Façamos a distinção entre as duas formas de DR analisadas: o DD e a “ilha textual em DI”.
No primeiro caso, encontramos exemplos que confirmam que a seleção de um determinado trecho em DD em detrimento de outro já revela uma interpretação pelo interesse daquilo que deve ser informado. Muitos são os casos, também, que confirmam o uso do DD com o objetivo de criar distanciamento do dito ou para criar um “efeito de autenticidade” (Maingueneau, 2004). Notamos, ainda, diferenças no uso do DD com ou sem verbo de elocução. Sem o verbo, existiu uma tendência em empregá-lo como comprovação do DI imediatamente anterior e, com o verbo de elocução, a interpretação do DD foi condicionada por ele. Nos dois casos, entretanto, o emprego do DD mostrou-se essencialmente argumentativo e a ausência do verbo de elocução não tornou a interpretação do DR mais “neutra”, como poderíamos supor.
Nos casos de “ilha textual em DI”, várias foram as razões para que o enunciador do discurso citante conservasse alguns elementos não-traduzidos no DI, como o emprego de neologismo, expressões populares ou com forte carga emotiva, mas prevaleceram as razões de caráter argumentativo: ênfase, ironia, persuasão. A grande contribuição, porém, que esta análise vem dar, é a confirmação, por meio de vários exemplos, dos postulados teóricos acerca da teoria da enunciação, principalmente no que diz respeito à afirmação de que os atos
de enunciação são únicos, impossíveis de serem reproduzidos, e citá-los numa outra enunciação implica na criação de novas enunciações. Foram muitos os exemplos da análise em que se criaram, por meio desse expediente, discursos distintos: o que era argumento favorável, por exemplo, transformou-se em argumento contrário.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Este trabalho teve por objetivo analisar o percurso de uma entrevista, desde o momento em que ela é concedida, portanto na modalidade oral, até a sua publicação no jornal, já em sua modalidade escrita, para verificar possíveis mudanças em seu conteúdo, analisando, para isso, algumas estratégias lingüístico-discursivas, e levando em consideração o fato de que tal análise acaba por abranger três discursos distintos: o discurso da imprensa para o seu leitor, o discurso da pessoa entrevistada na perspectiva do jornalista e o discurso da pessoa entrevistada na perspectiva dela mesma. São esses três discursos que, em vários momentos vão se opor, de acordo com os interesses do jornal.
Para a realização do trabalho, propusemo-nos a verificar, em primeiro lugar, as modificações concernentes à passagem do oral para o escrito, a chamada retextualização, baseados no fato de que essa passagem produz mudanças significativas no sentido que o enunciador quis conferir ao seu enunciado. Para isso, enfocamos as operações de substituição, de eliminação, de acréscimo e de tratamento dos turnos. Baseando-nos, principalmente, nos estudos de Marcuschi (2003) e comparando nossos corpora oral e escrito, pudemos verificar que, em alguns momentos, tais mudanças realmente existiram.
Nas operações de substituição, a que menos mudanças provocou no sentido do texto, encontramos o caso do exemplo e da 2ª entrevista, cuja substituição alterou o conteúdo do enunciado.
As operações de eliminação, por sua vez, possibilitaram-nos o agrupamento das ocorrências em dois planos: o da (des)continuidade sintática e o da (des)continuidade
discursiva, verificando, no primeiro caso, a eliminação de paráfrases e de repetições, dois
procedimentos de reformulação textual, cujo uso, segundo Barros (1998), tem função persuasiva ou persuasivo-argumentativa, como comprovamos em nosso corpus, no qual, ao se eliminar principalmente as repetições, eliminou-se também toda a força pragmática que o enunciador quis conferir ao seu enunciado. No plano da (des)continuidade discursiva, percebemos uma sistemática eliminação de digressões, cujo emprego pode ser norteado pelos critérios de relevância (Andrade, 2000) ou de “efeito de verdade” (Leite, 2005). Desse modo, tais eliminações interferiram na argumentação do enunciador, assim como as eliminações de palavras com caráter avaliativo, como adjetivos.
