Como apresentado, o lazer, a partir de 2009 passa a ter visibilidade como conteúdo da capacitação do PST. Anteriormente, as ideias sobre lazer estavam presentes, mas de maneira incipiente. Percebi também que, embora a formação de atletas não fosse o objetivo do esporte educacional, as estruturas para desenvolver habilidades esportivas estavam contempladas no currículo da formação profissional.
Para Silva (2003), “o currículo – tal como o conhecemos e a cultura – não podem ser pensados fora das relações de poder” (p. 16). O currículo é entendido como “um artefato cultural que apresenta um conjunto de saberes selecionados do repertório de
conhecimento disponíveis para serem ensinados a alguém que deseja se formar, educar,
transformar, modificar, subjetivar” (PARAÍSO, 2007, p.93). Esses saberes são tomados
como verdadeiros em detrimento dos outros conhecimentos, e se concretizam em instituições, regulamentos, programas, valores, saberes, modos de se portar.
Constituem o currículo a própria forma de ensinar, o que não se ensina e os processos de construção do produto. O currículo, é assim concebido como linguagem, como uma prática social, que é uma prática curricular e segundo Giroux (2005) uma
“maquina de ensinar”.
Ao entender as práticas culturais como curriculares, permeadas de relações de poder, compreendo também que a sociedade é regida por ordens discursivas que organizam o que deve ser dito e o que deve ser silenciado. Por esse caminho as diversas práticas culturais são máquinas de ensinar, porque constroem identidades e subjetividades63. Portanto, podemos considerar a capacitação do PST como uma
“máquina de ensinar” e suas “intenções”, enquanto discursos, tentam construir a
identidade do profissional do PST.
Penso que o lazer no processo curricular do programa em vários momentos foi um
discurso que se “ocultou”. Apesar de tangenciado, várias vezes, nos documentos, o lazer
não se legitimou como um conteúdo até 2009, apesar de ter sido de alguma maneira contemplada nas discussões.
63 Concordo com Costa (2001) quando, baseado nos estudos Foucaltianos, nos lembra de que essa relação
de construção de subjetividades implica o poder, que não é maligno, dissimulado (que emana de uma fonte única), mas um poder produtivo, disseminado, capilar e circulante (p.32).
Nesse contexto, identifiquei dois tipos de saberes desenvolvidos sobre o lazer. O primeiro o entende como mero passatempo, uma prática espontânea e neutra nas relações com as possibilidades de formação humana. Além disso, aparece como uma mercadoria disponível para entreter os sujeitos contribuído com a manutenção do status quo. A segunda perspectiva presente, aborda o lazer como uma dimensão da cultura, a partir de sua concretização como direito social e portanto o lazer é uma possibilidade de reprodução, mas também de produção da cultura.
Estas duas concepções foram identificadas e trabalhadas por autores do campo do lazer (Marcellino, 1987; Gomes, 2003) que entendem que o lazer pode se manifestar tanto pela ideologia consumista (o lazer como produto), quanto pela lógica do direito e produção de cultura. Werneck (2003) ao relacionar o lazer com o direito lhe atribui a perspectiva das conquistas históricas e sociais às quais ele está vinculado, dessa forma
ao conceber o lazer do ponto de vista histórico social, não se pode desvinculá- lo das lutas por esse direito, socialmente enraizado na categoria tempo. A razão do lazer ser concebido não como um privilégio de poucos, mas como uma conquista de todos, advém justamente desse aspecto (p. 130).
Essa abordagem, encontrada nos documentos analisados do PST, entende o lazer como uma dimensão da vida que ensina modos de ser aos seres humanos, e quando tratada como direito social apresenta possibilidades de conexão com os processos históricos de luta que envolvem as sociedades.
Quanto a questão da produção de cultura, o lazer representa uma chance de realiza-la por meio de vivências lúdicas (Gomes, 2003). Assim, quando o programa funciona a partir princípio a ludicidade pode entender as crianças e jovens como
“produtores culturais” o que significa
ampliar as chances de apropriação das condições da produção do saber teórico- prático, lúdico e educativo que permeiam as vivências de lazer, buscando a criação e não o simples consumo de cultura. O lazer pode, ainda, servir de estímulo a esses sujeitos, empenhados na luta pela conquista de autonomia e pela garantia de um viver digno, ultrapassando as barreiras dos discursos ideológicos opressores e injustos verificados em nosso meio (GOMES, 2003, p.132).
Assim, o lazer proporciona possibilidades de produzir lazeres a partir da lógica de que criação e recriação e não necessariamente da lógica do consumo de atividades. Diferente dessa concepção, Werneck (2003) apresenta que o lazer também pode ser pensado pelas lógicas do consumo:
A consolidação do lazer como um produto que impulsiona uma promissora indústria cultural pode ser verificada por meio dos investimentos maciços que vêm sendo colocados nesse mercado nos últimos anos. Segundo as estatísticas dos investidores, apenas 20% do potencial de mercado é explorado atualmente no Brasil e há indicações do magnifico polo mercadológico que apresenta a indústria do lazer e do entretenimento (p. 70).
