3. DEĞERLEME KONUSU GAYRİMENKULÜN MÜLKİYET HAKKI VE İMAR BİLGİLERİ
3.4 DEĞERLEME KONUSU GAYRİMENKULÜN VARSA SON ÜÇ YILLIK DÖNEMDE MÜLKİYET VE İMAR DURUMUNDAKİ
A cidade não pode ser pensada no singular, já que é lugar de convivência da diversidade. Pacífica ou conflituosa, ela se apresenta nas diversas imagens, sons, ritmos, cheiros, cores, sabores que podemos apreender dela. A cidade é lugar de beleza e de massacre, de natureza e de progresso, de cooperação e enfrentamentos, do cultural e natural, de proteção e insegurança, de influências diversas e resistências, de multiplicidades e de solidão, de opulência e medo, de coronéis e política, de ruas de terra e avenidas de asfalto, de casas antigas e projetos modernos, de repressão e liberdade.
Nos 14 anos a que se referem esta pesquisa, Conceição Martini testemunhou a ascensão de quatro prefeitos ao poder, a passagem de três párocos pela Paróquia do São Sebastião do Tijuco Preto, o aparecimento e desaparecimento de um jornal de publicação regular (O Comércio de Piraju, que circulou de 1935 a 1938, e posteriormente, de 9 de abril de 1944 a 31 de dezembro de 1964)60.
Presenciou as grandes inaugurações públicas da energia elétrica, de cinemas, praças, jardins e fontes, do calçamento e, além disso, inúmeras tentativas de resolver os problemas referentes à falta d’água e a posterior chegada da água encanada à maioria dos bairros do município, as orquestras tocando na praça Ataliba Leonel e os footings da juventude no mesmo local, pelo qual passava todos os dias em seu caminho de casa à Escola Normal.
Viu também a febre de transformar a cidade de feições antigas numa outra, de aspecto moderno, através do incentivo à construção de prédios residenciais e comerciais que se adequassem às regras da arquitetura moderna, da abertura de
60 Outros jornais surgiram na cidade após o fechamento de O Comércio de Piraju. A saber: A Folha
de Piraju, surgida em 8 de julho de 1965, o Observador, fundado em 31 de maio de 1990 e O Expresso, também fundado na década de 90. Todos em circulação atualmente.
largas avenidas e da instauração de medidas de saneamento por muitas vezes, repressivas e eugenistas.
Sentiu ainda, as facilidades advindas das inovações tecnológicas e os apelos da modernidade veiculados nos anúncios de jornal. Vivenciou principalmente os reflexos dessa modernidade no cotidiano feminino “porta adentro”, como sugere Maria Izilda Santos de Matos61.
A Piraju apresentada pelo único jornal em circulação neste período, pelo vídeo de caráter institucional promovido pela prefeitura, partidos políticos e por fazendeiros e comerciantes e ainda pelos livros de Constantino Leman – editor de O Comércio de Piraju, é uma cidade que desejava ser moderna e conviveu com tentativas de modernização ao mesmo tempo em que persistiram ranços de seu passado conservador/ coronelista.
Professora Conceição Martini retornou a Piraju no mesmo momento em que Getulio Vargas voltava à Presidência da República pelo voto popular, mesmo contra a vontade e todos os lamentos daqueles que haviam se unido para derrotar o “ditador” 62, para recomeçar sua vida nova. Sozinha e com seus três filhos para criar. O final da década de 40 e o início dos anos 50 trouxeram para Piraju, dentro do pensamento modernizador que atravessou o país, um desejo de progresso, de futuro. Mas o modelo de modernização brasileiro não era qualquer um: era de cunho conservador em suas estruturas, baseado num populismo multifacetado de governantes como Getúlio, Juscelino, Jânio e Jango, isso sem contar as lideranças estaduais e municipais que seguiam à risca os mesmos princípios.63
Piraju não estava sozinha nessa ânsia de modernização conservadora. Inspirada pelo governo JK e seus “50 anos em 5” e seu apelo nacional- desenvolvimentista, a cidade recebeu cara nova com construções de casas, praças, fontes, produtos e serviços. Ganhou ainda um apêndice ao nome: “Cidade jardim”.
61 Ver: MATOS, Maria Izilda Santos de. Porta adentro. Criados de servir em São Paulo de 1890 a 1930. In: BRUSCHINI, Cristina & SORJ, Bila (orgs.) Novos olhares: mulheres e relações de gênero no Brasil. São Paulo: Marco Zero, 1994.
