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É dentro dessa perspectiva de revalorização de Campos Elíseos que o antigo palacete, situado na esquina entre as alamedas Cleveland e Nothmann, ocupado desde a década de 1980 e transformado em cortiço, foi desocupado. O destino desses moradores evidencia o processo de exclusão e segregação; e como o projeto estatista de integração dessa população mais pobre é irrisório ou não vai além do plano ideológico.

O imóvel foi desocupado em 2001, com o Estado transferindo sua administração da Secretaria da Cultura para a Fundação do Patrimônio Histórico da Energia de São Paulo (FPHESP)48, que, junto à participação de empresas privadas, restaurou o prédio para instalação do Museu da Energia. De acordo com esta instituição:

48 A fundação é controlada pelo grupo AES Eletropaulo. A AES é uma multinacional norte-americana

de energia que passou a controlar a Eletropaulo em 2001, quando se tornou acionista majoritária, três anos após a privatização desta última. A partir de 2004, com a associação da Sabesp, a entidade assume a denominação Fundação Energia e Saneamento. www.fphesp.org.br/saopaulo/ saopaulo.htm, 18.02.2006.

Agora, nos esforços para a requalificação da área central da cidade, a Fundação Energia e Saneamento devolve o imóvel à sociedade, instalando nele a unidade paulistana do Museu da Energia. Nesse sentido, sua exposição inaugural apresentará painéis fotográficos, mostrando o estado em que se encontrava o edifício quando a Fundação o assumiu, reforçando o trabalho de restauro executado, e para o qual foi decisivo o apoio das empresas AES Eletropaulo, Voith, CTEEP, Sabesp, Queiroz Galvão e CBA, obtido por meio do incentivo da Lei Rouanet. Uma amostra do acervo da Fundação será exibida nessa exposição, antecipando o trabalho que se inicia com o término das obras de recuperação: o de elaboração e montagem da exposição de longa duração do Museu da Energia de São Paulo – iniciativa também incentivada pela Lei Rouanet. [...] Articulando e complementando as atividades já desenvolvidas nos outros núcleos do Museu de Energia da Fundação, o projeto museológico do núcleo de São Paulo contextualizará a temática da energia e sua importância histórica e estratégica no desenvolvimento urbano, industrial e tecnológico paulistano, paulista e brasileiro. No ambiente do edifício centenário que pertenceu à família de Santos Dumont, restaurado e adaptado para abrigar o Museu da Energia, e em seus jardins, diversas exposições temáticas contarão aspectos da história da energia e da urbanização de São Paulo. Nesse cenário, terão destaque os temas da iluminação, da eficiência energética, das fontes convencionais e alternativas de energia e das tendências futuras relacionadas ao seu consumo.49 (grifos nossos)

Foto 34 – “Casarão Santos Dumont” restaurado, atual Museu da Energia. Evânio, 08.12.2005.

O processo de revitalização dos centros urbanos torna-se assim uma “nova fronteira” para a reprodução do capital em âmbito mundial, no qual se institui uma “indústria da restauração”, com técnicas e materiais específicos, mão-de-obra especializada etc. A instituição de museus é um ponto relevante desse processo,

pois, além de movimentar esse setor de restauração, investe na reprodução de um “capital simbólico”50 no contexto da “indústria cultural”, com a perspectiva de retorno para governos e empresas tanto em termos econômicos como de marketing, além de atrair toda uma cadeia de serviços para o entorno dessas intervenções visando atender um público privilegiado voltado para o “consumo cultural”.

Como já indicava Guy Debord, a partir da previsão de Clark Kerr: “[...] a cultura deve desempenhar na segunda metade do século XX o papel motor no desenvolvimento da economia, equivalente ao do automóvel na primeira metade e ao das ferrovias na segunda metade do século XIX”51. Campos Elíseos é um caso representativo desses ciclos econômicos e das transformações espaciais inerentes.

