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Custo histórico corrigido é o valor pelo qual o bem foi registrado inicialmente, sendo, posteriormente, atualizado por determinado índice de variação de preços, ou seja, possibilita a manutenção do custo original em data posterior. Não se trata de custo corrente, sendo apenas o custo histórico recalculado em função de variações do poder aquisitivo geral da moeda. Também, não representa o novo valor de mercado do ativo, mas representa o valor do ativo atualizado, monetariamente, do que tiver sido pago pelo bem na data da sua aquisição, e não o valor do ativo a preços de reposição ou venda. Seu objetivo é somente refletir os efeitos da inflação e não produzir valores de mercado, sendo o resultado mensurado em termos da capacidade geral de compra da moeda de uma certa data. Esse tipo de custo apresenta a mesma filosofia do custo histórico, de que lucro é o resultado obtido de investimentos realizados no passado, mas somente depois dos valores corrigidos.

Segundo Martins (1972, p. 2), é possível, com esse método, colocar vários custos ocorridos em datas distintas em valores de capacidade aquisitiva de mesma data, proporcionando uma melhor comparabilidade.

Essa comparação é uma das grandes vantagens desse método, ou seja, trazer os valores das transações para uma mesma data e uma moeda de poder aquisitivo constante (ou seja, moedas de épocas diferentes, como se fossem iguais), permitindo, ainda, a manutenção do capital monetário. É importante destacar que, mesmo em um ambiente de baixa inflação, esse método não pode ser desprezado, pois é vital se refletir a mudança dos valores no tempo. Outro benefício é a minimização do risco de descapitalização que afeta o nível de investimento a ser realizado pela companhia ou, ainda, a descontinuidade da mesma.

No Brasil, a correção monetária dos balanços passou a ser obrigatória em 1964, com a sanção da Lei nº 4.537, mas já era facultativa desde 1944. No entanto, em 1995, essa lei foi extinta, em virtude da promulgação da Lei nº 9.249/95. O tema foi bastante debatido por Martins em vários trabalhos: Martins (1984 e 1985) e nos Boletins IOB – Temática Contábil e Balanços (1982; 1984, 2002 e 2004); Santos e Barbieri (1990); Barbieri (1996); Santos (2001 e 2002). Outros estudos nacionais, como os de Szuster (1985); Brunéli (1987); Feitosa (2002); Gabriel, Assaf Neto e Corrar (2003); Salotti, Lima, Corrar, Yamamoto e Malacrida (2006), e internacionais, como os de Baran, Lakonishok e Ofer (1980), Gordon (2001) e Davis-Friday (2001), demonstram a importância do reconhecimento da inflação nas demonstrações contábeis25.

Vale destacar que, devido à longa convivência com a inflação no Brasil, foram desenvolvidas técnicas de correção monetária com o objetivo de gerar informações úteis para a tomada de decisão, como a Correção Monetária do Balanço (CMB) e a Correção Monetária Integral (CMI). A principal diferença entre elas é que a CMB atualiza somente os valores dos ativos permanentes e patrimônio líquido (itens não monetários), registrando seus efeitos em uma única conta na demonstração de resultados, ou seja, trata-se de uma simplificação. Já a CMI, que teve origem segundo os moldes da Contabilidade a Nível Geral de Preços26, atualiza

todas as contas patrimoniais e de resultados, sendo os valores das demonstrações contábeis evidenciados em moeda de poder aquisitivo constante. Embora a CMB leve a valores de resultado líquido e de balanços aceitáveis, a CMI apresenta aperfeiçoamentos que possibilitam a avaliação mais exata do patrimônio, pois identifica os itens que geraram perdas ou ganhos em virtude da inflação.

Para exemplificar, a Copel Distribuição S.A continuou divulgando, voluntariamente, as demonstrações contábeis em moeda constante até o ano de 2000. A Tabela 3 compara o

25 Existem outros estudos não citados, mas que chegaram ao mesmo resultado. 26 Price Level Accounting.

imobilizado líquido pela Legislação Societária com a demonstração corrigida pela inflação. Note-se que, apesar de ser um período considerado de baixa inflação, houve, em cinco anos, uma taxa acumulada de 35,29%. Esse fato subavaliou o imobilizado em todos os anos, sendo a diferença, em 2000, de 32%. Ressalta-se que, nessa Tabela, a coluna referente à moeda constante apresenta valores em capacidade de compra de cada final de ano a que se refere. Logo, os valores de cada ano também não são comparáveis entre si.

Tabela 3 - Comparação do Imobilizado Líquido

Fonte: Demonstrações Contábeis – Copel-D

O método CHC também é chamado de custo histórico indexado, o qual requer a base dos ativos em termos reais (corrigidos monetariamente) e, posteriormente, a sua indexação por um deflator adequado (Economic Insights, 2009). Nesse sentido, o índice a ser utilizado deve representar a realidade inflacionária e as características do setor analisado.

