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São, sobretudo, duas as ideias que norteiam a elaboração da história de um determinado espaço: a ideia de forma e a ideia de tempo. As formas, quando empiricizadas, apresentam-se como objeto ou como relação social. Entretanto, é também necessário empirizar e precisar o tempo, se quisermos trabalhá-lo paralelamente às formas.
Levar em consideração, por um lado, algo que tem uma dimensão material, que são as formas espaciais, ou uma dimensão dos comportamentos, que são as formas sociais e, de outro lado, o tempo tal como ele se dá nas diferentes escalas de sua existência, apesar das frequentes dificuldades em precisá-las, implica em encontrar as mediações inerentes a tal espaço, tão diversas quanto os lugares. Assim, Santos (1998, p.68) afirma:
Essas mediações são a própria base das explicações, permitindo uma teorização do lugar, uma teorização que não é menos importante que a teorização do universo, mais ampla e mais fácil porque o universo é a sua própria forma, enquanto cada lugar exige desvendar [...] uma forma particular [...] resíduo de estruturas que foram presentes no passado.
Objetivando esclarecer a compreensão de como o tempo é aqui considerado, salientamos que Milton Santos aponta o emprego da categoria divisão do trabalho, combinando-a mais sistematicamente às noções de totalidade e de tempo, associando a ideia de distribuição de recurso à própria noção de evento. Tal categoria se constitui como motor da vida social e da diferenciação espacial. Assim, de acordo com Santos (1996, p.105), temos que:
Ao papel que, no mundo natural, é representado pela diversificação da natureza, propomos comparar o papel que, no mundo histórico, é representado pela divisão do trabalho. Esta movimenta pela produção, atribui, a cada movimento, um novo conteúdo e uma nova função aos lugares. Assim, o mundo humano se renova e diversifica, isto é, reencontra a sua identidade e a unidade, enquanto os seus aspectos se tornam outros.
Sendo a divisão do trabalho vista como um processo pelo qual os recursos disponíveis distribuem-se espacialmente, os recursos do mundo constituem, juntos, uma totalidade. Recurso aqui entendido como toda possibilidade material ou não de ação oferecida aos homens.
Tais recursos são, portanto, coisas naturais ou artificiais, relações, ideias, sentimentos e valores. É, portanto, a partir da distribuição desses dados que os homens vão mudando a si mesmos e ao seu entorno. Dessa forma, graças a essa ação transformadora sempre presente, a cada momento os recursos são outros, isto é, se renovam criando outra totalidade.
Salientamos que nesta linha de pensamento, nenhum recurso tem por si mesmo um valor absoluto, já que o valor real de cada um não depende de sua existência separada, mas de sua qualificação espacial, isto é, da significação conjunta que todos e cada qual obtêm pelo fato de participar de um lugar.
Logo, a definição conjunta e individual de um recurso depende de uma dada localização. Por isso, a formação socioespacial e não o modo de produção constitui o instrumento adequado para entender a história e o presente de um determinado espaço. Cada atividade é, portanto, a manifestação do fenômeno social total, sendo o seu efetivo valor dado somente pelo lugar em que se manifesta juntamente com outras atividades. Santos (1996, p.110) afirma que:
O tempo da divisão do trabalho vista genericamente seria o tempo do que vulgarmente chamamos de modo de produção. Aqueles elementos definidores do modo de produção seriam a medida geral do tempo, à qual se referem, para serem contabilizados, os tempos relativos aos elementos mais ‘atrasados’, herança de modos de produção anteriores. Visto em sua particularidade – isto é, objetivado – e, portanto, com a sua cara geográfica, o tempo, ou melhor, as temporalidades, conduzem à noção de formação socioespacial.
Dessa forma, todos os lugares existem em relação com um tempo no mundo, tempo de modo de produção dominante, embora nem todos os lugares sejam obrigatoriamente
atingidos por tal modo de produção. Contrariamente, os lugares se diferenciam, seja qual for o período histórico, pelo fato de que são diversamente alcançados por esses tempos do mundo.
