• Sonuç bulunamadı

EK II DENEY GRUBU DERS PLANI 1 BİÇİMSEL BÖLÜM

ARA GEÇİŞ:

O que Freud desejava ao levantar novas hipóteses teóricas e novas técnicas terapêuticas? Comecemos por uma constatação acerca do possível resultado efetivo do caminho teórico de Freud ao longo de sua criação da psicanálise:

“... a psicanálise conseguiu justificar a dinâmica do psiquismo como um todo, mas permaneceu um projeto não acabado no que se refere à construção das estruturas (tópica) sobre as quais essa dinâmica se apoia”36

Conforme Stein, as estruturas do edifício teórico ficaram incompletas: Freud não podia usar as velhas sem desmontá-las e não podia conceber algo totalmente novo.37 O que conduziu

seu desejo adiante teria sido buscar justificativas em produzir conceitos com outro paradigma,

34 GREEN, 2008. p. 49. 35 EIZIRIK, 2005. p. 18. 36 STEIN, 2000. p. 182. 37 ibidem.

mantendo, ao menos uma matriz intocável: o retorno do recalcado como sintoma.38

Já Green entendia que Freud queria articular psíquico e somático sempre. 39 Mas isto

não quer dizer que ele gostaria de um dia poder contar novamente só com elementos biológicos para poder manipular conflitos psíquicos, como costumava saudosamente manipular os sapos que dissecava em laboratório no início de sua carreira médica. Se a psicanálise deve ser entendida como algo provisório, ela não o é num sentido já sugerido40 de jogar fora os andaimes

depois que a concreta e firme construção – neurocientífica – fique pronta. Se a psicanálise é um modo de falar provisório ela o é justamente para manter a descoberta longe da compreensão do que ela não é: neurônios comportando-se previsivelmente. Em grande parte afixar conceitos metapsicológicos centrais de forma literária ou usando amplamente narrativas da tradição cultural foi dar o correto refúgio a um novo tratamento que buscava distinguir de uma vez por todas o que havia com o sofrimento de uma pessoa que não se observaria nos interstícios neuronais.

Em “A psicanálise e a teoria da libido” Freud afirma: “A comunidade simbólica vai muito além da comunidade da linguagem”41. Acho que aqui está implícita uma forte concepção

de linguagem, num relacionamento direto com os símbolos, capaz de contrastá-la. Segundo Stein, Freud estaria tentando explicar o quão maior é a dimensão do inconsciente e do sonho e porque nela há ao mesmo tempo uma maior realização das associações da libido e um suficiente ancoramento entre o indivíduo e a espécie. Além disso, este ancoramento seria responsável por organizar o sentido onde a consciência não estivesse atuando, lugar em que nos remeteríamos, assim, a uma metabiologia.

A premissa de Freud pode ter sido a seguinte: a mente é algo dificilmente objetivável, e que se assume que tenha uma substância ou existência diferenciada em relação a demais possíveis entes do mundo, no sentido de que Freud não tentou conversar com pedras nem analisar a associação livre de chimpanzés. Mas o sentido mais profundo do modo de existir da mente é que ficamos apenas com o fato de que se sei que ela existe é porque ela já faz sentido. Ora, isto pode ser dito de virtualmente qualquer ente intramundano. A mente pode ser detectada em sua essência pelo sentido que ela produz, como uma explicação retroativa a partir do sentido. Ora, determinar a origem deste sentido requer escolher um modelo de concatenação, uma posição em relação ao que seria uma causalidade possível, ao falarmos da mente dando-se ao

38 ibidem.

39 GREEN, 2008. p. 90. 40 SOLMS, 2005. p. 120. 41 STEIN, 2012. p. 59.

entendimento. Já aqui vemos que o que quer que seja assumido como pista da existência de uma mente, o será por outra mente. Neste sentido, mente é o que só surge de outra.

Algo que resta decidir é o quão semelhante é a mente entendida da mente que entende. Que tipo de essência compartilham? Se forem, por princípio, exata e numericamente irredutíveis, estaríamos apontando para uma singularidade que poderia ser assumida como o centro da mente humana (o ponto de partida singular, à parte de todos elementos restantes serem semelhantes). Daí que a essência da mente conhecida pode ser tomada como diferente da essência da mente que conhece, já que a essência da mente foi definida ao modo centralizador, como a sua posição em relação ao mundo.

Ambas mentes estão no mundo, num acontecer prático entre dois seres biológicos corporais, mas até que ponto compartilham similaridades além deste acontecer prático é o que deveria ser o início de qualquer investigação sobre a constituição da mente humana, ou melhor, sobre a constituição de uma mente humana, mais exatamente, da mente de alguém. Que recursos deve ter uma mente humana para colocar-se no início desta investigação em que estaria partindo do princípio que haveria poucas semelhanças ou compartilhamentos iniciais?