Em relação ao “consumo cultural”, a própria concepção de museu se alterou, como relata a diretora de conteúdo do Museu da Língua Portuguesa, inaugurado em março de 2006, Isa Ferraz:

É um museu vivo, com variados recursos audiovisuais e de informática. Não é um mausoléu, mas um museu na acepção moderna do termo.[...] A idéia é que, pela natureza ‘virtual’ do acervo possa ser renovado e atualizado. É um processo complexo e caro, mas que, mais adiante poderá e deverá acontecer.52

É presumível que essas intervenções só vão ocorrer dentro de uma perspectiva de reprodução econômica; daí a importância da intervenção do Estado, oferecendo incentivos fiscais, melhorando ou recuperando a infra-estrutura, com vistas a induzir e dar sustentação a esse processo de revalorização.

A reprodução desse “capital simbólico” é apoiada na propriedade ou posse de bens de valor históricos, culturais e artísticos que oferecem uma renda através de sua exposição, venda ou aluguel para outros museus. Em geral, caracteriza uma renda de monopólio, pois é baseada no caráter de exclusividade desses bens. Pode- se afirmar que, assim como a financeirização, o desenvolvimento do capital simbólico demonstra a natureza do capital com respeito a sua tendência à abstração

50 A definição de “capital simbólico” dá-se em função da atribuição de valor desse bem não ocorrer no

processo produtivo propriamente dito, mas de uma forma subjetiva, apoiado em sua importância histórica, cultural e/ou artística. Como afirmou Marx, no desenvolvimento histórico, o desenvolvimento político, das artes, das ciências etc., tendem a ser capturados pelo capital e postos a serviço da acumulação da riqueza. MARX, Karl. Elementos fundamentales para la critica de la economia politica

– borrador 1857 – 1858. México D.F.: Siglo Veintiuno Editores, 1989, vol. 1, p. 92.

51 DEBORD, Guy. A sociedade do espetáculo. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997, p. 126-7. 52 A casa da língua. Folha de São Paulo. Ilustrada, 19.03.2006.

e à fetichização. Para Guy Debord marca a fase do espetáculo, que é “o capital em tal grau de acumulação que se torna imagem”53. Fredric Jameson destaca este momento como de diluição entre a economia e a cultura:

[...] de modo que a economia acabou por coincidir com a cultura, fazendo com que tudo, inclusive a produção de mercadorias e a alta especulação financeira, se tornasse cultural, enquanto que a cultura tornou-se profundamente econômica, igualmente orientada para a produção de mercadorias.54

Nessas condições, a propriedade também se tornou mais fluída, estendendo- se e deslocando-se sobre um espaço mundial formado por redes descentradas de difícil apreensão, como indica Jameson, sobre este momento de alienação tecnológica no capitalismo global:

E assim chego a meu ponto principal aqui, o de essa última mutação do espaço – o hiperespaço pós-modernista – finalmente conseguiu ultrapassar a capacidade do corpo humano de se localizar, de organizar perceptivamente o espaço circundante e mapear cognitivamente sua posição em um mundo exterior mapeável. Pode-se sugerir agora que esse ponto de disjunção alarmante entre o corpo e o ambiente construído [...] seja visto como um símbolo e um análogo daquele dilema ainda mais agudo que é o da incapacidade de nossas mentes, pelo menos no presente, de mapear a enorme rede global e multinacional de comunicação descentrada em que nos encontramos presos como sujeitos individuais.55

Mais adiante o autor se referindo sobre a evolução tecnológica a partir da informática e a caracterização de um espaço pós-moderno:

Nessa nova máquina que não pode, como as antigas máquinas do modernismo – a locomotiva e o aeroplano –, representar o movimento, mas só pode ser representada em movimento, concentra-se algo do mistério do novo espaço pós-moderno.56

53 DEBORD, Guy, op. cit., p.25.

54 JAMESON, Fredric. A cultura do dinheiro: ensaios sobre a globalização. Petrópolis: Vozes, 2001, p.

73.

55 JAMESON, Fredric. Pós-modernismo: a lógica cultural do capitalismo tardio. São Paulo: Editora

Ática, 2004, p. 70-1.

Essas novas contradições que se colocam a partir da constituição desse espaço global e do desenvolvimento tecnológico vêm se somar às contradições já existentes, como a luta da população mais pobre pela apropriação do espaço – da propriedade da terra –, através da conquista da moradia.

Em relação ao destino dos moradores do Casarão, como expressou Elizabete Paixão, membro do Fórum dos Cortiços, que se transferiu da residência para outra ocupação do movimento sem-teto em um prédio público na rua da Abolição, na Bela Vista:

Foi assim, lá o Casarão ia entrar em despejo, muita gente ficou, separou o grupo, então muitas famílias ficaram, veio pra cá mais ou menos umas 15 a 16 famílias, foi com a Verônica [Kroll] que vimos, o pessoal de lá foi despejado, o pessoal pegou o dinheiro e a maioria foi pra favela, maioria alugou um lugar, quer dizer tá tudo por conta de Deus dará. Do pessoal que veio pra cá, a maioria já saiu, foram embora, e parte continua aqui, ainda tem agora aqui, estamos em quatro, só famílias, e o resto saiu.57

Dona Leda, também ex-moradora do Casarão acabou se deslocando para outro casarão ocupado na esquina das ruas Barão de Piracicaba e Ribeiro da Silva (foto 35), pagando aluguel no início, prevê sua expulsão novamente, em função do processo de revalorização do local:

Eu pelo menos morei um ano e sete meses, mais já tinha muita gente, que já tinha morado da outra vez, há uns dez anos atrás, uns quinze anos, posso dizer, aí ele fechou, ficou lacrado, ninguém construía nada, ninguém reformava, ai o pessoal precisando de moradia foi lá e abriu, aí foi onde eu fui pra lá, já morava muita gente, já fazia tempo, então acho que já tinha gente que já tava ali bem uns cinco anos, ou mais entendeu, acho que ficou um ano, um ano e pouco o Casarão fechado, o pessoal fica fazendo ronda, e acaba invadindo novamente... Então tá ficando muito bonito ali, eu acho que ali vai ficar uma coisa assim muito bonita, a gente sabe também que quando terminar a restauração lá, vai vir pra cá, sabe?58

57 Entrevista concedida em 23.05.2004.

Foto 35 – Antigo palacete invadido, esquina das alamedas Ribeiro da Silva e Barão de Piracicaba. Evânio, janeiro de 2005.

Na página da Fundação Energia e Saneamento na Internet pode-se ler o histórico do imóvel, o nome de cada um de seus proprietários, sua transformação em escola, a busca de depoimentos e fotos de seus antigos alunos. Mas sobre os encortiçados só indica que foi ocupado por um movimento de sem-teto. Presume-se que, na visão dessa instituição, eles não foram moradores, mas “invasores”. E, portanto, não devem fazer parte da história desse local e mesmo o próprio modo de urbanização que a cidade assumiu. A história, ou melhor sua construção, é a história da propriedade privada e de seus proprietários “legais”, não dos despossuídos e da miséria. Estes não fazem parte do urbano e da urbanização que o museu quer expor. A exclusão não se dá apenas de uma forma física, mas de sua própria história. Como expressou um de seus moradores antes da desapropriação:

Hoje, o que me entristece é saber que nós moramos aqui dezoito anos, têm vidas e mais vidas que nasceram e morreram já, e as pessoas querem jogar a gente de qualquer maneira. Isso é o que me entristece. Agora, pôxa! Aqui pode ser feito um museu, quantos milhões vai ser gastado em um museu de eletricidade, o quer que seja, e o valor das pessoas? Não tem valor?59

Também se tenta justificar a desapropriação ressaltando as condições precárias em que se encontrava a residência e depois da intervenção, restaurada e

limpa; transformando um espaço percebido como degradado e perigoso em um espaço restaurado e limpo. Como cita a instituição, concluída a restauração: “devolve o imóvel à sociedade”.

