Nas primeiras décadas do século XIX, em razão da pobreza generalizada e da ruralização particularmente verificada nesse período, a vida social, no aspecto público, continua praticamente inexistente na cidade de Goiás. No entanto, a acomodação da vida, que o tempo sempre traz, leva os vilaboenses a voltarem-se, lentamente, para assuntos de outra ordem, de natureza sócio-cultural e política.
As últimas décadas da primeira metade do século XIX caracterizam-se por um lento despertar político, por uma tomada de consciência perante os problemas da cidade e por uma ânsia de autonomia e poder, por parte dos vilaboenses. Essas
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CURADO, Agnelo Arlington Fleury Curado - op. cit. p. 52/3.
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Os dados biográficos de André Augusto de Pádua Fleury (contidos nas páginas 48/56 do livro
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mudanças têm em José Rodrigues Jardim, governador da Província de Goiás de 1831 a 1837, seu expoente maior.
Americano do Brasil enumera os benefícios proporcionados pelo governo de Rodrigues Jardim: “a causa da instrução, a defesa de nossos limites, a criação da imprensa na cidade de Goiás, o plano de uma escola médico-cirúrgica, a transformação da Ilha do Bananal em Parque Nacional, a divisão administrativa de Goiás, a reforma tributária, a criação da Assembléia Legislativa.”. 21
Em 1832, José Rodrigues Jardim cria a primeira escola de meninas na cidade de Goiás.
“A educação intelectual da mulher, até então desprezada, teve seu primeiro carinho. A 20 de julho prestou concurso e foi nomeada para a cadeira de primeiras letras do sexo feminino da Capital D. Maria Romana da Purificação, a primeira professora oficial que teve Goiás”. 22
Inicialmente, essa escola é pouco freqüentada, devido ao impacto que causa, dadas as idéias da época, que não valorizam a instrução formal para a mulher. Ao lado dessa mentalidade existe outra - a de pais que preferem instruir suas filhas em aulas dadas em casa, por eles ou por professores particulares. Em ambos os casos, são meninas pertencentes à elite social. 23
A escola é, então, “uma instituição isolada, de um só mestre, recebendo diariamente na própria casa em que residia, uma ou duas dezenas de alunos”. 24Bretas nos informa que essas casas são muito simples, apresentando vários inconvenientes, sendo o mais importante deles a falta de sanitários. Outras dificuldades se enumeram,
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BRASIL, Americano do - Pela História de Goiás. Goiânia: UFG, 1980, p.97.
22
Idem, ibidem, p.103.
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Conforme Nice Monteiro Daher, escritora vilaboense - entrevista de 23/01/96.
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BRETAS, Genesco Ferreira - História da Instrução Pública em Goiás. Goiânia:CEGRAF/UFG, 1991, p. 71.
tais como: ausência de livros impressos, de lousa ou de quadro-negro. Quase ninguém pode comprar o papel para exercícios, que é muito caro.
Quanto ao ensino secundário, existe na capital uma aula de Gramática Latina, criada em 1788 e uma de Teologia Moral, criada em 1806. A partir de 1832, são criadas as cadeiras de Francês, Filosofia e Geometria. 25
Desde 1827, em São Paulo e em Olinda há cursos jurídicos, mas os vilaboenses de então, não dispõem de recursos econômicos para custear os estudos de seus filhos fora de Goiás.
