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Como último elemento da rede teórica proposta por Simões (2001), apresentam-se as bases de poder que permeiam a relação entre a organização e seus públicos. Estas são as variáveis utilizadas pela atividade de Relações Públicas para intervir no sistema.

Hall (1973) evidencia que o poder faz parte do processo de toda e qualquer organização. É componente fundamental da dinâmica organizacional e social, no que tange às relações humanas. Destaca que o comportamento dos membros das organizações é regido pelas posições de poder que ocupam nelas. Esse comportamento, recíproco, envolve todas as partes, num processo de dependência. Tudo isso, conforme esse autor, é mostrado como a conexão mais profunda entre os processos e a estrutura organizacional, vistos como limites iniciais para se estabelecer a relação entre todos os elementos.

O conceito de poder é retomado, conforme explicitado no capítulo anterior, dando-se ciência de que pode exprimir um processo de relação e influência entre as partes. O poder somente se manifesta pelo seu exercício, quando há mudança de comportamento de um dos envolvidos. Chanlat (1996) destaca que tal idéia já era compartilhada por precursores, como March e Simon (1975), Weber (1979) e Etzioni (1980). Como acréscimo às idéias sobre influência que se mostram no exercício do poder, expostas por Parsons (1969) e Mintzberg (1992), apresentam-se as de Bachrach e Baratz (1970), e Katz e Kahn (1970, p.253). Esses dois últimos dão sua contribuição, afirmando que “o poder é utilizado para referir-se a algum conjunto de transações influenciais em potencial, e raramente a um único ato”. Bernardes (1990) complementa que o controle ou influência exercido por indivíduos ou grupos sobre as ações dos outros pode ocorrer sem que exista consentimento por parte desses, acontecendo contra a sua vontade ou sem o seu conhecimento.

Como as relações entre pessoas e organizações são permeadas pelo exercício do poder, logo este se desvela de maneira diversa e mutável. Contudo, percebe-se que é intangível e definir a sua quantidade em cada organização se faz difícil. Como demonstra Hall (1973), o poder não se mostra nas organizações de forma a ser quantificado fixamente. A quantidade é variável, podendo aumentar ou diminuir; como há inúmeras formas de se manifestar o poder nas organizações, inevitavelmente há tendência ao seu crescimento. O autor complementa que não somente a quantidade nas organizações é relevante, mas o seu uso também. Caso sejam empregadas formas inapropriadas de poder, a organização possivelmente terá menor

efetividade; percebe-se, por conseguinte, que ele necessita de sentido. Uma pessoa ou um grupo não o possui isoladamente. Além de se mostrar oculto ou aparente, sendo exercido consciente ou inconscientemente de maneira passiva ou ativa por parte dos seres humanos, para que se efetive importa que esteja permeado nas relações entre pessoas, organizações ou partidos.

Segundo Donnelley (1976), as ambições de poder, inadequadas e irrealistas, chegam a menosprezar aspectos legais. O autor salienta que, à primeira vista, esse parece um fator que pode ser considerado inexistente; é comum, entretanto, a sua ocorrência em qualquer cultura organizacional, pois provém de uma característica e de uma projeção pessoais. A conjuntura desse fenômeno gera conflitos internos, mas principalmente externos, junto a outras fontes de poder, sendo evidentes à concorrência e à área governamental. O ambiente torna-se avesso à organização, e esta terá dificuldades quando necessitar de insumos que aquele possui.

Contudo, ver o poder como algo inerente às relações sociais que formam a base da sociedade é considerá-lo, então, como processo socialmente positivo ou negativo, dependendo da quantidade, das formas e das fontes de seu exercício, assim como das posições que ocupam os componentes das organizações frente às relações que se busca analisar. “O exercício do poder, a submissão de alguns à vontade de outros, é inevitável na sociedade moderna; nada se realiza sem ele. O poder pode ser socialmente maligno, mas também socialmente imprescindível”, na concepção de Galbraith (1984, p.11). Este complementa que a busca pelo poder não se dá somente em vista do serviço que ele presta aos interesses e valores pessoais ou sociais. Destaca que há, de parte do ser humano, uma reflexão quanto ao poder em si, em virtude das recompensas emocionais e materiais provenientes da sua posse ou do seu exercício. A atribuição principal do poder, segundo Fleury et al. (1996), é manter a harmonia e o equilíbrio nas organizações; ordena, na proporção da sua legitimidade, porque estabelece fronteiras, homologando processos organizacionais.

