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D. Gümrüğe Tabî Ticarî Emtia

5. Gıda Maddeleri

Após 3 reduções, as unidades de significado do discurso de Sebastiani convergiram para 3 grandes categorias, que chamamos de “O Encontro com o outro”, “Compreendendo a etnomatemática como região de inquérito” e “A presença da matemática na etnomatemática”. A seguir, buscaremos tecer compreensões emergentes desse discurso para cada uma dessas categorias temáticas tendo como norte a interrogação de nossa pesquisa, a dizer, “o que é isto, a pesquisa em etnomatemática”.

4.2.4.1 SA – O Encontro com o Outro

Figura 5: Núcleos de Significado constituintes da Categoria “SA – O Encontro com o outro”

SA – O Encontro com o outro

Núcleo de Significado Unidades Discursivas de Significado

SN20 – Sobre modos de ensinar o outro S13.04, S13.05, S13.06, S13.07, S14.01, S15.01, S21.01, S21.02

SN29 – Sobre a concepção de cultura S53.01

SN05 – Sobre o solo cultural do outro S02.09, S04.03, S04.12, S07.09, S09.08, S17.01, S31.01

SN08 – Sobre o encontro com o outro: aberturas e estranhamentos S04.04, S07.03, S09.06, S09.07, S09.08, S12.02, S13.04, S20.01, S21.04, S27. 04, S53.03

SA

SN05 SN07 SN08 SN12 SN15 SN18 SN19 SN20 SN23 SN29 SN30

SN07 – Sobre a [auto-]percepção do conhecimento e dos modos como se vê e se organiza o mundo

S04.02, S09.06, S07.02, S09.08,

SN30 – Sobre modos de compreender S56.01 SN23 – Sobre dificuldades no encontro

com o outro

S19.02, S20.02, S28.01, S32.02

SN15 – Sobre generalizações em um grupo cultural

S19.01, S19.02, S19.05

SN18 – Sobre a análise de outra cultura S12.02, S12.03, S12.04, S12.05, S17.01, S22.01, S22.03, S27.02, S27.03, S32.01

SN19 – Sobre etnografia e etnologia S13.01, S13.02, S13.03, S15.01, S25.01 SN12 – Sobre a intencionalidade no

trabalho de campo

S04.10, S04.11, S07.01, S12.01, S13.02, S14.01, S22.02, S25.02

Quadro 61: Constituição da categoria “SA – O Encontro com o outro”

Nessa categoria, Sebastiani expressa os modos como ocorre o encontro com o outro, entendido como aquele que estuda, que convive como professor e como pesquisador, mas que não compartilha dos mesmos valores, hábitos, rotina etc. O trabalho com o outro, assim concebido, em sua carreira como pesquisador e professor, se iniciou com grupos urbanos, mas, mais tarde, se configurou, majoritariamente, em comunidades indígenas.

A questão do ensino de matemática em comunidades indígenas se destaca no discurso de Sebastiani, que afirma frequentá-las usualmente como professor e não como pesquisador. Ao falar de sua postura de ensino, indica partir dos próprios conceitos matemáticos, porém, buscando basear-se no que vê e compreende no dia-a-dia dos grupos com os quais trabalha. Para isso, construiu a seguinte procedimento de trabalho: pela manhã, ministra aulas, pela tarde os indígenas realizam pesquisas de campo e, pela noite, incentiva os integrantes da comunidade a efetuarem uma descrição do realizado em campo, buscando seus possíveis usos em sala de aula de modo articulado com o que foi ensinado pela manhã, uma vez que esses alunos serão os futuros professores da comunidade. Ele frisa, ainda, a importância de não interferir no modo pelo qual o outro nomeia e representa sua compreensão sobre o conceito ensinado.

Sebastiani, em seu método de ensino, ministra aulas partindo de conceitos que já conhece. Desse modo, ao buscar a matemática presente nas práticas dos indígenas parece tomar o seu próprio conhecimento matemático como nuclear.

Sebastiani considera importante que os alunos/professores indígenas façam pesquisa de campo, por conhecerem a própria cultura, tomando o estudo da cultura com

a qual trabalha como um dos objetivos de sua prática. Afirma não impor a matemática acadêmica quando ensina em comunidades indígenas, mas apresentar a matemática presente nas práticas do grupo. Apesar disso, mostra-se ciente do impacto que a atividade de um etnomatemático exerce nas comunidades, comparando-a com aquela exercida pelo missionário. Tanto um quanto o outro acabam por tornar-se um modelo na comunidade em que trabalham, o que considera negativo.

