SABİT SICAKLIKLI ISIL TEPKİ TESTLERİ İÇİN YENİ BİR UYGULAMA METODU
5. DİĞER METOTLARLA KARŞILAŞTIRMA
Imagine o mundo dominado política e economicamente por grandes corporações, com pessoas das mais diferentes origens culturais espremidas em cidades com milhões de habitantes, conectadas entre si por dispositivos comunicacionais de alta tecnologia. Neste ambiente, hackers e mercenários vagueiam por ruas escuras e perigosas em busca de informação valiosa e centenas de subculturas resistem ao onipresente domínio do ‘sistema’.
Tire um pouco do (intencional) toque policialesco e não é preciso nem imaginar. Dependendo de onde você more, basta abrir a janela e espiar lá fora. Mas, na verdade, esse era o mundo proposto pelos cyberpunks – ou, pelo menos, pelo seu principal autor, William Gibson.
4.4.1. Do punk ao cyberpunk
Antes de haver o cyberpunk, havia o punk. E o punk, por sua vez, só se tornou possível graças ao rock’n’roll, ritmo musical que foi a primeira expressão cultural juvenil de massa surgida nos anos 1950. Primeiramente voltado apenas para o entretenimento, o rock logo passaria, na década seguinte, a incorporar bandeiras políticas em seu discurso. Segundo O’Hara (2005, p. 30): “Foi nessa época [anos 1960] que o rock mostrou seu poder e a subcultura se tornou uma contracultura.” Como consequência (ou reação) a esse cenário, os anos 70 viram surgir as primeiras bandas que poderiam ser chamadas de punks:
A data e o local de nascimento do movimento punk são discutíveis. Ou a cena de Nova York do final dos Anos 60/início dos anos 70 ou os punks ingleses de 1975-76 podem receber as honras. [...] Em geral, pensa-se que foram os nova-iorquinos que inventaram o estilo musical, enquanto os ingleses popularizaram a atitude política e o visual colorido. (O’HARA, p. 30)
Assim, bandas como Ramones, New York Dolls e Sex Pistols são frequentemente citadas como precursoras desta subcultura, cujas características principais seriam o inconformismo e a rebeldia, aliando política, estética e cultura (ou seja, subcultura, música e moda) (AMARAL, 2006).
O cyberpunk, por sua vez, é um movimento literário surgido nos anos 1980, uma expressão estética típica da cibercultura (AMARAL, 2006). O termo foi criado pelo escritor Bruce Bethke para intitular um conto homônimo. Porém, só se definiu como rótulo para toda uma geração de escritores a partir da publicação da coletânea de ficção científica Mirrorshades, de 1984, organizada por Bruce Sterling, cujo prefácio pode ser considerado um manifesto do grupo.
O romance Neuromancer, de William Gibson, é tido como a obra seminal do gênero e é nele que surge pela primeira vez o termo ciberespaço, usado para designar uma ‘alucinação consensual’ eletrônica à qual usuários de computador se conectam para partilhar um mundo virtual. O livro acompanha o personagem Case, uma espécie de cowboy hacker, numa missão misteriosa para conseguir de volta sua habilidade de se conectar ao ciberespaço.
Nas palavras de Fernandes (2006, p. 18):
Com Neuromancer, Gibson foi o mais fiel intérprete desse movimento, que tinha como objetivo central desconstruir a narrativa especulativa tradicional da ficção científica e substituí-la por um misto de atitude punk com integração tecnológica. O slogan punk No Future (“Não existe futuro”, numa tradução literal) foi por ele assumido e incorporado a uma narrativa muito ativa e pouco psicológica, onde as cidades também são personagens, e suas modas e modos dizem mais sobre a História do que os interesses e objetivos dos humanos (e inteligências artificiais) que percorrem suas páginas.
Podemos citar que algumas das marcas estéticas do cyberpunk, além do ciberespaço, são o clima noir emprestado dos romances policiais, vestuários sombrios (roupas de couro e óculos escuros dominavam), a simbiose entre homens e máquinas por meio da banalização dos implantes cibernéticos, a glamourização da figura do hacker, apresentado como um caubói moderno, o cenário urbano das megacidades e a violência.
Segundo Amaral (2006, p. 74): “Se pensarmos numa ‘árvore genealógica’ do cyberpunk, temos basicamente três pólos geradores: a literatura, as teorias sociais [pós- modernas] e a cultura pop.”
