O corpo está no centro de toda relação de poder. Mas o corpo das mulheres é o centro, de maneira imediata e específica. Sua aparência, sua beleza, suas formas, suas roupas, seus gestos, sua maneira de andar, de olhar, de falar e de rir (provocante, o riso não cai bem às mulheres, prefere-se que elas fiquem com as lágrimas) são objeto de uma perpétua suspeita. Suspeita que visa o seu sexo, vulcão da terra. Enclausurá-las seria a melhor solução: em um espaço fechado e controlado, ou no mínimo sob um véu que mascara sua chama incendiária.173
Proibidas de expor sua opinião publicamente em assuntos que certamente as interessavam, pelo sim ou pelo não, foram tratadas com desrespeito em diversas oportunidades.
Em certa ocasião, um pai enviou carta ao jornal denunciando a realização de um banquete no qual as, sobremesas levariam os nomes de moças trabalhadoras da Escola Normal, Ginásio e do Posto de Saúde:
Chegou ao meu conhecimento – como se tornou público em toda a cidade – que estava em preparo aqui em Piraju um grande banquete a ser realizado no domingo atrasado, dia 2, caso o Snr. Governador do Estado renunciasse a seu cargo – como se esperava – e o Snr. Vice-Governador o substituísse naquelas funções. Seriam participantes desse banquete os próceres do Partido Social Democrático, local, idealizadores do festim e o cardápio seria composto de vários pratos que iriam receber os nomes dos funcionários públicos estaduais, nomeados pelo atual governo do Estado, para esta cidade. Comentou-se, com ironia, com muita maldade e muita malícia, publicamente por ai, que os vários funcionários do sexo feminino da Escola Normal e Ginásio e do Posto de Saúde figurariam como os pratos de ‘SOBREMESA’. Essas funcionárias, nominalmente citadas publicamente, uma por uma, se constituem de moças e de senhoras casadas, quase todas professoras públicas, pertencentes a famílias mui dignas e radicadas, quase em sua totalidade, nesta cidade. Uma delas – minha filha – embora natural da capital do Estado, aqui se acha radicada há mais de 4 anos, formou-se pela Escola Normal, daqui, em 1948, em primeiro lugar, premiada pelo Estado e aqui se consorciou com filho de criação de Piraju. O Snr. Prefeito local, dirigente do Partido Social Democrático que seria o principal participante do banquete, foi o paraninfo da formatura dessa turma de minha filha...174
173 PERROT, Michelle. As mulheres ou os silêncios da história. Bauru, SP: EDUSC, 2005. pp.317- 318.
174 CARTA DE BENEDITO TAVARES DE TOLEDO. Jornal O Comércio de Piraju, Piraju, p.2, 16 abr. 1950.
O ataque não era exclusivo nem restrito às mulheres, mas aos funcionários com cargos de nomeação. Ainda quando destratadas, a elas não se reservava o status (de prato) principal, mas de suplemento, de sobremesa, que é servida depois e guarda características de beleza, doçura e prazer próprias das representações do feminino.
Se havia falta de respeito mesmo em se tratando de moças e senhoras de “mui dignas famílias”, quando quem sofria o abuso pertencia a camada popular, a situação era pior ainda, como ocorreu no caso de uma menina que foi sexualmente abusada pelo pai. Por não ter ocorrido com algum representante da elite local, o fato se tornou motivo de piadas e deboches nas rodas da “high society”.
Lamentável. Humilhante. Degradante. É a ‘chacota’, são os ‘xistes’ que se fazem com o caso, que é a vergonha de uma sociedade, que é o reflexo de uma época de horror, sofrimento e promiscuidade que a maioria sofredora vive. Piadas na rua, piadas no cinema, piadas no circo... sobre uma menina de 13 anos que teve o infortúnio de ser infelicitada pelo próprio pai. Silêncio em respeito à menina, em respeito à esposa, em respeito aos irmãozinhos... em respeito às nossas famílias...175
Não só para as mulheres violentadas moral ou fisicamente a cidade se apresentava pouco acolhedora. Mães solteiras e mulheres largadas também sentiram na pele o preconceito. Conceição Martini, nossa personagem retornou à “Cidade-Jardim”, com três filhos para criar sozinha, pois aqui se encontrava parte de sua família e de seu ex-marido. Não que Piraju fosse essencialmente acolhedora com mães solteiras...