Sebastiani mostra-se ciente da dinâmica cultural que se estabelece entre grupo e pesquisador. Ao falar dessa dinâmica, destaca uma semelhança com o missionário. Ambos se tornam modelos para a comunidade. Uma pergunta emerge. O que gera essa hierarquização na comunidade? Por que o ‘outro’, o estranho, se torna um modelo? Será esse um processo de desvalorização da própria cultura – ou de valorização da cultura do pesquisador – já tecidos e configurados em uma rede maior? A presença do pesquisador torna-se ambígua. Por um lado, tem por objetivo reforçar a cultura com a qual trabalha. Por outro lado, a sua própria cultura torna-se, simbolicamente, uma referência para o grupo trabalhado.

O seu (de Sebastiani) próprio solo cultural e o do outro, que estuda, se mostram vitais em seu trabalho, assumindo que culturas não são passíveis de comparação. Aponta a língua materna como um grande aporte de expressão cultural, à qual tem estado atento desde o início de seu trabalho com comunidades indígenas, em que utilizava o mesmo método de ensino de dois professores de língua portuguesa e de língua materna com quem trabalhava.

Ao falar do início de seu trabalho com indígenas, Sebastiani des-vela o núcleo original do seu conceito de ‘matemática materna’. Sua base está no conceito de ‘língua materna’.

Afirma, além disso, que no trabalho com indígenas há dois cuidados que se deve tomar. O primeiro se refere à não imposição de concepções sobre aquelas dos outros; a segunda, de não efetuar uma mera tradução de conceitos. Acrescenta, ainda, que um grupo cultural tem uma lógica própria, baseada em suas formas de vida, que, muitas vezes, é de difícil compreensão para aquele de fora, dificultando sua ação como professor nessas comunidades. Ainda adiciona que, na produção de uma comunidade,

há produtos sagrados e aqueles que são destinados ao comércio. No caso do sagrado, ressalta que o pesquisador deve estar atento à preservação física e simbólica desses produtos.

Mostra-se importante discutir o que significa a não comparação. Antropologicamente, há uma série de escolas que trabalharam com métodos comparativos, pautadas em diferentes concepções. Uma possibilidade que também se mostra é, ao invés da não comparação, se discutir possibilidades de não hierarquização cultural, mas ainda assim se deixaria de lado as relações de poder que se mostram presentes tanto inter como intrassocialmente.

Sebastiani frisa que sua ida à comunidade é sempre marcada por uma solicitação do grupo. Nesse encontro com o outro, aponta algumas aberturas e estranhamentos que ocorrem, considerando a lógica de cada grupo como base para essa dinâmica. Cada grupo cultural possui uma lógica própria, ligada à verdade de sua prática cotidiana, e que a sua é aristotélica, o que pode dificultar a compreensão mútua. Outro aspecto que se destaca nessa dinâmica é o solo histórico e cultural do pesquisador, sempre presentes em seu exercício.

O que é próprio de um grupo cultural, caracterizando-o? Sebastiani afirma ser sua ‘lógica’. E o que entende por ‘lógica’? Pelas ações e exemplos que descreve em sua entrevista, se baseia nas práticas cotidianas. Talvez, isso possa ser explorado no sentido de fortalecer a presença da cosmovisão do outro em sua compreensão, formando um tripé com a questão da matemática e da linguagem. Matemática e linguagem já são trabalhadas conjuntamente por Barton, em sua pesquisa com os maoris. Aos poucos, se delineia uma ponte entre a importância da cosmovisão de um grupo cultural e sua relação com os modos como um grupo se organiza em termos de lógica e de práticas. O modo como os maoris lidam com números vem a corroborar essa ideia. A construção desse tripé matemática/linguagem/cosmovisão pode vir a contribuir na compreensão do outro por lidar também com o solo cultural e os pro- jetos impulsionados pela cosmovisão daquele que se busca compreender. Nessa discussão, é possível que se aproveitem os

conceitos de ‘background’ e de ‘foreground’ de Ole Skovsmose. Também se mostra interessante uma discussão do que é próprio e interno a uma cultura (o sagrado) e o que é produzido para ser levado ao outro (aquilo que visa à comercialização). Uma primeira compreensão é que o sagrado é criado no background, trazido pela tradição – ainda que buscando pro-jetos religiosos no foreground – e o que é produzido para a venda emerge no foreground, na constituição das relações com o outro, na busca pela manutenção material da comunidade.