Uma das poucas vantagens que pode haver em manter uma investigação da mente de posse de um modelo um tanto quanto antiquado de aparelho, é a sua proximidade com a neurociência. A vantagem residiria no fato de poder manter uma ousadia de falar de ‘mecanismos’ e de ‘energia emocional’ sem citar ou localizar alavancas ou fórmulas bioquímicas. Ousadia não por aversão, mas por um provisório objetivo de permitir uma futura destruição deste vocabulário de alavancas e neurônios, em um momento que seria propício para isso. Ou seja, qual seria o momento propício para separar de vez um discurso biológico acerca da mente humana de um discurso não biológico? O que é esta implicância com a biologia? É uma implicância biológica?

A proximidade com o vocabulário biológico poderia corresponder a um objetivo inicial de descrição paralela para não contrapor-se à biologia, e, em seguida, promover um procedimento intermediário entre destruição e interpretação. Este segundo objetivo seria identificar um momento propício para que um neurônio possa ser destruído como um ente biológico que é, mas não no sentido concreto de destruição, mas em algum outro sentido em que o vocabulário biológico esteja por sua própria essência limitado em ir adiante para colaborar com a compreensão de uma mente – seja ela agora a mente existente concreta, seja ela a mente no sentido relacional-interpretativo.

Todo discurso será biológico enquanto produzido por um ser vivo em vida. Isso simplesmente é respeitar uma espécie de não autocontradição performativa, ao modo descrito

por Apel. Mas o que torna esta produção possível é a compreensão do discurso. Enquanto ser vivo concreto, o ser vivo humano é compreendido. Mas um procedimento relacionado ao discurso humano parece de algum modo prescindir da descrição do modo de ser biológico - no sentido físico concreto - de quem profere o discurso e sempre assumir um biológico não físico no sentido de assumir como ponto inicial de posição não a exata conformação química, mas o modo de ser daquele ser como biológico – mas, considerando que biológico faz parte do discurso enquanto perpassa como um significado pelo procedimento de compreensão.

Este seria o modo de ser que considera que biológico faz parte do discurso enquanto perpassa a compreensão de outro como um significado. Indicar, num discurso, o que não é biológico como um elemento não biológico pode ser uma estratégia fundamental de mostração, pois fazer a tarefa contraposta, explicitar o biológico, poderia ser a demonstração central de separação destes discursos. Ocorre que isto é impossível, pois não há como sair do discurso para entrar no biológico, não há como um ser vivo assumir a tarefa de compreender que emite um discurso a partir de um sentido produzido por elementos químicos. Moléculas são partes de um todo biológico, e os significados possíveis de serem constituídos por elas – por exemplo, potenciais de membrana – constroem o todo vivo e não um discurso. Quem constrói o discurso é o todo vivo, e justamente discursa, pois já é um todo que está inserido em um espaço de diálogo.

Ora, tanto quanto se pode falar deste modo acerca das tentativas de separação entre cérebro e cultura humana como elementos que adquirem sua significatividade a partir de um fenômeno mais originário que é o fenômeno do mundo, também é possível pensar que toda teoria sobre o comportamento humano que lance mão de entidades independentes deste mundo poderia estar incorrendo em uma parcialidade temerária. Tomemos a psicanálise como uma ousadia teórica em que se buscou um além da psicologia tradicional, uma metapsicologia, para descrever o espaço de ocorrência de significados não prontamente biologizáveis.

Freud inevitavelmente deparou-se com o momento em que, ao procurar construir um modelo de mente que pudesse ser desmontado para fins terapêuticos, viu-se diante desta própria construção como a operadora da relação com o paciente. Uma vez estabelecidos os conceitos de transferência e contratransferência, em que a psique era analisada por outra psique, grande parte dos resquícios de desejos biologizantes de Freud acabaram se distanciando de modo irrecuperável. De qualquer modo, instaurou-se um campo analítico que era autossuficiente em significados e que era arredio a qualquer objetivação que lembrasse a neurologia ou a psiquiatria da época. Ainda assim, Freud sempre manteve aberta a possibilidade de futuras correlações com conhecimentos biológicos acerca do homem ao seguir adiante suas descrições e reestruturações

do lugar da mente. Pra mim, Freud, como um prestidigitador, desviou a atenção de todo mundo com essa concessão de se poder, futuramente, reduzir os processos anímicos dinâmicos a processos materiais neuronais: esta, sim, tornou-se, por fim, a hipótese mais improvável pela psicanálise.

Benzer Belgeler