Enquanto o CHC realiza um ajustamento dos valores históricos, neutralizando os efeitos das variações de preços em geral, o CR reflete as variações dos preços específicos, levando em consideração, em alguns casos, as mudanças tecnológicas. O CR pode suprir as deficiências dos registros contábeis pobres, entretanto é mais subjetivo em relação aos métodos anteriores. A filosofia dessa metodologia é diferente, existindo algumas divergências entre essa filosofia e a dos métodos do CH e CHC.
Gordon (2001) analisou a relevância dos três métodos na contabilidade de 260 empresas mexicanas, de 1989 a 1995, período em que a inflação era alta naquele país. O estudo apontou uma variação na inflação no período analisado de 7% a 52%, demonstrando os resultados que o CHC e CR são superiores ao CH e, ainda, que o CR é mais relevante que o CHC, no período analisado. Vale salientar que a amostra era composta de empresas de diversos setores, não apenas do setor elétrico.
A BRR, segundo o custo de reposição, tem uma visão prospectiva e está associada à capacidade de se manterem os ativos com o grau de desenvolvimento tecnológico. Entretanto, o consumidor, nem sempre, está disposto a pagar por essa tecnologia disponível se essa propiciar tarifas mais altas, ou seja, se o custo de reposição for superior ao custo histórico corrigido.
Segundo Guthrie, Small e Wright (2006, p.2), a tendência moderna é a adoção do “foward-looking cost rules”, em que os custos dos ativos são baseados nos valores pelos quais um bem seria construído na data da avaliação, utilizando-se a melhor tecnologia disponível.
Embora o custo de reposição seja uma medida de avaliação válida para a determinação das tarifas, uma investigação robusta deve ser realizada para a prevenção de ganhos inesperados dos investidores, ou benefícios exagerados aos consumidores, prejudicando a continuidade da prestação do serviço. Existem, portanto, dificuldades práticas devido à subjetividade utilizada para o cálculo. Se dois peritos forem contratados para avaliar o ativo pelo custo de reposição, os valores dificilmente serão iguais devido à discricionariedade de escolhas que são necessárias como, por exemplo, ativos com diversas tecnologias disponíveis. Assim, melhorias na metodologia foram sendo propostas ao longo do tempo.
Adiante, serão discutidos dois métodos baseados no custo de reposição bastante utilizados no setor elétrico.
2.2.2.3.1 Custo de Reposição Otimizado e Depreciado27 (CROD)
Esse método é visto como um refinamento do custo de reposição, pois envolve o custo atual de reposição de um ativo moderno, supondo-se que serão substituídos por ativos mais eficientes. O referido método é adotado na Austrália e Nova Zelândia.
Segundo o Economic Insights (2009), “CROD é definido como o custo depreciado de um mesmo ativo equivalente e moderno, com os valores na forma mais eficiente possível a partir de uma perspectiva de engenharia dada a capacidade de cobertura da rede, com a depreciação na base da idade dos ativos existentes”28.
Spence (2004) analisou a utilização dessa metodologia no setor elétrico e concluiu que é um conceito fraco e não resolve os problemas da regulação das tarifas. Assim, a autora defende a utilização do custo atual ou uma avaliação, com acordo prévio, para um melhor resultado regulatório e preços mais justos aos consumidores.
Esse método pode levar a empresa a receber tarifas como se sua infraestrutura fosse nova, eficiente e a preços de hoje, enquanto, na verdade, esses são ativos antigos com vida útil econômica de longa duração. Isso significa que o consumidor estaria financiando um investimento realizado há muito tempo, como se ele estivesse sendo construído hoje, ou seja,
27 Optimised Depreciated Replacement Cost (ODRC). 28
The ODRC is defined as the depreciated cost of replicating the system using modern equivalent asset (MEA) values in the most efficient way possible from an engineering perspective, given the network’s service capability, with depreciation based on the age of the existing assets.
o desempenho atual está sendo mensurado com base em investimentos estimados para o futuro e não por investimentos passados, como no CHC.
Para a mensuração do ativo pelo CROD, é necessário realizar diversas escolhas subjetivas e arbitrárias e, principalmente, de engenharia. Johnstone (2003) argumenta que é impossível auditar esse método, sendo esse um fato que deve ser levado em consideração, principalmente, nos ambientes regulados, como o do setor elétrico.
O regulador australiano defende o CROD com base na teoria econômica, apesar de reconhecer os inúmeros problemas com essa metodologia. O ACCC (1999, p. 39) explicita: “Uma interpretação do CROD é que é a metodologia de avaliação que seria consistente com o preço cobrado por um novo operador eficiente em uma empresa, e por isso é consistente com o preço que prevaleceria na empresa em equilíbrio em longo prazo”.29 Como visto, não há consenso quanto a essa metodologia de avaliação.
A ANEEL, no primeiro ciclo de revisão tarifária30, utilizou esse método, pois ainda não havia um banco de dados de referência disponível para as concessionárias. Entretanto, conforme expõe Teixeira (2005), a experiência brasileira com a aplicação do CROD foi um processo difícil, com consequências indesejáveis para os reguladores e a sociedade. Percebe- se, entretanto, que esse método foi adotado no papel e não, propriamente, na prática. Um breve relato da mensuração dos ativos nos três ciclos é realizado no capítulo seguinte.
2.2.2.3.2 Valor Novo de Reposição (VNR)
Esse método estabelece o preço de reposição de cada ativo, tendo como base uma empresa referência, sendo essa a principal diferença com o CROD, que, por sua vez, tem por base um ativo equivalente moderno (Modern Equivalent Asset - MEA).
A ANEEL estabeleceu, na Resolução Normativa nº 457/201131, que o VNR “refere-se
ao valor do bem novo, idêntico ou similar ao avaliado, obtido a partir do banco de preços da
29 One interpretation of DORC is that it is the valuation methodology that would be consistent with the price
charged by an efficient new entrant into an industry, and so it is consistent with the price that would prevail in the industry in long run equilibrium.
30 Ver Nota Técnica n.º 353/2007-SRE/SFF/ANEEL
concessionária, ou do banco de preços referenciais, quando homologado, ou do custo contábil atualizado”.
Anuatti Neto, Pelin e Peano (2004) citam que esse método é defensável por não se ater aos registros contábeis, buscando retratar o custo de oportunidade do capital utilizado, embora seja pouco difundido entre as empresas brasileiras, o que pode dificultar a sua aplicação.
Entretanto, se o valor do bem novo é utilizado como a base para a determinação da tarifa, o investidor recebe uma quantia diferente daquela inicialmente investida, como, por exemplo, se o custo do bem foi $100 e, quando da revisão tarifária, a avaliação pelo ativo novo está em $120. Assim, o investidor recebe sobre os $120 e não pelo $100 realmente desembolsado, que, logicamente, tem que ser ajustado pela inflação do período para a manutenção do capital monetário, ou seja, o investidor está sendo remunerado acima do capital investido e por um valor de um bem que ainda será reposto, podendo o seu preço ser bem diferente à época. Se ocorrer o contrário, o VNR estiver abaixo do investido, por exemplo, em $80, a empresa estará sendo expropriada, pois desembolsou $100 e, ainda, em termos nominais.
Pelo exposto, a base pode ainda estar ‘super’ ou ‘sub’ avaliada pela subjetividade com que esse método está exposto e acarretar ônus excessivos aos consumidores ou investidores.