62 GOMES, Ângela de Castro. A política brasileira em busca da modernidade: na fronteira entre o público e o privado. In: SCHWARCZ, Lilia (org.) História da vida privada no Brasil: contrastes da intimidade contemporânea. vol 4. São Paulo: Cia. Das Letras, 2000. p.539.
Enquanto no Planalto Central, Brasília ia tomando forma graças ao trabalho de milhares de migrantes nortistas e nordestinos, Piraju ganhou a Brasilinha – a praça recebeu o apelido pela rapidez com que foi construída.64
A década de 50 iniciou-se em Piraju aos brados da reconstrução e da retomada do crescimento perdido desde a crise do café que sempre foi (e permanece sendo) a base da economia local. Discurso que perpassou a história da cidade durante todo o período estudado e cujos ecos ainda podem ser ouvidos na Piraju atual.
Na década e meia pesquisada, questões envolvendo a modernização foram constantes nos jornais, documentos, leis municipais que ajudaram a descortinar as vivências e preocupações que se fizeram presentes na cidade durante o período65:
Piraju, destarte, dentro da mesma simbiose demográfica que felizmente caracteriza quase todas as cidades paulistas, é obra comum de brasileiros, italianos, espanhóis, portugueses e sírio-libaneses, nessa festa de raças que marca bem o nosso ‘facies’ étnico. Todas essas raças, no século passado, se mesclaram em audaciosa ‘bandeira’ à margem esquerda do rio Paranapanema, no pouso humilde de Tijuco Preto, para edificarem juntas, no decurso dos anos, através de lutas e sacrifícios sem conta, uma cidade moderna, bonita, aprazível, com lindas praças ajardinadas, com telefone, luz, água e esgotos, instituições filantrópicas e culturais, campo de aviação, comércio sólido, agricultura ativíssima, somando enfim, uma célula dinâmica e rica sobremodo atuante na grandeza do Estado-líder.66
Para atestar a onda de crescimento anunciado e a modernização que viria com ele, manchetes estampavam em primeira página a “reentrada pirajuense na senda do progresso”, prenunciando o aumento do número de construções tanto de casas quanto de prédios comerciais, a instalação de novas fábricas, o potencial elétrico, a fertilidade de suas terras nas quais “se plantando, tudo nascia”.
64 A preocupação com o embelezamento da cidade, através da construção de “novas e modernas” residências, dentro do movimento que mobilizou arquitetos e urbanistas por todo o país, motivados pela utopia de remodelar as velhas cidades transformando-as em cidades modernas, planejadas, funcionais e belas para o desfrute das elites e das camadas médias urbanas foi uma constante no período pesquisado. A um arquiteto de nome Alessandro Chiappero se atribuiu a grande responsabilidade pela modernização da cidade ao modificar sua fisionomia através dos projetos do edifício da Prefeitura Municipal inaugurado em 1959 e de várias residências e prédios comerciais da cidade.
65 Para tanto foram analisados 14 anos do Jornal O Comércio de Piraju e o Código de Posturas,
Costumes e Bem-Estar do Município de Piraju, entre outras fontes que constam nas Referências Bibliográficas ao final deste trabalho.
Previsões sobre a supremacia pirajuense também eram freqüentes, apontando que a cidade logo alcançaria lugar de destaque sobre as demais que compunham a Alta Sorocabana. Tais presságios eram sempre justificados por números e fatos: as 77 fábricas presentes na cidade, as máquinas de beneficiamento, a produção de cereais e a exportação de aguardente, refrigerantes, calçados, artefatos de matérias de origem vegetal e animal, fogos e uma série de artigos de “boa aceitação no mercado”, eram afirmadas como valores que vinham pesar na balança comercial do município, aumentando-lhe a riqueza.67
Apesar de todo o alarde, eram tímidos os resultados reais e as previsões nunca chegaram a se concretizar. No final da década de 50, ainda faltavam na cidade “residências bonitas, modernas que valorizassem grandemente a fisionomia urbana”, uma casa de carnes, um moderno entreposto para a distribuição do pescado abundante do Paranapanema, um ‘jazz’, uma estação de rádio, serviços de transporte urbano fáceis e cômodos.68
O processo modernizador de Piraju esteve intimamente ligado com o embelezamento urbano através da construção de novas casas e edifícios, da abertura de avenidas largas, da instauração de medidas de saneamento e repressão e das tentativas de resolução dos problemas referentes ao calçamento urbano e à falta d’água.
