A comunicação é e sempre foi um elemento fundamental para o ser humano. Como explica Kenski (1998:61), nas sociedades orais, a localização física dos indivíduos que utilizavam a mesma fala definia o espaço da tribo e da cultura, ou seja, limitava o homem ao espaço circunscrito do seu grupo, onde ele circulava e se comunicava. Porém, como aponta Vahl Júnior (2003, 18), as formas que os indivíduos utilizam para se comunicar têm se alterado no decorrer dos tempos. Por exemplo, na antigüidade, a forma de comunicação ocorria por meio da linguagem oral, através da qual a cultura era registrada e os conhecimentos transferidos de geração em geração.
Com o surgimento da escrita, e, posteriormente, com a invenção da imprensa, a possibilidade de comunicação ampliou-se e transformou-se, permitindo a aproximação das pessoas mesmo quando separadas geograficamente. Enquanto a comunicação por meio da linguagem oral exigia a presença física dos participantes do discurso, o texto escrito não requer essa presença, uma vez que o mesmo pode ser lido sem a presença do autor ou até mesmo muito tempo após a sua morte.
Nessa direção, Kenski (1998:62) esclarece que enquanto nas sociedades orais prevalecia a memorização e a repetição como formas de aquisição do conhecimento, na sociedade escrita, há a necessidade de se compreender o que está sendo comunicado graficamente. A autora aponta, ainda, que é a partir do surgimento da escrita que ocorre a autonomia do conhecimento, uma vez que, por não haver a necessidade presencial do
enunciado, mas por meio do contexto em que é recebido, lido e analisado. Portanto, como afirma a autora, a perspectiva espaço-temporal definida pela escrita influi na maneira como o indivíduo apreende e se orienta no mundo, uma vez que permite ao indivíduo expor suas idéias e pensamentos, tornando-o assim, “auto-consciente e livre em sua capacidade de reflexão e apreensão da realidade” (Kenski, 1998:63).
Nesse aspecto, Lévy (1996/2003:38) afirma que a escrita dessincroniza, deslocaliza e virtualiza, ou seja, a escrita fez surgir um meio comunicacional no qual as mensagens são “separadas no tempo e no espaço de sua fonte de emissão”, o que obrigou a um refinamento das práticas interpretativas da leitura, para a solução de problemas de recepção e interpretação. De acordo com o autor, o texto é um objeto virtual, abstrato, independente de suporte específico que se atualiza por meio de múltiplas versões, como por exemplo, traduções, edições, exemplares, cópias, entre outras, e através da interpretação ou sentido que o leitor dá ao texto ao atualizá-lo.
Segundo Lévy (1996/2003:35), quando lemos ou escutamos um texto, começamos a negligenciar, a desler ou a desligar o texto, e é ao percorrê-lo e cartografá-lo que fabricamos o que atualizamos, ou seja, ao nos debruçarmos sobre o texto e aprofundarmos a leitura, relacionamos uma passagem a outras, a outros textos, outros discursos, imagens, afetos, entre outros, o atualizamos, seguindo ou não as instruções do autor e nos constituímos.
Escutar, olhar, ler equivale finalmente a construir-se, Na abertura ao esforço de significação que vem do outro, trabalhando, esburacando, amarrotando, recortando o texto, incorporando-o em nós, destruindo-o, contribuímos para erigir a paisagem de sentido que nos habita. O texto serve aqui de vetor, de suporte ou de pretexto à atualização de nosso próprio espaço mental (Lévy, 1996/2003:37).
O autor também aponta para a questão da desterritorialização textual propiciada pela CMC que aproxima extremidades independentes do tempo e do espaço. De acordo com Lévy (1996/2003:39), por correr em rede, alimentando as correspondências on-line e conferências eletrônicas, esse texto dinâmico reconstitui a co-presença da mensagem e seu contexto vivo que caracteriza a comunicação oral, uma vez que reaproxima dos participantes do diálogo “a pertinência em função do momento, dos leitores e dos lugares virtuais”.
Hoje em dia, estamos diante de uma gama de diferentes mídias, como por exemplo, rádio, televisão, telefone, entre outras, fornecidas pelas Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC), que nos possibilitam estreitar ainda mais as relações, ter acesso às informações e a uma comunicação instantânea para qualquer lugar do mundo. Contudo, a mais revolucionária dessas mídias, como apontado por Vahl Júnior (2003:18), quer seja por sua forma (interativa) ou por seu conteúdo (variado e democrático) é a Internet.
Criada inicialmente a partir da necessidade de compartilhar informações na área de segurança militar5, programadores começaram a desenvolver e instalar software para a troca de mensagens. Com o desenvolvimento das redes, os avanços e a popularização da Internet, o computador passou a ser utilizado também como meio de comunicação, dando origem a uma nova forma de comunicação, a Comunicação Mediada por Computador (CMC):
[...] A comunicação mediada por computador (CMC) provoca mudanças na sociedade, modificando as formas de vida e trabalho, os valores culturais e, em geral, o perfil sociocultural. Por um lado, a comunicação está sendo enriquecida pelas novas tecnológicas do conhecimento. E por outro, o nascimento de uma nova cultura planetária, produto da comunicação digital, tenderá à superação das barreiras geográficas e econômicas (aspecto tecnológico) e a modificação dos valores de convivência social (aspecto sociológico) baseado no desenvolvimento de compartilhar solidariamente a informação básica no recurso das
5 A primeira rede foi a ARPANET que ligava um computador a outro em 1969 e permitia a troca
rápida e segura de informações sigilosas. Para uma informação mais detalhada, sugiro a leitura de “History of ARPANET”, disponível em http://www.dei.isep.ipp.pt/~acc/docs/arpa.html .