No que se refere a seu trabalho como etnomatemático, Sebastiani aponta que percebe a matemática materna do outro por meio do diálogo, em que aquele explicita seu conhecimento. Para decodificar essa matemática, utiliza os conceitos matemáticos que conhece, tais como contar, medir e classificar. Considera, ainda, que esses conceitos foram apropriados pela matemática institucional, e indica que um modo de compreender outra cultura é se aproximar da comunidade, contando a própria história de sua cultura.

É importante, ainda, discutir aqui as generalizações feitas por etnomatemáticos e aquelas efetuadas por antropólogos. Além disso, uma discussão sobre algum tipo de lógica presente em todas as culturas parece interessante, pois indica o modo como um grupo se organiza em seu espaço e historicidade. É possível que nessa discussão a questão da linguagem e da cosmovisão de um grupo volte a se destacar.

A fala de Sebastiani ainda levanta a questão dos modos como ocorre a abertura ao outro. Quais são os direcionadores? É uma questão de convergência de conhecimentos, no caso, matemáticos? É por meio da busca de compreensão da lógica do outro? É uma questão de empatia? Enfim, que aspectos se presentificam nesse encontro em que se busca uma abertura para compreensões?

A lógica de um grupo cultural se mostra bastante forte no discurso de Sebastiani, destacando-se como base de seu trabalho como pesquisador e como o ponto em que encontra maiores dificuldades, por perceber-se com uma lógica aristotélica não

descartável, diferente daquela estudada em outro grupo.

No que se refere à matemática, aponta a contagem como essencial às mais diversas comunidades, e afirma que percebe a presença de conhecimentos matemáticos nas práticas de comunidades de grupos culturais emergentes de suas próprias formas de vida, ligados à verdade de sua prática cotidiana.

A questão da percepção do conhecimento na própria prática é uma questão polêmica. Tem-se ciência do “o quê” e do “por quê” ou apenas do “como fazer”? Faz-se por tradição, em uma ação presa ao background ou há um pro-jeto movido em direção ao foreground? Além disso, que conhecimento se percebe do outro? É um reconhecimento dos próprios conhecimentos matemáticos ou trata-se já de um movimento de transcendência, em que ocorre uma transformação criativa e inovadora em uma abertura de horizontes de conhecimento e de compreensão?

Sebastiani destaca a língua e o sagrado em um grupo cultural como aspectos difíceis de serem lidados na etnomatemática. Além disso, indica a dificuldade de trabalhar com grupos nômades, especialmente os formados por pequenos grupos familiares, por oferecerem maior dificuldade para seu estudo e seus objetivos, por não ver um modo de estabelecer o sistema educacional para tais comunidades.

Emerge a discussão do sagrado no que se refere ao encontro entre ciência e religião. A questão da língua também pode indicar uma discussão frutífera, pois a dificuldade de uma língua pode estar relacionada com a distância que a cosmovisão do outro está da do pesquisador. Isso reforça a ideia de que o pesquisador busca, geralmente, um reconhecimento do que já conhece.

Desse encontro com o outro, Sebatiani indica como procede no exercício de interpretação e análise do percebido. Considera que na análise do outro não há como descartar o próprio solo cultural. No entanto, aponta como prioritário evitar que isso influencie essa análise. Frisa, igualmente, o cuidado de, nesse processo, não se realizar uma simples tradução. Afirma que utiliza a modelagem matemática em somente uma passagem de sua análise, pois seu foco está no contexto e na realidade do grupo cultural. Aponta algumas dificuldades para analisar o que é sagrado em alguns grupos,

ressaltando a dificuldade encontrada para separar o significado místico do científico em algumas práticas. Ainda, indica que não é possível se aprofundar o quanto se quer na cultura do outro. Aponta que conhecer a língua é importante para o estudo, mas não suficiente, e a necessidade de estar-se atento aos significados próprios em um solo cultural, não impondo os significados matemáticos do pesquisador na interpretação das práticas.

