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BÖLÜM V SONUÇLAR

Fotoğraf 4.3. Çeşitlerin 90. gün kabuk renkleri

Como o título deste item sugere, retomaremos brevemente, nas próximas linhas, algumas reflexões apresentadas em nosso trabalho anterior, desenvolvido ao longo do curso de mestrado, sobre a construção das identidades, mas isso se fará em diálogo com novos estudos, a fim de estender a interface do processo de identificação com o da construção do sentido de nação.

Conforme a perspectiva pragmático-enunciativa da Análise do Discurso, a linguagem constitui o mundo como o concebemos, pois toda realidade se instaura pelo processo de produção do sentido pelo e no discurso. Na medida em que os sentidos são determinados pelo processo de produção e pelas condições de produção dos enunciados – o que, como vimos, significa que os sentidos se constroem na história – o mundo, isto é, o sentido de mundo, é uma construção discursiva, uma atividade praticada por uma comunidade para criar as suas verdades, ou seja, a sua versão do mundo. Assim como o sentido, as identidades são provisórias e inacabadas, pois estão sempre em construção, sendo formadas na interação social: “Assim, em vez de falar da identidade como uma coisa acabada, deveríamos falar de identificação, e vê-la como um processo em andamento” (HALL, 2001: 39). Logo, pode-se dizer que as identidades são construções simbólicas que atuam como imagens das relações sociais.

Quanto à identidade nacional, uma de suas principais marcas, proclamada constitucionalmente, que, conforme já visto, também define o que é uma nação, é

a língua. Segundo o linguista Kanavillil Rajagopalan (2003: 93), a língua “é uma bandeira política” e, como todas as bandeiras, é “um símbolo” que identifica a nação e o ideal político que ela legitima e empreende. Portanto, a língua e os discursos por ela construídos, onde se incluem aqueles que arbitram os seus usos, são objetos privilegiados para o estudo da construção da identidade nacional, do sentido de nação e do próprio sentido de língua.

Histórica e, portanto, politicamente condicionadas pelo contexto de sua produção, as imagens discursivas estabelecem um sistema classificatório quando atribuem sentido às práticas e às relações sociais, construindo posições ou lugares que são assumidos pelos indivíduos quando interagem socialmente. Assim, esses indivíduos dizem quem são, ou seja, investem em uma identidade.

Por conseguinte, as identidades, entre elas a nacional, correspondem a imagens em devir, porque se constroem no jogo de forças da história, sendo legitimadas nos discursos que atribuem sentido e existência ao mundo, uma vez que os discursos não descrevem meramente o mundo, mas fazem com que ele exista. Daí deriva o seu caráter relativamente estável do ponto de vista social, pois a coletividade as mantém para explicar os valores que dão sentido à sociedade, às suas instituições e à sua ordem. Logo, as identidades são relativamente estáveis porque são consensuais, não por motivos de ordem biológica ou histórica, apesar de, em alguns momentos, evocar a natureza ou a história para se legitimarem.

A afirmação das identidades estabelece relações de poder assimétricas, que culminam na divisão em grupos ou classes e, consequentemente, em hierarquias. A demarcação de fronteiras, por exemplo, que constitui um traço da identidade nacional, distingue conterrâneos de estrangeiros. Os valores atribuídos a cada grupo se refletirão nas condições materiais de seus membros (os mais e os menos privilegiados).

Portanto, pode-se dizer que as identidades se definem pela diferença, pois a afirmação “eu sou isto” implica uma cadeia de negações como “eu não sou aquilo”, que contrapõe uma identidade a outras e estabelece a distinção entre elas.

Por isso, Rajagopalan (2003: 71) reafirma: “A única forma de definir uma identidade é em oposição a outras identidades em jogo”. Aqui se percebe a voz de Saussure (1977; 2010) quando esse autor apresenta a tese de que o valor das unidades da língua só pode ser determinado ao colocá-las em contraste. O que ocorre tanto entre as unidades linguísticas como entre as identidades (linguística, cultural, científica etc.) é uma legitimação recíproca, que atesta, por contraste, a singularidade insubstituível de uma em relação às demais. Destarte, se, na língua, uma unidade não pode substituir perfeitamente uma outra, o mesmo se verifica com as identidades, que, em seu incessante processo de transformação, mostram que são, por essência, resistentes à dominação, o que, ao invés de anular, torna mais evidente a assimetria entre elas.

Ainda que os antecedentes do processo remontem ao século XVI com a conquista das Américas e a expansão do poderio europeu sobre o mundo, o termo globalização surgiu a partir de 1990, após a queda do muro de Berlim e o subsequente fim da bipolarização e da Guerra Fria, para designar uma cadeia de efeitos globais, que se caracteriza, principalmente, pelo fluxo veloz e contínuo de informações que circula através de diferentes tecnologias de mídia. Sobre esse termo, o cientista social inglês Anthony Giddens (2002: 18) comenta que a compreensão dos acontecimentos e dos valores em voga no final do século XX deve comportar a palavra que os designa enquanto conjunto, mas que, até o final da década de 1980, não era quase utilizada, “seja na literatura acadêmica ou na linguagem cotidiana”. Hoje um vocábulo de uso corrente, a globalização é um fenômeno em curso, a nosso ver, incontornável ao pesquisador que queira compreender não só as perspectivas do final do século passado, mas também seus desdobramentos nestas primeiras décadas do século XXI.

Do campo da psicologia social, Leila D. Machado (1999) observa que esse fluxo de informações pode exercer controle sobre os indivíduos através do tempo. A velocidade das mídias acelera a transitoriedade das informações para tornar sensível a simultaneidade ou o “tempo real”. Assim, o tempo controla os indivíduos, torna-os dependentes das mídias, gerando imobilidade na simultaneidade. Eles não são mais vigiados pelo Panóptico de Foucault, mas são

imobilizados diante das maravilhas, pródigas em promessas, do Sinóptico das mídias globais (BAUMAN, 1999).

A esse diálogo, junta-se a antropologia social de Néstor G. Canclini (2003), segundo a qual a globalização manifesta-se mais claramente nas indústrias audiovisuais: cinema, televisão, música e informática. E sendo os bens culturais recursos para a produção da identidade nacional, a rede mundial de computadores torna-se uma fonte documental profícua e prolífera para o estudo da construção do sentido de nação, o que faz dos conteúdos dos sites (ou sítios eletrônicos) das instituições governamentais documentos da memória e monumentos da história (LE GOFF, 2003), que permitem aos cidadãos reconhecer e confrontar solidariamente suas diferenças dentro e fora das fronteiras da nação.

Esse reconhecimento ou confrontação pode ratificar uma cultura ao mesmo tempo errática e imobilizante, que se quer emancipada da vida comunitária e dominante pelo fascínio dos espetáculos midiáticos (BAUMAN, 1999), agravando a “fratura social” que divide as nações entre pobres e ricos, ou pode conduzir à “cidadania terrestre”, que identifica a Terra como a Pátria da Humanidade (MORIN, 2006).

De qualquer modo, “existe algo de radicalmente democrático no reconhecimento de que, muitas vezes, não sabemos como chamar os outros. É o ponto de partida para atentar para o modo como eles mesmos se nomeiam” (CANCLINI, 2003: 116). Em consonância com essa ideia, pretende-se, na sequência deste estudo, observar como é feito esse reconhecimento unilateral e mútuo das nações no plano discursivo, principalmente pelos sentidos que constroem um dos elementos constitutivos do imaginário nacional, particularmente relevante no estudo do imaginário francês: a língua.

Benzer Belgeler