3.4. Bulgular ve Analiz
3.4.2. Gözleme İlişkin Bulgular
(Fundindo os vidros e os metais da minha córnea, e atirando um punhado de areia pra cegar a atmosfera, incursiono às vezes num sono já dormido, enxergando através daquele vidro fosco um pó rudimentar, uma pedra de moenda, um pilão, um socador provecto, e uns varais extensos, e umas gamelas ulceradas, carcomidas, de tanto esforço em suas lidas, e uma caneca amassada, e uma moringa sempre à sombra machucada na sua bica, e um torrador de café, cilíndrico, fumacento, enegrecido, lamentoso, pachorrento, girando à manivela na memória [...] e um antigo porta-retrato, e uma fotografia castanha nupcial, trazendo como fundo um cenário irreal, e puxaria muitos outros fragmentos, miúdos, poderosos, que conservo no mesmo fosso como guardião zeloso das coisas da família). (NASSAR, 2002, p. 64- 65).
Esse trecho da obra Lavoura Arcaica faz parte do décimo capítulo e é tal qual uma pausa na história da narrativa para descrever o ambiente familiar resgatado pela memória de André, narrador-personagem, que passeia pelo ambiente (memória) como um arqueólogo num sítio, resgatando objetos preciosos carcomidos pelo tempo. O trecho é um bom exemplo de como a memória é permeada por imagens; imagens que resgatam sons, saberes, lidas, territórios, tempos, ou seja, metáforas da vida em comunhão familiar (também percepções dessa vida) – em algum momento, a própria memória só pode ser alçada pela metáfora. A memória aqui corresponde ao próprio fazer literário.
Mas há desde sempre um risco assumido por quem se detém a trazê-la à tona. Pois são antes lembranças sentidas, investidas de afetos e atualizadas no sentir-ler: junto às poderosas imagens, o som e a sintaxe: “gamelas ulceradas, carcomidas, de tanto esforço em suas lidas [...] cilíndrico, fumacento, enegrecido, lamentoso, pachorrento”. O que enlaça a linearidade é a semântica do desejo, que aponta sempre uma ausência / falta (percebida nos objetos resgatados pela memória) e o ato de desejar (presença – linguagem). Aqui, uma lembrança enreda outra, e o passado e o presente se tornam um só, afinal, mesmo que o passado seja evocado (seja lido), há um aqui e agora da leitura e o objeto inscrito é a eternização do desejo.
Diz Ribot apud Chnaiderman (2003) 32 que a memória em essência é um fato biológico e, por acidente, um fato psicológico. O reconhecimento tem a ver com a memória psíquica e se dá pela localização no tempo. Mas o reconhecimento não é um ato primitivo; o que explica seu mecanismo é a “visão”, sendo que o dado primitivo da visão é a superfície colorida, e os dados secundários são a forma, a distância e a direção. A memória é uma visão no tempo33.
32 O texto, Esfarelando tempos não ensimesmados, de Miriam Chnaiderman (2003) nos interessa
sobremaneira para tratar brevemente a respeito da memória aqui. Chnaiderman traça um panorama de algumas concepções da memória que teriam ligações com a psicanálise, algumas leituras anteriores as ideias psicanalíticas, outras já releituras. De qualquer forma, interessa-nos perceber que a memória relaciona-se a uma constelação de conceitos que abarcam principalmente noção de imagem e do que é orgânico.
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Em Lavoura Arcaica, o olho é um signo muito importante e a “visão” assume a ideia ou o movimento da memória No encontro entre André e Pedro, no quarto de pensão, André: “... caí pensando nos seus olhos, nos olhos de minha mãe nas horas mais silenciosas da tarde...” (NASSAR, 2002, p.17).
A localização no tempo ocorre pelas posições no espaço em relação a um ponto fixo, que, para o tempo, é nosso presente. O presente, para Ribot, é um estado real que tem sua quantidade de duração, tem um início e um fim. Porém, seu início não é absoluto, há sempre algo que lhe confere continuidade: “Quando lemos ou escutamos uma frase de cinco palavras, resta alguma coisa da quarta palavra. Qualquer estado de consciência só se apaga progressivamente; deixando um prolongamento análogo [...] denominado imagem consecutiva” (CHNAIDERMAN, 2003, p.238).
