• Sonuç bulunamadı

1.3. Görme Engellilerde Judo ve Denge

1.3.6. Denge

A abordagem do espaço a partir da visualização em conjunto dos conceitos, forma, função, estrutura e processo, implica certamente em uma visão sistêmica quando se objetiva a compreensão desse espaço, ou seja, é preciso estudar o conjunto indissociável de sistemas de objetos e sistemas de ação que formam o espaço. Sistema de objetos aqui compreendido como objetos naturais, que ao longo da história vão sendo substituídos por objetos fabricados, técnicos, mecanizados e, depois, cibernéticos. Da mesma forma, compreendemos sistema de ação como correspondente às ações racionais movidas por uma racionalidade conforme os fins e os meios. Santos (1996, p.51) apresenta a seguinte reflexão: “O espaço é formado por um conjunto indissociável, solidário e também contraditório, de sistema de objetos e sistema de ações, não consideradas isoladamente, mas como o quadro único no qual a história se dá”.

Essa linha de raciocínio nos leva a constatar que tais sistemas interagem, ou seja, os sistemas de objetos condicionam a forma como se dão as ações e, de outro lado, o sistema de ações leva à criação de objetos novos ou se realiza sobre objetos preexistentes. É, portanto, dessa maneira que o espaço encontra sua dinâmica e se transforma.

No entanto, há que se considerar, dando continuidade a esse raciocínio, a intencionalidade existente entre a ação e o objeto. Intencionalidade aqui apontada por Milton Santos como o traço fundamental do vivido em geral que transforma a distinção, a separação, a contradição, em uma insuperável tensão entre o objeto e o sujeito. Assim, Santos (1996, p.73) coloca que:

[...] a noção de intencionalidade não é apenas válida para rever a produção do conhecimento. Essa noção é igualmente eficaz na contemplação do processo de produção e de produção das coisas, considerados como um resultado da relação entre o homem e o mundo, entre o homem e o seu entorno.

Pelo fato de não ser um objeto entre outros objetos, mas um sujeito que se relaciona com o seu entorno, é que o homem pode ser definido por sua intencionalidade. Logo, a ideia de evento intencional está implícita na ideia de conduta, de ação.

Aqui é importante realçar a inseparabilidade entre a ação e o objeto, para afirmar que o tema central na Geografia não é separadamente os objetos nem as ações, mas objetos e ações tomados em conjunto.

Santos (1996, p. 77) evidencia que “os objetos são duplamente mediadores”, porque se colocam entre o homem e a sociedade e entre o homem e sua situação material, aponta que a descrição de um sistema de objetos depende da descrição de um sistema de práticas. Portanto, não basta definir os objetos em sistema. Há que se definir qual o sistema de práticas que sobre ele se exerce. Logo, existe uma interferência contínua entre os dois sistemas.

Concordando com esse raciocínio podemos constatar que a rede do espaço é uma série de redes interdependentes e superpostas, onde mudanças numa dessas redes afetam as demais. No entanto, é indispensável afirmar, como frisa o autor em tela, que as redes são também humanas, formadas, inseparavelmente, de objetos e ações.

Se o espaço se caracteriza como resultado da inseparabilidade entre sistemas de objetos e sistemas de ações, do ponto de vista epistemológico, Santos (1996) se posiciona contra a ideia, equivocada em seu entender, de se “pretender trabalhar a partir de conceitos puros”. Assim, Santos (1996, p. 81) afirma:

Na realidade [...] não temos necessidade de amarrar nossas teorizações a duas formas puras: de um lado, o objeto e de outro o sujeito-sociedade, já que natureza e sociedade não são mais os termos explicativos, mas ao contrário, requerem uma explicação conjunta.

Já que a realização concreta da história não separa o natural e o artificial, o natural e o político, seguindo essa linha de raciocínio, fica evidente a necessidade de se visualizar a realidade de outro modo, ou seja, de maneira oposta ao trabalho que se fundamenta nestes dois polos distintos. Sendo assim, estamos falando de um espaço misto ou híbrido.

Afirma ainda o autor em tela, que desde o momento em que o evento se dá a forma, o objeto que o acolhe ganha outra significação, provinda desse encontro. Portanto, em termos de significação e de realidade, um não pode ser entendido sem o outro. Consequentemente, um não pode existir sem o outro e logicamente, não há como vê-los separadamente.

