• Sonuç bulunamadı

Finite Element Model of Straight Haunched Continuous Bridge Structures

Finite Element Method

2. Finite Element Model of Straight Haunched Continuous Bridge Structures

Dos três aspectos fundamentais associados à vaga de democratização em África, a saber, o fim do partido único, o surgimento da competição política e a implementação de eleições multipartidárias livres e universais, este último é o que mais visibilidade e espectacularidade tem junto das populações, sobretudo porque os seus resultados reflectem-se de forma mais directa e imediata na vida das pessoas. Resta saber, no entanto, se as eleições multipartidárias significam, no imediato, democracia multipartidária.

21

Ao nível interno do continente, distinguem-se dois factores associados à vaga democrática:10 a persistência e o aprofundamento da crise económica, por um lado, e a perda de legitimidade dos sistemas de partido único, por outro.

A crise económica está directamente relacionada com a posição dependente de África na economia mundial. Entre outros factores, os efeitos da «crise de petróleo» dos anos 70, agravada pelo colapso das receitas provenientes da exportação na década de 80, contribuíram para o aumento da dívida externa de África e para uma maior necessidade de ajuda alimentar do exterior.

Ao assumir todas as tarefas de integração nacional e desenvolvimento com a obtenção da independência política, os partidos únicos foram incapazes de, por um lado, suster as crises económicas que se seguiram e, por outro lado, garantir as funções de patrocinato, traduzidas na possibilidade de proporcionar postos de trabalhos estáveis ou de distribuir recursos às clientelas políticas; os sistemas político-económicos adoptados revelaram as suas fraquezas. Para resolver os problemas da falta de recursos e do aumento do descontentamento das populações, os Estados tornaram-se cada vez mais repressivos, aumentando a violência sobre os cidadãos e desviando recursos para fins repressivos em detrimento de fins produtivos. Nesse quadro, desenvolveram-se as oposições ao poder instituído, o desejo de práticas de respeito pelos direitos humanos e de mais democracia.

Ao nível externo, contam-se entre os factores decisivos associados à vaga democrática em África uma perspectiva mais conservadora das relações Norte-Sul no Ocidente, a introdução generalizada dos PAE e o colapso do socialismo na ex-União Soviética e na Europa de Leste.

Simbolizada pelas administrações Reagan e Thatcher, a perspectiva mais conservadora do Ocidente traduziu-se na diminuição da prioridade e do apoio aos países de partido único no âmbito da política externa e da ajuda alimentar. As justificações dos insucessos políticos e económicos africanos começaram a deixar de ser toleradas. As novas prioridades eram, então, as reformas democráticas e uma maior liberalização económica, no quadro do falhanço dos sistemas de partido único de desenvolvimento centralizado.

10 Os acontecimentos internacionais, mormente o fim da guerra-fria, marcam o processo de democratização,

mas este só foi possível porque as forças sociais internas que apelavam à mudança já existiam e, aproveitando a circunstância, fizeram ouvir a voz dos seus protestos. Os grupos sociais sempre fizeram grandes pressões sobre os Estados, recorrendo às tácticas mais diversas, incluindo «revoltas», «recusa de produção de certos produtos» ou «greves» (Bayart, 1983: 102). Mkandawire (1992: 4) alude à «primavera africana» para sublinhar uma maior intervenção das forças sociais protestando contra os efeitos negativos dos PAE e reclamando uma democratização das sociedades, uma maior fiabilidade na gestão pública e o fim da corrupção e gastos sumptuários.

22

A procura de mais ajuda por parte dos governos africanos, na sequência do aprofundamento da crise económica e à medida que as dívidas externas iam crescendo, encontra maior rigidez da parte do Ocidente (Mkandawire, 1992). As restrições impostas eram cada vez maiores e a ajuda externa passou a estar condicionada à implementação dos PAE.11 Tratando-se, essencialmente, de um processo de liberalização económica, os PAE suscitavam cada vez mais democracia política. Em muitos países, os PAE foram seguidos de processos de democratização segundo o modelo ocidental.12

A queda do socialismo na ex-União Soviética e na Europa de Leste resultou, como se referiu, num duro golpe dos regimes políticos africanos então instituídos. Esse desmoronar do socialismo significou, para os regimes políticos do continente negro, a diminuição de apoios económicos e políticos e, acima de tudo, descrédito de princípios e sistemas de acção da principal base de apoio.

O processo democrático ultrapassa o simples acto eleitoral. Assim sendo, a análise do processo de transição política deve interrogar-se sobre o significado (imediato) das eleições multipartidárias ou as suas consequências na vida dos cidadãos, tendo em consideração não só os resultados eleitorais, como também todo o contexto no qual as escolhas têm lugar, mormente o quadro institucional e legal, as campanhas e os debates de ideias (Quantin (org.), 2004).

Os resultados das primeiras eleições multipartidárias ditaram a destituição e manutenção de numerosos governos e presidentes. Os «novos» actores políticos chegados ao poder não se revelaram muito diferentes dos seus antecessores nas suas práticas de poder. Por outro lado, as eleições decorreram, em muitos locais, em ambientes de acusações de irregularidades, intimidações e violência. A importância da compreensão dessa vaga democrática em África impunha-se pela necessidade de uma análise e compreensão correctas daquilo que, efectivamente, estava a acontecer. E isso era tanto

11 Eram objectivos dos PAE «1) remover os obstáculos ao funcionamento da economia de mercado (por

exemplo, subsídios ou monopólios); 2) reduzir as despesas do Estado, particularmente os gastos com a administração; 3) reduzir a inflação e estabilizar a moeda ao nível do seu valor real; 4) intensificar a exportação de produtos e exportáveis e aumentar as receitas de exportação» (Chabal, 1998: 147).

12 O BM e o FMI postulavam que os PAE influenciariam positivamente o processo de democratização em

África, uma vez que permitiriam um controlo por parte do Estado por um sistema privado autónomo e um desencadear de protestos da população contra o mau funcionamento do Estado, o que, por sua vez, reforçaria as medidas dos PAE, particularmente a redução dos consumos da elite governamental. O poder de influência dos PAE não se concretizou, todavia, tendo provocado quase sempre efeitos contrários aos esperados. As críticas a estes postulados são abundantes. A este propósito, Mkandawire (1992) refere-se ao cinismo dos países estrangeiros, do BM e do FMI, os promotores de democratização em África; os PAE não foram capazes de limitar o Estado, não foram favoráveis ao sector privado (não foi tomada em consideração a dinâmica no interior daqueles sectores), nem limitaram o clientelismo no interior do Estado (eliminaram-se uns, mas criaram-se outros). Quanto aos efeitos positivos dos PAE, as condições de dependência dos países africanos em relação aos países doadores não lhes deixam grande margem de manobra política.

23

mais importante quanto um certo optimismo que acompanhava essa vaga poderia transformar-se, segundo Chabal (1998), em pessimismo caso as experiências em curso não trouxessem os efeitos esperados, tanto ao nível interno como externo. Ao nível interno, as marcas dominantes seriam o desgaste das próprias populações, o desinteresse e a descrença total nos sistemas, nos políticos e nas instituições (nacionais e internacionais); e ao nível externo, o pessimismo poderia traduzir-se no desinteresse por África por parte da chamada comunidade internacional, limitando-se esta a actuações em termos multi e bilaterais, ou por parte dos experts que abandonariam o continente «com a justificação de que se [tratava] na verdade de um continente que não [podia] ser analisado nem compreendido» (Chabal, 1998: 144). Uma perspectiva histórica do processo de democratização em África é aquela que, na opinião de Chabal, melhor dá conta do que se passa neste continente.13 Perspectivar a democracia em África a partir da evolução histórica dos Estados ocidentais e dos Estados africanos, significa ter em consideração que

«1) o desenvolvimento da democracia foi tão difícil quanto violenta; 2) o desenvolvimento da democracia foi sustentado pelo desenvolvimento paralelo de um sistema económico dinâmico, nomeadamente o capitalismo e 3) o funcionamento efectivo da democracia reside na mais larga aceitação consensual sobre a legitimidade da relação entre representação e a responsabilização política parlamentar» (Chabal, 1998: 156).

Perante a impossibilidade de os países africanos do pós-colonialismo realizarem as condições políticas e económicas referidas, a questão que se coloca é a de saber-se em que condições essas eleições multipartidárias produziriam uma democracia estável. Responder a esta questão passa por repensar (a partir de uma perspectiva histórica mais adequada) o próprio conceito de democracia em África e considerar os obstáculos que se opõem à concretização de um regime democrático no continente negro.

