Nesta data, o Instituto Raul Soares estava completando três anos de funcionamento. No entanto, as excelentes condições estruturais de seu edifício não tinham se acompanhado das mudanças sonhadas. Dois anos depois de sua pomposa inauguração, o Instituto já mostrava sinais de fracasso no seu projeto, segundo Santos (1997). Em 1927, o Presidente Antônio Carlos sanciona lei criando a “Diretoria de Saúde Pública”, subordinada à Secretaria de Segurança. O Instituto estava parecido com Barbacena:
O Instituto Raul Soares, sob a direção de Alexandre Drummond e já subordinado à Secretaria de Segurança, apesar de muito bem aparelhado, foi se tornando um depósito de pacientes, que ali eram despejados pelo carro-forte da polícia. A loucura é tratada com uma questão de segurança, de ordem pública. Porém, as grades também são utilizadas para leprosos, tuberculosos, marginais, crianças desamparadas, trabalhadores imigrantes, desempregados após a efervescência de obras na construção da nova capital do Estado. (SANTOS, 1997, p. 18).
A situação do Instituto Raul Soares estava caótica. Francisco de Sá Pires era médico do Instituto naquele tempo, e relatou suas impressões:
Cordas, correias, tiras, manchões, argolas, lonas e coleiras formavam o arsenal patético. O Instituto tomara o aspecto de um depósito de feras enjauladas. O mau cheiro e os gritos completavam o cenário da escuridão dos cubículos e corredores, onde as lâmpadas inutilizadas agravavam o aspecto das noites intransitáveis ali dentro. Os braços livres que restavam, fora dos manquitos célebres, eram para atirar montões de fezes pelas paredes, que iam até os tetos. Diariamente, o chamado carro-forte da polícia despejava à porta do Instituto, com guias dos Delegados, magotes de loucos de todo o gênero. E toda aquela massa indiscriminada de infelizes abarrotava os quartos que se haviam transformado em cubículos hermeticamente fechados a tranca de ferro. As relações mentais dos pacientes eram obstadas por meios mecânicos de contenção, inclusive por castigos corporais. Os loucos, com os pés e as mãos atadas, quando não envolvidos em aparelhos de força, eram castigados por um calabrote de couro, com uma argola de ferro na ponta, denominado o “relho-mestre”, vibrado por braços de guardas habituados a tratá-los por meio de todo aquele instrumental mecânico de repressões e sevícias. (PIRES, 1959,
p.39).
Os pacientes eram tratados com violência. Era comum a presença de funcionários como o “[...] atleta e lutador de Box José Batista, que gostava de exibir seus músculos de enfermeiro-chefe do Instituto Raul Soares, consagrado pela fama de derrubar qualquer doido com um murro.” (PIRES, 1959, p.14).
Os pacientes viviam amarrados. A superlotação do estabelecimento e a falta de distinção entre doentes mentais e outros grupos recolhidos pelo Instituto a partir
das demandas da Polícia, fazia com que a alternativa principal fosse a contenção mecânica. O Instituto, originalmente constituído para ser um local de formação de alienistas, afastava os estudantes. Lopes Rodrigues dava poucas aulas na Universidade, e criticava duramente a situação do Instituto:
Transformado num entreposto dos estabelecimentos do Estado, com a fallencia de todos os recursos capazes de reintegra-lo na finalidade do ensino da clinica psychiatrica, o Instituto Raul Soares está transformado em um depósito de insanos mentaes, sob o jugo das internações com que o abarrotam as delegacias de policia. (...) A autonomia scientifica com que presidira a selecção clinica das internações, das transferencias e dos estagios, resvalou das mãos de uma directoria technica e especializada, para o arbitrio das delegacias de polícia. (RODRIGUES, 1930a, p.13).
Figura 23: José Batista, o Enfermeiro-chefe do Instituto Raul Soares, em 1928.77
Até Lopes Rodrigues ser nomeado diretor, em 1929, o Instituto estava sob os cuidados de Alexandre Drummond, e também de outros médicos, conforme matéria do Jornal Estado de Minas:
Desde sua fundação, o Instituto Raul Soares vem sendo intelligentemente administrado pelo Dr. Alexandre Drummond, a cuja dedicação se deve o exito desse modelar estabelecimento hospitalar. São médicos do Instituto os doutores Galba Moss Velloso, Francisco de Sá Pires e Sylvio Cunha, tendo como seus auxiliares os doutorandos Augusto Pinheiro Guimarães e Waldemar Versiane dos Anjos (INSTITUTO..., 1928a, p.8)
Essa matéria de 1928 era fruto de uma série de reportagens que o Jornal
Estado de Minas vinha fazendo dos estabelecimentos de saúde de Belo Horizonte. A
matéria traz muitos elogios ao Instituto, mas não era essa a impressão de Lopes Rodrigues, que afirmava que os médicos do Instituto não mostravam realmente as péssimas condições em que se encontrava. Mais tarde, em 1929, ele iria declarar que “[...] antigamente só se mostravam, daquelle hospital, as salas de visitas, occultando-se cuidadosamente o que não era conveniente que fosse visto;” (VELLOSO, 1929, p.2). O guia da reportagem era principalmente o médico mineiro da cidade de Cataguases, Galba Moss Velloso (1890–1952). Velloso formou-se no Rio de Janeiro, em 1915, tendo sido interno da Assistência Pública do Rio de Janeiro e da Clínica Neurológica. Logo depois de formado clinicou nas cidades mineiras de Itaguara, Cláudio e Pará de Minas, segundo Mendonça, Coelho e Gusmão, 2000.
Em 1927, Galba Velloso tinha sido convidado pela Faculdade de Medicina para ser professor no Instituto, mas só se tornaria Professor Livre-docente78 em
77 Fonte: Fonte: Acervo do Centro de Memória do Instituto Raul Soares/FHEMIG
78No período estudado, o professor catedrático era o responsável pela “cátedra” ou disciplina. Todas
as decisões em relação àquela disciplina eram exclusivas do Catedrático. Já professor “livre- docente” era um título concedido por uma instituição de ensino superior, mediante concurso, onde assim como o catedrático, o candidato deveria, além de submeter-se a uma prova escrita e a uma prova didática, desenvolver também uma tese monográfica ou cumulativa sobre um tema acadêmico e defendê-la perante uma banca examinadora. Dependendo da área, uma prova prática poderia também ser exigida no concurso de catedrático ou de livre-docência. Atualmente, a Livre-Docência é regulada pelas Lei nº. 5.802/72 e nº. 6.096/74, pelo Decreto 76.119/75 e pelo Parecer 826/98 do extinto Conselho Federal de Educação. Anteriormente, a livre-docência era aberta a qualquer professor da instituição, mas desde 11 de setembro de 1976 só podem candidatar-se professores já portadores do título de doutor. Nas Universidades Federais, a livre-docência praticamente desapareceu e perdeu seu sentido, dado que o doutor já é professor-adjunto e pode, havendo vaga, prestar concurso para professor titular.
Clinica Psiquiátrica em 1928, em um concurso presidido pelo Professor Catedrático Hermelino Lopes Rodrigues. Houve muita tensão no Concurso de Velloso. Sua relação com o Professor Catedrático Lopes Rodrigues não era boa. Na página quatorze da ata de concurso da vigésima quinta Sessão Especial da Congregação da Faculdade de Medicina, no dia 26/10/1928, encontramos a argüição a que foi submetido o candidato sobre sua tese “A Malariotherapia na Moléstia de Bayle”. A banca principal e suas notas na primeira etapa estão na tabela abaixo: