Obriga-se o hospital a realizar diversos serviços, formando, na lição de Ruy Rosado de Aguiar Júnior380, uma “universalidade de fato”, formada por conjunto de instalações, aparelhos, instrumentos cirúrgicos, atendimento médico e de hospedagem, destinados ao tratamento de saúde do paciente. São atividades médicas
378 STOCO, Rui, op. cit., p. 399.
379 CAVALIERI FILHO, Sérgio, op. cit., p. 368-369.
380 AGUIAR JÚNIOR, Ruy Rosado de. Responsabilidade civil do médico. Revista dos Tribunais vol. 718, São Paulo, agosto de 1995, p. 33.
propriamente ditas, supervisão do médico, atos derivados do contrato de hospedagem (alimentação, disponibilização de leito, etc.) e atos de tratamento. A relação entre o hospital e o paciente é de natureza contratual.
A doutrina discute se tais atividades caracterizam obrigação de meio ou de resultado do hospital. Tal conceito, como se observou, poderia ser relevante, pois a depender da definição estamos diante ou não de presunção de culpa para fins de classificação da responsabilidade. Roberto Godoy381 entende que tais atividades estão mais atreladas às obrigações de resultado do que obrigações de meio. Nesse sentido, exemplifica o autor:
“(...) um paciente que não recebesse alimentação durante sua internação, e que, por isso, sofresse dano, arcaria com o ônus da prova; adotando-se, porém, o conceito de resultado possível, bastaria ao paciente demonstrar que o fornecimento de alimento era um resultado possível, demonstração quase que desnecessária dada sua obviedade, e que este resultado não foi alcançado”.382 Ruy Rosado de Aguiar Júnior383 enfatiza que “o hospital firma um contrato com o paciente internado, assumindo uma obrigação de meio, consistente em fornecer hospedagem (alojamento, alimentação) e serviços paramédicos (medicamentos, instalações, instrumentos, pessoal de enfermagem, etc.)”.
381 GODOY, Roberto. A responsabilidade civil no atendimento médico e hospitalar. In: NERY JÚNIOR, Nelson; NERY, Rosa Maria de Andrade (orgs.). Doutrinas essenciais – responsabilidade
civil, vol. 5. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2010, p. 827-868. 382 GODOY, Roberto, op. cit., p. 853.
383 AGUIAR JÚNIOR, Ruy Rosado de. Responsabilidade civil do médico. Revista dos Tribunais vol. 718, São Paulo, agosto de 1995, p. 33.
Sérgio Cavalieri384, por sua vez, entende que tal distinção não é relevante, em face do CDC, que passou a prever a responsabilidade objetiva do fornecedor de serviços. Assim, sendo o hospital fornecedor de serviços hospitalares, responderá independentemente de culpa, de forma objetiva, nos termos do artigo 14 do CDC. Esclarece o autor que:
“Doutrina e jurisprudência tradicionalmente enquadravam a responsabilidade dos estabelecimentos hospitalares no art. 1.521, IV, do Código Civil de 1916 (art. 932, IV, do novo Código), aquele que disciplinava a responsabilidade dos hotéis e das hospedarias. Sustentava-se que a instituição hospitalar, além da obrigação de curar, de dar tratamento médico ao paciente, assumia com ele uma obrigação de hospedagem da qual lhe resultava uma presunção de responsabilidade que a tornava responsável por tudo aquilo que viesse a ocorrer ao paciente. Tenho pra mim que essa fundamentação perdeu a sua razão de ser em face do art. 14 do Código de Defesa do Consumidor. Os estabelecimentos hospitalares são fornecedores de serviços, e, como tais, respondem objetivamente pelos danos causados aos seus pacientes”.
A relação do hospital com o paciente, diferentemente da relação com o médico, não é intuito personae, devendo o hospital, com base no CDC, responder de forma objetiva perante o consumidor-paciente por todos os serviços que presta no exercício de sua atividade. Responde pelo fato do serviço (acidente de consumo/defeito na prestação), caso algum acontecimento externo cause danos materiais ou morais ao consumidor.385
384 CAVALIERI FILHO, Sérgio, op. cit., p. 380. 385 CAVALIERI FILHO, Sérgio, op. cit., p. 380.
Há, porém, discussão sobre a responsabilidade do hospital frente à atividade médica propriamente dita, considerando que o serviço médico pode acarretar a responsabilidade subjetiva do profissional liberal, fundada na culpa. Como já enfatizado, não se pode deixar de esclarecer no presente trabalho a discussão acerca da atividade médica exercida no âmbito do hospital, e a consequente responsabilidade deste último pelo fato do serviço do médico que presta atendimento no âmbito de suas dependências.
Assim, há de ser avaliada qual a extensão da responsabilidade do hospital frente ao atendimento feito em suas dependências. Haverá responsabilidade do hospital caso o médico faça parte de seu corpo clínico, seja seu empregado ou preposto? E qual a responsabilidade do hospital frente ao médico que apenas utiliza suas dependências, mas sem estabelecer qualquer vínculo com o nosocômio? Como responderá o hospital pelo serviço prestado pelo médico, considerando que a responsabilidade do profissional liberal é subjetiva e a responsabilidade do hospital é objetiva? Haverá solidariedade?
Para bem elucidar a questão, exploramos interessante distinção sobre a responsabilidade do hospital feita por José Alfredo Guimarães386, partindo de três situações distintas na prestação do serviço do hospital e que podem ou não envolver o serviço médico. Vejamos:
386 GUIMARÃES, José Alfredo. Responsabilidade médico-hospitalar. In: NERY JÚNIOR, Nelson; NERY, Rosa Maria de Andrade (orgs.). Doutrinas Essenciais – responsabilidade civil, vol. 5. São
a) prestação e serviços tipicamente hospitalares, sem vínculo com o trabalho do médico;
b) o trabalho do médico que atua no hospital, sem qualquer
relação de dependência ou ligação com o mesmo;
c) o trabalho dos médicos vinculados ao hospital, como empregados e membros do seu corpo clínico.
Na primeira situação, ensina José Alfredo Guimarães387, “o hospital dedica ao paciente serviços de hospedagem, bem como lhe ministra tratamento através de atividades diversas, como a de enfermagem, a de nutrição, a de exames clínicos, a de aplicação de remédios, etc.” Conclui que, nestas situações, a responsabilidade é objetiva, bastando a demonstração do defeito do serviço.
Na segunda situação, em que o médico utiliza a estrutura hospitalar, mas sem qualquer vínculo de preposição com o hospital, não há que se falar de responsabilidade do hospital. Nessa linha, José Alfredo Guimarães388 enfatiza que, se o médico atende ao seu cliente particular no hospital, não pode a casa de saúde ser responsabilizada por eventuais atos culposos do médico. No mesmo sentido é o entendimento de Roberto Godoy389, para quem o hospital não responderá solidariamente com o médico pelo defeito do serviço, caso o paciente tenha procurado primariamente o médico e tenha sido por este levado ao hospital; a escolha do médico, neste caso, não foi do hospital, mas sim do próprio paciente.
387 GUIMARÃES, José Alfredo, op. cit., p. 876-877. 388 GUIMARÃES, José Alfredo, op. cit., p. 877. 389 GODOY, Roberto, op. cit., p. 861.
Ruy Rosado de Aguiar Júnior390 da mesma forma entende não ser o hospital responsável quando o médico apenas faz uso das suas instalações para tratamento e internação dos seus próprios pacientes. Carlos Roberto Gonçalves391 afirma que se o profissional apenas utiliza o hospital para internar pacientes particulares, responde com exclusividade e de forma subjetiva, não sendo responsável o hospital.
Quanto à terceira situação, ou seja, serviços médicos prestados pelo hospital por meio de médicos empregados ou integrantes de seu corpo clínico, haverá responsabilidade solidária e objetiva do hospital. Sérgio Cavalieri392 entende que a atividade médica prestada no âmbito hospitalar é atividade empresarial, ou seja, atividade hospitalar e, portanto, sujeita à responsabilidade objetiva.
Fernando Facury Scaff393 esclarece que, nesta hipótese, a responsabilidade do hospital perante o consumidor será objetiva e a responsabilidade do profissional liberal perante o paciente (ainda que empregado assalariado da instituição) será subjetiva fundada na culpa. Ao hospital caberá o direito de regresso em face do profissional. Todavia, perante o paciente, responderá de forma objetiva, com fundamento no artigo 14, caput, do CDC.
390 AGUIAR JÚNIOR, Ruy Rosado de. Responsabilidade civil do médico. In: NERY JÚNIOR, Nelson; NERY, Rosa Maria de Andrade (orgs.). Doutrinas Essenciais – Responsabilidade civil, vol.
5. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2010, p. 509-541. 391 GONÇALVES, Carlos Roberto, op. cit., p. 370.
392 CAVALIERI FILHO, Sérgio, op. cit., p. 368-369.
393 SCAFF, Fernando Facury. Da Responsabilidade das instituições médicas. In: NERY JÚNIOR, Nelson; NERY, Rosa Maria de Andrade (orgs.). Doutrinas Essenciais – responsabilidade civil, vol. 5.
Dessa forma, uma vez constatados o dano ao paciente e o nexo de causalidade com o atendimento prestado no hospital, responderá o hospital objetiva e solidariamente, nos termos do art. 7º, parágrafo único e artigo 14, ambos do CDC.394 Somente se eximirá de tal responsabilidade se demonstrar ausência de dano, ausência de nexo de causalidade ou culpa exclusiva da vítima.
José de Aguiar Dias, em obra citada, enfatiza que “com relação aos hospitais, a sua responsabilidade é objetiva, não apenas porque não estão eles abrangidos no art. 14, parágrafo 4º, como também porque a sua responsabilidade decorre do defeito do serviço”.395 Na mesma linha, Roberto Godoy396 conclui que “a instituição hospitalar responde solidariamente pelo dano causado por ação de seus funcionários e, também, do profissional médico, exceto, neste último caso, se o paciente procura primariamente o médico e é por este encaminhado à internação”.
Na lição de Bruno Miragem397, a responsabilidade do hospital é objetiva, na medida em que oferece serviço defeituoso, e independe da responsabilidade subjetiva do profissional liberal. A respeito ensina o autor que:
“Neste particular, muito se discute sobre a eventual dependência da responsabilidade objetiva do hospital ou clínica em relação a verificação da culpa do profissional médico que nelas atua, sobretudo em vista da exigência de que este seja demandado para que se possa alcançar a responsabilidade da instituição. (...). Este raciocínio, contudo, parece confundir os pressupostos de ambas as relações de responsabilidade, do profissional que é subjetiva e,
394 Há quem defenda que, neste caso, responderá o hospital objetivamente pelo ato de seu preposto, com fundamento no Código Civil, prevalecendo a regra do CC (art. 932, III) sobre a regra do art. 14 do CDC. Nesse sentido: STOCO, Rui. Responsabilidade civil dos hospitais, sanatórios, clínicas, casas de saúde e similares em face do Código de Defesa do Consumidor. In: NERY JÚNIOR, Nelson; NERY, Rosa Maria de Andrade (orgs.). Doutrinas Essenciais – responsabilidade civil, vol. 5. São
Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2010, p. 815-826. 395 DIAS, José de Aguiar, op. cit., p. 307.
396 GODOY, Roberto, op. cit., p. 861. 397 MIRAGEM, Bruno, op. cit., p. 677-724.
portanto, dependente da verificação da culpa, e a do hospital ou clínica que é a objetiva, neste caso exigindo a presença de defeito na prestação do serviço. (...) Trata-se, pois, de uma questão circunscrita ao reconhecimento do nexo de causalidade, para o que se deverá examinar a conduta do profissional e do hospital, e não uma vinculação lógica obrigatória entre a culpa do profissional e o defeito na prestação do serviço pela instituição”.
7.3. Da responsabilidade das operadoras pelo fato do serviço prestado pelo