Outro tipo de estudo quantitativo sobre transbordamentos de conhecimento envolve a análise da mobilidade de trabalhadores qualificados, ou seja, a transferên- cia de trabalhadores entre empresas numa mesma localidade, particularmente aque- les que são especializados. Esse método parte do pressuposto teórico de que quan-
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Enquanto o USPTO diferencia as citações que foram feitas pelo examinador da patente daquelas feitas pelo inventor, o EPO não faz a mesma distinção. Como dito anteriormente, apenas as citações feitas pelo inventor podem ser consideradas representativas de um transbordamento de conhecimen- to.
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Para aprofundar nas limitações envolvidas com a citação de patentes, sugere-se Breschi & Lissoni (2004). Os autores tratam de modo mais aprofundado do tema, inclusive distinguindo as regras de citações do USPTO e EPO e considerando sobre quais circunstâncias a citação de patentes pode ou não envolver um transbordamento de conhecimento.
do um funcionário deixa uma empresa e vai para um concorrente localizado na mesma cidade ou região, o conhecimento incorporado nele passa à esfera da outra empresa, sendo, portanto um meio pelo qual as firmas de uma determinada região obtém “transbordamentos de conhecimento”. Como o papel fundamental está no conhecimento incorporado por funcionários, Feldman (1999) chama essa corrente de “idéias em pessoas”. Antes de aprofundar nesse método, cabe a ressalva de que o uso da mobilidade de pessoal para medir transbordamentos de conhecimento é fonte de uma série de controvérsias teóricas que serão tratadas após a apresenta- ção do método e de alguns exemplos.
Nesse segmento de estudos sobre transbordamentos de conhecimento, um dos trabalhos mais relevantes é o de Zucker & Darby (1996) que se aplica ao setor de biotecnologia. Este método parte do princípio de que o conhecimento está incor- porado nas pessoas que o transformam em inovação. Pensando nisso, os autores (idem) analisam apenas os chamados “cientistas-estrela” (pesquisadores com alta produção acadêmica e que guiam a transformação do conhecimento da biotecnolo- gia em aplicações comerciais) e seu grupo de colaboradores, não abordando todos os trabalhadores ou pesquisadores desse setor. Dessa forma, os autores tratam a- penas do capital intelectual incorporado em alguns pesquisadores e sua localidade. Zucker e Darby (1996) afirmam que assim como em outras ciências, os “cien- tistas-estrela” da área de biotecnologia protegem suas técnicas, idéias e descober- tas tendendo comunicá-las mais com sua própria instituição e colaboradores. Boa parte dos pesquisadores ligados ao trabalho acadêmico publica seus achados em revistas acadêmicas e congressos, no entanto, grande parte do processo de pesqui- sa e as técnicas envolvidas não são publicadas nestes artigos. Este tipo de conhe- cimento costuma ficar restrito aos participantes dos grupos de pesquisa chefiados pelos “pesquisadores-estrela” responsáveis pela descoberta. Além disso, devido à dinâmica inovativa do setor, o tempo para adoção de uma inovação por parte das empresas de biotecnologia é bastante curto e para isto o tempo de aprendizado de uma nova descoberta tem de ser o mais reduzido possível. Uma maneira de reduzi- lo é através da proximidade dos pesquisadores principais. Este modo de trabalho desacelera a difusão do conhecimento para cientistas de outras instituições ou sem vínculos com os grupos de pesquisa. Dessa forma, a comercialização das inovações tecnológicas depende de vínculos com esses profissionais para obter o conhecimen- to para inovar.
Os estudos chegam a uma conclusão relevante: as inovações revolucionárias desenvolvidas pelos “cientistas-estrela” demandaram que as empresas tivessem um vínculo direto – contratual - com esses pesquisadores ou que os seus cientistas tra- balhassem diretamente nos laboratórios com esses pesquisadores renomados.
Zucker & Darby (1996) selecionaram 337 pesquisadores-estrela dos Estados Unidos que escreveram 4315 artigos relacionados à biotecnologia e levantam a rede de seus co-autores. Como apontado, esse grupo possui o conhecimento necessário para transformar suas descobertas em produtos comercializáveis no campo de bio- tecnologia. Quanto ao vínculo profissional, esses cientistas estão concentrados em 141 universidades, 74 institutos de pesquisa e 48 empresas significativamente con- centrados num pequeno grupo de localidades dos Estados Unidos (FELDMAN, 1999).
Assim, os autores analisaram o padrão de localização desses pesquisadores, dos seus co-autores de suas pesquisas e do instituto de pesquisa ou universidade ao qual pertencem. Esses dados ainda são relacionados com a ocorrência de alguns indicadores do desempenho inovativo das firmas (novos produtos, produtos em de- senvolvimento, produtividade, etc.) ou da região (surgimento de novas firmas, paten- tes da universidade, etc.). Chegam com isso a um resultado interessante: a maioria da empresas, especialmente as start-ups, estão localizadas nessas regiões onde reside o capital intelectual do campo da biotecnologia. Nos dizeres de Feldman (1999): “Esses cientistas – os estrelas – incorporam o conhecimento de tecnologias de vanguarda que inicialmente só está disponível nas bancadas de laboratórios des- ses cientistas, tornando custoso outras pessoas obterem ou usar esse conhecimen- to” (FELDMAN, 1999, p. 11-12, tradução nossa)
Esses estudos chegam a conclusões que o capital intelectual de uma dada localidade é fundamental para o crescimento e desenvolvimento das indústrias cor- relatas nessa mesma região. Outro estudo que segue a mesma linha é Zucker et al (1997).
