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Fotoğraf 3.14. Gallik asit standart serisi

Segundo Anderson (1999:155), a globalização é um marco da história do século XX que o delimita, inaugurando prematuramente o século XXI: "o 'verdadeiro' século XX foi bastante curto: compreendeu cerca de oitenta anos". Durante esse tempo, a ideia de nação dominou o cenário mundial, culminando com a formação da Liga das Nações e das Nações Unidas, onde cada uma das entidades nacionais se via reconhecida e representada enquanto tal. Mas a tendência formadora de nações, que se sucedeu ao colapso dos impérios, inverteu-se, no sentido da formação de blocos político-ecônomicos. Para esse autor, uma razão para essa mudança é a perda de confiança no Estado, enquanto instância decisória, que ora se estende à nação, ora desperta ou intensifica os nacionalismos e os racismos. A começar pela questão da defesa.

Antes era preciso defender a nação e suas fronteiras. Hoje essas são relativamente respeitadas, pois, com o advento da tecnologia nuclear, torna-se bem difícil defender o território sem causar um caos mundial. Assim, morrer pela pátria não parece mais fazer sentido, pois toda a população do planeta estaria ameaçada. Como observa Anderson (1999), depois de 1945, houve "uma inflexão geral marcada pelo fim da prática de os Estados-nação possuírem ministérios da Guerra" (p.158). Em seu lugar, surgem os ministérios da Defesa, voltados para a segurança do interior dos territórios. Inclusive os exércitos têm seu papel sócio-historicamente determinado resultam efeitos de sentido, isto é, imagens discursivas, decidiu- se empregar o conceito modular de nação proposto por Anderson (1989; 2008) por corroborar tais preceitos e, consequentemente, por contribuir para a interpretação dos resultados desse estudo, que engendraram a presente pesquisa de doutorado.

redefinido, assumindo funções de policiamento interno ou de ajuda humanitária, seja em seu país ou em outros, que sofreram com conflitos civis ou catástrofes naturais. Além disso, com o agravamento das desigualdades dentro e fora dos limites da nação como uma das consequências do processo de globalização, sobretudo no que diz respeito à economia, a preocupação com a segurança nacional passa a ser um problema doméstico. Ainda que as guerras recentes contra o terrorismo tenham por alvo territórios estrangeiros, o principal objetivo dessas guerras e das ações terroristas não é a conquista de um território (se bem que este é ainda um argumento frequente), mas, sobretudo, a difusão de uma ideologia, o que afeta também as relações sociais entre cidadãos conterrâneos.

Para falar de globalização, é preciso lançar mão da figura do paradoxo. Ao mesmo tempo que esse processo impulsiona os movimentos migratórios, ele imobiliza pela concentração de renda: "Cerca de 25% da população mundial controlam 80% da renda anual produzida no mundo, e essa péssima distribuição está piorando" (ANDERSON, 1999: 161); "Com efeito, só 22 por cento da riqueza global pertencem aos chamados 'países em desenvolvimento', que respondem por cerca de 80 por cento da população mundial" (BAUMAN, 1999: 78)4.

Essas migrações refletem, é claro, um alto grau de concentração da renda global. Dezenas de milhões de pessoas estão se movimentando em busca de segurança física, melhores salários, alguns benefícios de assistência social, melhores escolas para suas crianças e assim por diante. Também estão respondendo a demandas por trabalho. (ANDERSON, 1999: 162)

4 Segundo dados do Banco Mundial e da Agência Central de Inteligência dos Estados Unidos

(CIA), referentes ao ano de 2010, de uma lista de 227 países, 114 (pouco mais de 50%) apresentam Produto Interno Bruto (PIB) per capita abaixo da média mundial, que é de $ 9,228 (dólares americanos). Entre esses 114 países, encontram-se alguns dos mais populosos do mundo, como a China, a Índia, a Indonésia, o Paquistão, o Bangladesh e a Nigéria. Ainda que a crise econômica global, sentida desde 2007, tenha elevado alguns países no ranking das riquezas produzidas mundialmente, isso não significa necessariamente melhor distribuição de renda, pois é preciso considerar que o cálculo do PIB per capita (ou por habitante) é resultado da soma dos valores brutos correspondentes a todos os bens e serviços produzidos no país naquele ano, dividida pela sua população. Logo, esse número representa uma média que não contempla as desigualdades da real distribuição de riquezas entre os cidadãos de cada nação.