Surgido num período em que a alta tecnologia já se tornara uma realidade, o movimento cyberpunk não precisava criar um mundo novo para explorar cenários da ficção científica. Bastava aos escritores extrapolar, ou melhor dizendo, parodiar a sociedade que
viviam para imaginá-la num futuro não muito distante. Assim, há uma ligação direta entre a representação do futuro apresentada pelo cyberpunk e o momento presente.
Para Lemos (2002, p. 203), no cyberpunk “o tema da tecnologia e sua relação estreita com o quotidiano é recorrente”. Lemos (2002, p. 204) complementa: “Embora seja ficção-científica, o estilo cyberpunk faz uma sátira do presente, diferenciando-se, assim, das outras correntes do gênero por ser presenteísta (Maffesoli), urbana, anárquica e micropolítica.”21
As ligações do cyberpunk com a contracultura se dão de duas formas. A primeira tem a ver com a influência direta do movimento, a chamada New Wave da ficção científica. Esse importante movimento, surgido entre os anos 1960 e 1970 e impulsionado pela contracultura jovem, ajudou a modificar a imagem fantasiosa e juvenil que o público tinha sobre o gênero. Diz-nos Amaral (2006, p. 73-74):
[…] o termo foi introduzido em 1966 por Judith Merril em um ensaio para a revista Fantasy and Science Fiction, no qual ela se referia à ficção altamente metafórica e por vezes experimental – produzida por um grupo de escritores – que pouco a pouco aparecia na revista britânica New Worlds, editada no período por Michael Moorcock. O grupo ganhou o rótulo de New Wave of Science Fiction e promoveu uma profunda experimentação de estilo, incorporando as gírias das ruas na linguagem, além de uma profunda impregnação de descrições de sexo e violência. […] Bruce Sterling ([1988] 1994) destaca alguns dos principais autores da New Wave, que influenciaram o cyberpunk: Harlan Ellison, Samuel Delany, Norman Spinrad, Michael Moorcock, Brian Aldiss, J. G. Ballard, Philip K. Dick, entre outros. […] Os heróis da New Wave, ao contrário dos mocinhos intrépidos da Era Dourada, possuem um perfil de herói solitário, paranoico e angustiado por questões existenciais. […] O pessimismo e a paranoia em relação às fronteiras da realidade, assim como as relações de poder reaparecem em forma de estórias violentas e sexualizadas, integradas à tecnologia, não como máquinas para viagens às estrelas, mas inseridos no cotidiano do indivíduo.
O contato com a cultura pop, além de afirmar a influência de fontes estéticas distantes do campo literário, aproxima o cyberpunk de duas expressões claramente contraculturais, o punk e a cibercultura.
Voltemos a Amaral (2006, p. 74):
21 - A referência ao sociólogo Michel Maffesoli se dá em relação àquilo que ele chama de ‘presenteísmo’, uma exacerbação estética do cotidiano que permearia a cultura pós-moderna: “[...] o imaginal possui um papel de muita importância na estruturação da vida cotidiana. A aparência, sob todas as suas formas, é o fundamento de múltiplas situações e atos sociais. Do vestuário à habitação, passando pelo encontro, sem esquecer o fantástico de todos os dias, o presente surge em cena, representa e constrói ilusões sob várias máscaras e matizes. [...]Através do rito, em suas diversas modulações, encontramos uma sede inesgotável do presente, feita de fatalismo e sólida serenidade. A trama existencial é constituída por situações anedóticas e insignificantes que pouco têm a ver com as justificativas e finalidades que lhes são atribuídas a partir de uma instância dominante.” (MAFFESOLI, 1984, p. 13).
Decompondo o termo cyberpunk, encontramos de um lado o cyber, remetendo à cibernética de Wiener e à noção grega de governo (no sentido de controle). Do outro temos a noção do punk, tanto como movimento musical como ideológico. O cyber nos remete às origens filosóficas e também literárias do conceito, enquanto o punk traz à tona o lado da contracultura, do protesto, do não-controle, do underground, da atitude dos hackers, da experiência empírica das tribos urbanas ligadas à tecnologia. Enquanto as tecnologias de comunicação avançam rapidamente para garantir a coesão e o controle do mundo cibernético, as pessoas comuns, no seu cotidiano, encontram seus próprios usos para essas tecnologias, resistindo, consciente ou inconscientemente, a esse controle.