No entanto, as exceções existem. Entre os primeiros vilaboenses formados pela Universidade de Coimbra, estão José e Manuel d’Assis Mascarenhas, filhos de Angela Ludovico. São citados como filhos de D. Francisco de Assis Mascarenhas:
“D. Francisco foi nomeado Governador e Capitão General da Capitania de Goiás, governando de 1804 a 1809. (...) Foi nesse período do seu governo que lhe nasceram os filhos José e Manuel. O primeiro, D. José de Assis Mascarenhas, nasceu em Vila Boa em 1805. Formado em Direito, foi magistrado goiano, presidente da Província (1839/1845), e deputado à Assembléia Geral por três legislaturas. Foi também Desembargador do Tribunal da Relação no Maranhão e ministro do Supremo Tribunal de Justiça no Rio de Janeiro. Morreu no Rio de Janeiro em 1868. Como Presidente, Mascarenhas interessou-se profundamente pela Instrução Pública. Não criou muitas escolas (apenas duas), mas procurou por todos os meios melhorar o ensino, fiscalizando muito de perto o desempenho dos mestres e das escolas. (...) D. Manuel de Assis Mascarenhas nasceu em Vila Boa em 1806. (...) Também formado em Coimbra, não voltou para Goiás, tendo ido servir ao Espírito Santo e Rio Grande do Norte, como magistrado, governador e Deputado à Assembléia Geral. (...) Foi também eleito Deputado por Goiás, nas legislaturas de 1845 e 1847, provavelmente por influência de seu irmão. Morreu no Rio de Janeiro em 1866”. (BRETAS, 1991, pp. 89/190)
Em 23 de julho de 1835, Rodrigues Jardim sanciona a lei número 13, que determina em um de seus artigos: “Os pais são obrigados a dar a seus filhos instrução
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As Aulas Régias são introduzidas no Brasil Colonial, após a expulsão dos jesuítas. No Brasil Império essas Aulas são substituídas pelas cadeiras.
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primária do primeiro grau, nas escolas públicas, nas particulares ou em suas próprias casas, e pagarão multa se se omitirem”. 26
O governo de Rodrigues Jardim é de extrema dedicação ao ensino e ao progresso social e cultural, sendo então criada a primeira loja maçônica da cidade -
Asilo da Razão - abolicionista e de forte cunho positivista, que vai dar início à
arrancada cultural da cidade, mais tarde impulsionada pelos Bulhões, também maçons e positivistas. Durante esse governo é fundado, também, o primeiro jornal vilaboense - Correio Oficial - que começa a circular em 1837, com máquinas compradas da
Matutina Meyapontense.
Na primeira metade do século XIX, “poucas famílias constituíram riquezas; entre elas, a de Inácio Soares de Bulhões que se enriqueceu no comércio”.27Ao casar- se com Antônia Emília Rodrigues Jardim - filha de Angela Ludovico e José Rodrigues Jardim - dá início ao clã dos Bulhões, que tanta importância vai representar para a história de Goiás.
Destacamos o fato de que Antônia Emília, uma vilaboense/matriarca - cujos filhos desempenharam importante papel na historia, não só da cidade de Goiás, como de todo Estado de Goiás - era filha de Angela Ludovico, uma vilaboense/concubina. Essa história familiar evidencia a relação de sentido das ações humanas e a simetria psicológica responsável pela formação da mentalidade de uma família; em maior extensão, de um grupo social; e, até mesmo de um conjunto ainda mais amplo, formado pela população de uma cidade. Ao viver sua experiência histórica como mulher-objeto, Angela fortalece-se o suficiente para descobrir que, concomitante à condição de objeto, oculta-se o espaço reservado ao sujeito.
Aprendendo a ocupar o lugar de sujeito de sua própria vida, Angela contribui para a formação da mentalidade vilaboense, pautada na fortaleza, na obstinação e na identificação com a cidade. Vencendo dificuldades individuais e coletivas, a população vilaboense reflete a energia adquirida com essas conquistas, na superação das adversidades materiais e concretas do meio ambiente. Por outro lado, essa
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BRETAS, Genesco Ferreira - op. cit. p. 172.
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superação volta para a população sob forma de auto-suficiência. E assim, em estreita reciprocidade, povo e cidade 28 atravessam séculos em construções mútuas, baseadas numa relação de intensa identificação.
Cora Coralina permite-nos desvelar esse aspecto da alma vilaboense:
“Eu sou o caule
dessas trepadeiras sem classe, nascidas na frincha das pedras: Bravias. Renitentes. Indomáveis. Cortadas. Maltratadas. Pisadas. E renascendo.
Eu sou a dureza desses morros, revestidos,
enflorados,
lascados a machado, lanhados, lacerados. Queimados pelo fogo. Pastados. Calcinados e renascidos. Minha vida, meus sentidos, minha estética, todas as vibrações
de minha sensibilidade de mulher, têm, aqui, suas raízes.”
