Indagar sobre o que é um conceito pressupõe, antes de tudo, uma análise filosófica sobre a concepção do que se entende por conceito, ou seja, analisar os distintos
64 LOPES FILHO, Juraci Mourão. Linguagem e método: abordagem hermenêutica do Direito como alternativa ao purismo metodológico. Revista Opinião Jurídica. Ano VII, n. 11, 2009, p. 216.
discursos sobre os campos do saber, a respeito das diversas teorias que tentam explicar a sua existência.
Como bem sintetiza Alice Maria Araújo Ferreira, os nominalistas negavam a existência dos conceitos, pois seriam uma mera representação, elaboração abstrata, que poderiam variar em função dos variados discursos utilizados. Já para os realistas, os conceitos possuem existência mental e ideal (no sentido de Platão), nem sempre inteiramente captada ou representada pelo pensamento66.
Ao longo da história, houve sempre a necessidade de as pessoas compreenderem a realidade, bem como do porvir após a morte. Essa necessidade de compreensão e dar sentido às coisas traduziu-se na criação do conceito, entendido aqui como conjunto de conhecimentos sobre dado objeto, cujo meio utilizado é a linguagem. Não se pode olvidar de que, neste momento, o conceito – ao ser traduzido em linguagem – e em uma determinada língua – delimita esse conjunto de conhecimento, que, ao mesmo tempo, o identifica a certos aspectos do objeto, mas também implica perda da multiplicidade e pluralidade de sentidos desse mesmo objeto.
Toda comunidade possui uma língua e uma linguagem particulares, características das pessoas dela componentes, que, por sua vez, evoluem na história cultural daquela comunidade. Deste modo, a língua consiste num instrumento de comunicação comum entre as pessoas de uma comunidade. Para Chaïm Perelman, a tese de que a língua é um instrumento de comunicação indispensável opõe-se tanto ao realismo quanto ao nominalismo filosófico (pois ambos procuram minimizar o papel da linguagem no conhecimento):
Para o primeiro, a linguagem é apenas um véu, apenas um obstáculo, que se deve remover para entrar diretamente em contato com a realidade, com o mundo das idéias, apreensível graças a uma experiência imediata, a uma intuição racional. O método certo seria partir das idéias claras e distintas, correspondentes a natureza simples: se forem corretamente elaboradas, serão adequadas a um real preliminar; na medida em que daí se afastam, dão origem a erros e confusões.
Os nominalistas, pelo contrário, consideram os signos e os axiomas convenções puramente arbitrárias, hipóteses que não cabe justificar, o que elimina qualquer desacordo a respeito deles. Se daí resulta uma pluralidade de
66 FERREIRA, Alice Maria Araújo. Prefácio. In: VALLÉ-HARDY, Benoit. O que é um conceito? São Paulo: Parábola, 2013, p. 7-9.
línguas possíveis, não há por que escolher entre elas, e portanto fornecer razões para preferir um uso lingüístico a outro.67
Seja com origem numa representação mental ou linguística, para Benoit Hardy-Vallé, o conceito é expresso por uma ou mais palavras e representa uma categoria de objetos, eventos ou situações. Como primeira unidade do conhecimento e do pensamento, a atividade de pensar e de conhecer está atrelada à manipulação dos conceitos.68Assim, por exemplo, o conceito de “cão” pode variar a cada pessoa, haja vista
a representação mental de cada um, bem como partindo de um conceito científico da zoologia. De igual maneira, o conceito de “tributo” pode adquirir várias representações mentais em cada pessoa, mas possuir na linguagem técnica e científica uma acepção inteiramente distinta.
O Filósofo canadense, baseado numa teoria da Psicologia das Faculdades – síntese do modelo intelectualista e cartesiano dos conceitos –, reúne cinco aspectos na Teoria dos Conceitos: a) o invariante (o conceito é universal que representa particulares); b) o critério (o conceito deve especificar uma regra que permita estatuir sobre a inclusão da coisa na categoria); c) a aquisição e o formato (o conceito é uma representação abstrata, que pode ser adquirida por diferentes formatos); d) a organização (a existência de categorias e de subcategorias revela hierarquia conceitual); e) função (é possível perquirir para que servem os conceitos). Com base em tal sistema, ele sintetiza:
Os conceitos são universais abstratos, organizados sistematicamente, que aplicam a representação de propriedades invariantes de uma categoria a objetos particulares em função de um critério. O conceito serve diferentes funções epistemológicas (inferência, categorização, gnosiologia, linguagem) e metafísicas (taxonomia normativa e modalidade).69
De acordo com Luiz Antônio Marcuschi, com base na Linguística de Texto70,
o conceito é um dos modelos cognitivos globais que representa um dos fatores de conexão
67 PERELMAN, Chaïm. Lógica jurídica. São Paulo: Martins Fontes, 2000, p. 155.
68VALLÉ-HARDY, Benoit. O que é um conceito? Prefácio: Alice Maria Araújo Ferreira. São Paulo: Parábola, 2013, p.16.
