• Sonuç bulunamadı

2.2. Örneklerin Alınması ve Hazırlanması

2.3.1. Fiziksel ve Kimyasal Değişkenler

O envolvimento da arqueologia com as comunidades locais pode ser situado no entendimento, em um número crescente de profissionais, de que a arqueologia é mais do que uma disciplina restrita a métodos de instrumentalização científica para coletar e interpretar dados, conforme destaca Shackel. Desde o início da década de 1990, alguns arqueólogos têm dado grandes passos no sentido de tomar parte dos processos de decisões locais, trabalhando com comunidades e demais envolvidos nas discussões sobre gerenciamento patrimonial. Ainda assim, para Shackel, estamos longe de uma arqueologia completamente integrada no gerenciamento patrimonial de lugares e comunidades (Shackel, 2004).

Em geral, os estudos em arqueologia pública partem da premissa de que os conhecimentos arqueológicos e históricos são produzidos e não descobertos – ideia esta que também compartilho e que já fora previamente discutida nesse capítulo. Tal construção, que é sempre limitada pela materialidade dos restos do passado, os quais restringem o que se pode dizer nestas histórias, reside sempre em um presente político e um contexto social atual que precisa ser reconhecido e explicitado pelo pesquisador. Autores como Dring e Silliman deixam claro que o ofício dos arqueólogos e historiadores envolve mais do que produzir histórias, pois acaba por produzir relações sociais, principalmente com as comunidades locais. Para eles é necessário perceber que relações como essas permitem a criação destas histórias, reconhecendo o papel destes contextos sociais e culturais no presente tanto quanto tentamos estudar no passado (Dring & Silliman, 2008).

Um bom exemplo de desenvolvimento de uma arqueologia pública aplicada pode ser encontrado no trabalho de Carol McDavid no sítio Levi-Jordan, no Texas. Tal pesquisadora desenvolveu um projeto controlado pelos membros de comunidades de descendentes etnicamente diversos, estando os arqueólogos participando como consultores e colaboradores. Durante a realização do projeto, McDavid procurou incorporar alguns temas pós-processuais em suas ações, como a reflexibilidade, a multivocalidade, a interatividade e a contextualidade (McDavid, 2004).

Por multivocalidade, McDavid quer simplesmente dizer que é preciso assegurar que uma diversidade de pessoas tenha a oportunidade de participar na conversação dos projetos de pesquisa arqueológicos (McDavid, 2004). Em outras palavras, adotar uma perspectiva

multivocal significa dar voz, literalmente falando ou não, a todos aqueles que têm algum tipo de envolvimento com o sítio arqueológico que está sendo estudado. Significa, visto de outra forma, acreditar que o arqueólogo não é o único a ter autoridade sobre o conhecimento do passado, levando a visão das comunidades a sério.

No caso do lugar Ari Duarte I, o envolvimento da comunidade local não ocorre por esta ser ou se apresentar como descendente das populações antigas da região, mas por ter um contato direto com os sítios arqueológicos, que estão em suas propriedades hoje. Conforme pode ser lido nos trechos do diário de campo escrito pelo pesquisador João Saldanha e colocados abaixo, foram membros da própria comunidade de Pinhal da Serra que conduziram os arqueólogos à descoberta do lugar referido.

Segunda, 29/10/2001

[...] “Invasão da área da barragem pelo Movimento dos Atingidos pelas barragens. “Ninguém entra, só sai”.

Terça, 30/10/2001

“Fomos verificar a situação na estrada da UHE. Nada de novo. Estão esperando a reintegração da área pela justiça para acabar com o protesto. Voltamos para Pinhal da Serra, a fim de procurar o telefone do Zezinho, proprietário de terras com cerca de 16 estruturas subterrâneas, segundo informação do Sr. Odilon, morador local. Fomos recebidos pelo Prefeito de Pinhal da Serra, que procurou contatar Zezinho por telefone, pois o mesmo mora em Porto Alegre. Durante as tentativas (esperamos mais de uma hora) conversamos com o prefeito da possibilidade de um convênio com a prefeitura para a divulgação do patrimônio arqueológico do município. Como era quase hora do almoço e o contato com o Zezinho não tinha sido realizado, deixamos a prefeitura para irmos para Esmeralda, comprar itens não obtidos em Pinhal da Serra, como vassouras. Ao voltarmos de Esmeralda às 14 horas voltamos a entrar em contato com o prefeito. Ele nos disse que Zezinho permitia que visitássemos sua propriedade, que o sítio se encontrava próximo a um açude e que falássemos com seu zelados, o Sr. Salustiano ou a Dona Marli, sua esposa para que nos acompanhassem. Pegamos a estrada para São Roque. Não encontramos ninguém em casa nas terras do Zezinho. Demos uma olhada rápida da área e nada encontramos. Resolvemos voltar para Pinhal, mas a cerca de 1 km, o cabo do acelerador da Kombi quebrou, o que nos obrigou a ir a pé até a cidade para buscar um mecânico. Durante o percorrimento da estrada, identificamos uma possível estrutura subterrânea, possivelmente cortada em um lado pela construção de um caminho e muito entulhada de pedras trazidas

para seu interior pela limpeza do terreno para cultivo. Contatamos o mecânico e Rodrigo foi com ele para consertar a Kombi. Ele informou Rodrigo que nas terras do seu Ari, sogro de Dorival, o mecânico, existiam cerca de quatro ou cinco

“panelas” no chão (estruturas subterrâneas) que seu avô dizia que era de índio. As terras do seu Ari estão bem próximas de

nossa casa, podendo serem vistas da estrada que passa em frente”.