Desde o início dos anos 50, o problema habitacional foi uma constante na vida da cidade. Para ajudar a solucionar o problema, a prefeitura passou a oferecer plantas gratuitas para a construção de casas. As plantas “de dois ou três dormitórios, de fachadas modernas e bonitas” foram escolhidas pelo prefeito “com a finalidade de possibilitar a todos os pretendentes para construção de residência uma planta conveniente, sendo que a Prefeitura não permitia construções sem planta”.69
67 O crescimento da cidade é averiguado pelo número de construções. (...) Piraju como ponto de
convergência de vasta região do País, está passando por notável surto de prosperidade, sendo até lisonjeiros os prognósticos a respeito de sua supremacia, em futuro próximo, sobre as demais cidades da Alta Sorocabana. (...) Pela sua localização e com o potencial elétrico que possui, Piraju poderá ser o maior centro comercial e industrial da região. Suas terras férteis produzem tudo. (...) Piraju cresce, em todo sentido. A cidade amplia suas avenidas, rasga terrenos baldios para construções, acelera o ritmo de progresso, moderniza o seu aspecto, não pode fugir ao destino que lhe está traçado. PIRAJU CRESCE. Jornal O Comércio de Piraju, Piraju, p.6, 02 julho 1950. Grifo nosso.
68 1958 VERSUS 1957. Jornal O Comércio de Piraju, Piraju, p.6, 28 dez. 1957. Apesar dos anos 50 serem considerados a década do rádio, em Piraju somente em 09 de outubro de 1960 é que foi inaugurada a Rádio Difusora, após anos de campanhas e promessas.
69 Os populares eram quem mais sofriam com a falta de moradias modestas, com preços acessíveis, visto que a preocupação da elite local era somente com a construção de casas luxuosas e modernas.
Já temos focalizado este assunto: a necessidade de se construírem em Piraju casas residenciais. Não palacetes, mas casas. Também, não cortiços, pois, já estão sobrando, e seria mesmo conveniente uma intervenção do poder público no sentido da sua proibição. Enquanto se permitir a construção de cortiços, não haverá construções decentes.70
Para além do incentivo às novas construções de residências modernas quanto das cobranças por moradias populares, outra questão presente no período e que pode ser visualizada através das leis municipais e das constantes referências feitas pela imprensa e discursos dos candidatos em época de eleições dizia respeito ao calçamento das ruas e passeios públicos, que até o fim da década de 50 e atravessando os anos 60, não passavam de caminhos de terra batida que ao menor sinal de chuva transformavam-se em verdadeiros lamaçais intransitáveis.
Era já velho sonho do pirajuense, ver Piraju ostentando, como várias outras cidades do interior, a beleza e o conforto do seu devido calçamento. Muito justa aspiração de um povo civilizado, ordeiro, e trabalhador como este da boa terra, cuja fama de progresso batia record em outras eras. Piraju possuía quase tudo, mas, para completar seu ritmo de progresso e melhoramento faltava-lhe o embelezamento de suas ruas pelo necessário calçamento.71
O processo modernizador incluía não só obras de embelezamento da cidade tais quais o incentivo à construção de edifícios modernos e leis para regulamentar o espaço urbano, como também medidas repressivas de combate a velhos hábitos considerados anti-estéticos ou anti-higiênicos.72
Os apelos pela construção de casas acessíveis aos populares era justificado pelo fato de que nenhuma iniciativa que viesse a depender da mão-de-obra trabalhadora podia ser levada adiante já que não havia onde acomodar os braçais que eram necessários para concretizar os planos de modernização da cidade. A superlotação e a absoluta falta de higiene das habitações populares consistia em entrave para o progresso da cidade. Jornal O Comércio de Piraju, Piraju, p.1, 27 out. 1956; CASAS, CASAS E MAIS CASAS! Idem, Piraju, p.1, 01 jun. 1957.
70 POPULAÇÃO E MORADIAS. Jornal O Comércio de Piraju, Piraju, p.4, 03 mai.1958. 71 Jornal O Comércio de Piraju, Piraju, p.1, 07 mai. 1950.
72 Apesar das iniciativas com intuito de inovar a face da cidade, os problemas de habitação eram presentes e constantes, tanto pela escassez de moradias, quanto pela proliferação de cortiços, que iam contra as medidas saneadoras-modernistas que vigoravam com força neste momento. O foco desejado eram as construções de “bonitas residências”. Foram encontradas diversas cobranças para que o poder público proibisse a construção de cortiços e responsabilizasse os moradores que mantinham passeios estragados, portões quebrados e deixavam água esguichando de buracos nos muros em dias de chuva. A CIDADE E SEU ASPECTO EXTERNO. Jornal O Comércio de Piraju, Piraju, p.2, 04 fev. 1961.
