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O esgotamento do projeto de desenvolvimento capitalista nacional em direção do projeto de desenvolvimento capitalista internacionalizado tem provocado intensos debates. Furtado (1981, p. 22 a 32), atribuiu as mudanças ocorridas a partir de 1956 à pressão e impasse econômico gerados na primeira metade dos anos 50. A crise do balanço de pagamentos, a elevação dos preços relativos dos insumos e tecnologia, os limites para importação de insumos, tecnologia e bens de consumo duráveis e a carência interna de poupança teriam obrigado o governo a recorrer ao complemento da poupança através de empréstimos internacionais em maior escala se comparado ao período anterior e estimulado a entrada das empresas multinacionais.

Estes processos - somente possíveis graças à flexibilização das políticas governamentais e à nova forma de ação do capital internacional - teria assegurado o prosseguimento do processo de industrialização por substituição de importações e de internalização de diversos novos ramos de atividade industrial. Portanto, a dinâmica e conjuntura da economia mundial e brasileira teriam determinado o novo momento que a economia passaria a conviver a partir da segunda metade dos anos 50.

Ianni (1986, p. 141-147) chamou a atenção para o fato de que as rupturas políticas, econômicas e sociais implementadas ao longo do período precedente não foram completas. A fragilidade da burguesia nacional; o elevado grau de integração entre interesses de empresários, comerciantes, importadores, políticos e militares com interesses de governos e homens de negócios dos países dominantes; a existência de classes e camadas sociais ansiosas por uma relação clássica de livre comércio como forma de satisfazer suas expectativas como consumidores; o nacionalismo ideológico de partidos como PTB, PCB e PSD, destituídos de

uma visão clara das possibilidades da economia brasileira; e a existência de concepções político- econômicas e de grupos e comissões de trabalho lançando diretrizes e criando modelos de relações entre o Brasil e os países desenvolvidos, especialmente com os Estados Unidos, teriam concorrido, ao nível das classes dominantes e setores sociais aliados, para um certo equilíbrio na correlação de forças entre aqueles setores sociais e políticos favoráveis a um projeto de desenvolvimento capitalista em bases nacionais e os setores sociais e políticos partidários de um projeto de desenvolvimento capitalista internacionalizado até o início dos anos 50.

A partir da progressiva internacionalização do processo de reprodução e acumulação do capital, que teve início em meados dos anos 50, esta correlação de forças teria se transformado em amplamente favorável ao projeto de desenvolvimento capitalista internacionalizado no interior destas classes e setores. Desta forma não seria mais possível, mediante o nível de articulação econômica assumido entre o nacional e o internacional e a radicalização das lutas sociais em torno de uma plataforma política nacional-popular, conservar as mesmas bases políticas e ideológicas do regime. Teria ocorrido, portanto, uma derrota das forças políticas e econômicas identificadas com um capitalismo nacional no âmbito da classe dominante e aliados, seguido dos desdobramentos políticos que tal realidade assumiria na totalidade dos conflitos em curso. Segundo o próprio autor, teria ocorrido

“(...) uma transição (...) de uma política destinada a criar um sistema capitalista nacional para uma política orientada para o desenvolvimento econômico dependente” (Ianni, 1986, p. 149).

Mendonça (1988, p. 39-48) contestou a existência de um projeto capitalista de desenvolvimento sob uma doutrina nacionalista orgânica como concebeu Octavio Ianni. Para a autora, o conteúdo nacionalista dos governos Vargas - sendo que no plano do discurso o nacionalismo também manifestou-se nos governos Dutra e JK - teria sido um produto da conjuntura internacional da guerra e do pós-guerra, caracterizada pela carência de capitais internacionais para inversões em países como o Brasil e pela crise das relações de troca no

comércio internacional, induzindo uma industrialização substituidora de importações. O novo bloco de forças políticas que ascendeu ao Estado teria sido compelido a criar e otimizar recursos e processos em direção à industrialização e elaborar uma ideologia que a identificasse como senha do desenvolvimento, da modernização e da independência e autonomia nacional.

Com a nova conjuntura internacional, caracterizada pelo intenso movimento de capitais e empresas multinacionais, o varguismo passaria a incomodar às frações burguesas dispostas a uma associação com o capital estrangeiro, o que culminaria com o movimento golpista civil-militar e o suicídio de Vargas, o mesmo se repetindo através das pressões institucionais sofridas pelo governo Goulart quando este buscou implementar as reformas de base. O nacionalismo teria sido fruto das circunstâncias e de sentido fundamentalmente ideológico, embora também representasse um fator de temeridade para o capital privado nacional e internacional devido à mobilização e transformação da classe operária em base de apoio do projeto industrializante.