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No presente trabalho, adotamos os seguintes conceitos:
Povo - conjunto de indivíduos, formando uma entidade única e coesa, moldada por costumes, hábitos, história e tradições comuns;
Cidade - representação material e concreta do conjunto dos habitantes de uma povoação, apresentando-se como uma entidade única e coesa e refletindo a energia proveniente das relações humanas aí verificadas.
112 (CORALINA, 1993, p.48)
Ao casar-se com Angela, ao ocupar-se com a educação feminina em seu governo e ao educar uma filha como Antônia Emília, José Rodrigues Jardim dá provas de ser fruto de sua terra e de uma realidade histórica que mostra, ao longo dos anos, a cumplicidade existente entre o homem e a mulher, na luta contra as adversidades. Os preconceitos que discriminam a mulher da cidade de Goiás - tão evidentes nos relatos dos viajantes - manifestam-se por parte daqueles que não são vilaboenses.
Maria Augusta Sant’Anna de Moraes relata que Antônia Emília orgulhava-se de ser filha do Senador do Império José Rodrigues Jardim, um dos primeiros goianos a adquirir prestígio político na área nacional. Ao nascer o primeiro de seus nove filhos, teria dito: “....o nome Jardim não pode morrer”. Todos eles assinam Bulhões Jardim e são “criados num ambiente de estudos, de cultura literária e musical, em flagrante contraste com o meio da então Província de Goiás.” Antônia Emília oferece educação esmerada aos filhos, trazendo professores da Corte e comprando um piano de cauda que é transportado em carro de bois para Goiás. Divulga “o gosto pela música através de concertos realizados em sua própria casa”. 29
Podemos perceber, já nessa época, a preponderância dos valores intelectuais na mentalidade vilaboense. Como traço cultural típico da cidade de Goiás, o dinheiro é visto como uma alavanca para impulsionar o desenvolvimento intelectual, fator de orgulho e afirmação dos vilaboenses. A supremacia do intelecto, do nome e da tradição sobre o imediatismo do dinheiro é um dos fatores que irão dificultar a aceitação da mudança da capital da cidade de Goiás para Goiânia. Com a mudança da capital, os vilaboenses sentem-se negados em seu valor mais íntimo e até hoje verifica-se, através das entrevistas concedidas para a execução desse trabalho, um distanciamento orgulhoso em relação ao progresso de Goiânia, frente às conquistas conservadoras da cidade de Goiás.
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A partir de 1846, a criação do Liceu dá à cidade de Goiás a estrutura fundamental que propicia o desenvolvimento intelectual que se faz sentir a partir da segunda metade do século XIX. Em 1847 o Liceu oferece “ as cadeiras de Latim, Francês, Retórica e Poética, Metafísica, Ética, Geografia e Geometria. Em 1848 é criada uma aula de música anexada ao Liceu. Em 1850 foram acrescidas: Lógica, Aritmética e História e, seis anos depois, Filosofia Racional e Moral.” 30
Em meados do século XIX, em decorrência dessas transformações, inicia-se uma vida social propriamente dita na cidade de Goiás. Os costumes da Corte vão chegando devagar à Capital goiana e já não é mais “concebível, por exemplo, um baile em Palácio sem se dançar uma valsa vienense, e ouvir-se nem que fosse um pretenso tenor ou barítono cantando uma ária italiana”. 31
O Liceu, desde sua fundação, constitui-se em estabelecimento da maior importância e se mantém independente do massacre conservador das religiões. De influência maçônica, procura formar um pensamento científico, pautado no positivismo, e adquire, diante da população, um prestígio tão grande que se torna responsável pelo insucesso de todos os seminários que são criados na cidade de Goiás.
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No final da primeira metade do século XIX é criada a Biblioteca Pública, anexa ao Liceu (1850). Esses últimos eventos demonstram que, pouco a pouco, a cidade de Goiás, apesar das dificuldades próprias de uma economia ainda marcada pelos traços da subsistência e do isolamento - sua eterna característica - vai caminhando para a consolidação de uma vida social mais diversificada, viabilizada também pela iluminação das ruas com lampiões de querosene (1848).