Ao atentar-se ao sagrado e ao profano em um grupo cultural, quais são os significados místicos que algumas práticas carregam? Há uma tendência a se buscar o místico, frequentemente considerado base do sistema de conhecimento do outro, de modo que ciência seja algo exclusivo de nossa sociedade. Além disso, a dificuldade em lidar com o místico e com o científico, na mesma prática, pode ocorrer por conta de, em nossa cultura, esses saberes surgirem em regiões bem definidas.

Ainda, sobre a língua de um grupo, considera importante conhecê-la para efetuar a etnografia, mas assume não dominar nenhuma língua indígena. Assim, baseia sua etnografia no ver, no perceber, no ver fazer e no diálogo em português com os indígenas. Explicita que considera uma desvantagem não saber a língua materna do outro, mas também assume que apenas o conhecimento dessa língua não é suficiente, sem que haja a percepção e a vivência do cotidiano da comunidade pesquisada. Ele indica que prepara os membros de grupos culturais para efetuarem pesquisas de campo etnográficas em suas próprias comunidades. Em um escopo metodológico, separa etnografia e etnologia, considerando a primeira como a pesquisa de campo e a segunda como sua análise.

Muitos trabalhos em etnomatemática não focam a metodologia etnográfica, sendo negligentes com a explicitação de seus procedimentos. A discussão sobre tais procedimentos se mostra importante, de modo a abrir possibilidades para uma metodologia bem fundamentada para a pesquisa em campo e para a análise do outro.

Aspectos relativos ao trabalho de campo também se destacam no discurso de Sebastiani, que enfatiza a necessidade de preparação do pesquisador antes de realizá-lo.

Diz que essa preparação auxilia o pesquisador a não impor suas próprias concepções àquelas do outro que estuda. Além disso, aponta que é importante que o pesquisador explicite seus objetivos de estudo para a comunidade estudada. Em campo, afirma que nunca sabe, a priori, que matemática encontrará e que os mecanismos pelos quais se direciona se baseiam no ver, no perceber, no ver fazer e no diálogo em português com os indígenas. Considera, também, que é importante que os próprios membros das comunidades efetuem a pesquisa de campo, por ser parte da cultura. Sebastiani separa a análise da pesquisa de campo da pesquisa de campo em si, o que vai ao encontro do referencial teórico que tece ao separar etnografia de etnologia.

Sebastiani enfatizou a preparação para o trabalho de campo. Os mecanismos que utiliza para sua etnografia não envolvem a língua materna dos grupos trabalhados, apesar de esse conceito aparecer recorrentemente em seu discurso. A separação da pesquisa de campo de sua análise pode levar a uma discussão sobre a necessidade de a mesma pessoa participar e estar à frente de ambos os momentos.

4.2.4.2 SB – Compreendendo a etnomatemática como região de inquérito

Figura 6: Núcleos de Significado constituintes da Categoria “SB – Compreendendo a etnomatemática como região de inquérito”

SB

SN01 SN02 SN03 SN04 SN06 SN09 SN13 SN14 SN21 SN24 SN26 SN27

SB – Compreendendo a etnomatemática como região de inquérito

Núcleo de Significado Unidades Discursivas de Significado

SN27 – Contribuições da Psicologia da Cognição na compreensão de etnomatemática

S41.01

SN21 – Sobre a dimensão ética da etnomatemática

S17.01, S17.02, S18.01

SN14 – Sobre a origem da etnomatemática, como termo e como região de inquérito

S07.05, S07.06

SN06 – Historicidade do termo etnomatemática

S02.10, S02.11, S04.01

SN01 – Sobre concepções e definições na etnomatemática

S01.01, S02.03, S02.04, S02.05, S02.06, S08.01, S08.02, S08.05, S08.03, S08.04, S21.03, S39.01

SN13 – Sobre a formação do pesquisador em etnomatemática e os modos como se assumiu nessa região de inquérito

S06.01, S06.02, S07.04, S07.08

SN04 – Tomadas de Decisão S02.08, S07.10

SN02 – Sobre outros autores S02.02, S02.05, S08.01, S26.02

SN03 - Críticas S02.07, S08.01, S08.02, S08.05, S21.01, S21.05

SN09 – Objetivo para o estudo em etnomatemática

S04.05, S19.01, S33.01, S04.08

SN24 – Sobre aproximações entre etnomatemática e antropologia

S25.03

SN26 – Sobre concepções de Educação Matemática

S36.01, S37. 01

Quadro 62: Constituição da categoria “SB – Compreendendo a Etnomatemática como região de inquérito”

Nesta categoria, articulam-se núcleos de significados que falam da etnomatemática como uma região científica de pesquisa específica, com modos próprios de se apresentar, discutindo e buscando compreender interrogações que se encontram na educação matemática. Também nos mostra como se deu o envolvimento de Sebastiani com a etnomatemática e os significados que se articulam para sua compreensão dessa área.