69 HARDY-VALLÉ, Benoit. Op. cit., p. 20.
70De acordo com o autor, a Linguística de Texto (LT) “trata o texto como um ato de comunicação unificado num complexo universo de ações humanas. Por um lado deve preservar a organização linear que é o tratamento estritamente linguístico abordado no aspecto da coesão e, por outro, deve considerar a organização reticulada ou tentacular, não linear, portanto, dos níveis de sentido e intenções que realizam a coerência no aspecto semântico e funções pragmáticas”. MARCUSCHI, Luiz Antônio. Linguística de
conceitual-cognitiva (coerência) das categorias textuais. Nesta linha, ensina o Linguista brasileiro:
Um conceito é uma constelação de conhecimentos estruturados numa unidade consistente. No seu uso, ativamos conhecimentos armazenados na memória semântica e na memória episódica. A memória semântica espelha modelos inerentes da organização do conhecimento, ou seja, as estruturas de eventos, fatos e experiências. Tem a função de organizar os fatos entre si. A memória episódica contém a lembrança dos fatos.71
Conceituar não é, entretanto, apenas uma tarefa meramente linguística. Em verdade, são as definições as estipuladoras de limites aos conceitos e às ideias. Não se pode olvidar da função dos signos linguísticos como sistema, de modo a propiciar o uso de sinais que possibilitam a comunicação. A primeira função da comunicação é partir de elementos, signos e conceitos previamente estabelecidos e entendidos por todos os sujeitos envolvidos.
Para Paulo de Barros Carvalho, o ato de definir passa pelo esforço humano de realizar uma cognição e representa-lo por intermédio de linguagem:
[...] operação lógica demarcatória dos limites, das fronteiras, dos lindes que isolam o campo de irradiação semântica de uma idéia, noção ou conceito. Com a definição, outorgamos à idéia sua identidade, que há de ser respeitada do início ao fim do discurso.72
Neste mesmo sentido, Lucas Galvão de Brito atribui à definição um papel semântico, no qual há um processo comunicacional de se imputar limites linguísticos a um termo. Portanto, o conjunto de signos que se referem a um dado objeto é fixado por convenção, imperativo este necessário para o estabelecimento da comunicação. Seguindo esta óptica, vale salientar a distinção entre conceito e definição:
São propósitos das definições tanto a (i) imposição de limites à abrangência dos termos; como também, (ii) a intersubjetividade de seu alcance, submetendo conhecimento e controle coletivo, o conteúdo que se quer com um termo enunciar: o seu conceito. É por isso que toda definição restringe um conceito para, assim, abrir-lhe caminho à compreensão alheia.73
71 MARCUSCHI, Luiz Antônio. Op. cit., p. 76.
72 CARVALHO, Paulo de Barros. Direito Tributário, Linguagem e Método. São Paulo: Noeses, 2011, p. 120.
Não difere do entendimento de Irving Copi74 para quem as definições são
símbolos cujos significados as explicam. Então, as definições possuem além das duas funções mencionadas (estipulativas e aclaradoras), diante da ambiguidade (quando há dois significados e o contexto não esclarece em qual dos dois se usa) e da vagueza (quando existem casos limítrofes de tal natureza que é impossível determinar o termo se aplica ou não a eles), também as de: (iii) aquisição de vocabulário (definição
lexicográfica); (iv) formular uma caracterização teoricamente adequada ou
cientificamente útil dos objetos a que deverá o termo ser aplicado (definição teórica); ou (v) como meio para influenciar as atitudes ou agitar as emoções de quem toma contato com os termos (definição persuasiva).
Partindo da ideia de que as palavras “são símbolos (convencionais ou arbitrários) que representam algo no mundo físico ou imaginário”75, Tárek Moysés
Moussallem acentua que o significado consiste justamente na relação entre a palavra e a realidade. Assim, o Jurista espírito-santense elabora uma estrutura lógica das definições na qual todo enunciado definitório é composto de duas partes: o definiendum (a palavra cujo conceito se busca definir) e o definiens (palavras usadas para definir)76. Tome-se
como exemplo a definição de serviço: o definiendum é a própria palavra “serviço”, enquanto que o definiens é “o próprio trabalho a ser executado, ou que se executou, definindo a obra, o exercício do ofício, o expediente, o mister, a tarefa, a ocupação, ou a
função”.77
No plano jurídico, corrobora-se o entendimento de Tárek Moussallem78 pela
existência de dois corpos de linguagem: um para o sistema do Direito Positivo e outro para o sistema da Ciência do Direito. O sistema jurídico positivo é estruturado em linguagem prescritiva de condutas, enquanto o plano científico é baseado em metalinguagem (função descritiva). Em síntese, tem-se dois tipos de definições jurídicas:
74 COPI, Irving M. Introdução à Lógica. Tradução de Álvaro Cabral. São Paulo: Mestre Jou, 1978, p. 112- 119.
75 MOUSSALLEM, Tárek Moysés. Sobre as definições. CARVALHO, Paulo de Barros (coord.). Lógica e
Direito. São Paulo: Noeses, 2016, p. 252.
76 MOUSSALLEM, Tárek Moysés. Op. cit., p. 253.
77 SILVA, De Plácido e. Vocabulário jurídico. Nagib Slaibi Filho e Gláucia Carvalho (atualizadores). 26 ed. Rio de Janeiro: Forense, 2005, p. 751.
a definição legal (expressa no direito positivo) e a definição científica (encontrada no âmbito da doutrina, de modo geral).
Tal distinção é essencialmente relevante para se cotejar a definição legal de tributo prevista no artigo 3º do Código Tributário Nacional, a definição legal de tributo estipulada no artigo 9º da Lei nº 4.320, de 17 de março de 196479, com a definição
científica de “tributo oculto ou disfarçado”, a ser tratada delineada adiante.