Progredindo nessa linha de pensamento, abordamos a noção de totalidade observando a compreensão fundamental para o conhecimento e a análise da realidade, de acordo com Santos (1996, p.93), que afirma:

[...] todas as coisas presentes no universo formam uma unidade. Cada coisa nada mais é que parte da unidade do todo, mas a totalidade não é uma simples soma das partes. As partes que formam a totalidade não bastam para explicá-la. Ao contrário, é a totalidade que explica as partes.

Eis por que se diz que o todo é maior que a soma de todas as partes. Para obtermos uma melhor compreensão, podemos exemplificar ao considerarmos uma sociedade qualquer, onde o que a caracteriza no tempo 1 não é aquilo que a define no tempo 2. Dessa forma, no momento B anteriormente consecutivo ao momento A, o todo é diferente do todo anterior. Assim, Santos (1996, p.93) afirma:

Quando a sociedade muda, o conjunto de suas funções muda em quantidade e qualidade. Tais funções se realizam onde as condições de instalação se apresentam como melhores. Mas estas áreas geográficas de realização concreta da totalidade social têm um papel exclusivamente funcional, enquanto as mudanças são globais e estruturais e abrangem a sociedade total, isto é, o Mundo, ou a formação socioeconômica.

O referido autor aponta também para os perigos de uma totalidade repetitiva, em que as relações representacionais se cancelam mutuamente, por não se referenciar na realidade, caracterizando assim, a desarmonia da totalidade. O mesmo afirma que para enfrentar a árdua tarefa de entender a realidade devemos levar em conta o fato de que o conhecimento pressupõe análise, bem como, tal análise pressupõe a divisão. Daí o interesse de compreender o processo pelo qual a totalidade é cindida. Santos (1996, p.95) afirma que:

O conhecimento da totalidade pressupõe assim sua subdivisão. O real é o processo de cissiparidade, subdivisão, esfacelamento. Essa é a história do mundo, do país, de uma cidade [...] Pensar a totalidade, sem pensar a sua cisão é como se a esvaziássemos de movimento.

Portanto, a totalidade está sempre em movimento, num incessante processo de totalização, sendo assim, o processo de totalização da velha à nova totalidade constitui a base do conhecimento de ambas.

Considerando que o todo somente pode ser conhecido através do conhecimento das partes e as partes somente podem ser conhecidas através do conhecimento do todo, Milton Santos evidencia a origem de processo ao afirmar que essas duas verdades consideradas são parciais, já que para alcançar a verdade total é necessário reconhecer o movimento conjunto do todo e das partes através do processo de totalização.

Tal processo, pelo qual o todo se torna outro todo, é um processo de desmanche, de fragmentação e de recomposição, um processo de análise e de síntese ao mesmo tempo. Dessa forma, Santos (1996, p.98) enfatiza que:

A totalidade é, ao mesmo tempo, o real-abstrato e o real-concreto. Só se torna existência, só se realiza completamente, através das formas sociais, incluindo as geográficas. E a cada momento de sua evolução, a totalidade sofre uma nova metamorfose. Volta a ser real-abstrato.

Considerar a totalidade como possibilidade é admitir o fato da ação que une o universal ao particular, criar uma particularidade ao levar tal universalidade ao lugar. Portanto, a totalidade se realiza por impactos seletivos, nos quais algumas de suas possibilidades se tornam realidade, essas possibilidades ou efeitos de especialização são encontrados nos lugares, já que tais lugares são definidos em virtude dos impactos que acolhem.

Para existir objetivamente, o movimento da totalidade deve ser dirigido à sua espacialização, que é também particularização. Estamos diante do princípio da diferenciação entre os lugares, produzindo combinações específicas em que as variáveis do todo se encontram de forma particular. Dessa maneira, os lugares reproduzem o Mundo segundo uma ordem. É, portanto, essa ordem unitária que cria a diversidade, pois as determinações do todo se dão de forma diferente, quantitativamente e qualitativamente, para cada lugar.

Assim, não se pode considerar uma dialética que hierarquize estrutura, processo, função e forma, segundo um movimento linear, já que de um lado, a estrutura necessita da forma para sua existência e, de outro lado, a forma-conteúdo tem um papel ativo no movimento do todo social.

Santos (1996, p.101) evidencia que “o todo está inteiramente presente na parte como seu sentido atual e seu destino”. Ou seja, tornada forma-conteúdo pela presença da ação, a forma se torna capaz de influenciar de volta o desenvolvimento da totalidade, participando dessa maneira, da dialética social. E, finalmente, enfatiza que essa visão renovada da dialética concreta abre novos caminhos para o entendimento de espaço.

Benzer Belgeler