Para Pereira (2002:20), a CMC pode ser concebida como “uma comunicação interpessoal que utiliza a tecnologia para transmitir, armazenar ou apresentar informações”, e possui uma variedade de ferramentas que podem favorecer a comunicação, permitindo a interação entre as pessoas localizadas em espaços físicos diferentes, possibilitando a troca de idéias, informações e conhecimento. Segundo o autor, essa comunicação pode se dar:
como uma comunicação privada - um para um: com relações estabelecidas entre indivíduo a indivíduo ou ponto a ponto, como, por exemplo, a comunicação oral (sem intermédio de instrumentos materiais), a comunicação por telefone, que propicia a comunicação indivíduo a indivíduo à longa distância.
por dispersão - um para todos: um emissor envia suas mensagens a um grande número de receptores. Essa comunicação pode se dar por meio de mídias, como, por exemplo, rádio, imprensa e televisão, que possibilitam a comunicação a uma grande massa de pessoas, porém sem interatividade, ou seja, sem diálogo direto entre os interlocutores. em discussão em grupo - realizada de muito para muitos, ou todos
para todos: a comunicação digital que permite que comunidades constituam de forma progressiva e colaborativa um contexto comum, como por exemplo a conferência eletrônica, world wide web, ambiente de educação.
De acordo com Kenski (1998:60), a tecnologia, quer seja velha, como a escrita, ou nova, como as agendas eletrônicas, modificam o modo como
6 (…)la comunicación mediatizada por la computadora (CMC) induce cambios en la sociedad,
modificando las formas de vida y de trabajo, los valores culturales y, en general, el perfil sociocultural. Por uma parte la conunicación esta siendo enriquecida por las nuevas tecnologias de acceso al conocimiento. Y por outra, el nacimiento de una nueva cultura planetária, producto de la comunicación digital, tendera a la supresión de las barreras geográficas y econômicas (aspecto tecnológico) y a la modificación de los valores convivenciales asociados (aspecto sociológico) basado
dispomos, compreendemos e representamos o tempo e o espaço à nossa volta. Para a autora, a diversidade de instrumentos que utilizamos diariamente redimensiona nossas possibilidades temporais e nossos deslocamentos espaciais.
Essa dimensão espaço-temporal é também discutida por Lévy (1996/2003:27), que nos alerta para a questão da desterritorialização do virtual, ao afirmar que podemos nos fazer presentes em dois lugares diferentes ao mesmo tempo, graças às técnicas de comunicação e telepresença.
Como aponta o autor, a virtualização dos corpos que experimentamos hoje em dia é a nova etapa da autocriação que sustenta nossa espécie, e os sistemas de realidade virtual nos permitem experimentar uma integração dinâmica de diferentes modalidades perceptivas.
Para Lévy(1996/2003:28), a percepção, cujo papel é trazer o mundo aqui, é claramente externalizada pelos sistemas de telecomunicação. Por exemplo, a projeção da imagem do corpo normalmente está associada à noção de telepresença, contudo, a telepresença é mais do que a simples projeção da imagem. Para elucidar essa questão, Lévy (1996/2003:28) nos fornece um exemplo do uso do telefone que já nos dá um ótimo exemplo da dimensão espaço-temporal: quando utilizamos o telefone, o aparelho já funciona como um dispositivo de telepresença, pois ele não leva apenas uma imagem ou uma representação de voz, ele transporta a própria voz ao separar a voz (corpo sonoro) do corpo tangível, transmitindo-a para lugares distantes do nosso. O corpo tangível permanece aqui, o corpo sonoro, por sua vez, desdobra-se em aqui e lá. O corpo sonoro do interlocutor também é
afetado pelo mesmo desdobramento, desse modo, estamos,
respectivamente, aqui e lá, mas com um cruzamento na distribuição dos corpos tangíveis.
Pode-se dizer, portanto, que os sistemas da realidade virtual transmitem mais do que uma imagem; transmitem uma quase presença e, ao nos associarmos virtualmente com os que participam das mesmas redes técnicas, nosso corpo se multiplica, pois cada corpo individual torna-se parte
[...] Fazendo eco ao hipercórtex que expande hoje seus axônios pelas redes digitais do planeta, o hipercorpo da humanidade estende seus tecidos quiméricos entre as epidermes, entre as espécies, para além da fronteiras e dos oceanos de uma margem a outra do rio da vida. (p.31). [...] A virtualização do corpo não é, portanto, uma desencarnação, mas uma reinvenção, uma reencarnação, uma multiplicação, uma vetorização, uma heterogênese do humano.
Para sintetizar, podemos dizer que a expansão das redes de comunicação mundiais propiciou o desenvolvimento da CMC, e que sua principal contribuição foi permitir a atualização e/ou criação de instrumentos para a comunicação de indivíduos que se encontram distantes fisicamente e precisavam/precisam fazer uso deles para compartilhar informações e produzir conhecimento.
Essa seção buscou apresentar um breve panorama para a compreensão da CMC. Na seção a seguir, abordo os tipos de interação (síncrona e assíncrona), os ambientes virtuais e instrumentos utilizados nesta pesquisa. As implicações desse tipo de interação e ambientes fornecidos pela CMC serão objetos de análise mais adiante.