No que diz respeito à sua formação, Sebastiani estudou graduação, mestrado e doutorado em Matemática Pura. A mudança de direcionamento de sua carreira como pesquisador foi disparada por um curso frequentado na UNICAMP, que o preparou para uma pesquisa de campo que envolveria saberes populares. Ao realizar o trabalho final para o curso com um grupo urbano de construtores de casas, percebeu que havia saberes matemáticos em práticas populares. Mais tarde, com o pedido de auxílio de dois professores de comunidades indígenas para o trabalho com o ensino de matemática, inicia seu envolvimento com esses grupos.

A inserção de Sebastiani na etnomatemática contou com dois fatores principais: sua formação, que privilegia a matemática, e as facticidades, como o convite dos professores para que atuasse junto aos indígenas. Esse é um exemplo de como uma forma/ação pode ser disparada por ocorrências do cotidiano vivido.

Ao discutir a origem da etnomatemática, Sebastiani explicita a importância do diálogo que mantinha com D’Ambrosio, indicando que o disparador dessas conversas ocorreu por conta de suas experiências com práticas populares e da existência de outras etno-x36.

Destaca-se a importância da articulação entre pesquisadores para a criação da etnomatemática. O espaço criado não é apenas epistemológico, mas político.

No início de seu trabalho com etnomatemática, Sebastiani denominava esse significado como saber-fazer. Ao longo de seu estudo, preferiu utilizar o termo ‘matemática materna’ para indicar aquela matemática própria de um grupo cultural, tradicional, repassada de pai para filho. Contudo, considera que esse termo não teve repercussão acadêmica, de modo que acabou por abandoná-lo e o levou a adotar o termo etnomatemática, amplamente utilizado na academia ao redor do mundo, com o cuidado de explicitar a maneira pela qual o utiliza.

Quais são as vantagens entre utilizar o termo etnomatemática e o termo matemática materna? Como já visto na categoria anterior, o termo ‘matemática materna’ tem sua origem no estudo étnico de línguas. A raiz de ‘materna’ é a palavra mãe. Mãe que ensina, mãe que protege, mãe que se estende na prole. Traz a historicidade do conceito consigo, mas não a sua transformação. Etnomatemática, por outro lado, não carrega consigo a historicidade do conceito, mas uma ideia de presença de um conhecimento em um grupo.

Sebastiani considera que há diversas concepções que sustentam a etnomatemática, algumas mais abrangentes, outras mais restritivas. Ele prefere as

36

Termo frequentemente utilizado para indicar estudos étnicos em torno de uma disciplina presente na organização do pensamento ocidental, tais como etnobiologia, etnoastronomia, etnobotânica, etnozoologia, etnomatemática etc.

últimas, por considerar que as primeiras podem levar o pesquisador a perder-se em sua pesquisa. Por outro lado, considera positiva essa diversidade, desde que cada pesquisador explicite em sua pesquisa o modo como concebe o conceito de etnomatemática e não fira o que considera o paradigma essencial dessa área de investigação: o estudo da matemática de grupos específicos.

Em seu trabalho com etnomatemática, tem a matemática como nuclear. Considera, ainda, que essa matemática é desenvolvida historicamente, motivada por questões de sobrevivência e, intersubjetivamente, no contato de um grupo étnico com outros. Compara o papel do etnomatemático ao do missionário, diferenciando-os no que se refere à instalação do missionário na comunidade: o primeiro, por solicitação do grupo; o segundo, buscando a transformação do povo de acordo com seus próprios preceitos culturais.

Apesar de considerar a diversidade de concepções de etnomatemática, Sebastiani aponta um paradigma único fundamental: o estudo de matemáticas de grupos específicos. Uma interrogação decorrente dessa afirmação é: o que caracteriza um grupo específico? O compartilhamento das mesmas práticas, da mesma língua? Indivíduos que se consideram identificáveis por algum aspecto?

Benzer Belgeler