Quanto aos acréscimos, notamos o cuidado do jornal em não atribuir ao entrevistado palavras que ele não tenha proferido, mesmo porque é uma das formas mais evidentes de
alteração. Mesmo assim, o exemplo c da 2ª entrevista deixa margem a dúvidas. Por fim, em relação ao tratamento dos turnos, cabe aqui a observação de que a opção do jornal em publicar a entrevista no formato pergunta e resposta acabou por reduzir significativamente a interferência nos turnos, exceto no que concerne a uma estratégia discursiva bastante utilizada pelo entrevistado, que foi a de empregar o DD para referir-se a falas suas ou de outras pessoas ao relembrar os fatos que estava narrando. Nesse caso, houve interferência do jornal, principalmente na eliminação de turnos que reproduziam falas suas e de outras pessoas, comprometendo-se, novamente, o “efeito de verdade” (Leite, 2005) que o entrevistado quis conferir ao seu enunciado.
Desse modo, avaliamos, respondendo à primeira pergunta elaborada em nossa introdução (De que maneira a imprensa escrita transforma uma entrevista oral em escrita, no que diz respeito à seleção das informações?), que o jornal, ao fazer a passagem do oral para o escrito, interferiu de maneira decisiva na força ilocutória dos atos de linguagem do entrevistado, o qual, em posição de acusado, empregou os recursos lingüístico-discursivos analisados como estratégias argumentativas para colocar a opinião pública a seu favor e o tratamento dado pelo jornal ao seu discurso acabou por esvaziá-lo desse seu objetivo, fazendo prevalecer o discurso da imprensa e comprovando que a retextualização pode ser um eficaz instrumento de manipulação da notícia, porque opera por meio de recursos que os leitores, e também os entrevistados, não dominam, e que atuam muito mais no nível discursivo do que no lingüístico.
Para responder à segunda pergunta (Qual o tratamento dado ao DR, no que diz respeito à seleção do DD e da “ilha textual em DI”, além do uso dos verbos de elocução?), fizemos, inicialmente, a análise do uso dos verbos de elocução a partir de sua função e de sua ação no
corpus, seguindo as classes gerais de funções organizadoras apontadas por Marcuschi (1991)
e, no âmbito da ação de tais verbos, acompanhando a proposta de categorização de Gavazzi e Rodrigues (2003). Partimos do princípio de que os verbos de elocução, além de organizar o texto, marcando claramente a fronteira entre o discurso citante e o discurso citado, também agem sobre ele, interferindo na interpretação desse mesmo discurso, uma vez que a seleção lexical pode variar de uma aparente neutralidade até uma explícita avaliação de conteúdo. Por isso, propusemos uma análise comparativa entre os jornais Folha de S.Paulo e O Estado de
S.Paulo, para verificar diferenças significativas na ação dos verbos de elocução, uma vez que,
como já dissemos, a Folha estava comprometida com a fonte da informação e o Estado, não. Desse modo, poderíamos, também, responder à terceira questão (Em que medida podem variar os efeitos de sentido obtidos por diferentes jornais, em que pese o fato de um deles ter
tido acesso a uma fonte exclusiva?) formulada em nossa introdução. Nesse quesito, portanto, a análise mostrou-se bastante satisfatória, uma vez que, como prevíamos, assinalamos diferenças quanto à ação dos verbos de elocução. Na Folha, preferiu-se o uso de verbos como “afirmar” e “dizer”, que agiram criando um “efeito de imparcialidade”, apropriado para o jornal detentor da fonte exclusiva, evitando polemizar ou valorizar positiva ou negativamente a figura do entrevistado. Já, em O Estado, houve o predomínio de verbos como “acusar” e “insistir”, que agiram, respectivamente, polemizando ou valorizando negativamente a figura do entrevistado. Portanto, quanto ao uso dos verbos de elocução, confirmamos que ele pode orientar a interpretação do DD, configurando-se em um eficaz recurso de manipulação de idéias.