Muito eram os casos de mães solteiras na cidade, fato justificado por ser Piraju “uma cidade em crescimento, com elevado número de operários, situada na passagem do trânsito inter-estadual”.176 Tal argumentação demonstra a esquiva em
reconhecer o problema da sociedade pirajuense como um todo, ao ler tais discursos
175 SILÊNCIO POR FAVOR (Coluna Espinafre). Ibidem, p.6, 05 dez. 1959.
176 O não-reconhecimento do elemento popular na constituição social da cidade se dava não somente com as mães solteiras, também os operários e operárias moradores do bairro Jurumirim, que na época era majoritariamente habitado por essa parcela da população sentiram na pele o preconceito. Coibidos de adentrar aos bailes da alta sociedade por não trajarem roupas como as da elite e claro, por desejarem freqüentar um “ambiente selecionado” que não lhes pertencia: “Uma coisa que anotei e não posso deixar de observar, é sobre o pessoal da Jurumirim que também se achava presente [num baile de carnaval]. Será que a Jurumirim virou festança e o Clube ‘9 de Julho’ trabalho? Ou será que traje de trabalho é também traje ‘esporte’? Creio que não! o ‘it’ principal de uma sociedade é o ambiente selecionado “. SOCIETY. Jornal O Comércio de Piraju, Piraju, p.2, 13 fev. 1960.
temos a impressão que a questão não tem relação com a cidade em si, como se os operários e os populares não a compusessem. Não havia estrutura para ajudar mulheres que porventura engravidassem sem marido. A única instituição que abria suas portas era o Asilo, que mesmo assim não era apropriado para tal função.
Seguidamente, surgem famílias sem o seu chefe natural e sem um determinado destino... (...) Mães, com filhos menores, que são os casos mais freqüentes, após procurarem as devidas autoridades, as quais, aqui na cidade não dispõem de organizações adequadas, vêm ao Asilo, como a única apropriada instituição de caridade em função.177
Numa sociedade que se orgulhava das riquezas geradas pelo café, a pobreza mostrava sua face cruel especialmente entre as mulheres, que constituíam a grande parcela dos miseráveis que se dirigiam até a Prefeitura Municipal para esmolar.178
As restrições eram feitas aos seus corpos, seus sexos e suas bocas. O direito à palavra é e sempre foi masculino. As mulheres falavam, mas não em público. Na esfera pública a palavra pertencia somente a eles.
As mulheres falam, inicialmente entre elas, na sombra do gineceu ou da casa; mas também no mercado, no lavadouro, local de mexericos temido pelos homens que tem medo de suas confidências. (...) As mulheres contam, dizem – e maldizem – cantam e choram, suplicam e rezam, clamam e protestam, tagarelam e zombam, gritam e vociferam. (...) Mas sua palavra pertence à vertente privada das coisas... (...) O que é recusado às mulheres é a palavra pública.179
Sobre quais assuntos homens e mulheres podiam tratar? Aos homens competiam aqueles de interesse público, de “importância”. Banalidades, trivialidades
177 Ibidem, p.1, 13 fev. 1960.
178 “Tivemos já a oportunidade de escrever sobre o grande número de pedintes que comparecem diariamente ao gabinete do Prefeito, para solicitar auxilio. Em maior número de casos, são mulheres quase sempre acompanhadas de crianças”. A POBREZA IMPERA. Ibidem, p.1, 08 fev. 1964.
é que eram assunto de mulheres, que não deviam ocupar-se dos assuntos masculinos, mas sim da casa e no máximo em escrever “receitas de pudim”.180
Quando se reuniam às soleiras das portas eram classificadas de “fuxiqueiras e causadoras de intrigas”.
Um esclarecimento por desencargo de consciência... O C.M.F (Centro Municipal de Fuchico) do descidão da rua Cerqueira César (elas se reconhecem) é constituído só de saias, quero dizer sexo feminino. Masculino não. [...] Homem não.181
Tal atitude demonstra que o lugar da conversa feminina era da porta para dentro da casa, da igreja ou das reuniões sociais. A rua para elas era lugar de silêncio. Além disso, os assuntos a serem por elas tratados deviam estar relacionados às benesses que podiam proporcionar às suas famílias, à cidade e à Nação.
Essa mulher, que não tinha direito à palavra pública, precisava ser ensinada e controlada cotidianamente. Afinal, o lugar de “mulheres de respeito” não era à soleira das portas, fazendo fofocas, mas sim, no reduto do lar, cuidando da casa, marido e filhos e para isso era necessário disciplinar também a alma feminina.