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Ainda que muitos dos mitos relacionados ao jornalismo tenham se fixado no grande público por meio do cinema, pode-se identificar essa relação também em outro produto cultural do século 20, as histórias em quadrinhos. A relação com o jornalismo foi fundamental para o desenvolvimento das HQs (SRBEK, 2005).

8 - Há de se observar, ainda, o jornalismo sobre quadrinhos, ou seja, o jornalismo especializado em notícias sobre a indústria e o mercado das histórias em quadrinhos. Porém, este pode ser considerado apenas como uma especialização do jornalismo cultural.

Uma linguagem, por sinal, que não surgiu do nada. Segundo Patati e Braga (2006, p. 20):

Em fins do século XIX, na Europa, artistas como Caran D’Ache (França), Rudolph Topfer (suíça), Wilhelm Busch e Christoph (Alemanha) já haviam estabelecido os cânones básicos da ilustração de imprensa, e mesmo da narrativa visual sequenciada, que ainda não tinha balões para indicar falas e suas fontes de emissão.

Além disso, podemos citar o pioneirismo do imigrante italiano Angelo Agostini, que no Brasil, em 1869, publicou no jornal Vida Fluminense a série As Aventuras de Nhô Quim – Um Caipira na Capital, sendo precursor ainda da charge política e do cartum na imprensa nacional (PATATI; BRAGA, 2006).

Como nos afirma o pesquisador Marcos Nicolau (2007, p. 20): “O advento da imprensa […] consistiu em um espaço no qual se diversificou uma série de gêneros textuais.” A necessidade de produzir conteúdo plural voltado para um público cada vez mais amplo possibilitou o surgimento de diversos tipos de textos informativos ou de entretenimento nas páginas do jornal. Foi nos Estados Unidos, não por coincidência um grande mercado da imprensa ocidental na época, que os quadrinhos se consolidaram como linguagem e, depois, como produto cultural.

Assim, é nos jornais que vai surgir aquele que é considerado o primeiro personagem dos quadrinhos como produto cultural típico da modernidade. Voltemos a Patati e Braga (2006, p. 15):

Em outubro de 1896, jornais norte-americanos de William Randolph Hearst (1863- 1951), depositários de uma longa tradição européia de narrativas humorísticas e infantis ilustradas, fizeram convergir as características finais que permitiram o surgimento da definição “padrão” do que vem a ser uma história em quadrinhos. A principal dentre elas é o surgimento dos balões e legendas integrados ao texto, tornando a leitura decididamente mais fluida.

Começou nessa época a publicação de The Yellow Kid (O Menino Amarelo), inicialmente batizado de Down on Hogan’s Alley, página humorística que o referido Menino Amarelo tomou do resto dos personagens do beco, assim que “aprendeu a falar”.

Inclusive, o próprio formato narrativo dos quadrinhos modernos, com as histórias divididas em vinhetas independentes separadas por molduras que, encadeadas, sugerem uma sucessão de ações no tempo (RAMOS, 2009) foi determinado pela imprensa, como nos afirma o pesquisador Fábio Luiz C. Mourilhe Silva (2011, p. 44, em tradução nossa): “A publicidade marca o aparecimento das tiras cômicas, impondo um modelo de formato a ser

usado e assumido pela linguagem dos quadrinhos no contexto do jornal, dentro de um espaço específico designado às tiras cômicas, um espaço também invadido pela publicidade.”9

O formato fixo também facilitou a popularização do gênero, ao padronizar a venda de espaço destinado às tirinhas nos jornais. Logo surgiram agências de venda e distribuição de tiras, os syndicates, e os quadrinhos passaram a ser publicados periodicamente em milhares de jornais pelo mundo (GARCÍA, 2012).

Esta influência tão importante do jornal na definição da própria linguagem dos quadrinhos levou o pesquisador Marcos Nicolau a propor que as tiras, ou tirinhas, deveriam ser classificadas como um gênero jornalístico (NICOLAU, 2007). Por fugir ao escopo desta pesquisa, esta proposição será brevemente desenvolvida a seguir, mas evitaremos aprofundar as discussões que ela suscita.

Nicolau, ao abordar os gêneros jornalísticos, se apoia na pesquisa de Wellington Pereira10 sobre a crônica, para ressaltar que as classificações correntes dos gêneros jornalísticos têm caráter funcionalista e desprezam as implicações estéticas da crônica, que foge aos critérios de temporalidade e referencialidade como a notícia típica do texto jornalístico. Nicolau defende que o mesmo ocorre com a tira.

O autor reforça ainda que a estabilidade no formato da tira, além de sua recorrente veiculação no jornal diário, caracterizam-na como “um texto midiático com formato próprio que representa práticas socioculturais dentro de outra prática sociocultural institucionalizada como a imprensa, envolvendo produtores e receptores de mensagens” (NICOLAU, 2007, p. 23).

A partir dos jornais, as tiras migraram das páginas de entretenimento para os cadernos dominicais, que reuniam vários personagens e, depois, para revistas periódicas, que permitiam o desenvolvimento de histórias mais longas, quebrando as amarras do formato das tiras, com mini-histórias em até quatro quadros. Surgiram então vários subgêneros, além do humor e da aventura (RAMOS, 2009).

A primeira tira de aventura sequenciada foi a série Wash Tubbs, criada por Roy Crane em 1924. “Roy Crane [...] foi o primeiro artista a criar ganchos conectando os episódios sem que se tratasse só de manter o leitor interessado na peripécia, mas na evolução, no desdobramento da trama” (PATATI; BRAGA, 2006, p. 35).

9 - Advertising marks the emergence of comic-strips, imposing a model of format to be used and assumed by the language of comics in the context of newspaper, inside the specific space designated to comic-strips, a space also invaded by advertisement.

10 - Ver PEREIRA, Wellington. Crônica: a arte do útil e do fútil: ensaio sobre crônica no jornalismo impresso. Salvador: Calandra, 2004.

O próximo passo dessa indústria de entretenimento em desenvolvimento seria apostar em histórias mais longas, conduzidas por personagens aventurescos, como os inaugurados por Crane. Para isso, os desenhistas e roteiristas precisavam de algum material que pudesse servir de inspiração para suas narrativas. “O principal modelo dos quadrinhos em sua expansão pela imprensa do planeta é o folhetim popular de aventura, escrito e ilustrado com paixão por autores marginais e editores ocupados em não quebrar” (PATATI; BRAGA, 2006, p. 38).

O sucesso ‘meteórico’ de séries como Buck Rogers no Século 25, Flash Gordon, Brick Bradford, Tarzan, Dick Tracy, Príncipe Valente e várias outras, cimentaram o terreno para o surgimento dos super-heróis, no final dos anos 1930, e a consequente consolidação das histórias em quadrinhos como um produto cultural de massa lucrativo e popular.

A força criativa e o alcance de público dos quadrinhos foram fundamentais para a definição do imaginário coletivo a partir do século 20, como nos dizem Patati e Braga (2006, p. 12):

O impacto cultural dos quadrinhos, mídia barata e de grande alcance de público, foi tanto imediato quanto duradouro. As histórias em quadrinhos foram, e são ainda, importante ferramenta na construção do imaginário coletivo dos povos ocidentais e orientais. Hoje, diversas HQs são consumidas em escala de massa, com larga variedade de opções temáticas e de tratamentos, embora nenhuma nas escalas gigantescas do passado.