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1.LEGİS ACTIO’LAR USULÜ

2. FORMULA USULÜ

Com a revolução de 1930, tivemos um desmonte da máquina política da República Velha para a elaboração de uma nova forma de governar que incluía um melhor aparelhamento administrativo nos municípios, até então vistos como desorganizados, ineficientes e dispendiosos. Assim, desejava-se tutelar os municípios, criando o Departamento de Municipalidades.

Essa revolução, segundo Dantas (1987), afetou a relação de poder estabelecida na República Velha. A fração cafeeira perde a hegemonia política e novas forças surgem no cenário político: fração industrial e as massas urbanas. No plano político, temos a presença dos interventores nos estados, respaldados pelo Poder Central.

A revolução de 1930 procurou dar fim a essa descentralização, fortalecendo os sistemas administrativos e a burocracia federal. A modernização das instituições brasileiras no governo de Getúlio Vargas levou ao surgimento de um Estado autoritário que propunha ser hegemônico e integrado em detrimento do Estado dividido entre oligarquias durante a República Velha. Assim, para o Brasil chegar a um Estado moderno, como nos povos

23 Filho do tenente-coronel Lourenço Alves de Castro, nasceu em Cococi e foi Deputado Provincial de 1888 a 1889. Com o advento da República, foi eleito Deputado Republicano em sete legislaturas, de 1897 a 1920.

“civilizados”, teríamos, obrigatoriamente, que nos tornarmos autoritários (WAHRLICH,

1983).

Após essa revolução, os prefeitos passaram a ser nomeados pelo Interventor de cada estado, permitindo que alguns militares ocupassem a posição de líder político ao lado de civis sem tradição política ou familiar. Em Tauá, no período de quatro anos (1930-1935), foram indicados seis interventores24.

Na constituição outorgada em 1937, percebemos uma posição totalmente antimunicipalista, pois, além de conservar os departamentos de municipalidades, reduziu-se a receita municipal e suprimiu-se a eletividade dos prefeitos. O município ficou completamente tutelado, pois além de não ter um órgão local representativo ou pseudo-representativo, ficava sujeito a um severo controle do poder central.

Com o golpe em 1937, Getúlio Vargas manteve o então governador do Ceará eleito em 1935, Francisco Menezes Pimentel, na interventoria do estado. Joel Marques, que havia sido eleito prefeito pelo Partido Republicano Progressista (PRP) em 193625, também permaneceu no poder.

Joel Marques tinha pouca formação escolar, era comerciante e sócio da primeira fábrica de beneficiamento de algodão dos Inhamuns. Foi casado por duas vezes com integrantes da família Alexandrino, mantendo com estes fortes laços políticos. Por conta de sua ligação política com o interventor do estado, Menezes Pimentel, exerceu o cargo de interventor em Tauá no período em que aquele foi interventor do Ceará (1937-1945).

Foi interventor de Tauá de 1935 a 1943, mas em 1942 passou a residir em Fortaleza, onde estabeleceu uma firma de venda em varejo com seu irmão, Sebastião Marques. Joel Marques exerceu cargos nas associações classistas, pertencendo ao quadro dirigente da Associação dos Merceeiros e da Federação das Associações do Comércio, Indústria e Agropecuária do Ceará (FACIC), demonstrando, assim, sua capacidade de liderança (MOTA, 2002).

Mesmo dedicando-se à atividade comercial, ainda exerceu o domínio político em Tauá. Em 1943, passou a ocorrer uma divisão do trabalho político na família Marques. Joel Marques dedicou-se ao comércio e seu irmão, Sebastião Marques, exerceu o cargo político de interventor em Tauá, permanecendo nessa tarefa até 1945.

24 Esses interventores foram: Aristides Cavalcante Freitas (1930), Francisco das Chagas Nogueira Caminha (1930-1931), Ózimo de Alencar Lima (1931-1933), José Jaime de Alencar (1933), Manoel Trajano Borges (1933-1935), Odilon Silveira Aguiar (1935-1936).

25 Nessa eleição estavam disputando o executivo de Tauá Joel Marques e Cândido Alexandrino de Oliveira (MOTA, 2002).

Em 1945, após Menezes Pimentel ser substituído por Benedito Augusto Carvalho dos Santos (Beni Veras) como interventor do estado, tivemos, em Tauá, uma onda de instabilidade política. Assim, no ano de 1945 três pessoas foram interventoras no município: Cristóvão Peixoto de Holanda, Joaquim de Castro Feitosa e Antônio Jataí Sobrinho. Cabe ressaltar que este último ocupou o cargo pela influência política do Senador Olavo Oliveira, do Partido Social Progressista (PSP), durante dois anos, de 1945 a 1947.

Joel Marques, em 1945, residindo em Fortaleza, passou a atuar politicamente em âmbito regional e não mais local. Assim, nesse ano, foi eleito deputado estadual constituinte, assegurando sua eleição na região dos Inhamuns, onde contava com uma rede de chefes políticos locais que o apoiava.

Com a restauração democrática de 1945, houve a busca por novas fontes de poder, sobretudo porque nesse período o contingente eleitoral passou a ter peso político maior, principalmente com a instauração do voto secreto e da justiça eleitoral. Além disso, as massas populares ampliaram sua participação política num período de intenso processo de urbanização nacional. Nesse aspecto, o voto assume a forma de mercadoria, passando os cabos eleitorais a mercantilizar os votos com vereadores, prefeitos e deputados. “A força dos chefes políticos passa a guardar proporção com a dimensão do seu colégio eleitoral, com o

número de votos cativos” (DANTAS, 1987, p. 32).

Em 1946, foi criada uma nova constituição de cunho liberal buscando recuperar o espírito federalista, assegurando a descentralização político-administrativa. Nesta constituição, a atividade partidária voltou a fazer parte da agenda política do País, com os partidos políticos se arregimentando para eleger diretamente o Presidente da República. Assim, tivemos: Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), fundado a partir dos sindicatos que Vargas controlava; Partido Social Democrático (PSD), composto pelos interventores nos estados; União Democrática Nacional (UDN), de cunho liberal e que representava a oposição a Vargas; Partido Comunista Brasileiro (PCB), ligado a Carlos Prestes.

No âmbito estadual, tivemos disputas políticas centradas em torno de dois grandes partidos: PSD, representado pelo ex-interventor Menezes Pimentel, e UDN, liderado por Fernandes Távora, José Sabóia e Paulo Sarasate.

Nesse período, o poder político da UDN e do PSD estava equilibrado, levando a uma constante alternância no poder. A vitória de um ou outro dependia da aliança com os partidos menores. Nessa disputa, existia um partido que era o fiel da balança, dando vitória à coligação a qual apoiava. Nas duas primeiras eleições, 1947 e 1950, quem representou o fiel da balança foi o PSP de Olavo Oliveira. Depois, o PTB, sob o comando de Carlos Jereissati,

passou a ter o poder de decisão, dando vitória às suas coligações nas eleições de 1954 e 1958. Dessa forma, em 1947, para governo do estado, ganha a coligação UDN/PSP, e em 1950 a coligação PSD/PSP. Já em 1954, é vitoriosa a coligação UDN, PTB e Partido Republicano (PR) e em 1958 PSD/PTB.

Como nesse período as disputas políticas estavam muito acirradas, o prefeito que

tivesse o apoio do governador teria um grande aliado nas concessões de “dádivas” aos seus

eleitores, aos seus clientes. Por conseguinte, o prefeito que fosse opositor ao governador não conseguiria facilmente as verbas para o município, gerando um desgaste de sua liderança, como na clássica frase de Faustino de Albuquerque, ex-governador do Ceará em 1947: “Aos

amigos „carinho‟ e aos adversários „justiça‟” (MOTA, 1985, p. 29).

A disputa no âmbito estadual reverberou na formação de grupos no nível municipal. Assim, em Tauá existiam três grupos políticos que se filiaram em partidos diferentes. Joel Marques e membros da família Alexandrino ingressaram no PSD. Os Gomes de Freitas e o Clã de Campo Preto se filiaram na UDN, e os integrantes da família Castelo aderiram ao PSP. A família Feitosa não estava mais unida e acabou se dispersando politicamente (MOTA, 2002).