A partir do tempo mundial, que é o tempo externo absoluto, os demais tempos são considerados tempos internos. O tempo de uma região é interno em relação ao tempo mundial e externo em relação aos tempos dos lugares e, considerando o mais mínimo tempo interno, o lugar, todos os demais lhe são externos.
O tempo, ou seja, os eventos podem ganhar diferentes acepções. No entanto, nessa linha de raciocínio o valor atribuído ao termo evento se caracteriza pela tentativa voltada à realização total de uma possibilidade. Sendo que essa possibilidade pode ser vivida como uma totalidade. Tal evento pode ser ainda o vetor das possibilidades existentes numa formação social, desde que esse espaço em evidência seja considerado como um conjunto circunscrito e mais limitado que o mundo.
Santos (1996, p. 116) evidencia que “o lugar é o depositário final, obrigatório, do evento”; afirma que “são os eventos que criam o tempo, como portador de ação do presente”; evidencia ainda, que o “evento é uma noção que completa a noção do momento”; e salienta que “os eventos são, essencialmente, elementos da atualidade”; bem como evidencia que “os eventos não se repetem”.
Quando os eventos emergem estão propondo uma nova história. Daí a sua eficácia e a sua irreversibilidade.
Considerar o tempo, ou seja, os eventos conjuntamente com o espaço é a condição necessária para obter-se a contextualização do cenário existente em um determinado movimento social. Essa é a forma de compreendermos a realidade. Nesse sentido não há evento sem ator, assim como não há evento sem sujeito. Portanto, toda teoria da ação é, também, uma teoria do evento e vice-versa.
Em outras palavras, o modelo de objetos–sistemas de ações somente se entende como um modelo espaço-temporal. Como a ideia de tempo é inseparável dos objetos e de seu valor, a conexão existente entre os objetos é dada pelos eventos, isto é, o tempo se fazendo empírico para poder encontrar os objetos.
Como em cada momento a unidade do mundo produz a diversidade dos lugares, é, portanto, o evento que valoriza diferentemente os objetos, sendo assim, a cada momento muda o valor da totalidade, ou seja, mudam os processos que asseguram a incidência do acontecer e muda a função das coisas, isto é, seu valor específico.
Logo, se em cada lugar o tempo dos diversos sujeitos e das diversas ações não são os mesmos, assim, no acontecer de cada instante, os eventos não são sucessivos, mas
concomitantes. Aqui evidenciamos o que pode ser denominado de coexistência. Por outro lado, se em cada lugar, os sistemas sucessivos do acontecer social distinguem períodos diferentes, permitindo falar de hoje e de ontem, salientamos, porém, o que se compreende por sucessões.
Constatamos então, que cada ação se dá segundo o seu tempo e as diversas ações se dão conjuntamente. Sendo assim, Santos (1996, p.196) evidencia que:
Os fluxos não têm a mesma rapidez. A velocidade de uma carta não é a de um telegrama, um telex, um fax. Os homens não percorrem as mesmas distâncias no mesmo tempo, dependendo dos meios que contam. Mas, no espaço geográfico, se as temporalidades não são as mesmas, para os diversos agentes sociais, elas todavia se dão de modo simultâneo. Constatamos, de um lado, uma assincronia na sequência temporal dos diversos vetores, de outro lado, a sincronia de sua existência comum, num dado momento. O entendimento dos lugares, em sua situação atual e em sua evolução, depende da consideração do eixo das sucessões e do eixo das coexistências.
Dito de outra maneira, a dinâmica social com suas diferenças e hierarquias, dá-se segundo tempos diversos que se conjugam, entrelaçados no chamado viver comum. Esse viver comum se realiza no espaço, seja qual for sua escala, variando do lugar ao mundo.
A importância de considerarmos o tempo como simultaneidade no estudo do espaço, se justifica, pois não há nenhum espaço em que o uso do tempo seja idêntico para todos. O tempo como sucessão é abstrato, no entanto, o tempo como simultaneidade é o tempo concreto, já que é o tempo de vida de todos.