Para Singer (1984, p. 226-227), o país encontrava-se nos primórdios dos anos 50 com uma estrutura industrial moderna e fundamentalmente construída com recursos próprios. A composição do capital nacional apresentava-se francamente dominado pelo capital nativo. Conforme argumentou o autor, no período de 1947 a 1955 enquanto os investimentos estrangeiros chegaram a 17,6 milhões de dólares anuais em média, a composição do capital fixo da indústria brasileira era de 1912 milhões de dólares em 1956. No período compreendido entre 1956 a 1962 os investimentos estrangeiros subiram para 106 milhões de dólares anuais em média, mas no mesmo período o capital fixo da indústria brasileira elevou-se constantemente, atingindo 3.019 milhões de dólares no ano de 1962. Agregando-se ao montante reinvestido pelas empresas estrangeiras os investimentos se elevariam para 62,3 milhões de dólares para o primeiro período e para 145,7 milhões de dólares para o segundo, que para o autor não seria muito expressivo frente ao montante do capital fixo sob controle de nacionais.

Singer concluiu que a abertura da economia para o capital estrangeiro decorreu de um processo fundamentalmente político. Teria sido o resultado de uma nova correlação de forças dentro do bloco do poder e não que o aporte de capitais externos cumprisse um papel indispensável para o prosseguimento do desenvolvimento da economia brasileira. Propôs, como hipótese explicativa do esgotamento do padrão econômico sob bases nacionais, a alteração da correlação de forças materializada na aliança dos partidários da industrialização com os adversários do capital estatal para neutralizar a oposição daqueles que davam prioridade à agricultura de exportação e que tencionariam para o retorno a um padrão econômico tradicional de cunho agro-exportador.

A compreensão do esgotamento do projeto de desenvolvimento capitalista nacional impõe analisarmos as contradições sobre as quais encontrava-se o governo Vargas. Este governo culminaria na crise político-institucional responsável pela inflexão econômica que determinou o abandono do projeto de desenvolvimento capitalista dominante até então.

É necessário partirmos, de início, das transformações em curso na divisão internacional do trabalho. O término da guerra da Coréia - que adiou o sempre iminente conflito contra o bloco político liderado pela então União Soviética - e a conclusão da reconstrução européia e japonesa - com a retomada de uma dinâmica auto-sustentável de expansão e a inserção competitiva no mercado mundial desta região e deste país - redefiniram a divisão internacional do trabalho. Em que pese a continuidade da “Guerra Fria”, havia um processo de crescente distensão nas relações internacionais, que somente seria ameaçada pela escalada da presença e intervenção direta norte-americana no extremo asiático ao final dos anos 60.

Esse novo quadro político e econômico desencadeou um processo de homogeneização oligopolística do mercado internacional. Os conglomerados oligopolísticos movimentaram-se para os novos mercados não mais para a realização comercial das suas mercadorias, mas para encontrar condições favoráveis para a instalação de estruturas produtivas

e produzir mercadorias. Embora encontrando mercados com demanda restrita, poderiam usufruir da mão-de-obra e matéria prima barata e livrar-se dos elevados custos de transportes. Como esta nova forma de ação do capital oligopolista nos países periféricos ocorreu sob intensa disputa pelo controle do mercado internacional, ela expressou, também, a antecipação da presença do referido capital em mercados “emergentes”, anteriormente aos seus competidores internacionais.

A possibilidade de transferência de tecnologia defasada por parte das matrizes em processo de reestruturação tecnológica, agora constante em função da competitividade oligopolística internacional, permitiu otimizar a capacidade produtiva de equipamentos e subtrair custos na instalação das novas estruturas industriais montadas nos países periféricos. A condição de “fronteiras fechadas”, asseguradas através de negociações políticas com os grupos dominantes dos países periféricos e materializadas através de articulações institucionais, permitiriam preços acima daqueles vigentes no mercado mundial, garantidos por barreiras protecionistas, o que representava uma forma de acumulação extra dos oligopólios.

Os grupos oligopolísticos se beneficiaram, ainda, das novas alternativas de diversificação dos investimentos no âmbito dos países periféricos e dos diversos incentivos proporcionados pelos governos destes mesmos países.

A conformação de comissões mistas entre governos dos países cêntricos e periféricos planejavam as inversões externas programadas e antecipavam negociações entre interesses nacionais e estrangeiros. Discursos nacionalistas e leis restritivas à presença do capital internacional em setores tidos como “estratégicos”, desencadeados pelas forças políticas e sociais favoráveis a um desenvolvimento capitalista sobre bases nacionais, mobilizaram a oposição de governos dos países cêntricos e de amplos setores do capital nacional. À medida que crescia a presença do capital internacional a oposição se intensificava.

No plano interno da sociedade brasileira, as contradições de perspectivas quanto à entrada ou não do capital internacional tencionaram-se. A burguesia industrial brasileira foi