De acordo com Jones e Karsten (2008), ao longo dos anos, existe uma ampla variedade de teorias sociais sendo utilizadas para estudar os fenômenos da área de Sistemas de Informação. Todavia, os autores ressaltam que, em especial, a Teoria da Estruturação, proposta pelo sociólogo inglês Anthony Giddens, tem sido citada extensivamente, sendo, até mesmo, segundo Poole e DeSanctis (2004), a mais influente deste campo do conhecimento. Esta perspectiva teórica “oferece uma solução para o dilema de escolher entre concepções subjetivas e objetivas das organizações, permitindo os pesquisadores contemplarem ambas” (ORLIKOWSKI, 1992, p. 403), pois foi desenvolvida como um meio para superar as deficiências das duas principais abordagens sociológicas, o positivismo e o interpretativismo (JONES; KARSTEN, 2008).
Giddens (2009, p. 1) inclui dentro do positivismo as abordagens sociológicas do funcionalismo e do estruturalismo, sendo que estas duas perspectivas expressam “um ponto de vista naturalístico e se inclinam para o objetivismo”, enfatizando “fortemente a proeminência do todo social sobre suas partes individuais (isto é, seus atores constituintes, sujeitos humanos)”. Ou seja, “a estrutura (nos sentidos divergentes atribuídos ao conceito) tem primazia sobre a ação e suas qualidades restritivas são fortemente acentuadas” (GIDDENS, 2009, p. 2). Já dentro do interpretativismo, Giddens (2009, p. 2) inclui várias das correntes hermenêuticas, como a fenomenologia, etnometodologia, dentre outras, sendo que nestas abordagens “é concedida a primazia à ação e ao significado na explicação da conduta humana; os conceitos estruturais não são notavelmente conspícuos e não
se fala muito de coerção”. Assim, de acordo com Giddens (2009, p. 2), as sociologias interpretativas se “assentam, por assim dizer, num imperialismo do sujeito”, enquanto que o funcionalismo e o estruturalismo, “por seu lado, propõem um imperialismo do objeto social.
Neste sentido, Giddens (2009, p. 2) propôs a Teoria da Estruturação buscando “pôr um fim a cada um desses esforços de estabelecimento de impérios. Esta corrente teórica entende que a vida social está em constante desenvolvimento e mudança por meio das ações humanas (agência) ao longo do tempo e do espaço (ROSE; SCHEEPERS, 2001; GIDDENS, 2009). Logo, esta teoria se ocupa do relacionamento entre os indivíduos e a sociedade, rejeitando a visão dualista tradicional que entende os fenômenos sociais como sendo determinados ou pelas estruturas sociais – regras, normas, estruturas de poder e comunicação – ou de forma autônoma pelos agentes humanos (JONES; KARSTEN, 2008; HUSSAIN; CORNELIUS, 2009). A ênfase ocorre no relacionamento entre os indivíduos e a sociedade e não em um ou em outro, bem como no processo e não em propriedades e padrões (JONES; KARSTEN, 2008).
Este foco combinado entre estrutura e ação representa um elemento chave da Teoria da Estruturação, pois não isola o comportamento individual das interações sociais ou suposições mentais, sendo o termo “dualidade da estrutura” o componente central desta perspectiva teórica (HUSSAIN; CORNELIUS, 2009). Para Giddens (2009), a estruturação constitui-se da estrutura e da agência, compondo uma dualidade mútua, sendo os fenômenos sociais formados tanto por um quanto pelo outro, presumindo uma interdependência entre ambos. Ou seja, os indivíduos se baseiam nas estruturas sociais vigentes na realização de suas ações ao mesmo tempo em que esses comportamentos servem para produzir e reproduzir as estruturas sociais (ORLIKOWSKI, 1992; JONES, 1999; STILLMAN, STOECKER, 2005; JONES; KARSTEN, 2008; HUSSAIN; CORNELIUS, 2009).