Outra relação que grifo é a ideia de Giroux (1995) que nos convida a pensar sobre as relações de inocência disseminadas nos produtos que consumimos da indústria do entretenimento. O autor mostra como os produtos “disney” ensinam, baseados na ideia da
inocência, identidades e subjetividades. Assim, “o que consumimos em nossos momentos
de lazer tem divulgado uma série de variedades de saberes sobre nós mesmos, sobre os outros e sobre o mundo, com uma grande capacidade de sedução, de fazer desejar coisas,
de mudar percepções e modelar condutas” (PARAÍSO, 2010, p. 39).
Vejo que as vivências de lazer têm estruturas organizacionais que foram ocultadas nas formações dos profissionais do esporte educacional, que mesmo tendo o lazer como uma vivência possível para o esporte, não tinham um olhar para o lazer como um
“artefato cultural ou máquina de ensinar”. Diferentemente, depois de 2009, surgem
metodologias de trabalho com o lazer. Consigo elencar entre essas metodologias os trabalhos com as concepções de lazer e a animação cultural, apresentadas nos documentos64 e também o Recreio nas férias65.
Tais metodologias de trabalho buscam outras formas de compreender o lazer nas relações político-sociais e tentam encontrar estratégias de intervenção para divulgar outros saberes sobre esse mesmo lazer mercadológico.
Com a legitimação de tais metodologias vejo que as discussões sobre lazer deixam de ter um lugar ocultado nesse currículo, cujos debates aconteciam sem muita profundidade, para assumir certa legitimidade enquanto conteúdo debatido nos manuais didáticos de trabalho dos profissionais.
Embora o lazer seja trabalhado enquanto conteúdo da capacitação, o sistema de trabalho acontece pela divisão temática. Tal decisão expressa a desvantagem de o lazer não ser pensado por todas as propostas, pois, sendo considerando como um tema
64 Melo, Brêtas e Monteiro (2009), Melo, Brêtas e Monteiro apresentação de slides contida em:
<http://www.esporte.gov.br/arquivos/snelis/segundoTempo/acompanhamento/fundamentosLazer.pdf>. Acesso em 11 de agosto de 2011.
interdisciplinar, ele atravessará outras temáticas, apresentarei dois exemplos de Oliveira e Perim (2009).
Greco, Silva e Santos (2009), apresentam as possibilidades de adquirir habilidades múltiplas para utilizar com competência nas vivências de lazer, como descrito:
A designação de estrutura substantiva apoia-se na ideia de que existe um conjunto de capacidades que se relacionam entre si para se realizar uma ação esportiva. Essas capacidades são as mesmas, independentemente do nível de rendimento que seja solicitado ou que se deseja alcançar. As capacidades representam a substância, a essência do rendimento (escolar, rendimento, alto nível, reabilitação, lazer, saúde, profissional) que se pretenda alcançar em esportes (p. 193).
Tal ideia apresenta o esporte como um bem cultural que exige determinados
conhecimentos, “saber fazer”, para ser vivido nas possibilidades de lazer. Ressalto que os
autores deixam claro no capítulo escrito que eles reconhecem a existência da “educação
do esporte e a educação pelo esporte”, e no trabalho eles optam por tratar a primeira.
Entretanto, entendendo o esporte como um bem cultural concordo com Goeller (2009) que não há como ensinar as habilidades esportivas e deixar de fora os valores culturais a elas atribuídos.
Essa maneira de olhar para o corpo implica entendê-lo não apenas como um dado natural e biológico, mas, sobretudo, como produto de um intrínseco inter- relacionamento entre natureza e cultura. Em outras palavras, o corpo não é algo que está dado a priori. Ele resulta de uma construção cultural sobre a qual são conferidas diferentes marcas em diferentes tempos, espaços, conjunturas econômicas, grupos sociais, étnicos etc. Essa afirmação leva a pensar, por exemplo, que nem mesmo aquilo que é dado como natural do corpo existe sem a intervenção da cultura. Pensemos: ter fome ou sede, por exemplo, são necessidades biológicas que se expressam na materialidade do corpo (p. 74).
Como o trecho apresenta o corpo não é um dado natural e biológico e, entende-lo por essa lógica, nos impede de entender as relações sociais que estão ali apresentadas, como, por exemplo, as lógicas de consumo que cercam o esporte.
Apresentei dois trechos do documento Oliveira e Perim (2009) que não fazem parte do trabalho com o lazer e, a partir daí percebi concepções diferentes e contraditórias de lazer presentes.
Por análise, ressalvo os avanços do tratamento do lazer nos conteúdos da formação dos profissionais do PST e também a necessidade de aprofundar os diálogos entre os conteúdos apresentados. O lazer e animação cultural são uma das propostas
metodológicas que caminham junto a outras metodologias de trabalho que não possuem a mesma concepção de lazer. Mas reconheço a dificuldade do objetivo assumido pelo Ministério do Esporte de tentar construir um diálogo entre as diversas áreas da educação física. Diante disto, busco identificar quais as metodologias ou estratégias para se trabalhar o tema lazer nas capacitações do PST.