronava”.
Como exemplo citamos o título do capítulo inicial do livro “E a vida renasce entre as bombas” (Veronesi, p. 7, 1988), que conta a história dos primeiros tempos do movimento: “Eram tempos de guerra”. Mas, assim como o texto de Veronesi, há muitos outros com a mesma frase impactante, como no artigo da socióloga Vera Araujo (CN nº 7, p. 9, 2003) que traz o seguinte título: “Eram tempos de guerra…”.
É interessante observar também a seleção lexical da palavra “clássico”, que no dicionário Aurélio significa:
1. Relativo à arte, à literatura ou à cultura dos antigos gregos e romanos. 2. Que segue, em matéria de artes, letras, cultura, o padrão desses povos. 3. Da mais alta qualidade; modelar, exemplar: definição clássica; atitude clássica. 4. Cujo valor foi posto à prova do tempo; tradicional; antigo. Às tendências
modernas preferem as formas clássicas da arte e da literatura. 5.
Que segue os cânones preestabelecidos, acorde com eles… (1999, p.484).
Isso significa que, dentro do processo dialógico, o vocábulo “clássico” remete a algo que já foi consolidado na cultura contemporânea e que frequentemente surge num sentido positivo. Portanto, é estratégica a utilização dessa palavra que no editorial vem associada à história do Movimento.
Tudo isso mostra que por meio da intertextualização, o editorial se inicia dando um grande destaque ao Movimento dos Focolares, ou seja, adianta-se para o leitor que o texto se refere a algo “da mais alta qualidade” e que “vale a pena recordar”.
[Há quarenta e seis anos, escutava-se pela primeira vez essa história em nossas terras. Uma história que já percorreu o país de ponta a ponta convocando um verdadeiro “povo”, segundo uma definição do Movimento, dada por João Paulo II.]
A expressão “há quarenta e seis anos, escutava-se pela primeira vez essa história em nossas terras” se refere à chegada do Movimento no Brasil em 1958, quando um grupo de focolarinos vindos da Itália desembarcou em Recife.
Esse trecho também evidencia a importância da intertextualidade no processo de significação do editorial, ou seja, é essencial à relação com outros textos que informam a chegada dos focolarinos ao Brasil. Caso contrário, o leitor poderia construir outras interpretações do tipo: há quarenta e seis anos, chegaram as primeiras informações sobre o Movimento dos Focolares no Brasil. Essa interpretação estaria equivocada; afinal, quando os focolarinos desembarcaram em Recife, algumas pessoas já sabiam da existência do movimento aqui no Brasil.
Para os leitores compreenderem esse trecho em sua completude é fundamental o conhecimento prévio da história do Movimento dos Focolares no Brasil.
Diante disso surge o seguinte questionamento: por que o texto inicia de forma tão vaga, por que ele não é mais específico?
Uma hipótese relevante para que as informações não sejam apresentadas com rigor de detalhes encontra resposta justamente no dialogismo dos textos: como afirmam Koch e Travaglia (1990), a noção de conteúdo está diretamente ligada ao conhecimento de mundo, ou seja, os jornalistas não precisam explicar detalhadamente todas as informações que transmitem, por acreditar que boa parte já é de conhecimento do público. Assim podem se concentrar em transmitir aquilo que julgam ser novidade para as pessoas.
No caso de Cidade Nova, o fato de a revista funcionar por assinaturas pressupõe uma certa assiduidade dos leitores e, nessa perspectiva, o texto estaria apoiado no processo intertextual: os leitores já tiveram contato com a história do movimento em edições anteriores da revista, que continuamente a vêm apresentando. Assim também o texto está apoiado na estreita sintonia entre os membros do Movimento dos Focolares e a revista: uma grande parcela dos assinantes são pessoas ligadas ao Movimento, portanto, com conhecimento prévio suficiente para associarem as frases iniciais com a chegada dos primeiros focolarinos no Brasil. Nesse sentido, os novos leitores, ainda sem esse conhecimento prévio, certamente encontrarão alguma dificuldade para processar as informações contidas nesse trecho ligadas à chegada dos primeiros focolarinos ao Brasil.