Cuidei bastante da limpeza pública. As ruas estão varridas, retirei da cidade o lixo acumulado pelas gerações que por aqui passaram; incinerei monturos imensos, que a Prefeitura não tinha recursos suficientes para remover.
Houve lamúrias e reclamações por se haver mexido no cisco preciosamente guardado em fundos de quintais; lamúrias, reclamações e ameaças porque mandei matar algumas centenas de cães vagabundos; lamúrias, reclamações, ameaças, guinchos, berros e coices dos fazendeiros que criavam bichos nas praças.73
As palavras acima, extraídas de um relatório de Graciliano Ramos enquanto prefeito de Palmeira dos Índios e responsável pelo seu descobrimento como escritor, datam de 1928 e trazem em si condições importantes para o processo de modernização: saneamento, limpeza pública e combate a velhos hábitos considerados anti-higiênicos, como a criação de porcos, cães e gado pelas praças e ruas.
Não só a presença de cães e gado solto nas ruas e porcos de engorda nos quintais foram proibidas, mas também a de migrantes nortistas e nordestinos como o era Graciliano Ramos.
Modernizar incluía o saneamento da cidade, através de medidas repressivas à padrões/comportamentos considerados “atrasados” como a criação de porcos nos quintais tanto da zona urbana quanto da suburbana, sob pena de multa para quem desrespeitasse tal determinação74; outras medidas como a obrigatoriedade de comunicar ao Centro de Saúde todos os casos de moléstias transmissíveis (mesmo as já tratadas), as chamadas “doenças que pega” e a proibição expressa do “estacionamento de caminhões que transportavam famílias do Norte, dentro do perímetro urbano da cidade”75, demonstram além da preocupação com a higiene e
73 RAMOS, Graciliano. Relatórios do prefeito de Palmeira dos Índios. In: Vivente das Alagoas. Rio de Janeiro: Record, 1962. p.30.
74 Em setembro de 1952, os senhores Vicente Laino e Bertholdo Ferreira de Campos, ambos residentes à Rua Cerqueira César, foram autuados por terem porcos de engorda no quintal de suas residências. Apesar das multas e até ameaças de prisão, vários foram os episódios de reincidências neste delito, o que demonstra que tais ações de saneamento e repressão não eram aceitas com passividade pelos populares. Jornal O Comércio de Piraju, Piraju, p.1, 07 jul. 1952.
75 O senhor Bartolomeu de Andrade Silva em carta enviada ao jornal, criticou a decisão do chefe do Centro de Saúde, que proibiu expressamente a entrada na cidade de caminhões que traziam pessoas vindas do Norte do país. Dizia que se fosse para evitar a contaminação por doenças contagiosas, as autoridades sanitárias de cidades mais desenvolvidas como a capital paulista e Itapetininga teriam tomado medidas semelhantes, mas não o fizeram e que também não foram tomadas medidas como esta em relação aos caminhões de transporte de porcos e galinhas, cujo odor exalado era bem inconveniente. Cidade de imigrantes, sobretudo italianos, sírios, libaneses e espanhóis, as autoridades pirajuenses consideravam os migrantes nordestinos mais inconvenientes que os suínos. FAMÍLIAS DO NORTE. Jornal O Comércio de Piraju, Piraju, p.2, 22 mai. 1952.
saneamento da cidade, um preconceito e o medo da contaminação pelos que vinham “de fora”.76
Afinal não adiantava modernizar as cidades, se as pessoas que lá moravam não passassem por uma reforma nelas mesmas. Ou seja, os hábitos e comportamentos deveriam também ser modernizados, porém, nem toda a sociedade estava incluída neste projeto. Apenas as pessoas das classes abastadas faziam parte desta modernização.77
Em julho de 52, o diretor do Centro de Saúde veio a público alertar para o perigo dos cães soltos pelas ruas, já que o número de casos de hidrofobia já hia passado de 20. Para resolver a situação e conter o surto de casos de raiva no município, foram propostas medidas de controle e fiscalização78, como o licenciamento do animal mediante pagamento de uma taxa em cujo preço estava incluída “uma focinheira com placa numerada e a vacina preventiva anti-rábica a ser aplicada exclusiva e obrigatoriamente pela Prefeitura Municipal”.79
E o último, mas não menos importante, dos pontos apontados como indispensáveis para a modernização pirajuense foram as tentativas de resolução dos problemas ocasionados pela falta d’água.