Fontes:

http://donnees.banquemondiale.org/indicateur/NY.GDP.PCAP.CD/countries/1W?display=default (acesso em: 8 jan. 2012);

https://www.cia.gov/library/publications/the-world-factbook/rankorder/2004rank.html (acesso em: 8 jan. 2012).

Na perene reafirmação de seu status, as elites têm a sua livre circulação assegurada pelo capital volatilizado pelas transações financeiras globais e virtuais, principalmente dentro das instituições de ensino de prestígio internacional, que lhe conferem mais prestígio nacional do que as instituições de ensino de seu país. Mas as camadas destituídas de poder econômico, se não circulam, na marginalidade e/ou na clandestinidade, pelos únicos lugares onde uma vida melhor parece ser possível, ou seja, nos grandes centros urbanos cosmopolitas de seus países ou, mais além, dos países ricos do hemisfério norte, elas são imobilizadas pelas condições restritas e restritivas de seu local de origem, do qual se veem impedidas de sair por não conseguirem ascender na escala social global. Daí a escolha de Bauman (1999: 78) pelo termo "glocalização", que ele define "como o processo de concentração de capitais, das finanças e todos os outros recursos de escolha e ação efetiva, mas também - talvez sobretudo - de concentração da liberdade de se mover e agir (duas liberdades que para todos os efeitos práticos são sinônimas)".

Os turistas se movem porque acham o mundo a seu alcance (global) irresistivelmente atraente. Os vagabundos se movem porque acham o mundo a seu alcance (local) insuportavelmente inóspito. Os turistas viajam porque querem; os vagabundos porque não têm outra opção suportável. [...] O que se aclama hoje como "globalização" gira em função dos sonhos e dos desejos dos turistas. Seu efeito secundário - colateral mas inevitável - é a transformação de muitos outros em vagabundos. Vagabundos são viajantes aos quais se recusa o direito de serem turistas. Não se permite nem que fiquem parados (não há lugar que lhes garanta permanência, um fim para a indesejável mobilidade) nem que procurem um lugar melhor para ficar. (BAUMAN, 1999: 101)

Segundo esse sociólogo polonês, a celebração da ideia de hibridismo ou hibridização cultural esconderia uma relação de dominação e resistência: ela tenta harmonizar as diferenças pela difusão de um cosmopolitismo emancipador - ou liberal (APPIAH, 1999), que faz das culturas locais uma atração exótica para turistas ou um problema de assimilação ou incapacidade dos grupos.

A hibridização cultural dos habitantes globais pode ser uma experiência criativa e emancipadora, mas a perda de poder cultural dos habitantes locais raramente o é: trata-se de uma tentativa compreensível mas infeliz dos primeiros confundirem as duas coisas e assim apresentarem sua própria versão de "má consciência" como prova de deficiência mental dos segundos. (BAUMAN, 1999: 109)

Quanto ao problema de assimilação, podemos situá-lo na França a partir de meados dos anos de 1980, como o faz a cientista política Rossana R. Reis (1999): "O caso da França, dada a importância que a questão nacional assumiu nos últimos anos, fornece várias evidências da relação entre política migratória, construção do Estado nacional e globalização" (p. 119).

Nessa década e na seguinte, o chamado défaut d'assimilation, previsto na legislação desde 1973 (após a independência das colônias francesas da África e da Ásia), tornou-se um argumento bastante vago para a recusa de imigrantes como cidadãos, que, consequentemente, ficam na ilegalidade. Uma vez que não são cidadãos, e a cidadania é um princípio de igualdade entre os homens intrínseco à República e indissociável da nacionalidade, os imigrantes ilegais não dispõem de qualquer status na sociedade francesa, ficando totalmente à margem. Essa exclusão evidencia o enfraquecimento do princípio republicano da igualdade, o que leva os grupos a se associarem para reivindicar direitos específicos para os seus, o que, por outro lado, leva ao fortalecimento do princípio tradicionalista do "resgate" do caráter autêntico e puro do povo local para justificar tal marginalização.