A condição da memória é o esquecimento, isto é, à medida que o presente entra no passado, os estados de consciência desaparecem e se apagam. A perda dos estados de consciência é uma perda de tempo:
Sem o esquecimento total de um número prodigioso de estados de consciência e o esquecimento momentâneo de um grande número, não poderia haver lembrança. O esquecimento deixa de ser doença da memória, passando a ser condição de vida e saúde. Mesmo a temporalidade seria dada por impressões diferentemente localizadas. O tempo é espacializado, com toda sua concretude. O psicológico é, então, epifenômeno do fisiológico. É o orgânico que explica tudo (CHNAIDERMAN, 2003, p.239).
Já Bergson rejeita toda concepção que espacializa o tempo; critica a afirmação do paralelismo entre o fisiológico e o psicológico. Ele defende uma incomensurabilidade entre o antecendente e o que é por ele engendrado; o que há, em verdade, é uma síntese criativa entre passado e presente. Os fatos psicológicos não podem ser tidos como elementos que se justapõem. Para ele, as concepções dos fatos de consciência modificam as condições da percepção interna, fazendo com que seja perdida a concepção imediata.
Para ele, a lembrança se mistura o tempo todo com a percepção; e é o discernimento, que recorta no mundo pré-representado o mundo da representação34. A atividade de discernir vem da impossibilidade de um presente absoluto no qual se daria a pura percepção das coisas, pois o presente é sempre um devir. O discernimento se relaciona com a temporalidade subjetiva, ou seja, com a duração.
34 É preciso separar as concepções de Bergson a respeito da representação e da imagem. A imagem seria
mais do que a representação, mas menos do que a coisa (para os idealistas); é uma existência situada entre a representação e a coisa. A representação é um pouco menos que a imagem. A imagem pertence a dois domínios: o da ciência (em que a imagem tem valor absoluto) e o da consciência em que as imagens se regulariam de acordo com uma imagem central que seria o corpo.
A percepção presente sempre busca na memória a lembrança da percepção anterior que possa se assemelhar a ela. Há, em Bergson, a concepção de uma memória ontológica, o passado pode ser pensado como um antigo presente. O passado transcendental é a condição da própria passagem do presente: “Por esta mesma razão não é passado representado, já que ele é suposto por toda representação” (CHNAIDERMAN, 2003, p.240).
Até aqui lidamos com aquilo que é representável de alguma forma na memória. Com Freud e a psicanálise, surgiu uma prática que permitisse o acesso às lembranças esquecidas35. Sendo que o recalque estaria ligado a lembranças infantis proibidas.
É no seu trabalho com as histéricas que Freud relaciona o infantil com o traumático36, isto é, com o que no decorrer da vida de um indivíduo não pode ser simbolizado. Para ele, tudo aquilo que não se encaixa como representação fica ligado à memória:
E, não por acaso, na busca de reconstruir a memória, de dar conta do recalque, Freud chega à questão da fantasia. O que era o vivido e o que era o fantasiado passou a ser algo estabelecido em uma empiria simples [...]. Não existe no inconsciente nenhum indício de realidade, de modo que é impossível distinguir a verdade da ficção. Surge então o conceito de realidade psíquica... (CHNAIDERMAN, 2003, p.241).
Diz Freud que as fantasias se produzem por uma combinação inconsciente entre vivências e coisas escutadas. A formação de fantasias ocorre por combinação e deformação. A deformação tem a ver com a falsificação da lembrança por fragmentação, o que implica uma alienação das relações cronológicas. Para Freud (1989), um fragmento do objeto visualizado se relaciona na fantasia a um fragmento do que foi escutado, enquanto que o fragmento liberado entra numa outra conexão.
35 Para falar sobre a memória, Freud usa a metáfora do bloco mágico. Essa metáfora da memória como
uma cera na qual as impressões se registram como um carimbo feito com um anel aparece também em Aristóteles. Aliás, foi, sobretudo, esse filósofo que se ocupou com o problema da memória. Em Aristóteles podemos encontrar antecipações das mais audazes teorias freudianas, como aquela que equipara a realidade e a fantasia, na economia psíquica: “Quando alguém pensa, o pensamento se acompanha necessariamente de uma imagem, pois as imagens são num sentido sensações, salvo serem imateriais”. (ARISTÓTELES, Sobre a alma, III, p. 8-9).