Por sua vez, poder, para Simões (1995, 2001), está atrelado à questão do desejo por maiores e melhores recursos, que faz com que as partes busquem poder crescente de decisão e influência sobre o outro, gerando um processo que tende ao conflito, prejudicando a cooperação. Conforme já visto, esse autor define que a função política se refere à relação de poder entre a organização e seus públicos e à influência que podem exercer uns sobre os outros, fazendo com que estes sigam ou desviem-se de suas trajetórias. Essa função, segundo

esse autor, contém as ações correlacionadas com o exercício de poder e comunicação internos e externos à organização.

Relações Públicas, no entendimento de Xifra (2003), quando faz uso do exercício do poder, está compondo uma coalizão dominante de parte das organizações frente a seus públicos. Logo, essa atividade precisa desenvolver ações que visem exercer influências positivas, que busquem aproximar a organização dos seus públicos. De acordo com o autor, apresentar, assim, medidas que vão da prevenção à solução de conflitos precisa fazer parte da atividade de Relações Públicas, que, para tal, utiliza-se de meios como intermédio de bases de poder e comunicação em seus vários significados, no sentido de informar, persuadir ou negociar. Atuando dessa maneira, entende-se, segundo o arcabouço teórico de Simões (1995), que a atividade de Relações Públicas administra o processo de comunicação/poder no sistema organização-públicos, objetivando a cooperação no sistema, que deve resultar na consecução e comprovação da missão organizacional.

A escolha entre os caminhos de ação, usualmente, baseia-se nas relações de poder entre os envolvidos no sistema. Assim, interesses tanto divergentes como convergentes são portadores em potencial do surgimento dos jogos de poder no sistema organização-públicos. Tais interesses englobam predisposições que envolvem objetivos, valores, desejos, expectativas e outras orientações que levam os indivíduos a agir numa, e não em outra, direção.

Para finalizar, apresenta-se a seguir quadro, elaborado a partir da rede teórica da disciplina de Relações Públicas, proposta por Simões (2001), denominado Função Organizacional Política. Nele se oferece uma visão sumarizada do pensamento do referido teórico, facilitando a fixação e a compreensão de seus constituintes.

ELEMENTOS SÍNTESE DAS CARACTERÍSTICAS

SISTEMA ORGANIZAÇÃO-

PÚBLICOS

Relação se dá através do exercício do poder.

Busca da cooperação é o centro do relacionamento, favorecendo o processo de interação.

Relações Públicas media e gerencia o relacionamento no sistema, com vistas à cooperação entre as partes e à consecução dos objetivos, evitando a divergência de interesses, com foco na convergência.

Por meio da comunicação, Relações Públicas viabiliza o diálogo entre a organização e seu universo de públicos.

CONFLITO Mostra-se latente na relação entre o sistema.

Colapso no processo decisório, sendo qualquer tipo de oposição ou integração de forças antagônicas reais ou percebidas, ligado à frustração, ao fato que o desencadeia.

Representa: diferenças de valores, escassez de poder, recursos ou posições, divergências de percepção ou idéias.

Pode ter efeito construtivo ou destrutivo, dependendo da maneira como é administrado.

Deve ser trabalhado de maneira preventiva, curativa e proativa, a fim de ser amenizado.

A busca para se solucionar efetivamente um conflito deve perpassar pela colaboração.

A administração do conflito, por parte de Relações Públicas, torna-se uma função política.

CONFLITO E

COOPERAÇÃO

Conflito é o elemento-problema motivador da existência da atividade de Relações Públicas; a cooperação é o elemento solução dessa atividade frente ao conflito.

Conflito e cooperação são faces da mesma moeda. BASES DE

PODER

Componente fundamental da dinâmica organizacional e social, no que tange às relações humanas.

Exprime um processo de relação com capacidade de produzir efeitos. Inúmeras formas de se manifestar: oculto ou aparente, consciente ou inconsciente, passivo ou ativo.

Não se possui isoladamente, sendo recíproco, apresentando dependência, de difícil mensuração e mutável.

Pode ser maligno ou benéfico, depende de como é tratado.

Está atrelado à questão do desejo por maiores e melhores recursos.

Atividade de Relações Públicas administra o processo de comunicação/poder no sistema organização-públicos, objetivando a cooperação no sistema, que deve resultar na consecução e comprovação da missão organizacional.

Quadro 17 – Síntese de parte dos elementos que compõem a teoria da Função Organizacional Política de Simões (2001).