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matematicamente intratável, parecendo, pois, ser um obstáculo à formalização das teorias nas ciências sociais. Mesmo consideran- do que as teorias da escolha racional, em geral, não argumentem que os atores sejam realmente racionais em sua vida cotidiana, pretendendo apenas prever como eles agiriam se fossem racionais, uma questão continua a merecer resposta: por que uma teoria tão irrealista conseguiria fazer previsões acertadas sobre o comporta- mento humano? Em outras palavras, por que o comportamento observado pareceria racional ao mesmo tempo que um exame do que se passava na mente dos indivíduos (por meio de entrevistas ou questionários, por exemplo) revelaria que a ação estava longe de atender aos critérios da racionalidade? Por exemplo, segundo

Coleman (1990, p. 98-9), a racionalidade da troca de favores está no fato de que quem presta o favor está colocando à disposição de outrem recursos que lhe pertencem, dos quais não lhe será custo- so se desfazer no momento e que serão de grande utilidade para quem os recebe, esperando, num momento em que passar por necessidade análoga, receber ajuda, que lhe será de grande valia e que não será muito custosa a quem retribuir o favor. Entre tanto, um exame psicológico detalhado do indivíduo que fez o favor po- deria revelar que ele não fez nenhum cálculo de custo-benefício e que simplesmente se sentiu bem em ajudar alguém que estava em situação pior do que a sua. Ainal, como considerar racional e egoísta um indivíduo que faz um favor para um completo estra- nho com o qual está certo de que nunca haverá outro encontro? Coleman procura explicar casos como esses pela existência de normas internalizadas, entendendo que um indi víduo tem uma nor ma internalizada quando sente um desconforto psicológico ao transgredir uma norma. Ou seja, o próprio indivíduo se pune ao não fazer o que a norma prescreve ou ao fazer o que a norma proíbe (COLEMAN, 1990, p. 293).

Assim, um ato de “pura generosidade” poderia ser ex- plicado como um ato de obediência a uma norma internaliza- da. Quanto à internalização da norma, realizá-la seria um ato racional nos casos em que o ator se confronte com situações em que não esteja a seu alcance burlar a norma sem ser puni- do. Se não é possível controlar certos eventos do mundo (as punições), a atitude que mais benefícios pode trazer ao sujeito é a modiicação de suas expectativas em relação ao mundo (no caso, passar a desejar obedecer às normas e a se sentir gratiicado ao fazê-lo)4 (COLEMAN, 1990, p. 517).

4 Aproveitei aqui um argumento que já havia tido oportunidade de apresentar

Acredito que esse argumento de Coleman pode ser complementado por uma explicação evolucionista. Parece- -me muito estranho que o indivíduo tome a decisão racional de internalizar uma norma: obviamente o processo de inter- nalização de normas se dá de modo inconsciente, e esse é, claramente, mais um momento de irrealismo de uma teoria da escolha racional. Entretanto, de fato, as coisas se passam de um modo que a teoria faz previsões acertadas sobre o comportamento dos indivíduos. Como, então, explicar que o indivíduo escolha inconscientemente o curso de ação mais racional (a internalização das normas)? A resposta evolucio- nista é de que isso não é obra do acaso. Situações semelhan- tes à oportunidade de fazer favores para estranhos ocorrem há alguns milhões de anos. Nessas situações, os indivíduos se veem diante da necessidade de tomar a decisão de ajudar ou não sem a possibilidade de extrair do ambiente imediato to- das as informações necessárias para uma decisão bem ponde- rada (na terminologia da teoria dos jogos, trata-se de um jogo de informação incompleta). No caso, o indivíduo não sabe ao certo se o outro indivíduo terá no futuro oportunidade de retribuir o favor recebido. Somente seria racional fazer o fa- vor se a retribuição fosse esperada. Na ausência dessa infor- mação, não há como tomar uma decisão racional: a decisão tem que ser emotiva. O que uma teoria evolucionista prevê é que os indivíduos desenvolverão as propensões emotivas mais apropriadas para lhes guiar em situações que se repetem por milhares de gerações (TOOBY; COSMIDES, 1992).5 Assim,

por exemplo, no caso do encontro com um predador em po- tencial, a emoção mais apropriada é o medo, que motivará a 5 Ver também Turner (2000, p. 59).

fuga; no caso de um encontro com uma pessoa em diiculda- de, e em situação pior do que a do próprio indivíduo, a ação apropriada seria a ajuda, pois por milhões de anos a probabi- lidade de reencontrar esse indivíduo ou um de seus familiares foi bastante alta. Atualmente, com o enorme crescimento das cidades, com o desenvolvimento dos meios de transporte e da indústria do turismo, frequentemente encontramos indi- víduos cuja probabilidade de reencontro futuro sabemos ser praticamente nula. Mas a capacidade de internalizar normas e a propensão para internalizar com facilidade a norma de ajudar o próximo em diiculdade já estão desenvolvidas no ser humano, mesmo que isso às vezes seja claramente não ra- cional para um indivíduo egoísta. Assim, em muitos casos, as propensões emotivas evoluídas ao longo de milhões de anos parecem continuar levando os indivíduos a se comportar de modo semelhante ao que fariam se estivessem realizando cál- culos racionais de longo prazo.

Essa mesma explicação evolucionista permite argumen- tar que o pressuposto do conhecimento perfeito da realidade não é metodologicamente tão absurdo quanto possa parecer num primeiro exame. Não somos descendentes de indivíduos que tomaram as decisões erradas. Estes morreram deixando ne- nhum ou poucos descendentes. Somos descendentes dos indiví- duos que, em boa parte guiados por suas propensões emotivas, tomaram as decisões certas. À medida que problemas análogos aos enfrentados por nossos ancestrais continuem a se repetir, ao agir guiados pelas mesmas propensões emotivas dos nossos ancestrais, estaremos tomando decisões próximas do que se es- peraria de um agente com conhecimento perfeito do jogo.

Deve-se notar, entretanto, que a explicação evolucio- nista somente se aplica a casos estruturalmente semelhantes

aos ocorridos repetidas vezes no passado da nossa espécie. Quanto menor for nosso conhecimento sobre o passado evo- lutivo, mais especulativas serão as explicações evolucionistas de acontecimentos do presente. Na verdade, as pistas que te- mos sobre como viveram nossos antepassados de tempos pré- -históricos são tão fragmentárias que frequentemente é mais útil especular sobre como foi o passado a partir do comporta- mento presente do que explicar o comportamento presente a partir de um conhecimento do passado. Por im, é importante observar que as forças naturais de seleção tendem a maximizar o sucesso reprodutivo do indivíduo e de seus familiares mais próximos, o que nem sempre coincide com a forma como a teoria dos jogos costumam caracterizar seus indivíduos egoís- tas. A forma mais fácil de prever o comportamento de um in- divíduo é considerar que ele busca o enriquecimento material, mas essa é apenas uma das atitudes que pode levá-lo ao suces- so reprodutivo.