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CHAPTER 2: LITERATURE REVIEW

2.3. Foreign Language Education and Culture …

A família é a fonte primeira de interação da criança com o mundo. Porém, é importante perceber que o entendimento de família não é o mesmo em todas as camadas sociais. Segundo Duarte (apud FONSECA, 2005):

o valor 'família' tem grande peso em todas as camadas da população brasileira. No entanto, significa coisas diferentes dependendo da categoria social. Enquanto, entre pessoas da elite, prevalece a família como linhagem (pessoas orgulhosas de seu patrimônio) que mantém entre elas um espírito corporativista, as camadas médias abraçam em espírito e em prática a família nuclear. Para os grupos populares o conceito de família está ancorado nas atividades domésticas do dia-a-dia e nas redes de ajuda mútua. (p. 52).

Pesquisas mostram que a família, para a população pobre, não é composta por pessoas de um mesmo grupo genealógico, mas sim por pessoas em quem se pode confiar. O uso do sobrenome, por exemplo, recurso utilizado pela classe média e alta para perpetuar status e poder conferido pelo nome de família, é pouco significativo para os pobres, já que não existe status para ser perpetuado. (SARTI, 2007). Fonseca (2005) também acredita que existe uma grande diferença no conceito de família nas diferentes classes sociais e afirma que não se

pode pensar em família como sendo da mesma maneira em todos os lugares, pois o significado de família pode variar muito conforme a categoria social com a qual estamos lidando.

Apesar do grande número de famílias que vivem em situação de pobreza, a maior parte das afirmações de senso comum sobre família se referem às características das famílias de classe média. (DUARTE, 1995). Estas afirmações se referem à família nuclear. Quando pensamos em família, o que está presente no nosso imaginário é uma família conjugal, da qual fazem parte um homem, uma mulher e os filhos, sendo que a casa é o lugar das mulheres e das crianças e a rua como o lugar dos homens. As pessoas imaginam que há algo natural nesse modelo. (FONSECA , 2006).

Szymanski e Martins (2004) constataram que este modelo de família está presente também no imaginário das crianças. As autoras, buscando compreender o significado de família para crianças institucionalizadas, utilizaram como método de investigação a observação de 10 crianças em brincadeiras de faz-de-conta. Elas perceberam que nas brincadeiras das crianças apareciam famílias no modelo nuclear, onde o pai trabalhava fora e sustentava a família e a mãe cuidava da casa e das crianças, diferente da realidade de família vivida pelas crianças que apresentavam uma configuração diversa. As autoras ressaltam o papel da mídia para a formação da visão de família nuclear como sendo a ideal: “a família brincada das crianças está na televisão, veiculada pelas novelas, desenhos animados (família Dinossauro, família Simpson, etc), propaganda (família 'margarina'), e encontra-se também estampada em revistas, jornais e outdoors com fotografias de belas mães sorridentes, maridos encantadores, como príncipes e filhos bem vestidos e bem tratados.” (SZYMANSKI, MARTINS, 2004, s.p.). Além disso, a família no modelo nuclear está presente nos livros didáticos e alguns textos religiosos.

Pode-se ver também este modelo de família em publicações do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), como por exemplo na publicação “Kit Família Brasileira Fortalecida” (UNICEF, 2010), que contém cinco álbuns que explicam os cuidados necessários para a criação adequada das crianças, do nascimento aos 5 anos de idade. Este Kit é destinado à agentes comunitários de saúde e educadores, especialmente para o trabalho com famílias de classes populares. Nele são descritos os cuidados com as crianças no ambiente familiar, sendo que este ambiente é mostrado através de fotografias, que envolvem sempre a participação de

um pai e de uma mãe.

Fonseca (2004), em extensa pesquisa com famílias de classes populares na Vila do Cachorro Sentado, em Porto Alegre, percebeu que o modelo de família não se parecia com esse modelo de família conjugal presente no imaginário das pessoas. A autora em questão constatou:

prevalência de uniões consensuais (90% dos casais), freqüência de famílias compostas de mãe sozinha e filhos (mais ou menos 25% do total), alta taxa de instabilidade conjugal e recasamento (afora as unidades mãe-filhos, 20% das mulheres separaram-se de seus maridos durante os dois anos de pesquisa), e alta taxa de circulação de crianças (50% das mulheres com mais de 20 anos tinham colocado pelo menos um filho num lar substituto). (p. 53).

Além disso, a autora constatou que menos de um terço das mulheres com idades entre 35 e 55 anos vive com o pai do primeiro filho. (FONSECA, 2004).

É importante perceber que muitos estudos sobre a pobreza falam apenas sobre dificuldades enfrentadas por essa população. Fonseca (2005) afirma que grande parte dos estudos feitos sobre grupos populares enfatizam as faltas, carências e aspectos negativos. Considerando que existem inúmeras formas de organização familiar, tomar apenas uma (o modelo de família nuclear) como certa ou ideal faz com que os outros modelos pareçam errados ou mesmo prejudiciais para as crianças, “quando se aceita o modelo de família burguesa [nuclear] como sendo uma norma e não como um modelo construído historicamente, aceita-se implicitamente seus valores, regras, crenças e padrões emocionais.” (SZYMANSKI, 2002, p. 24). Além disso, qualquer desvio do padrão de família nuclear faz com que a família seja vista como incompleta e desestruturada. As famílias que fogem a “normalidade” das famílias nucleares são as mais responsabilizadas por problemas emocionais, desvio de comportamento e fracasso escolar. (SZYMANSKI, 2002).

Para Walsh (2005), as visões de normalidade e de saúde são socialmente construídas e afirma que “a visão de uma chamada família ‘normal’ está no olhar do observador, sendo filtrada por valores profissionais, experiência familiar pessoal e padrões culturais.” (p. 15). Para Walsh (2005), as famílias que saem do padrão estabelecido ainda são estigmatizadas e julgadas patológicas e ainda são vítimas de crenças de que outras formas de organização familiar prejudicam as crianças.

Para Szymanski (2006), a família ocupa um lugar fundamental, porém a família não se refere necessariamente aos pais: “A família é o primeiro meio de socialização da criança, em que ela receberá a base inicial do que consiste a vida em sociedade, quer seja um grupo constituído segundo a estrutura nuclear moderna que a sociedade como um todo tem como modelo, ou organizada de acordo com outras possibilidades.” (s.p.). O que parece fazer diferença para o desenvolvimento das crianças e adolescentes é a natureza do relacionamento, não importando se os cuidadores são parentes consanguíneos. Para Walsh (2005), o que as crianças realmente necessitam é a presença de pelo menos um adulto que realmente as ame incondicionalmente.

Benzer Belgeler