Porém, afirmar que esse conhecimento gera transbordamentos de conheci- mento geograficamente limitados depende de uma questão teórica sobre a validade desse mecanismo como caminho para transbordamentos de conhecimento.
Primeiramente, é importante verificar que o estudo de Zucker & Darby (1996) não está buscando evidenciar os transbordamentos de conhecimento, mas apenas determinar padrões de inovação e de formação de empresas no campo da biotecno-
logia através do papel dos cientistas estrela. Portanto, seu arcabouço teórico- metodológico não incorpora os transbordamentos de conhecimento, e apenas poste- riormente os seus resultados foram tomados pelos estudiosos dos transbordamentos de conhecimento como um instrumento para medi-los.
Um segundo ponto, mais importante, é de natureza conceitual. Breschi & Lis- soni (2001a e 2001b) dizem que ao tratar da mobilidade de pessoal como um indi- cador de transbordamento de conhecimento, diversos estudos cometem um equívo- co, pois assumem dados relacionados à mobilidade de trabalhadores para inferir considerações sobre os transbordamentos de conhecimento. Como a mobilidade de pessoal está relacionada com o mercado de trabalho (uma externalidade pecuniária) ela não pode ser utilizada como indicador de transbordamentos de conhecimento já que eles são, pela sua natureza, externalidades não pecuniárias. Dessa forma, o que estaria sendo medido por esse tipo de indicador seria uma externalidade do próprio mercado de trabalho do SLP.
Segundo esses autores, a mobilidade de trabalhadores só representaria uma externalidade tecnológica pura se e somente se as mudanças de empresa ajudas- sem a criar uma base de conhecimento comum, e que todas as empresas fossem capazes de extrair conhecimento. No entanto, Breschi & Lissoni (2001a) afirmam que essa suposição não é inteiramente compatível com a suposição de que o co- nhecimento é tácito e está incorporado nos funcionários. Porque sendo isso verda- de, o conhecimento é levado pelos funcionários quando deixam a empresas, a não ser que eles tenham transmitido seu conhecimento por meios codificados, algo im- possível ao se tratar de conhecimento de forte conteúdo tácito.
Por tanto, Breschi & Lissoni (2001a), também criticam os transbordamentos de conhecimento como um dos mecanismos de obtenção de conhecimento mais relevantes. Para os autores, seriam mais naturais caminhos que passassem pelo mercado de trabalho (contratação) ou pelo mercado de serviços (acordos de coope- ração). Por exemplo, uma vez que um pesquisador e sua equipe desenvolvem co- nhecimento que pode se tornar comercial, tendem a fechar um contrato com uma firma ou abrir a sua própria, de preferência mantendo o vínculo com a universidade atual por “propósitos de reputação e como uma fonte de jovens assistentes” (BRES- CHI & LISSONI, 2001a , p.15, tradução nossa).
Como explicar então a mobilidade geográfica relativamente restrita dos fun- cionários qualificados? Novamente, Breschi & Lissoni (2001a) sugerem alguns moti-
vos. Por uma série de motivos pessoais como aversão a riscos e os custo irreversí- veis (sunk cost) relacionados com a localização, pode-se acrescentar também o a- pego pessoal e os vínculos familiares. Por outro lado, os autores não tiram impor- tância do contexto institucional e social, mas dizem que a importância dessa locali- dade está associada com a redução de custos envolvidos nos processos de procura e seleção, o que é portanto uma externalidade marshalliana relacionada ao mercado de trabalho e não aos transbordamentos de conhecimento (BRESCHI & LISSONI, 2001a).
Ou, como explicam os próprios autores:
“Em outras palavras, os tão citados contatos face a face servem somente para facilitar o acesso à informação sobre quem conhece o que e onde
está empregado, o que é o único bem público local. Os conhecimentos ci-
entíficos e tecnológicos incorporados permanecem um bem privado, a não ser que haja acordos (...) que o transformem numa propriedade comum ou um club good (bem de um grupo)” (BRESCHI & LISSONI, 2001a, p. 16, tra-
dução nossa, grifo do autor)
Portanto, apesar de serem relevantes os achados dos trabalhos sobre o fluxo de conhecimento e os vínculos de trabalhadores altamente qualificados com firmas, os estudos como o de Zucker & Darby (1996) ainda dizem pouco sobre os transbor- damentos de conhecimento. Para obter resultados no campo dos transbordamentos de conhecimento sem as controvérsias teóricas apontadas anteriormente, é neces- sário desenvolver meios que eliminem a confusão entre os tipos de externalidades (tecnológicas ou pecuniárias) dando maior peso para este método.