Mas, ainda que os leitores não tenham nenhum tipo de contato com o Movimento, o objetivo do editorial não estaria comprometido, porque é possível identificar que o texto está tratando dos fatos que marcaram a trajetória dos Focolares.
Além disso, o texto tem outra função, que pode ser captada mesmo sem um conhecimento prévio sobre o Movimento: através da intertextualização ele faz uma espécie de introdução, uma chamada para o artigo “Pensamento, espiritualidade, mundo unido”, que contém uma entrevista com o organizador do “Livro Ideal e Luz”, que reúne textos de Chiara Lubich sobre o Movimento dos Focolares (CN 1-2, 2004, p. 19 a 22). Portanto, o editorialista utiliza a intertextualidade para evidenciar um artigo da revista que, por sinal, é a matéria de capa dessa edição de Cidade Nova. Afirmamos isso porque o editorial inteiro conduz o leitor para os primórdios dos Focolares: fundação, espiritualidade, desenvolvimento no mundo; e esse também é o foco do livro “Ideal e Luz” o tema do artigo “Pensamento, espiritualidade, mundo unido”.
Um outro aspecto significativo desse trecho é o destaque dado à difusão do Movimento em todo o território brasileiro, evidenciado por meio da expressão “uma história que já percorreu o país de ponta a ponta”. Com isso o autor chama a atenção para a dimensão dos Focolares no Brasil, que é o segundo país em números de membros, superado apenas pela Itália.
A expressão “verdadeiro povo” é, talvez, a informação mais significativa do trecho, porque pretende evidenciar que os membros dos Focolares apresentam características em comum que os identificam como grupo, ou seja, a revista tenta passar a idéia de que o Movimento apresenta características específicas.
A referência a João Paulo II funciona como um recurso de autoridade, isto é, por meio da intertextualização com o discurso do papa, o texto transfere a responsabilidade da afirmação para o chefe da Igreja Católica. E se a citação é um recurso intertextual de grande importância em quase todos os discursos, no discurso religioso ela atinge um grau de significância maior, adquirindo em certas situações até mesmo status de verdade inquestionável. No caso, a referência a um papa é altamente relevante, em se tratando de uma revista ligada ao mundo católico.
A noção de povo atribuída aos membros do Movimento encontra razão de ser em Bakhtin, quando esse afirma que a ideologia – no caso a axiologia dos Focolares – é significativa no processo de interação entre os indivíduos e atua, por sua vez,
mesmo que associá-lo a uma expressão cultural com um certo grau de relevância no contexto mundial.
[O que sempre provoca um fascínio especial nessa história é o fato de que, em meio à insegurança e às misérias morais e materiais que uma guerra produz, um grupo de jovens descobria um ideal que, segundo as palavras de Chiara Lubich, uma delas,
“nada nem ninguém podia destruir: Deus Amor”. Um Deus que lhes abria a intimidade
da vida trinitária e as envolvia no mais ambicioso projeto de sociedade: “A unidade, assim na terra como no Céu”.]
Com relação à palavra “ideal”, ela surge com um duplo sentido: o primeiro faz referência a uma meta de vida que foi descoberta pelas jovens: Deus Amor, ou seja, projetar a vida a partir da veneração à divindade. Já o segundo só pode ser compreendido por meio de um processo intertextual, porque, concomitantemete com a significação de Deus como meta de vida, a palavra “ideal” se refere à espiritualidade do Movimento dos Focolares. Essa segunda significação não está explícita na linearidade do texto, mas pode ser observada claramente em outros textos sobre o Movimento: (Canções da Mariápolis, 2004):
Um novo tempo surge, vemos sinais, É um sol mais forte que começa a brilhar. Já resplandece o mundo unido entre nós, É um ideal que a nova história fará,
Ideal que história se faz. (p. 59)
É grande, é grande! Nosso ideal é assim,
Sem medo, sem muros, e não conhece confins. (p. 42) Depois, passando entre os coqueiros,
Soprou bem forte em todo o Pernambuco. Desde então até o mar del Plata,
Quem quiser aprender, oi, O que é o ideal:
Primeiro amar, E logo viver. (p.10)
No âmbito do Movimento é muito comum chamar o Movimento dos Focolares de “Ideal da Unidade” ou simplesmente “Ideal”.