Resgate entre aspas, porque não há o que resgatar, já que nunca existiu. O que seria, afinal, um francês autêntico? “Dois franceses distintos nunca interpretam sua identidade nacional da mesma maneira e nunca possuem exatamente a mesma combinação de passado, cultura e desejos.” (ZELDIN, 2000: 506) Logo, segundo o historiador e cientista social Theodore Zeldin, cada francês teria uma resposta, com alguns pontos em comum talvez, mas nada que pudesse instituir uma resposta unânime que correspondesse a uma realidade empírica. E isso se dá em relação a qualquer nacionalidade, pois se trata aqui de produtos simbólicos que recriam a natureza, porém não são reflexos dela, porque são

reflexos das práticas sociais, que os refletem num efeito especular contínuo que cria a ilusão de que as coisas sempre foram assim por natureza. Isso se deve ao fato de que só temos acesso ao real pela atividade de linguagem, ou seja, pelo discurso. Assim, só é real o que faz sentido. A realidade é um sentido, um efeito de discurso, uma imagem, uma construção, que pode nos iludir, nos engana e nos faz cometer erros. Mas também é o caminho de nossa redenção pela compreensão do processo de produção dos sentidos.

Entretanto, o problema não acaba aí. Mesmo a população já oficialmente assimilada à República francesa, de origem não-europeia, sobretudo oriunda das ex-colônias, questiona a sua cidadania, pois essa implica uma nacionalidade exclusiva e excludente em relação às culturas imigradas:

A deficiência do modelo de nacionalidade francesa estaria, então, ligada a uma concepção de nação que não só se baseia na especificidade de sua cultura, como também considera a existência de outras culturas, inassimiláveis devido à sua grande distância em relação à cultura francesa, sobretudo o islamismo. (REIS, 1999: 123-124)

Por outro lado, o mesmo argumento da falta de assimilação é retomado pelos radicais nacionalistas, representados pelo partido de extrema direita Front National, liderado por Jean-Marie Le Pen, que surge em 1972 para ganhar força na década seguinte, quando as políticas de nacionalidade e de imigração foram objeto de discussões e reformas, devido à crise econômica, ao aumento das taxas de desemprego e à insegurança interna do país. Assim, as leis resultantes de tais políticas acabaram por dificultar, se não impedir, a concessão da cidadania aos imigrantes na França.

Como será demonstrada pela análise do corpus no capítulo 3, uma das consequências dessas ações é a transformação do problema de assimilação em um problema de integração. Daí os textos mais recentes sobre políticas de imigração na França, inclusive a designação do Ministério da Imigração, da Integração, da Identidade nacional e do Desenvolvimento solidário, preferirem utilizar este termo e não aquele: não é mais questão igualar-se, mas adaptar-se para fazer parte. Destarte, se os imigrantes não podem regularizar sua situação, também não podem ser expulsos quando amparados pela Declaração Universal

dos Direitos do Homem e do Cidadão, que prevê a proteção à união familiar. No entanto, permanecem na condição de clandestinos, condição essa que é incentivada, pois esses imigrantes, que, em geral, não almejam ser "cidadãos do mundo", não têm outra alternativa a não ser viver à margem da lei para manter seus lares. Desse modo, surge a categoria dos sans-papiers (sem-documentos), que "revela um equilíbrio de forças tão grande que o governo é incapaz de cumprir suas determinações" (REIS, 1999: 132), ou seja, não consegue atingir o seu objetivo de acabar com a imigração ilegal.

Ainda que a imigração na França remonte ao século XIX, quando as baixas taxas de natalidade repercutiam na oferta de mão de obra, e, por esse motivo, os vizinhos europeus vieram para trabalhar nas indústrias do país, é nos anos da aceleração do processo de globalização, ou seja, nos últimos trinta anos, que os movimentos migratórios se fizeram sentir como uma ameaça, não só à nação, mas, sobretudo, às suas elites, pois a falta de mão de obra devido ao baixo índice de natalidade entre os franceses nativos permanece até nossos dias5, permitindo a esses a escolha das melhores funções, o que significa melhores salários. Porém, essa situação acaba também servindo de incentivo à contratação de imigrantes para exercer, na clandestinidade, as funções restantes e mal remuneradas, agravando a marginalização desse grupo e gerando tensão social.