76 Tais medidas estiveram fortemente presentes e podem ser visualizadas no jornal em circulação no período e nas leis do Código de Posturas, Costumes e Bem-Estar do Município.
77 GELLACIC, Gisele Bischoff. Bonecas da moda. Um estudo sobre o corpo através da moda e da
beleza. Revista Feminina (1915-1936). Dissertação de Mestrado. São Paulo: PUC, 2008. p.11.
78 Jornal O Comércio de Piraju, Piraju, p.4, 19 jul. 1952. Sobre este assunto ver: Código de Posturas,
Costumes e Bem-Estar do Município de Piraju, artigos 283, 284 e 285 e seus parágrafos e incisos.
79 Entre as medidas de saneamento instauradas na cidade, o recolhimento de cães sem identificação a um local onde eram mantidos por alguns dias para serem reclamados e vacinados após as devidas taxas serem pagas pelo proprietário e caso não o fossem, serem exterminados não foi bem aceita entre a população. A imensa maioria dos cães que vagavam pelas ruas pertencia a pessoas da classe operária, impossibilitada de despender qualquer quantia pelo registro dos animais que acabavam exterminados sem que ninguém reivindicasse sua propriedade. Em setembro de 57, um funcionário do serviço de recolhimento de cães foi agredido por um proprietário que não desejava ter seu cão levado pela carrocinha. Ainda em relação a medidas regularizadoras de saúde e higiene, em janeiro de 56, a prefeitura municipal estabeleceu pontos para estacionamento de charretes, visando “diminuir a concentração desses veículos na Praça Ataliba Leonel, do que resultava graves transtornos à higiene local” e anunciou a apreensão de animais encontrados dentro do perímetro urbano. Cães e porcos representavam riscos de contaminação, já o gado solto pela cidade era uma preocupação antiga devido ao perigo que representava aos transeuntes; não raros eram os casos de estouro das boiadas e pisoteamento. As crianças e os populares da Vila Tibiriçá eram os que mais sofriam com a situação que demorou a ser controlada. Reclamações e protestos populares durante toda década de 50 e invadindo os anos 60 ponteiam a dificuldade em resolver o problema. Jornal O Comércio de Piraju, Piraju, p.1, 14 jan. 1956; p.1, 21 jan. 1956 e p.1, 14 set. 1957.
Água que por ventura era (e continua sendo) abundante no entorno da cidade erguida às margens do Rio Paranapanema e atravessada por dezenas de córregos e ribeirões, mas mostrava-se sempre escassa nas torneiras.80
A falta d’água apareceu junto com os encanamentos recém-inaugurados e os moradores da rua Major Mariano, uma das principais da cidade e por onde trafegava o bonde, reclamavam que apesar do calçamento e encanamento novos, a água antes escassa, mas certa, havia deixado de existir.81
Em 1956, o prefeito eleito Joaquim Camargo, voltou de uma viagem a São Paulo, com garantias de que as obras da rede de água e esgoto e a construção da praça de esportes logo seriam iniciadas, com os recursos do empréstimo conseguido na gestão anterior para essa finalidade que encontrava-se parado à espera dos estudos pela Secretaria de Viação e Obras Públicas do Estado de São Paulo.82
Os anúncios das obras da estação de água e da instalação de uma nova usina hidrelétrica83 foram suficientes para engrandecer os ânimos, que viram a certeza da modernidade tão sonhada aproximando-se ao barulho das águas.
A abundância d’água e consequentemente, de energia elétrica, deviam acarretar o desenvolvimento econômico e a expansão sem medidas para a cidade, já que muitas indústrias eram esperadas para se instalarem, aumentando não só sua riqueza quanto sua população. Mais que isso, a água ajudaria a cidade a disciplinar hábitos (seus e dos seus cidadãos), como era desejado numa cidade moderna.84
80 Durante o período estudado, a água mostrou-se quase que artigo de luxo, principalmente naquelas casas situadas nos bairros mais altos em relação ao rio. Dentre esses bairros, foi possível notar que a Vila Tibiriçá ficou sempre relegada ao último plano, quando das tentativas de resolver o problema. Os problemas de falta d’água, encanamento e saneamento básico ficaram pendentes até depois do ano 2000 no bairro popular mais antigo da cidade.
81 DAÍ-NOS ÁGUA, CARTA ANÔNIMA DE UM MORADOR DA RUA MAJOR MARIANO. Jornal O