Seria muito difícil para um leitor – sem conhecimento prévio dessas informações, portanto, sem recursos intertextuais – chegar a essa segunda significação da palavra “ideal” no texto do editorial.
A citação de Lubich, presente no editorial, “nada nem ninguém podia destruir: Deus Amor”, apresenta uma concepção da divindade que é um dos pilares da espiritualidade do Movimento e que está intertextualizada com a visão apresentada por Cristo no Novo Testamento. Isso porque as escrituras bíblicas anteriores a Cristo davam mais destaque para o rigor da justiça de Deus:
E agora, vede bem: eu, sou eu, e fora de mim não há outro Deus! Sou eu que mato e faço viver, sou eu que firo e torno a curar (e de minha mão ninguém se livra). Sim eu levanto a mão ao céu, e juro: ‘Tão verdade como eu vivo eternamente quando eu afiar minha espada fulgurante e minha mão agarrar o Direito, tomarei vingança de meu adversário, e retribuirei àqueles que me odeiam. Embriagarei minhas flechas com sangue e minha espada devorará a carne, sangue dos mortos e cativos, das cabeças cabeludas do inimigo’. (Exodo21, 30-42).
Mas se houver dano grave, então darás vida por vida, olho por olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé, queimadura por queimadura, golpe por golpe. (Exodo21, 23-24).
Entretanto no Novo Testamento é mais evidenciado o lado misericordioso de Deus, um Deus que perdoa, que compreende a fragilidade humana e que ama a todos como filhos:
condenados; absolvei, e sereis absorvidos, dai e vos será dado… (Lucas 6, 36-38).
Bendito seja o Deus e Pai de nosso senhor Jesus Cristo, o Pai das misericórdias e Deus da consolação! Ele nos consola em todas as nossas atribulações, para que possamos consolar os que estão em qualquer tribulação, mediante a consolação que nós mesmos recebemos de Deus. (2 Coríntios 1, 3-4).
Ouviste o que foi dito: Amarás o teu próximo e odiarás o teu
inimigo. Eu, porém, vos digo: amai os vossos inimigos e orai pelos
que vos perseguem; desse modo vos tornarei filhos do vosso Pai que está no céu, porque ele faz nascer o sol igualmente sobre maus e bons e cair a chuva justos e injustos. (Mateus 5, 43-45).
Sobre isso há um discurso de Lubich – pronunciado na Unesco, em 1996, por ocasião da outorga do Prêmio Educação para a Paz – sobre um novo estilo de vida cristã que evidencia a ligação do conceito focolarino de “Deus Amor” com o Novo Testamento:
É nesse contexto que deve ser visto também o Movimento dos Focolares e a sua espiritualidade (…). Finca sua raízes em algumas palavras ou realidades contidas no Evangelho, que se encadeiam umas às outras, das quais citarei aqui apenas algumas,
Ela supõe, antes de mais nada, para quem dela compartilha, uma profunda consideração de Deus por aquilo que ele é: Amor, Pai. (Vanderleene, 2003, p. 52).
Como se vê, sem essas informações contidas em outros textos, o leitor teria dificuldades para fazer inferências sobre a noção de “Deus Amor” numa visão focolarina.
O segundo grifo afirma que “Deus Amor” “abria a intimidade da vida trinitária” para Lubich e sua primeiras companheiras no início do Movimento.