Segundo essa linha de raciocínio baseada em Milton Santos, enfocamos a partir de então, o movimento da totalidade. Considerando que o evento se inscreve na totalidade característica de um determinado momento, mas o faz como uma parte do todo, só a totalidade em movimento cria novos eventos, mas tal totalidade, também inclui as ações tornadas possíveis em um lugar particular a partir do qual acabam por influenciar outros lugares.
Portanto, como as ações não têm existência independentemente dos objetos a que dão vida, também os eventos não ganham realidade fora dessa associação com os objetos. Logo, o que dá universalidade ao evento não é o seu acontecer, mas sua imbricação. O que é universal é a sua trama. Assim, Santos (1996, p.130) enfatiza:
[...] mediante sua realização concreta, os eventos são localmente solidários. As diversas situações são resultantes do acontecer solidário. É assim que a integração entre o universal e o individual ganha um novo conteúdo histórico em nosso mundo atual.
Aqui o citado autor alerta que a noção de solidariedade é entendida como a realização compulsória de tarefas comuns, mesmo que o projeto não seja comum.
Eis as duas formas essenciais de interdependência e simultaneidade dos eventos, seus níveis de existência global e local. Em conjunto esses acontecimentos reproduzem a totalidade, por isso são complementares e se explicam entre si. Cada evento é um fruto do Mundo e o Lugar ao mesmo tempo.
A totalidade em apreço se dá evidentemente por um movimento que caracteriza o processo espacial. Santos (1996, p. 131) afirma que se trata de “uma totalidade em permanente processo de totalização”. A energia de tal processo, ou seja, da totalização, se dá pela divisão internacional do trabalho, cujo momento é explicado pela ciência, técnica e informação.
Enfatizamos mais uma vez quanto aos eventos que operam a ligação entre os lugares e uma história em movimento, que se considerarmos os lugares à parte da totalidade, eles passam a não ter existência própria, tornam-se abstrações. Logo, o lugar é um subespaço subordinado às mesmas leis gerais da evolução, onde o tempo empirizado entra como condição de possibilidade e o espaço preexistente entra como condição de oportunidade. Então, a cada transformação prática ou empirização do evento, corresponde a uma espacialização prática, que desrespeita as solidariedades e os limites anteriores criando novos.
O que caracteriza o lugar é a verificação de que a regra da unidade e da continuidade do acontecer histórico exista. Eis aí o acontecer solidário que define um subespaço. No entanto, esse acontecer solidário que evidencia o processo espacial, se apresenta de forma homóloga, complementar e hierárquica. Santos (1996, p.132) afirma que:
O acontecer homólogo é aquele das áreas de produção agrícola ou urbana, que se modernizam mediante uma informação especializada, gerando contiguidades funcionais que dão os contornos da área assim definida. O acontecer complementar é aquele das relações entre cidade e campo e das relações entre cidades, consequência igualmente de necessidades modernas da produção e do intercâmbio geograficamente próximo. Finalmente, o acontecer hierárquico é um dos resultados de tendência à racionalização das atividades e se faz sob um comando, uma organização, que tendem a ser concentrados.
No caso do acontecer homólogo e do complementar, o espaço é marcado por um cotidiano compartido mediante regras que são localmente formuladas ou reformuladas, assim, as informações utilizadas tendem a se generalizar horizontalmente. Já no acontecer hierárquico, trata-se, ao contrário, de um cotidiano comandado por uma informação privilegiada, uma informação que é poder, difundida verticalmente.
No acontecer homólogo e no acontecer complementar temos domínios de forças localmente centrípetas. Já no acontecer hierárquico, as forças dominantes são centrífugas. Nos dois primeiros, a contiguidade é o fundamento da solidariedade, mas no acontecer hierárquico, as relações podem ser pontuais. Portanto, nesse caso a solidariedade independe da continuidade. Eis a diferença entre a proximidade espacial e a proximidade organizacional.
Na proximidade espacial, a co-presença é uma causa ou um efeito da ação, cria-se então o que se chama horizontalidade. Já na proximidade organizacional, trata-se da teleação, aquela presença de corpo ausente, cria-se o que podemos chamar de verticalidade. Aqui evidenciamos o fato da visão escalar deixar de ser uma noção geométrica para ser condicionada pelo tempo.