Quarta, 31/10/2001

“Obra ainda interditada por atingidos por hidrelétricas. Aproveitamos para conversar com o seu Dorival, o mecânico, para descobrirmos como chegar nas terras do seu Ari Duarte: Pega-se a estrada para Barra Grande, a primeira casa antes de uma igreja à direita. Dorival também nos falou que nas terras de João Fidêncio existiam as “panelas no chão”. Após muita procura encontramos a casa de Ari Duarte. Fomos muito bem recebidos pelo proprietário, que nos levou a um capão de mato próximo à sua casa, onde existia um sítio fabuloso, com várias

estruturas subterrâneas, montículos e terraceamentos. (22J

0483597/6919862 Alt 948m). Este sítio arqueológico foi denominado Ari Duarte I. Quando conversamos com o proprietário sobre a possibilidade de pesquisa ele se mostrou bem favorável” Logo após ele nos levou a um outro conjunto de 3 estruturas ainda nas suas terras (22J 0483298/6920046 Alt 932m). Ele diz que eram bem mais fundas, mas como arava a terra no entorno, as enxurradas acabaram levando muito sedimento para o interior das estruturas. Este sítio arqueológico foi denominado Ari Duarte II (Foto 70). Seu Ari nos indicou um local próximo onde ele arava a terra e saia “pedras bem trabalhadas”, a cerca de 1 Km do conjunto menor de estruturas, em área agora coberta por gramíneas. Este sítio foi denominado Ari Duarte III. Posteriormente a área foi arada e foram identificadas inúmeras peças líticas e cerâmica da tradição Taquara (Foto 71).” (Diários de Campo de 29, 30 e 31.10.2001, grifos meus)

Moradores locais conduzindo pesquisadores a sítios arqueológicos. Esta é uma situação bastante comum na arqueologia, pois aqueles que lidam com a terra cotidianamente geralmente estão acostumados a identificar estruturas e objetos que não são formados pela natureza. Além disso, acontecem com frequência casos em que os habitantes conhecem as estruturas subterrâneas como sendo ―buracos de bugre‖ ou ―panelas no chão‖, fazendo referências a histórias que seus avós e bisavós contavam. Esta é a história do lugar Ari Duarte

I, que antes de ser denominado desta forma (e posteriormente por sítio RS-PE-41) pelos pesquisadores, era um local conhecido como de ―panelas no chão‖.

Quando moradores locais, como o seu Ari Duarte, levam os pesquisadores a locais com evidências não naturais, estes passam a ter uma história que será contada de outra forma, por indivíduos que estão acostumados a lidar com o passado – os arqueólogos.

1.2.2.2 Um sítio “fabuloso e magnífico”: o encontro pelos arqueólogos

A partir do momento em que o seu Ari Duarte levou os arqueólogos da equipe do NuPArq ao local com ―panelas no chão‖, este passou a fazer parte do seu mundo. Isto ocorreu quando estavam sendo realizados os trabalhos de salvamento arqueológico da área afetada pela construção da Usina Hidrelétrica de Barra Grande, entre os municípios de Pinhal da Serra, no Rio Grande do Sul, e Anita Garibaldi, em Santa Catarina, a partir de 2001, sendo que o planejamento da construção e as atividades iniciais de levantamento arqueológico foram realizados na década de 198013. A equipe do NuPArq foi contratada para realizar o resgate de 10 sítios líticos superficiais na área diretamente atingida pelo canteiro de obras, e foi exatamente durante a realização das atividades de salvamento desses sítios que outros foram descobertos, incluindo o Ari Duarte I. A equipe do NuPArq foi contratada para realizar o resgate de 10 sítios líticos superficiais na área diretamente atingida pelo canteiro de obras, e

13 O início dos trabalhos arqueológicos na área afetada pela construção da Usina Hidrelétrica de Barra Grande

remonta, entretanto, ao início da década de 1980 quando os arqueólogos Pedro Augusto Mentz Ribeiro e sua equipe e os pesquisadores Arno Alvarez Kern, José Otávio Catafesto de Souza e Fernando Seffner efetuaram pesquisas no vale do rio Pelotas, na região que seria inundada pelo reservatório da planejada usina. As investigações foram realizadas na margem esquerda deste rio, desde os limites dos municípios de Vacaria com Bom Jesus até os de Vacaria com Esmeralda. Foram selecionadas para prospecção quatro zonas ao longo do rio e de seus afluentes da margem esquerda. No município de Esmeralda, do qual Pinhal da Serra foi posteriormente emancipado, Ribeiro e sua equipe detectaram a existência de setenta e sete sítios arqueológicos de variadas naturezas - vinte e sete de superfície em campo aberto, trinta e nove conjuntos de estruturas subterrâneas, três estruturas anelares sobre a superfície, três galerias subterrâneas, dois abrigos sob rocha e três cavernas (Ribeiro & Ribeiro, 1985) Nos municípios de Vacaria e Bom Jesus, Kern, Souza e Seffner identificaram outros quinze sítios arqueológicos, dos quais grande parte encontrava-se fora da área de inundação. A pesquisa desenvolvida evidenciou a existência de quatro tipos diferentes de sítios, aparentemente pertencentes à mesma cultura: conjunto de estruturas subterrâneas que se poderiam considerar aldeias, grandes habitações ou estruturas isoladas, sítios a céu aberto do tipo sítio-acampamento e sítios para obtenção de matéria-prima (Kern et al, 1989).

Benzer Belgeler