O tratamento dado ao DR quando da escolha do DD ou da “ilha textual em DI” foi estudado na terceira parte de nossa análise (item 3.3.) com o título “O uso das aspas”, que são, segundo Maingueneau (2004), “um sinal a ser interpretado”, pois inserem uma enunciação (discurso citado) em outra enunciação (discurso citante), criando, para o DR, quer em DD ou em “ilha textual em DI”, uma nova enunciação. Para a análise do DD, empreendemos uma divisão que levou em consideração a presença ou não de verbo introdutor explícito, pois, se, como confirmamos com o estudo dos verbos de elocução, sua presença interfere na interpretação do DR, sua ausência poderia pressupor uma interferência menor nessa interpretação. O que observamos nos casos de ausência de verbo de elocução foi uma tendência no uso do DD como recurso argumentativo, aparecendo sempre depois do DR em DI, com a intenção de criar um “efeito de autenticidade” (Maingueneau, 2004) ou, ainda, uma teatralização dos fatos (Maingueneau, 1993). Confirmamos, ainda, um dos postulados de Maingueneau (2004), para quem, ao se relatar um discurso em outro, cria-se um discurso distinto. Desse modo, mesmo sem os verbos de elocução interferindo na interpretação do DD, encontramos o próprio DD conduzindo a interpretação do texto como um todo.
Nos casos de DD com verbo de elocução, confirmamos a forte presença de tais verbos, condicionando a interpretação do DD, que é empregado com os objetivos definidos em nosso Capítulo 2: para criar a autenticidade necessária ao discurso do entrevistado, como no exemplo j, e para promover um distanciamento do enunciador do discurso citante, como no exemplo e.
Os casos de “ilha textual em DI” revelaram-se, como os dois anteriores casos de uso das aspas, revestidos de intenções do enunciador do discurso citante, confirmando a necessidade de interpretação das aspas “como referência a um outro discurso” (Authier- Revuz, 2001: 143). Assim, conservaram-se fragmentos do discurso citado que continham
expressões populares, por exemplo, que Authier-Revuz denominaria a “não-coincidência do discurso consigo mesmo” (2001: 23); por outro lado, recorrentes foram os empregos do recurso da “ilha textual em DI” com claros objetivos persuasivos, como no exemplo o.
Confirmam-se, portanto, também para o texto jornalístico, os postulados dos estudiosos contemplados em nosso trabalho, para os quais a subjetividade é inerente à linguagem. Nesse sentido, nosso trabalho vem demonstrar, mais uma vez, que a enunciação é um ato único, impossível de ser reproduzido. Relatar algo que foi dito por alguém, quer na modalidade oral, quer na modalidade escrita, está longe de ser um processo simples e inofensivo. A seleção do léxico, a eliminação de informações aparentemente repetitivas, a escolha da forma de se relatar um discurso – DD, DI, “ilha textual em DI” etc. – são operações muito comuns em nosso dia-a-dia, mas que trazem consigo, em todas as suas instâncias, uma carga muito forte de subjetividade – inerente à linguagem, lembremos. É o que Maingueneau chama de “uma enunciação sobre outra enunciação” (cf. Maingueneau, 2004:139).
Sobre diferenças no trato da notícia nos diferentes jornais analisados, concluímos que o comprometimento com a fonte de informação obriga o jornalista a buscar efeitos de “imparcialidade” ao escolher as estratégias lingüístico-discursivas que usará, quer seja na escolha dos verbos de elocução ou dos trechos em DD, mas tais estratégias são apenas uma encenação, pois, como vimos, a Folha foi muito eficaz na neutralização dos efeitos pretendidos pelo entrevistado ao fazer a retextualização.
Como era esperado em nosso trabalho, as operações realizadas pelo jornal para transformar um “acontecimento bruto” em “notícia” revelam que a poder da mídia reside exatamente aí: na escolha do acontecimento, na interpretação do jornalista, nas diversas opções lingüístico-discursivas que ele tem à sua disposição e que, se não poderiam ser classificadas de ilegítimas, porque de fato não o são, podem servir de instrumento de manipulação da notícia desde que escolhidas de forma consciente e com propósitos bem definidos, de um lado, e sem o devido conhecimento do leitor, de outro.
Nosso trabalho possibilita que o leitor, mesmo sendo um receptor passivo, condição inerente ao meio de comunicação unilateral que é o jornal (Charaudeau, 2006), conscientize- se dos procedimentos analisados, para que o jornal possa se transformar de instrumento de manipulação para instrumento de persuasão, cuja diferença, como já ressaltamos, reside numa questão central para o ser humano: o conhecimento e, por meio dele, a possibilidade de fazer suas próprias escolhas.
