O Direito Internacional Público (DIP) é um fracionamento didático do Direito, orientador e regente das relações jurídicas entre os entes internacionais, aí
incluídos os Estados soberanos, as organizações e outros atores internacionais239.
Distingue-se do Direito Interno, que abrange as relações jurídicas nacionais. Também não se confunde com o Direito Internacional Privado, que regula as relações jurídicas entre particulares vinculados a entes internacionais distintos.
Os Estados, que sempre tiveram sua soberania e independência em relação aos outros, passaram a fazer parte de “conjuntos de Estados”, com regras institucionais de convivência, as quais passaram a interferir na própria atuação internacional deles.
Esse fenômeno foi impulsionado pelo evidente aumento do volume do comércio mundial a partir da Segunda Guerra Mundial, sob a égide de um Acordo Comercial, o GATT (General Agreement on Tariffs and Trade), assinado em 1947, que serviu de base para a criação de um organismo internacional regulador das relações
236 CAMPOS, Ana Maria et al. Avaliação de Agências Reguladoras: uma agenda de desafios para a
sociedade. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas. Revista Administração Pública – RAP, set-out 2000, v. 34, n. 5, p. 30.
237 BELTRÃO, Irapuã Gonçalves de Lima. op. cit. 238 Idem.
239 MELLO, Celso Díez de Albuquerque. Curso de Direito Internacional Público. 12. ed. Rio de Janeiro:
comerciais entre países, a OMC (Organização Mundial do Comércio), que funciona desde 1995.
Desde a segunda metade do Século XX, anota Beltrão, o Direito Internacional vem sofrendo grandes transformações, ampliando seu objeto e
incorporando novos elementos no debate de seus institutos240. Diante disso, o
doutrinador sustenta que, na análise evolutiva do papel do Estado, diversas teorias foram forjadas para justificar cada modelo assumido historicamente pelas organizações estatais241.
Atesta o reconhecimento inconteste de um Estado Regulador, ressaltando a importância de exposições referentes a modificação do papel estatal, algumas delas, inclusive, associadas à perspectiva dos avanços da globalização e das realidades advindas do plano internacional. Como o papel regulador do Estado encontra-se jungido a uma nova etapa do liberalismo, levantam-se indagações no sentido de não ser isso mera invenção dos neoliberais, que irradiariam as concepções do interesse das
corporações supranacionais às diversas nações242.
Apoiando-se nas lições de Manuel Castells, Beltrão firma que o “Estado continua sendo um elemento essencial de regulação econômica, de representação política e de solidariedade social”243, embora com uma forma de atuação capaz de
incorporar todas as transformações trazidas por essa nova ordem internacional244.
O autor salienta, alargando a noção da tradicional disciplina da guerra e da paz, que o Direito Internacional ganhou novos objetos no pós-guerra, tendo a doutrina
especializada 245 cuidado desses novos desafios, institutos e sujeitos da ordem
internacional, sobremaneira neste mundo global em constante transformação246.
Dentre esses novos institutos, ao destacar as lições de Thomas Buergenthal, Flávia Piovesan incorpora os Direitos Humanos como objeto de disciplina do Direito
240 BELTRÃO, Irapuã Gonçalves de Lima. op. cit. 241 Idem.
242 Idem.
243 CASTELLS, Manuel. Sociedade e Estado em Transformação para o Estado-Rede: Globalização
Econômica e Instituições Políticas na era da Informação. Noêmia Espínola (trad). In: PEREIRA, L. C. Bresser et al. (org.). Sociedade e Estado em Transformação. Brasília: UNESP, 1999. p. 32.
244 BELTRÃO, Irapuã Gonçalves de Lima. Op. Cit.>. Acesso em 02 Nov 2011.
245 TRINDADE, Antonio Augusto Cançado. Direito Internacional em um mundo em Transformações.
Rio de Janeiro: Renovar, 2002.
Internacional, ao afirmar que “o moderno Direito Internacional dos Direitos Humanos é
um fenômeno do pós-guerra”247.
Tal entendimento é corroborado por Ricardo Lobo Torres, ao asseverar que:
A Teoria dos Direitos Fundamentais vem se desenvolvendo extraordinariamente nos últimos anos, a coincidir com o crescimento do interesse universal pelos Direitos Humanos e com o resgate do tema pela Filosofia do Direito, pelo Direito Constitucional e pelo Direito Internacional.248 249
De outro lado, no campo do Direito Administrativo Econômico, os efeitos da globalização vão ser mais sentidos do que em outras searas do ordenamento do Estado Democrático de Direito. Assim, não se pode ignorar o surgimento de um Direito Internacional da Integração, cujo impacto sobre a soberania das nações não é desprezível. A título de ilustração, deve-se mencionar a revolução sofrida pelo Direito Penal para dar conta de novas práticas criminais a partir da “economia-mundo dos Estados”250, para os quais uma visão interdisciplinar evidencia-se com força nesta
atualidade, indispensável para compreender os fenômenos globalizantes251.
Esse novo contexto, transborda novas relações complexas entre o capital e o trabalho. A revolução dos meios de produção e de transporte, o nascimento das empresas com investidores anônimos, as novas posições do mercado financeiro, a complicada interação dos fatores do mercado econômico, do trabalho e do mercado financeiro, dos preços, dos salários e das rendas, tudo isso vai exigir das normas jurídicas formulações que não aquelas do direito comum e provocar medidas de proteção, conferindo à norma legal o papel de instrumento de proteção da economia nacional e popular252.
Ressalte-se, ainda, que as atividades transacionais utilizam comportamentos próprios, exigindo uma novel investigação jurídica. Nessa esteira, chama atenção para as lições de Tepedino, ao asseverar que:
Hoje, os conglomerados empresariais transnacionais tornaram-se os protagonistas não estatais da vida econômica mundial, concentrando
247 PIOVESAN, Flavia. Direitos Humanos e o Direito Constitucional Internacional. 8. ed. São Paulo:
Saraiva, 2007. p. 117.
248 TORRES, Ricardo Lobo (org). A cidadania Multidimensional na Era dos Direitos. Teoria dos
Direitos Fundamentais. 2. ed. Rio de Janeiro: Renovar, 2004. p. 243.
249 BELTRÃO, Irapuã Gonçalves de Lima. op. cit.
250 BRAUDEL, P. O Mediterrâneo e o Mundo Mediterrâneo. v. II. São Paulo: Martins Fontes, 1984. 251 BELTRÃO, Irapuã Gonçalves de Lima. op. cit.
um poder gigantesco. Tais empresas buscam planejar a sua atuação e disciplinar o seu relacionamento recíproco valendo-se de regras próprias de conduta, que não se confundem com as leis de qualquer Estado Nacional, mas que antes representam praxes aceitas pelos agentes do mercado em que atuam.253 254
Enfatiza-se a importância do Estado como um agente na indução do desenvolvimento – como destaca a própria Constituição de 1988 –, ainda que certos poderes tenham sido enfraquecidos com a globalização. Paradoxalmente, a interconectividade desse mesmo sistema global aproxima e cria novas demandas, não comportando mais qualquer isolacionismo, seja externo, em relação a outras Nações, seja interno, em relação a suas próprias regiões255.
Em suma, conclui-se que essa colaboração é determinante no processo de globalização e relevante para entender-se de forma abrangente o Estado e sua capacidade administrativa e reguladora que, a cada vez, envolve muito mais atores
internos e de natureza transnacional na construção de sua governabilidade256.