36 O nascimento da Psicanálise acontece a partir de uma questão relativa à memória: a histérica sofre de
reminiscências; seu sintoma é a ação, no corpo, de algo que não pode ser lembrado. À Psicanálise cabe a função de ajudar para que a lembrança possa ser verbalizada. É preciso lembrar a cena traumática, resgatar a imagem, para então nomear.
Entretanto, esse processo torna impossível a descoberta de um sentido original e ai há então produção de fabulações que dificilmente sucumbem a defesa.
De acordo com Freud (1900), toda percepção deixa rastros mnêmicos. Existiria um sistema anterior construído pela percepção sem memória e um sistema posterior que transforma a excitação momentânea do primeiro em rastros duradouros. Existiriam diversos sistemas mnêmicos e cada um com uma diferente fixação em relação à excitação dos elementos. No sonho, por exemplo, a excitação percorre um caminho regressivo: ao invés de avançar em direção à extremidade motora, acaba por chegar ao sistema de percepção. Aí, o desejo se torna imagem: “O desejo será sempre produtor de imagens e por elas produzidos” (CHNAIDERMAN, 2003, p.242).
Isso quer dizer que, para Freud, o real fica sempre inscrito como parte do mundo e, por isso, mudo para o sujeito. Na verdade, é uma marca ficou do evento que origina a fantasia e a reminiscência; nesse sentido, “a memória é muda, não simbolizável, tem a ver com a carne do mundo, com o que olha o sujeito e o move na produção do sentido” (CHNAIDERMAN, 2003, p.241).
O pensamento de Freud caracteriza-se pela busca da compreensão do primordial. E foi essa mesma busca que o levou a Totem e Tabu, a teoria da horda primitiva e o banquete totêmico que segue o assassinato do pai ancestral ou mesmo a propor as protofantasias, fantasias originárias, espécies de matrizes inconscientes, como se subjetividade transcendesse o indivíduo. A justificativa da existência das protofantasias encontra respaldo na explicação filogenética, isto é, haveria uma pré-história mítica da espécie em cada sujeito.
Frente a essa colocação, Chnaiderman (2003, p.239) questiona: “Mas será Freud apenas o defensor de um ponto originário ou, haveria, no próprio Freud, concepções contraditórias em relação à questão da memória?”. Ou mesmo: do que fala Freud quando se refere à memória? De qualquer forma, a memória de Freud esbarra no que existe de irrepresentável no mundo psíquico, por isso a necessidade de recorrer à protofantasia, à filogênese. Fédida (apud CHNAIDERMAN, 2003) acentua que o inconsciente pensado por Freud é uma anacronia que torna possível a presença do infantil no atual; e o sonho funciona como um paradigma que articula um presente reminiscente a um passado anacrônico.
Fédida pontua ainda que o trabalho da psicanálise relaciona-se ao ato de nominação. A função da linguagem é assegurar ao homem a conservação de si mesmo. A língua reúne o que foi pensado, sendo uma memória inatual. “O epos levaria à consciência a reflexão efetiva inconsciente imanente à língua, atualizando em uma obra um momento determinado de sua forma interior, o de uma nominação. Ou seja, memória e nome se correspondem” (CHNAIDERMAN, 2003, p.248). Na situação analítica, a relação do pensar em memória está na reflexão da fala na linguagem. Assim se chega à nominação, o tempo é descronologizado, recuperando-se, dessa forma, a potência da imagem.
O fato de Freud usar a imagem faz pensar no psicanalítico como o refazer da constituição da linguagem, fazendo com que essa seja inserida no mito, no mundo da cultura. O histórico, na psicanálise, não é cronológico e sim na acrônico.
Com Freud o desejo está vinculado à memória, à infância, àquilo que foi vivido e escutado, àquilo que foi percebido e transformado em imagem. A memória está ligada ao Édipo. E a memória enquanto carne, potência bruta. A função da linguagem nesse maquinário nos parece fundamental, a imagem é traduzida pela linguagem – o próprio sujeito é efeito da linguagem.
No verbo poético de Nassar, uma imagem evoca a outra, isto é, uma imagem (metáfora) deixa um rastro para que outra se forme e assim por diante. Tais imagens evocam a infância, o traumático ressignificado pela metáfora. Os desejos edípicos são lançados à tona numa tentativa de perscrutá-los. Talvez haja um desvelamento do depósito do vivido; o vivido enquanto figurabilidade permite o enformar dos nomes do que é dito.