A intenção do texto é destacar a proximidade desse Deus com aquelas jovens trentinas. Afinal, a palavra “intimidade” releva um alto grau de aproximação. Aqui também é essencial o processo intertextual devido à presença da expressão “vida trinitária”, que só encontra significação através da intertextualização com os escritos da
Igreja Católica, que, por sua vez, estão intertextualizados com os escrituras bíblicas. A expressão faz uma analogia com a interação entre as três pessoas da Santíssima Trindade: Pai, Filho e Espírito Santo.
O último trecho do parágrafo fala de um projeto ambicioso para a sociedade: “A unidade, assim na terra como no Céu”. Além da intertextualidade com o trecho do Novo Testamento em que Jesus ensina os homens a oração do “Pai Nosso” (Mateus 6, 9-13), há também a necessidade de se recorrer a outros processos intertextuais para se compreender o editorial, pois o leitor da revista poderia se perguntar: “Mas que unidade é essa? Como é essa unidade do Céu?”.
O editorial está fazendo referência a um outro pilar dos Focolares, o projeto de um mundo unido, que também nasce das escrituras bíblicas:
Como tu, Pai, estás em mim e eu em ti, que eles estejam em nós, para que o mundo creia que tu me enviaste. Eu lhes dei a glória que tu me deste para que sejam um, como nós somos um: eu neles e tu em mim, para que sejam perfeitos na unidade”, (João 17,21-23); “ Não há judeu nem grego, não escravo nem livre, não há homem nem mulher; pois todos vós sois um só em Cristo Jesus. (Gálatas 3,28).
Esse conceito sobre unidade também está presente nos documentos da Igreja Católica, por exemplo, na carta encíclica Ut Unum Sint de João Paulo II (p. 12, 1995):
“A vontade de Deus é a unidade de toda a humanidade dispersa. Por esse motivo enviou o seu Filho a fim de que, morrendo e ressuscitando por nós, nos desse o seu espírito de amor. Na véspera do sacrifício na Cruz, Jesus mesmo pede ao Pai pelos seus discípulos e por todos os que acreditavam nele, para que
sejam um só, uma comunhão viva”.
Como vimos anteriormente, a expressão “vida trinitária” faz uma analogia com a Santíssima Trindade e isso ocorre com o objetivo de introduzir um conceito “novo” sobre a unidade. Ou seja, dentro do contexto do Movimento, a expressão “unidade” não significa apenas junção, homogeneidade, uniformidade, coesão, mas algo bem mais complexo. Para entender este novo conceito de unidade é necessário penetrar na concepção sobre a Santíssima Trindade presente nas escrituras cristãs. A unidade
significa, portanto, conviver harmoniosamente com o diferente, fazendo das diferenças um dom, um elemento de crescimento recíproco; em outras palavras, a palavra unidade tem um papel relevante no texto: destacar a idéia da união dos povos, de toda humanidade.
Todos esses valores colocados em destaque por Lubich, como a concepção sobre Deus e o desejo de viver pela unidade da humanidade, espelhando-se na Santíssima Trindade, estão ligados à espiritualidade do Movimento e compõem, segundo o editorialista, o “ideal” que foi descoberto pelas jovens trentinas.
De forma sucinta, o editorial destaca a axiologia do Movimento através da história das primeiras focolarinas, afirmando que o “ideal” descoberto fazia parte de um projeto de vida de algumas jovens que, em pouco tempo, se tornaram um “verdadeiro povo”, como afirmou João Paulo II.
Isso tudo está em estreita sintonia com o pensamento bakhtiniano que afirma que os discursos estão todos interligados, sendo, portanto, o dialogismo a própria condição do sentido do discurso.
[Aquela tragédia de enormes proporções era o marco, o cenário, que dava realce à poderosa verdade que elas haviam descoberto, fazendo dela a única resposta possível diante de tamanho ódio, que parecia condenar a humanidade a permanecer no silêncio e na desesperança.]
