O fim do cinema? Era esta questão que preocupava os cineastas que passaram pelo “quarto” de Wim Wenders no Hotel Martinez, durante o Festival de Cinema de Cannes em 1982. Aproveitando a presença de dezenas de grandes cineastas na mesma cidade ao mesmo tempo, para abrir um debate instigante sobre o futuro do cinema, Wenders escolheu dezesseis diretores de origens e estilos heterogêneos, e pediu que cada um desse um depoimento pessoal sobre o tema. Entre os escolhidos estavam Godard, Herzog, Spielperg, Fassbinder, Guney, Antonioni, além de uma rápida aparição do próprio Wenders, entre outros. Cada cineasta tinha direito a falar o que quisesse sobre o tema durante 11 minutos (a duração de um rolo da câmera 16 mm que Wenders estava utilizando). O resultado é uma análise por vezes apoca- líptica, ora descompromissada, ora reflexiva, com as preocupações sobre a intera- ção das tecnologias vigentes em um futuro ainda longínquo.
A questão proposta pelo realizador é a junção dos dois axiomas mencionados por De Luca, o surgimento da televisão e do home-vídeo. Cada vez mais, os filmes pareciam ter sido feitos para televisão, pois as linguagens de enquadramento, ilumi- nação e formatos são semelhantes. Tudo levava a crer que a estética da televisão estava substituindo completamente a estética do cinema. Sob este contexto, Wen- ders faz sua pergunta: o cinema é uma linguagem em vias de desaparecimento, uma arte que está morrendo?
Todos os cineastas entrevistados pelo diretor ficaram sozinhos no quarto, com uma televisão sintonizada em qualquer canal, e do outro lado um gravador de som Nagra. Alguns realizadores desligaram a televisão, outros não. Alguns pareceram bem à vontade, tomando atitudes desde sentar-se e acender um charuto a tirar os sapatos: “Não posso responder a uma pergunta dessas usando sapatos”, diz Her- zog. Alguns cineastas deram respostas diretas. Outros começaram a falar de modo sossegado, mas logo se agitaram, passando a caminhar pelo quarto. Alguns se
mostraram à vontade e discorreram sobre a questão proposta, outros mostraram-se muito incomodados e falaram pouco, e logo cortaram a câmera.
O confronto entre cinema e televisão encenado por Wenders resulta visivelmente distorcido e impossibilita encarar o problema com a mesma complexidade com que ele se impõe [...] Dentre os cineastas entrevistados por Wenders, apenas dois rejeitam o ponto de vista dramático da colocação inicial e chamam a atenção para outro lado da questão, qual seja a reinvenção do cinema com a incorporação da eletrônica. (MACHADO, 1997, p. 204)
Olhando para a análise proposta por Machado, podemos refletir sobre um con- ceito interessante: a reinvenção do cinema. Lipovetsky (2009) já nos colocou que o cinema não cessa de se reinventar, sendo o cinema digital uma transformação do cinema analógico através do uso das ferramentas digitais. Ponto de vista semelhan- te pode ser encontrado no terceiro discurso sobre revolução digital e o cinema, for- mulado por Gerbase (2003), que coloca o título da questão como “o cinema renas- ceu: vamos comemorar no batizado, ou as novas tecnologias têm consequências positivas para o cinema”. Podemos ver que, com base nestas análises, o cinema não tende a morrer com a incorporação da informática, e sim se reinventar. As tec- nologias digitais não aniquilam as anteriores: elas oferecem novas opções aos anti- gos, aos novos e aos pretendentes a cineastas. Dois cineastas refletem bem esta questão, como salientou Machado: Godard e Antonioni.
Godard rebate a afirmação de Wenders, que dizia “cada vez fazemos menos fil- mes”, com “cada vez fazemos mais filmes”. Afinal, esse é o poder das tecnologias na época eletrônica, e hoje digital. Elas trazem a possibilidade de produção de mais filmes, através da obtenção de formas de produção de mais fácil acesso e de custos reduzidos. Machado traz outro conceito interessante quando explora a questão de hibridização das tecnologias de captação dos movimentos.
[...] o termo cinevídeo designa especificamente uma técnica que con- siste em captar a imagem em filme fotoquímico e depois fazer a tele- cinagem do material para a pós-produção em vídeo, de modo a tirar proveito do que cada tecnologia tem de melhor. Assim, cada vez mais fica difícil falar em cinema stricto sensu ou mesmo em vídeo s- tricto sensu, quando os meios se imbricam uns nos outros e se influ- enciam mutuamente, a ponto de, muitas vezes, tornar-se impossível classificar um trabalho em categorias como cinema, vídeo, televisão, computação gráfica ou seja lá o que for. (MACHADO, 1997, p. 216)
Com esta análise, podemos entender o medo de alguns cineastas do filme de Wenders em querer a junção das mídias, relutando responder à pergunta-chave. Aqueles que se aprofundam são cineastas que veem nas tecnologias novas formas e possibilidades para seus trabalhos. Não há razão para se temer. A fotografia so- breviveu ao cinema, e o cinema à televisão. “As formas que o homem inventa para criar ilusão, para compartilhar suas visões de mundo, seus medos e desejos, se transformam e se aglutinam”, diz Jorge Furtado em seu texto escrito sobre a relação do cinema e televisão.
Antonioni, que começa seu discurso sentado, levanta-se e prefere falar em italia- no, seu idioma natal, do que em inglês, pois se sente mais seguro. O diretor traz re- flexões em que acha que a película vai morrer, mas é claro que podemos ter a corre- ta interpretação de que é como suporte. “Os cineastas devem adaptar-se àquela que será a exigência de espetáculo do futuro”, lembra Antonioni. Não é uma nova forma de representação da realidade, e sim um novo tipo. Antonioni ainda lembra que “não será uma coisa fácil, e não será uma coisa breve”.
É importante levantar uma questão sobre a imagem que abre o filme: é uma i- magem de uma velha árvore, um cedro libanês, que, segundo Wenders, marca ali as suas idas e vindas a Paris. O filme acaba com a mesma imagem da árvore, que permanece ali, imóvel. Mesmo com o passar do tempo, ela continuará ali, parada. Seria esta uma metáfora buscada pelo diretor como o símbolo para a sobrevivência do cinema?
[...] progressos consideráveis já foram feitos no sentido de avançar na síntese do cinema com o vídeo, numa primeira etapa, e do cine- ma com a informática, numa etapa posterior. [...] Como tal, ele vive hoje um dos momentos de maior vitalidade de sua história, momento este que podemos caracterizar como o de sua radical reinvenção. (MACHADO, 1997, p. 213)
Analisando como resposta a pergunta-chave do filme, e mais o conceito de rein- venção colocado por Arlindo Machado, podemos dizer que o cinema se manterá, apesar das mudanças a ele impostas pelas tecnologias digitais. O digital tende a conviver com o analógico por um bom tempo. Existirá o fim do cinema analógico? Por enquanto a resposta está clara: não.
1.4.3 O SEGUNDO AXIOMA DOS CINEASTAS: AS PREVISÕES EM DE VOLTA