Trazendo essa discussão para o setor elétrico, a mensuração da BRR, segundo o custo histórico corrigido, pode provocar um sobreinvestimento e onerar as tarifas no longo prazo, comparativamente, ao que ocorreria pelo custo de reposição se esse for inferior à evolução da inflação, podendo, ainda, provocar a descapitalização. O monopolista não tem incentivos para realizar investimentos prudentes, mas pode manter ativos redundantes, com o objetivo de receber remuneração sobre eles. Entretanto, uma estrutura de governança com uma fiscalização eficiente pode resolver esse ponto.

Relembrando o que já foi citado, o regulador tem que levar em consideração a manutenção do capital monetário real para a determinação da tarifa. Além disso, o custo histórico corrigido é superior ao custo histórico e adequado para análise da eficiência econômica das organizações. Vale salientar que, se houver uma divergência significativa entre a inflação atual e a projetada, as decisões tomadas anteriormente serão prejudicadas.

A ANEEL utiliza o reajuste tarifário anual como um dos mecanismos para corrigir a tarifa nos anos em que não ocorre a revisão tarifária, utilizando o Índice Geral de Preços do Mercado (IGP-M), deduzido do Fator de Produtividade (Fator X). Os elementos que compõem a tarifa e sua atualização serão discutidos no próximo capítulo.

Imobilizado Líquido Legislação Societária Moeda Constante MC/LS 1.996 1.269.807 1.504.645 118% 1.997 1.333.990 1.551.308 116% 1.998 1.522.142 1.754.290 115% 1.999 1.535.373 1.905.591 124% 2.000 1.524.187 2.005.994 132% Inflação Acumulada 1996 a 2000 - 35,29% COPEL - D

Divergências podem ocorrer na escolha do índice a ser utilizado e, como consequência, distorcer os relatórios, sendo essa uma desvantagem do método CHC. Cada índice possui uma metodologia diferente, sendo também calculado por vários órgãos. Como será demonstrado adiante, os valores acumulados pelos diferentes índices são bastante diversos. Nesta tese, defende-se o Índice de Preços ao Consumidor Amplo - IPCA, por se entender ser um bom indicador, além de refletir a inflação oficial.

Apenas para ilustrar, as Tabelas abaixo trazem um exemplo simples em que um imobilizado é adquirido por R$ 1.000 ao final do ano zero. Nos dez anos seguintes, ocorreu uma inflação anual de 3%, e a depreciação linear, de 2% ao ano. No período, não houve aquisição de imobilizado e nem reavaliação. A Tabela 4 demonstra o imobilizado contabilizado a custo histórico, estando esse bem, ao final de dez anos, registrado com um valor líquido de R$ 800. Já a Tabela 5 traz os ajustes da inflação, podendo-se perceber que, ao final dos dez anos, o mesmo imobilizado estaria registrado a R$ 1.075, com uma diferença quase de 35%, o que corresponde à inflação acumulada no período.

Tabela 4 - Evolução do Imobilizado em Dez Anos sem Correção Monetária

Fonte: Elaborado pela autora

Tabela 5 - Evolução do Imobilizado em Dez anos com Correção Monetária

Fonte: Elaborado pela autora

Se, ao final do período (sem considerar os impostos), esse imobilizado for vendido por R$ 1.200, será reconhecido um lucro de R$ 400 na demonstração sem ajuste da inflação e, na corrigida, um lucro de R$ 125. Veja-se que ocorre um lucro ilusório de R$ 275, devido, exatamente, à não correção monetária do ativo.

De modo específico, no setor elétrico, a tarifa tem por objetivo permitir a recuperação do investimento realizado no passado, mensurado pelo justo valor, e que permita também uma taxa de retorno pactuada. Esta tese defende que o CHC atende a esse objetivo, ou seja, quando a vida útil do ativo chegar ao fim, e for necessária a sua substituição, o investidor é que tem a obrigação de buscar o capital para realizar o novo investimento, e esse capital vai ser

Sem ajuste da inflação 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10

Imobilizado 1.000 1.000 1.000 1.000 1.000 1.000 1.000 1.000 1.000 1.000 (-) Depreciação Acumulada (20) (40) (60) (80) (100) (120) (140) (160) (180) (200) Imobilizado Líquido 980 960 940 920 900 880 860 840 820 800

Com Ajuste da Inflação 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 Imobilizado 1.030 1.061 1.093 1.126 1.159 1.194 1.230 1.267 1.305 1.344 (-) Depreciação Acumulada (21) (42) (66) (90) (116) (143) (172) (203) (235) (269) Imobilizado Líquido 1.009 1.018 1.027 1.035 1.043 1.051 1.058 1.064 1.070 1.075

recuperado no futuro à medida que o bem vai sendo utilizado e uma nova taxa de retorno contratada.

Isso posto, o CHC demonstra ser uma boa opção para a determinação da tarifa, principalmente, pelo equilíbrio entre custos e benefícios e, ainda, por considerar o contexto histórico e, não, variáveis incertas e discricionárias. Importante mencionar que mesmo no valor de origem podem ocorrer algumas distorções ou imperfeições na sua mensuração, principalmente no setor analisado devido ao processo de privatização.

Benzer Belgeler