Trata-se de uma estetização do urbano, como o próprio texto do Museu cita a palavra cenário, com a exclusão desse urbano, pois isso “não é problema deles”. É evidente que não se trata defender que esses moradores continuem a viver em condições precárias, pois a maioria concordava em sair dali, mas de expor o seu processo de exclusão, sem oferecer condições para essa população continuar a morar no Centro. E do preconceito de viverem sob o estigma de marginais, drogados e traficantes. Essa questão demonstra a complexidade da intervenção no urbano, que não se resume a um tratamento técnico, é inevitável um posicionamento político-ideológico. Do contrário, o conhecimento produzido, como no caso da geografia cultural e do turismo, torna-se apenas um instrumento desta forma de reprodução, capturados por seu discurso ideológico.

A história do Casarão e a forma de reprodução de sua propriedade representam uma síntese da transformação de Campos Elíseos e das contradições do espaço verificadas aí: no início, auge do poder econômico, quando era habitado por uma família de oligarcas ligada à cafeicultura; com a “decadência” do lugar, sua transformação em cortiço e a luta pela apropriação deste local; e, mais recentemente, a intervenção do Estado com a expulsão dessas famílias mais pobres e sua transformação em um museu da energia.

Neste sentido, o discurso do Estado de “requalificar” esses lugares mal disfarça, como salienta Otília Arantes, a manutenção do status quo, a tentativa de esconder a miséria com a expulsão da população pobre, que impossibilitada de morar nesses locais, será aí no máximo um turista 60.

60 ARANTES, Otília. Urbanismo em fim de linha. São Paulo: Edusp, 1998. Visitei o Museu da Energia

em 20.07.2006, e a guia deste me relatou a visita de dois antigos moradores do Casarão e o estranhamento que tiveram em relação ao edifício reformado.

Foto 36 – Morador de rua na calçada do Museu da Energia, na alameda Nothmann. Evânio, 20.07.2006.

Enfim, a “revitalização” é implantar - ou pelo menos sua tentativa - uma forma de vida asséptica, afastando a miséria e os conflitos, para sustentar uma nova fase de reprodução do capital, impulsionada agora pela indústria cultural e a espetacularização do espaço. Nesse sentido, a revitalização, junto à implantação dos complexos culturais, pode ser vista como o espaço de catástrofe dos movimentos de sem-teto e da moradia popular no Centro.

Será que a reprodução do capital nesta fase de crescente terciarização se sustenta? E a cidade de São Paulo, com a reestruturação produtiva que vem passando nessas últimas décadas, é um exemplo dessas transformações. Para Robert Kurz:

O desastre histórico da terciarização remete a um problema-tabu da forma social. Vista de uma perspectiva puramente técnica e material, a produtividade suscitada pela terceira revolução industrial permitiria de fato que a humanidade aplicasse apenas uma parcela relativamente pequena de seu tempo em produção agrária e industrial, a fim de se ocupar principalmente com formação, educação, assistência, medicina, cultura etc. A primeira parte desse programa se cumpre: um número cada vez menor de pessoas é empregado no setor primário e secundário. Mas a segunda parte fracassa: a reestruturação dos recursos humanos no setor terciário não é pensável em termos capitalistas. [...] Os bilhões de seres humanos que agora, em todas as partes do mundo, encalham na terciarização de miséria

não passam na realidade de mendigos decaídos melhores, para os quais não há mais nenhum futuro capitalista.61

Talvez, como aponta o autor, nós precisamos da formulação de novos paradigmas relacionados à sociedade de serviços que passaremos a viver cada vez mais. Em nosso caso de capitalismo periférico, com a intensificação das disparidades sociais, precarização das relações de trabalho, aumento do desemprego e informalização etc., esse processo se espacializa na cidade como mais segregação sócio-espacial, crise da habitação, criminalidade etc. Neste contexto, como o processo de revitalização pode avançar? Como o Estado pode administrar essas contradições? Uma das medidas do Estado, aquele que detém o monopólio institucional do uso da força, seria sua utilização, demonstrando, de forma literal, como este processo é violento.

4.2. A Companhia Porto Seguro e as estratégias de valorização do