Segundo Green42, os princípios diretores da psicanálise são transferência, resistência e
interpretação. Quanto à possibilidade de tratamento psicanalítico, Green entende que Freud excluía as neuroses chamadas atuais, pois pareciam descarregar a libido no soma. E também excluía as neuroses narcísicas, por retirarem-se para dentro do ego, apenas investindo em objetos da infância, como segue:
“só pode ser tratável psiquicamente aquele que se submetera à ‘psiquização’. Esta psiquização se manifesta de duas maneiras: de um lado, pela adoção de uma via mais longa que aquela que conduz à somatização, via curta por excelência, e por outro lado, por uma capacidade de mobilização que permite ao sujeito sair de si e de suas fixações passadas através do investimento renovado de objetos exteriores a ele, investimento libidinal que põe em jogo a sexualidade e suscetível de deslocamento sobre uma outra pessoa (é a transferência: objetos primitivos da infância são substituídos por projeção nos objetos atuais de análise)”43
Ao se trabalhar com um conjunto de conceitos psicanalíticos, é importante ressaltar que, por mais que haja várias correntes de pensamento continuadoras da psicanálise como Freud a legou relativamente independentes entre si, todas elas consideram-se – e, por isso, teríamos critérios para julgar o quão acuradas são – continuadoras legítimas do conjunto dos preceitos teóricos e técnicos freudianos. Assim, ainda que se tente aqui fazer um breve arrolamento de conceitos que parecem ser úteis à atual discussão junto à analítica existencial – sem se distinguir totalmente o quanto um conceito deve seu desenvolvimento a uma ou outra corrente –, assumimos que todos eles são em última instância devedores das intuições centrais do inventor da psicanálise.
Quanto ao conceito de transferência, pode-se dizer resumidamente que é a reedição
42 GREEN, 2008. p. 40. 43 GREEN, 2008. p. 39.
inconsciente de uma relação de objeto infantil na relação atual com o psicanalista. Ela é por definição irracional, pois, enquanto resposta adaptativa a uma situação real, acaba por ignorar os fatos da realidade, confundir passado e presente e tornar-se inapropriada, desajustada44. À
parte a discussão se a tendência à repetição da transferência deve-se a uma defesa quanto à lembrança de uma libido introvertida inconscientemente ou é um corolário de seu alinhamento à pulsão de morte45, ela de todo modo tem uma relação peculiar com a temporalidade.
A ênfase na alteração de posição entre presente e passado lança este conceito freudiano a uma tematização da temporalidade que está em jogo. Pode-se dizer que o inconsciente é atemporal, mas mesmo que isso sirva para explicar a capacidade de reconexão imediata de conteúdos reprimidos com a vida cotidiana, ser atemporal significa ainda existir conforme uma temporalidade. Deve-se perguntar, para aproximar este conceito da discussão com a analítica existencial, qual é o modo de ser de um comportamento que ocorrendo em realidade efetiva presente, transgrede o significado atual da relação ao inserir um conteúdo extraditado do passado como significado imposto à nova situação.
Primeiramente, se o inconsciente fosse atemporal no sentido de não delimitar-se segundo presente, passado e futuro, não haveria funcionalidade de princípios para o inconsciente, sejam princípios de prazer e realidade ou de morte e vida. O inconsciente não é um caldo de memórias reprimidas aleatoriamente selecionadas. Ele, sim, obedece a uma temporalidade, mas não àquela que mede os dias em que a pessoa vive, mas, conforme Etchegoyen cita Lagache46, àquela do desenvolvimento e completude de integrações e
experiências que não puderam ser completadas no momento oportuno.
Chegamos, com isso, ao fenômeno da falta, tão caro às teorias psicanalíticas. Mas para entender uma falta é necessário, no mínimo, hipotetizar ou desejar um todo. Do ponto de vista decaído, é acessível à pessoa desejos e frustrações que o mantenham convicto da necessidade de completude. A possibilidade de completude é garantida por aquisições de sucesso no passado. O quanto essas aquisições de sucesso são apenas uma reestabilização biológica de uma homeostase corporal ou são um sentido temporal enganador de evolução em uma tarefa vital de vir a ser quem se é não precisa ser decidido, porque ambas as versões da efetividade de uma conquista de completude no presente são sempre uma negação de que a vida humana não adquire sentido com a satisfação deste desejos.
A transferência é importante para a técnica psicanalítica pois há um fenômeno
44 ETCHEGOYEN, 1989. p. 54. 45 ETCHEGOYEN, 1989. p. 65. 46 ETCHEGOYEN, 1989. p. 67.
considerado central para se instaurar a situação analítica: a neurose de transferência. Este conceito seria o “correlato psicopatológico da situação analítica”47, quando a produção de
sintomas dirige-se à relação com o analista. O paciente só pode ser convencido de que conteúdos reprimidos retornam do passado desadaptativamente se puder convencer-se da existência do fenômeno da transferência48: ela não é a doença que o trouxe antes de conhecer o
analista, mas é só com a reprodução da doença com o analista que uma nova integração da vivência afetiva pode ser conquistada.
A intromissão do analista no tempo de vida do paciente é algo decisivo. Isto pode ser entendido como a abertura para a doença do paciente de uma forma que esta doença seja abordável pela ação do analista no setting analítico, e somente neste campo. Se for criada uma nova edição da doença em relação ao analista como um constructo de doença passível de ser examinada no setting – como um cientista constrói modelos hipotéticos para poder levar a realidade para dentro do laboratório –, então até é possível compreender a neurose de transferência como algo que não existe na vida cotidiana do paciente fora do setting, mas a parte nova que torna possível a analisabilidade da parte antiga é o analista. Há um sentido importante em que deve ser o caso que a capacidade de adoecer é sempre a mesma, pois ela só interessaria se for a do paciente.
O conceito psicanalítico de interpretação refere-se a uma ação do terapeuta que visa prover compreensão ao paciente, seja trazendo à consciência elementos que estavam inconscientes, seja apontando conexões entre fenômenos que ajudam a entender motivos e significados latentes.49 É considerada o instrumento primordial do psicoterapeuta de orientação
analítica, no sentido de ser o mais específico da psicanálise e que promove maior expressividade aos significados. É importante ressaltar que esta ação é eminentemente verbal e deve ser feita de uma maneira adequadamente afetiva e significativa para o paciente50, ou seja, tem hora e
jeito de acontecer, não é simplesmente dar-se conta da verdade e enunciá-la de forma iluminadora.
A interpretação refere-se ao manejo da transferência no setting analítico, deve ser entendido em sua peculiaridade técnica específica do encontro analítico. Mesmo que alguns psicanalistas, como Lacan, entendam a interpretação como uma tarefa hermenêutica, em que o psicanalista é como o tradutor de um texto, outros, como Anzieu, entendem que além de usar
47 ETCHEGOYEN, 1989. p. 85. 48 ETCHEGOYEN, 1989. p. 65. 49 GABBARD, 2005. p. 74. 50 SOARES, 2005. p. 354.
da hermenêutica e da linguística, a interpretação pelo analista usa da personalidade do analista, de modo que ele é um intérprete ao modo do músico ou do ator: ajudar a consciência do paciente e fornecer uma alternativa libidinal é um ato vivo e humano, por isso a interpretação surgiria do que o analista sente.51