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ANEXO A: TRANSCRIÇÕES...120 A-1: 1ª entrevista...120 A-2: 2ª entrevista...123
ANEXO B: TRECHOS DA 1ª E DA 2ª ENTREVISTAS NO JORNAL FOLHA DE
S.PAULO...129 B-1: 6/6/2005 – capa...129 B-2: 6/6/2005 – página A4...130 B-3: 6/6/2005 – página A5...131 B-4: 6/6/2005 – página A6...136 B-5: 12/6/2005 – capa...138 B-6: 12/6/2005 – página A4...140 B-7: 12/6/2005 – página A5...143 B-8: 12/6/2005 – página A6...146 B-9: 10/6/2005 – página A2...149
ANEXO C: ÍNTEGRA DA 1ª E DA 2ª ENTREVISTAS NO JORNAL FOLHA DE
S.PAULO...150 C-1: 6/6/2005 – capa...150 C-2: 6/6/2005 – página A4...151 C-3: 6/6/2005 – página A5...152 C-4: 6/6/2005 – página A6...153 C-5: 12/6/2005 – capa...154 C-6: 12/6/2005 – página A4...155 C-7: 12/6/2005 – página A5...156 C-8: 12/6/2005 – página A6...157
ANEXO D: TRECHOS DA 1ª E DA 2ª ENTREVISTAS NO JORNAL O ESTADO DE
S.PAULO...158
D-1: 9/6/2005 – página A2 ...158 D-2: 12/6/2005 - página A4 ...159
ANEXO A – TRANSCRIÇÕES ANEXO A-1: 1ª entrevista (Jornal Folha de S.Paulo, 6/6/2005 (seg.) Entrevistadora: Renata Lo Prete (L 1)
Entrevistado: Roberto Jefferson (L 2)
L 2 (...) ( ) do Martinez Correia seTEMbro de 2003 (agosto) ele me procurou ... ele falou “Roberto é que o Delúbio me procurou ... ele está fazendo um esquema ... de meSAda ... o mensalão ... para os partidos da base o PP o PL e quer que o PTB receba ... trinta mil reais para cada deputado ... que que você me diz disso?” eu digo “sou contra ... sou contra porque isso é coisa de câmara de vereador de quinta categoria
5
Martinez - - quando eu recebia a mesada quando menino ... meu pai me dizia ‘sábado meia-noite em casa’ se eu chegasse meia-noite e meia eu não podia ir na domingueira do Petropolitano para dançar com ninguém e eu adorava dançar ... - - vai nos escravizar e vai nos desmoralizar” ... o Martinez então não fez né - - uma decisão minha e dele - - receber essa mesada que segundo ele aquela época o doutor Delúbio já
10
passava ao PP e ao PL ... morto o Martinez o PTB elege como líder o deputado José Múcio ... final de dezembro princípio de janeiro o doutor Delúbio procura o Zé Múcio e diz “o Roberto é um homem muito difícil eu quero ver falar com você ... tem aqui o PP o PL têm uma participação que a gente faz de uma mesada e eu queria ver se vocês aceitam isso” ele falou “eu não posso tomar atitude sem a autorização de meu
15
presidente” ... Múcio ... “me parece que o meu presidente é contra porque já me falou” ... aí reúnem-se o bispo Rodrigues Valdemar Costa Neto e o Pedro Henry que a essa época era líder do PP para pressionar o Múcio “que que é isso pô? vocês não vão receber? que conversa é essa Múcio ( ) de melhor do que a gente?” aí o Múcio voltou a mim falou “Roberto fui pressionado pelos três líderes ... pelo pelo presidente
20
do PL pelo líder do PL e pelo líder do PP nessa conversa do mensalão” ... eu falei “Múcio EU NÃO QUERO receber ... não aceitarei isso na presidência do PTB porque isso é coisa de qui/de câmara de vereador de quinta categoria isso desmoraliza ... eu tenho vinte e dois anos de mandato e nunca vi acontecer isso no parlamento nacional” ... eu liguei pro ministro Walfrido isso princípios de dois mil e quatro era janeiro ou
25
fevereiro - - não posso te situar bem - - ele estava no Rio falei “Walfrido quero falar