Anderson (1999: 160) observa que existe "todo um conjunto de instituições que dificilmente podem ser transnacionalizadas, pois estão voltadas para o bem-

5 Na França, o índice de fecundidade, que relaciona o número de nascimentos ao efetivo de

mulheres em idade fértil, passou de 1,77 em 1998 a 2 em 2008, chegando próximo ao nível de substituição populacional que é de 2,1 (mínimo necessário para manter a população estável e garantir a substituição das gerações). No entanto, parte desse crescimento se deve aos nascimentos provenientes de pais estrangeiros, que representam uma contribuição de 13,2% nos índices de natalidade de 2008. A contribuição mais significativa vem dos casais mistos (em que um dos pais é francês e o outro é estrangeiro), que, em 1998, eram responsáveis por 8% dos nascimentos, enquanto que, em 2008, esse número passou para 12,7%, o que representa um aumento de 59%. Esses números tornam-se ainda mais relevantes quando comparados aos dos nascimentos entre casais estrangeiros (de 6,6% em 1998, para 6,9% em 2008) e entre casais franceses (de 85,4% em 1998, para 80,4% em 2008).

Fontes:

http://immigration.gouv.fr/spip.php?page=dossiers_det_res&numrubrique=242&numarticle=1462 (acesso em: 6 jul 2010);

http://www.insee.fr/fr/themes/detail.asp?ref_id=bilan-demo&reg_id=0&page=donnees- detaillees/bilan-demo/pop_age3c.htm#fecondite-fe (acesso em: 6 jul. 2010).

estar social ou para a infra-estrutura". Além disso, o trabalho humano é necessário e insubstituível em muitas atividades (p. 163). No entanto, Bauman (1999) ressalva que o capital não cria raízes, pois se move através das fronteiras numa busca contínua por mercados mais promissores, ou seja, mais lucrativos. Logo, o capital se desloca para chegar aonde estão os consumidores e, por isso, esses não precisam nem devem mais se deslocar. Juntando-se a isso uma tendência crescente para tornar a mão de obra humana prescindível, tem-se por consequência o agravamento das desigualdades:

Uma vez liberado do espaço, o capital não precisa mais da mão-de-obra itinerante (enquanto sua mais avançada e emancipada vanguarda high-tech sequer precisa de mão-de-obra alguma, móvel ou fixa). E assim a pressão para derrubar as últimas barreiras ao livre movimento do dinheiro e das mercadorias e informação que rendem dinheiro anda de mãos dadas com a pressão para cavar novos fossos e erigir novas muralhas (chamadas leis de "imigração" ou de "nacionalidade") que barrem o movimento daqueles que em consequência perdem, física ou espiritualmente, suas raízes. Sinal verde

para os turistas, sinal vermelho para os vagabundos. A localização forçada

preserva a seletividade natural dos efeitos globalizantes. Amplamente notada e cada vez mais preocupante, a polarização do mundo e de sua população não é uma interferência externa, estranha, perturbadora, um entrave ao processo de globalização - é efeito dele.

Não há turistas sem vagabundos e os turistas não podem ficar à solta se os vagabundos não forem presos... (BAUMAN, 1999: 102)

Destarte, as forças de dominação, em seu esforço para se autopreservar em segurança contra as forças de resistência, tentam neutralizar essas últimas, privando-as da liberdade, ou melhor dizendo, da mobilidade pelo encarceramento: "Estar proibido de mover-se é um símbolo poderosíssimo de impotência, de incapacidade e dor" (BAUMAN, 1999: 130).

Logo, o problema da assimilação é menos cultural que sociopolítico. Não é que os imigrantes não queiram "se adequar ao 'modo de vida francês'" (REIS, 1999: 136) nem que a sua cultura seja inassimilável ou incompatível em relação à cultura francesa. Esse problema também não se resume a um racismo fortuito. Tem a ver com as relações de poder que estão sendo deslocadas e questionadas pelo processo de globalização.

Novas fortunas nascem, crescem e florescem na realidade virtual, firmemente isoladas das rudes e despachadas realidades fora de moda dos pobres. A criação de riqueza está a caminho de finalmente emancipar-se das suas perpétuas conexões - restritivas e vexatórias - com a produção de coisas, processamento de materiais, a criação de empregos e a direção de pessoas. Os antigos ricos precisavam dos pobres para fazê-los ricos. Essa dependência mitigou em todas as épocas o conflito de interesses e incentivou algum esforço, ainda que débil, de assistência. Os novos-ricos não precisam mais dos pobres. Finalmente a bem-aventurança da liberdade total está próxima. (BAUMAN, 1999: 80)

A tendência à rarefação dos serviços de assistência social é um fenômeno global, ainda mais quando se trata de assistir os estrangeiros, e o amplo sistema francês de proteção social não está imune a isso. Segundo Reis (1999: 120), a partir de meados da década de 1970, "[...] o Estado de Bem-Estar francês entrou numa grave crise fiscal, e [...] os estrangeiros foram acusados, sobretudo os africanos e árabes, por terem famílias muito grandes e abusarem dos benefícios estatais".