Neste grifo, o editorial coloca em destaque a descoberta de Deus feita pelas jovens trentinas. Certamente todas elas, católicas, conheciam a realidade de Deus, como cristãs que eram, mas o texto não está falando de um conhecimento intelectual sobre a figura do Criador e sim de uma nova concepção sobre a divindade de Deus e tendo o Criador como ideal de vida:
O meu ideal, embora tendo um grande amor a Deus, era o estudo. Gostava muito de filosofia. Mas, devido aos empecilhos trazidos pela guerra, não pude continuar estudando. Parecia realmente que Deus quisesse dar-nos uma lição através das circunstâncias, mostrando que tudo é vaidade das vaidades, que tudo passa. Ao mesmo tempo, dentro de mim, sentia-me impelida a oferecer minha vida – a única que possuía – por um ideal que jamais
passasse, que nenhuma bomba conseguisse destruir. Falei com minhas companheiras e elas entenderam qual era esse “ideal”, era Deus. Então decidimos juntas fazer de Deus o único ideal da nossa vida. (Lubich, p. 14, 1988).
[Ainda hoje, frente ao sangue derramado continuamente no Oriente Médio e nas diversas guerras no mundo, aquela convicção das primeiras focolarinas de que “tudo pode desmoronar” torna-se extremamente atual.]
Como o Movimento teve início durante a Segunda Guerra Mundial, e isso é dito no editorial, é natural que os leitores interpretem esse trecho grifado como fazendo referência apenas às construções e objetos demolidos pelas bombas. Entretanto, através da intertextualidade com textos dos Focolares, nota-se que a expressão “tudo pode desmoronar” tem uma significação bem mais ampla.
Na verdade, a informação central não é o demolição das paredes de concreto e sim o desmoronamento dos sonhos daquelas jovens que deram início ao movimento. A maior evidência do que estamos afirmando são as aspas contidas na expressão, que revelam que o editorialista está fazendo uma referência a Lubich. Portanto, há uma intertextualidade em sentido restrito e explícito com muitos livros em que a fundadora do Movimento narra o histórico dos Focolares, como por exemplo no livro “A aventura da unidade”:
A guerra continuava com sua destruições e, enquanto isso, minhas companheiras e eu procurávamos dar um sentido à nossa vida.
Todos os nossos jovens ideais desmoronavam: uma delas, que estava para formar uma família, recebeu a triste notícia de que o noivo morrera na frente de batalha. Outra, que estava interessada nos estudos, não podia continuá-los por motivos causados pela guerra. Aquela, que pretendia montar uma bela casa, encontrou-a destruída pelos bombardeios. A outra que…
Cada uma percebia que tudo aquilo a que havia se dedicado de corpo e alma estava tremendamente comprometido. Ao mesmo tempo, porém, justamente pela destruição da guerra sentíamo-nos convidadas a aprender uma grande lição: ‘Tudo é vaidade…’. Tudo passa. Portanto não podíamos entregar sem reservas o coração a coisas transitórias. (Lubich, p48, 1991).
Portanto, nesse trecho, fica evidente que, sem o dialogismo com os textos ligados aos primórdios dos Focolares, o leitor poderia percorrer numa fronteira perigosa, completamente distante daquela pretendida pelo editorialista.
[Os fatos e a história confirmam a nossa convicção de que, para sanar as profundas dificuldades de relacionamento entre mentalidades, entre povos, entre culturas, entre religiões, existe um único remédio: “Fazer de toda a humanidade uma só família, tendo Deus como Pai e todos os homens como irmãos”, como disse Chiara.]
Nesse parágrafo, o texto está intertextualizado de forma explícita com o discurso da fundadora do movimento. É interessante observar que ela é chamada pelo primeiro nome, “Chiara”. Essa prática não é muito habitual no mundo jornalístico, no qual comumente se utilizam apenas os sobrenomes depois da primeira citação,