Nas eleições de 1947, o grupo político aglutinado no PSD lançou a candidatura do fazendeiro Marçal Alexandrino de Oliveira ao posto de prefeito e de Joel Marques ao de deputado estadual. Os outros dos grupos estavam unidos e lançaram pela UDN o membro do Clã de Campo Preto, Adalberto Bastos Cavalcante, para concorrer ao executivo e pelo PSP o filho de Domingos Gomes de Freitas, Manuel Gomes de Freitas (Nelo Gomes), para o cargo de deputado estadual. O resultado eleitoral foi favorável ao candidato do PSD à prefeitura, Marçal Alexandrino, e os dois deputados estaduais foram eleitos, Joel Marques (PSD) conseguindo um total em todo o estado de 3.809 votos e Nelo Gomes (PSP) com 3.004 votos.

Além da eleição de 1947, as disputas políticas ocorridas em 1950, 1954, 1958 e 1962 foram favoráveis aos candidatos do PSD26, do grupo político de Joel Marques. Cabe ressaltar que em 1962 ocorreu uma coligação, liderada por Virgílio Távora, das principais forças políticas do PSD e da UDN. Esses partidos, até então adversários nas disputas

eleitorais, passaram a compor a chamada “União pelo Ceará”. Como reflexo dessa coligação,

em Tauá uma parte da UDN fez acordo com o PSD e apoiou como candidato a prefeito o médico Júlio Gonçalves Rêgo, do PSD, indicado por Joel Marques, e como vice o vereador

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Os prefeitos eleitos foram respectivamente: o fazendeiro Flávio Alexandrino Nogueira em 1950; O coronel da polícia Moacir Pereira Gondim em 1954; O coronel da polícia Geraldo Feitosa de Sousa; o médico Júlio Gonçalves Ledo em 1962.

Genésio Loiola, da UDN. Concorrendo com essa chapa estava o outro grupo da UDN, que tinha Alberto Feitosa Lima como prefeito e Júlio Gonçalves Sobrinho como vice.

Júlio Rêgo, natural de Tauá, formou-se em 1956 no curso de medicina em Recife. Em seguida, foi médico-chefe do posto de saúde de Tauá, onde atuou de 1958 a 1962. O

exercício da profissão de médico, sobretudo os constantes atendimentos de “graça”, fez com

que este acumulasse capital político suficiente para ganhar as eleições em 1962. Além do seu capital político, o candidato contava com o apoio de Joel Marques, chefe político da região. No entanto, apesar da união estadual entre PSD e UDN, essas eleições em Tauá foram competitivas. Júlio Rêgo foi eleito com um total de 3.549 votos contra 3.149 do seu adversário, Alberto Feitosa. O vice-prefeito eleito foi Genásio Rodrigues, da chapa de Júlio Rêgo, com 3.323 votos contra 3.198 de Júlio Gonçalves Sobrinho. Além disso, o PSD conseguiu eleger quatro vereadores, a UDN cinco e o PTB dois.

Posteriormente, ocorreu um rompimento do grupo de Joel Marques com o grupo do prefeito eleito Júlio Rêgo fazendo com que o PSD de Tauá se dividisse. Assim, em 1966, esse partido lançou dois candidatos a deputados estaduais: Júlio Rêgo (ARENA) e Joel Marques (ARENA), ambos eleitos. Cabe ressaltar que desde as eleições de 1947 até 1966, esse município conseguiu eleger dois candidatos ao Legislativo estadual27.

A eleição de 1966 foi a última em que Joel Marques disputou cargos eletivos. Este que desde o Estado Novo, por proximidade com o interventor Menezes Pimentel, indicava os interventores em Tauá, foi eleito por seis vezes consecutivas deputado estadual (1948-1970). O declínio da influência política de Joel Marques em Tauá teve início quando Julio Rêgo se candidatou em 1966 ao posto de deputando estadual, pois Joel Marques conseguiu apenas um total de 23,03% dos votos em Tauá (1.796 votos), enquanto Júlio Rêgo alcançou um total de 59,85% dos votos (4.667 votos).

Benzer Belgeler