Enfim, para que a elite exerça sua liberdade enquanto classe dominante, ela precisa restringir as liberdades dos outros. Nesse jogo de forças, onde a liberdade se choca com a igualdade, não parece haver lugar para a fraternidade.

Já dizia Rousseau (2011):

Sob maus governos, essa igualdade é aparente e ilusória. Ela serve apenas para manter o pobre em sua miséria e o rico em sua usurpação. Na realidade, as leis são úteis aos que possuem e nocivas aos que não têm nada. Daí se segue que o estado social só é vantajoso para os homens na medida em que todos eles tenham alguma coisa e que nenhum deles tenha nada em demasia. (p. 74)

Quer dar consistência ao Estado? Aproxime os graus extremos tanto quanto o possível, não tolere nem gente opulenta nem mendigos. Esses dois estados, naturalmente inseparáveis, são igualmente funestos para o bem comum. De um, saem os fomentadores da tirania; de outro, os tiranos. É sempre entre eles que se faz o tráfico da liberdade pública: um compra e o outro vende. (p.104)

Além disso, pode-se acrescentar um certo lugar-comum que alerta para o perigo de que, nesse cadinho de culturas que se chama globalização, a diversidade possa se perder numa mistura indistinta, confusa e persistente de valores e comportamentos (numa espécie de cultura kitsch, que, longe de ser

múltipla, seria replicadora), excluindo e impedindo a insurgência do outro diferente. É o perigo da homogeneização discriminadora, porque só aceita os que estão em conformidade com os seus moldes. E aqueles que não se assimilam ou não conseguem se adaptar a esses moldes (que geralmente são muito estreitos, pois não foram concebidos para se ajustar a todos, mesmo se todos os desejassem) acabam homogeneizados pelas suas diferenças: são os "outros", os "dissidentes", os "alternativos", os "do contra".

Mas essas pessoas são muito mais que apenas trabalhadores; carregam consigo culturas, hábitos, músicas, culinárias, tradições e crenças religiosas, identidades sexuais etc. A chegada dessas populações em diferentes lugares representa um enorme desafio político para os Estados-nação do século XX. Ela ameaça as auto-imagens tradicionais das nações, como foram desenvolvidas desde o século XIX. Britânicos negros, franceses muçulmanos e japoneses mulatos são novidades importantes. (ANDERSON, 1999: 163)

Também assim as desigualdades são engendradas no seio das nações e entre elas, (re)produzindo o racismo como mais uma de suas reações adversas. O racismo é uma reação à "ameaça" do outro, que perturba o estado das coisas com a sua insatisfação e o seu desejo de reconhecimento e promoção, que são interpretados como manifestações revolucionárias no sentido de que buscam a mudança pela destituição e substituição do poder de uma classe em favor de outra.

Porém, há um ponto de vista diverso, como o apresentado pelo filósofo ganense Kwane A. Appiah (1999), que defende, para os nossos tempos, um cosmopolitismo liberal patriota, que se fundamenta numa cidadania universal que abraça todas as culturas na sua "lealdade para com a espécie humana" (p. 225) e na circulação das pessoas pelo mundo, o que "envolverá não só o turismo cultural (que o cosmopolita admite gostar), mas também migração, nomadismo e diáspora" (p. 220). Além disso, a condição de cidadão do mundo prevê a possibilidade de escolher a(s) sua(s) pátria(s), que não precisa(m) corresponder à sua terra natal. Logo, é um de seus mais caros princípios o exercício da decisão autônoma, ou seja, a liberdade de escolha de cada indivíduo.

Vale a pena insistir em um último corolário que decorre do enraizamento do cosmopolitismo na liberdade individual. Os cosmopolitas valorizam a variedade cultural, mas não pedimos às pessoas para manterem a diversidade da espécie ao custo da sua autonomia individual. Não podemos pretender que outros nos proporcionem um museu cultural para fazermos um giro por ele ou visitar safáris virtuais na televisão via satélite; ou mesmo

Benzer Belgeler