Um ponto da situação sobre o processo de democratização em África revela alguns resultados positivos, mas também inúmeras contrariedades. A rápida evolução política, propriamente dita, ocorrida na África ao Sul do Saara (ASS) em direcção ao multipartidarismo até 1995 permitia distinguir várias categorias de democracias (Buijtenhuijs e Rijnierse, 1993; Buijtenhuijs e Thiriot, 1995).14 As «velhas democracias»

13 Chabal (1998) ensaia uma definição da democracia multipartidária a partir de quatro perspectivas: formal

(procedimentos), institucional, cultural e histórica. Segundo esta última perspectiva, «a democracia é o produto final de um longo e complexo processo e não meramente o resultado de decisões políticas conscientemente tomadas num certo momento histórico com vista à implementação de um sistema político melhor» (Chabal, 1998: 155).

14 Em 1993, Buijtenhuijs fazia, em parceria com Rijnierse, um primeiro balanço da literatura relativa aos

processos de democratização na ASS, entre 1989 e 1992 (Buijtenhuijs e Rijnierse, 1993). Grande parte dos escritos referenciados neste trabalho revelava carácter teórico e/ou generalista, debruçando-se, essencialmente, sobre os factos que teriam conduzido à transição. Em 1995, Buijtenhuijs prossegue os

24

integravam países que tinham experimentado um sistema multipartidário desde independência e que, regularmente, tinham efectuado eleições livres mais ou menos honestas. Eram os casos das Ilhas Maurícias, da Gâmbia e do Botswana, a que se devia juntar, também, o Senegal, onde o multipartidarismo fora autorizado em 1974, após um período relativamente curto de partido único. Entre as «novas democracias», distinguiam-se os países onde se tinham realizado eleições multipartidárias nos finais dos anos 80 e princípios de 90 e cujos resultados tinham permitido uma alternância no poder (África do Sul, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Benim, Zâmbia, Mali) e aqueles sem alternância de poder, ou seja, os poderes anteriores (partidos únicos) tinham-se mantido (Costa do Marfim, Zimbabwe, Moçambique, Guiné-Bissau, Gana). Outra categoria inclui «países retardatários» (Tanzânia, Chade, Eritreia, Somália) e países com processos de transições bloqueados (Nigéria, ex-Zaire, Burundi, Guiné-Equatorial ou Angola). O processo de transição democrática nessas duas últimas categorias enfrentava, na altura, problemas graves.15 Existia um grupo de países, que integrava Libéria, Ruanda, Serra Leoa, Somália e Sudão, em que a situação de guerra civil assumira proporções tais que a questão de democratização passara para plano secundário.16

Um dos obstáculos que estava associado ao processo de democratização em África dizia respeito à ausência de programas políticos dos partidos da oposição, o que, além de traduzir o desconhecimento da parte destes partidos relativamente à situação do país (sobretudo económica), os levava, frequentemente, a apresentar promessas demagógicas. O processo de democratização parecia ter entrado numa fase de estagnação. As mudanças ocorridas não produziriam efeitos significativos, quer no plano político, quer no plano económico. O carácter limitado do processo de democratização pode contribuiria para que esses regimes multipartidários evoluíssem para regimes monopartidários, de facto. O sistema multipartidário iniciado corria o perigo de desembocar numa situação de ausência de partidos reais, caso a reclamada participação popular na direcção do país se traduzisse, simplesmente, numa mudança de elite, numa substituição da equipa governamental. Esses múltiplos obstáculos, sem destruir totalmente as esperanças da verificação efectiva da

mesmos objectivos, desta feita em co-autoria com Thiriot (Buijtenhuijs e Thiriot, 1995). Esta última obra apresentava muitos trabalhos de terreno e fazia uma retrospectiva sobre as transições.

15 O insucesso da democracia em Angola ficava a dever-se, essencialmente, a dois tipos de razões segundo

Messiant (1995): uma refere-se ao facto de os Acordos de paz, destinados a pôr fim à guerra civil iniciada após independência (os Acordos de Bicesse) e negociados sob auspícios internacionais, terem sido mal elaborados; a outra razão diz respeito ao facto de os dois principais partidos angolanos, UNITA e MPLA, nunca se terem convencido de que a democracia seria o melhor sistema governamental. Sobre o processo de democratização em Angola e sua relação com a guerra civil, cf., igualmente, Sommerville (1993) e Revista

Politique Africaine nº 57 (1995) que consagra grande parte dos seus artigos a Angola.

16 Como é evidente, o processo de mudança sociopolítica em África não traduz a homogeneidade de modelos

25

democracia em África, muito embora acompanhada de alguns sobressaltos, não deixariam de legitimar o pouco optimismo de alguns actores políticos e sociais quanto ao futuro desse processo de democratização em África.