Neste entendimento, segundo Orlikowski (1992), por meio das ações cotidianas conhecidas e reflexivas das pessoas, padrões de interação são estabelecidos como modelos de prática nas organizações - como, por exemplo, formas de produção de mercadorias, coordenação de reuniões, avaliação de um funcionário. Ao longo do tempo, o uso habitual destas práticas, eventualmente, as
torna institucionalizadas, formando as propriedades estruturais da organização. Estas propriedades institucionalizadas (estruturas) surgem a partir das interações humanas (agência), mesmo que a utilização delas seja capaz de reforçar as propriedades institucionais. A estrutura na Teoria da Estruturação, portanto, consiste de traços de memória pelos os quais os indivíduos produzem e reproduzem continuamente suas ações (HUSSAIN; CORNELIUS, 2009).
Giddens (2009) considera a existência de três tipos de estruturas (significação, dominação e legitimação) que são interligadas a dimensões de interação (comunicação, poder e sanção) por meio de modalidades de interação (esquemas interpretativos, facilidades e normas), respectivamente (Figura 1). Segundo Jones (1999), a separação destas dimensões é mais para fins analíticos, pois, na prática, elas estão intimamente interligadas. Logo, de acordo com o autor, o funcionamento de normas, por exemplo, depende dos relacionamentos de poder para sua efetividade, sendo legitimada por meio de dispositivos simbólicos ou lingüísticos.
Por meio Por meio Por meio
de Modela de Modela de Modela
/ / /
Modelada Modelada Modelada
Esquemas
Interpretativos Facilidades Normas
Por meio Por meio Por meio
Limita de Limita de Limita de
e/ou e/ou e/ou
Habilita Habilita Habilita
Estrutura Interação Domínio da Instituição Domínio da Ação Poder Sanção Legitimação Dominação Significação Comunicação
Figura 1 – Adaptação do modelo de estruturação de Giddens
Fonte: Elaborado a partir de Giddens (2009, p. 34), Rodrigues Filho e Da Silva (2001, p. 14) A estrutura de legitimação compõe-se de “normas de regulação” – como leis, estratégias, metodologias e objetivos. Ao buscar legitimação, os indivíduos se voltam constantemente a referências (frameworks) organizacionais, como um código de conduta, uma estratégia de Tecnologia da Informação (TI), de forma a não obter sanções (ORLIKOWSKI, 1992; HUSSAIN; CORNELIUS, 2009).
A estrutura de dominação pode ser alcançada por meio do uso de facilidades e recursos de poder, como a hierarquia organizacional, de forma que alguns atores são capazes de controlar recursos, como os financeiros, equipamentos, conhecimento, em uma dada situação, contrastando com códigos de conduta aceitos para obter reconhecimento dos demais atores (HUSSAIN; CORNELIUS, 2009).
A estrutura de significação cria entendimentos e códigos de comunicação, envolvendo regras semânticas, como códigos operacionais para o andamento e coordenação de um departamento organizacional, por exemplo. Assim, ao se comunicarem, os agentes humanos baseiam-se em esquemas interpretativos de forma a entenderem as ações de si mesmo e dos outros, produzindo e reproduzindo estruturas de significação (ORLIKOWSKI, 1992; HUSSAIN; CORNELIUS, 2009). Esta compreensão implica em um processo cognitivo, entendido por Giddens (2009) como um esquema interpretativo, ou seja, um aspecto importante e integral de como os atores organizacionais se comprometem com a estruturação (HUSSAIN; CORNELIUS, 2009).
Todavia, de acordo com Jones e Karsten (2008), embora as estruturas sejam mantidas pelas ações humanas cotidianas, não são imutáveis, ou seja, podem ser alteradas pelos indivíduos. Além disso, os autores ressaltam que a produção e reprodução das estruturas pelas ações humanas nem sempre ocorrem conforme previsto, já que podem existir tanto condições desconhecidas como conseqüências não intencionais resultantes de ações intencionais, de forma que a reprodução de ações e práticas aceitas pode gerar outros comportamentos que não seriam desejáveis. Ou seja, trata-se da estrutura e da agência se (re)modelando reciprocamente ao longo do tempo.