Dentro do entendimento teórico, a partir da adaptação das idéias de Giddens (2009) ao campo de Sistemas de Informações, teve origem o termo “dualidade da tecnologia” (ORLIKOWSKI, 1992). Orlikowski e Robey (1991) conferiram à tecnologia um papel para cada modalidade de estrutura (Quadro 11). Orlikowski (1992) evita o entendimento da tecnologia como apenas um objeto físico,
compreendendo-a como “o resultado de ações humanas coordenadas e, portanto, inerentemente social” (ORLIKOWSKI, 1992, p. 403). Ou seja, a “interação entre a tecnologia e as organizações é uma função dos diferentes atores e do contexto histórico-social presentes no seu desenvolvimento e uso” (ORLIKOWSKI, 1992, p. 405). Neste sentido, a tecnologia assume propriedades estruturais, de forma que ela é tanto “fisicamente construída pelos atores trabalhando em um dado contexto social” (ORLIKOWSKI, 1992, p. 406), como é “socialmente construída pelos atores através dos diferentes significados que eles incorporam e os dispositivos que enfatizam e usam” (ORLIKOWSKI, 1992, p. 406). Esta perspectiva é chamada de “dualidade da tecnologia” (JONES; KARSTEN, 2008).
Domínio da Instituição (Estrutura) Utilizando os sistemas de informação, os usuários baseiam-se em conhecimento inerentes, suposições e regras, reafirmando a estrutura de significação da organização. Utilizando os sistemas de informação, os usuários trabalham com regras e capacidades construídas no próprio sistema, reafirmando a estrutura de dominação da organização. Utilizando os sistemas de informação, os usuários trabalham com opções, valores e sanções autorizadas dentro do próprio sistema, mantendo a estrutura de legitimação da organização.
Modalidades Esquemas Interpretativos Facilidades Normas
Domínio da Ação Humana (Interação) Os usuários se apropriam de regras, conhecimento e suposições incorporadas no sistema de informação para realizar tarefas, ou podem modificar padrões de uso para criar novas estruturas de significação que podem, potencialmente, modificar práticas institucionalizadas. Os usuários se apropriam de regras e capacidades incorporadas nos sistemas de informação para alcançar resultados autorizados, ou podem modificar padrões de uso para criar novas estruturas de dominação que podem, potencialmente, modificar práticas
institucionalizadas.
Os usuários se apropriam de convenções de uso legitimadas nos sistemas de informações para executar ações sancionadas, ou podem modificar padrões de uso para criar novas estruturas de legitimação que podem, potencialmente, mudar práticas institucionalizadas.
Quadro 11 – Quadro de referência para investigar a interação entre os agentes humanos e a estrutura social durante o uso de sistemas de informação.
Fonte: Elaborado a partir de Orlikowski e Robey (1991), Jones (1999)
Partindo deste entendimento, de acordo com Orlikowski (1992), a tecnologia é entendida como “interpretativamente flexível” (ORLIKOWSKI, 1992, p. 405; DOHERTY; COOMBS; LOAN-CLARKE, 2006). Este termo refere-se ao “grau de comprometimento dos usuários de uma tecnologia com a constituição dela (física e/ou socialmente) durante o desenvolvimento e uso” (ORLIKOWSKI, 1992, p. 409). A autora compreende esta “flexibilidade interpretativa” como um “atributo do relacionamento entre usuários e tecnologia e, portanto, influenciada por
características materiais - hardware/software da tecnologia -, humanas - experiências, motivações - e características contextuais - relações sociais, atribuição de tarefas, alocação de recursos” (ORLIKOWSKI, 1992, p. 409).
Todavia, a “flexibilidade interpretativa” não é infinita, pois se limita pelas próprias características materiais da tecnologia, pelos contextos institucionais (estruturas de significação, poder e legitimação), bem como pelo poder, interesses e conhecimento dos atores envolvidos durante o desenvolvimento e uso (ORLIKOWSKI, 1992; JONES; KARSTEN, 2008). O modelo de Orlikowski (1992), visualizado na Figura 2, caracteriza o relacionamento entre:
(1) propriedades institucionais: formas de organização estrutural (ex. organograma), estratégias empresariais, ideologias, cultura, mecanismos de controle, padrões de procedimentos operacionais, divisão do trabalho, especialização, padrões de comunicação, pressões do ambiente, como regulação governamental, competição, estratégias dos fornecedores, normas profissionais, estado de conhecimento sobre tecnologia e condições sócio-economicas (ORLIKOWSKI, 1992; JONES, 1999);
(2) agentes humanos: desenvolvedores, usuários, decisores (ORLIKOWSKI, 1992; JONES, 1999);
(3) tecnologia: artefatos materiais que mediam a execução de tarefas no ambiente de trabalho (ORLIKOWSKI, 1992; JONES, 1999).
Figura 2 – Modelo de Estruturação da Tecnologia
Fonte: Elaborado a partir de Orlikowski (1992, p. 410), Fell e Rodrigues Filho (2006) Propriedades Institucionais (1) Ação Humana (Agência) (2) Tecnologia (3) ( a ) ( b ) ( c ) Meio para Produz ( d ) Influenciam a interação humana com a tecnologia
Os relacionamentos neste modelo apresentam quatro tipos de influencias possíveis (Quadro 12), a saber:
(a) a tecnologia como um produto da ação humana: a tecnologia é criada e mantida por pessoas, necessitando ser utilizada para ter efeitos. Trata- se de um artefato humano, construído dentro de certas circunstâncias sociais e históricas, por meio da criatividade humana. Somente ao ser apropriada, física ou socialmente, no desenvolvimento e realização de tarefas, a tecnologia é capaz de representar um papel significativo nos processos organizacionais (ORLIKOWSKI; ROBEY, 1991; ORLIKOWSKI, 1992; FETZNER, 2008);
(b) a tecnologia como um meio da ação humana: a tecnologia media as atividades organizacionais, uma vez que é utilizada pelos trabalhadores, podendo tanto facilitar como restringir as condições das atividades. Diferentemente da visão determinística de “impacto da tecnologia”, o sentido não é o de determinação de práticas sociais, já que as pessoas têm a condição de não usá-las ou de usá-las de formas não previstas. Ou seja, pode condicionar, mas não determinar práticas (ORLIKOWSKI; ROBEY, 1991; ORLIKOWSKI, 1992; FETZNER, 2008);
(c) condições institucionais da interação com a tecnologia: as pessoas sofrem influencia das propriedades institucionais (valores, interesses, normas profissionais, poder, cultura, etc) quando estão interagindo com a tecnologia. Ao realizar o seu trabalho, as pessoas baseiam-se, mesmo que de forma implícita ou inconsciente, em conhecimentos, recursos e valores existentes, bem como naqueles que constituem as estruturas de significação, dominação e legitimação de uma organização (ORLIKOWSKI; ROBEY, 1991; ORLIKOWSKI, 1992; FETZNER, 2008); (d) conseqüências institucionais da interação com a tecnologia: a forma
de utilização da tecnologia pelos indivíduos, pode tanto reforçar (mais provável) como transformar estruturas institucionais (menos provável) da organização, ou seja, em conformidade com regras e pressupostos estabelecidos ou ao fazer usos diferentes dos sancionados. O desenvolvimento e uso da tecnologia são condicionados pelas estruturas
de significação, dominação e legitimação (ORLIKOWSKI; ROBEY, 1991; ORLIKOWSKI, 1992; FETZNER, 2008).
No modelo de Orlikowski (1992), a estruturação é entendida como um processo dinâmico incorporado histórica e contextualmente, ou seja, embora os componentes e a natureza dos relacionamentos que compõe o modelo sejam relativamente estáveis, a amplitude, o conteúdo e poder irão variar ao longo do tempo. Segundo a autora, ao contrário de modelos que relacionam os elementos de forma linear, o Modelo de Estruturação da Tecnologia proposto considera que os elementos interagem de forma recursiva, podendo estar em oposição e amenizar os efeitos de uns para com os outros.
Seta
(Caminho) Tipo de Influência Natureza da Influência
a produto da ação humana a tecnologia como um A tecnologia é um produto da ação humana, com desenho, desenvolvimento, apropriação e modificação.
b a tecnologia como um meio da ação humana
A tecnologia facilita e limita a ação humana por meio do provimento de esquemas interpretativos, facilidades e normas.
c condições institucionais da interação com a tecnologia
As propriedades institucionais influenciam os indivíduos na sua interação com a tecnologia (ex. intenções, normas profissionais, estado do conhecimento, padrões de desenvolvimento e recursos disponíveis, como tempo, dinheiro, habilidades). d conseqüências institucionais da interação com a tecnologia.
A interação com a tecnologia influencia as propriedades institucionais de uma organização por meio do reforço ou transformação das estruturas de significação, dominação e legitimação.
Quadro 12 – Quadro resumo do Modelo de Estruturação da Tecnologia Fonte: Orlikowski (1992, p. 410)
Esta perspectiva proposta por Orlikowski (1992) constitui um olhar mais amplo frente à dominância de estudos dentro do paradigma dominante racional/técnico. A “dualidade da tecnologia” representa um olhar mais profundo, capaz de evidenciar aspectos negligenciados e, muitas vezes, tratados como uma “caixa-preta”. A inclusão do entendimento de que a organização, por meio de seus elementos constituintes, também é capaz de trazer modificações para a tecnologia, possibilita a emergência de outros fenômenos que podem ainda não ter sido explorados ou mesmo evidenciados.