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A notoriedade de Cleópatra e seu lugar na história universal, provavelmente, jamais teriam sido alcançados caso César não estivesse em Alexandria do Egito naquele momento, em que ela, então exilada, organizava um exército com a intenção de depor seu irmão faraó.

Ptolomeu banira a irmã da pátria e obrigara-a a procurar refúgio na Síria, de onde fez preparativos para voltar ao reino paterno (MOMMSEN, 1962, p. 285).

Existem dúvidas quanto aos atrativos físicos da princesa ptolomaica, mas é unânime entre os cronistas da época a certeza do seu encanto e de seus sortilégios, que seduziram César e o fizeram se envolver na

guerra civil egípcia, modificando o rumo da história e precipitando o fim da República Romana.

A chegada de Júlio César a Alexandria foi precedida por sua reputação não só de guerreiro conquistador, mas também de refinado amante com uma série de aventuras amorosas na sua existência (BENCHLEY, 2007, p. 35). O homem que se mudou para o palácio real, a casa dos dois jovens Ptolomeus, tinha cinquenta e poucos anos. O conquistador de metade do mundo, o maior soldado desde Alexandre (BRADFORD, 2002, p. 79) era considerado descendente dos deuses, em especial Vênus, a deusa do amor (BENCHLEY, 2007, p. 35).

Suetônio29, em A vida dos doze Césares, demonstra a fama de César como um dos mais notórios sedutores de Roma e transcreve os versos que seus soldados cantavam sobre ele:

Romanos, guardai vossas mulheres: nós conduzimos o calvo adúltero. (SUETÔNIO, 2002, p. 58). 30

No entanto, com todos os atributos, César, quando conhecera Cleópatra, era um senhor calvo, enquanto a princesa estava no auge de sua juventude, sendo, portanto, cabível que o conquistador tenha sido conquistado, tendo se apaixonado por ela.

É muito provável que Cleópatra tenha contado com a vulnerabilidade de César e aliado isso ao uso calculado de seus consideráveis atrativos femininos (BENCHLEY, 2007, p. 35).

“Quanto à guerra de Alexandria, dizem alguns que seu amor por Cleópatra, e não uma necessidade real, foi o que determinou a empresa, tão vergonhosa para sua reputação, como perigosa para sua pessoa” (PLUTARCO, 1958, p. 161).

Na opinião da maioria dos primeiros historiadores, foi a fascinação de César por Cleópatra que o levou a colocar o pescoço num nó corrediço, e fez com que colocasse a vida em perigo bem no momento

29

Caio Suetônio Tranquilo (69/141 d.C) foi um escritor e historiador escritor latino que viveu na corte do imperador Adriano. (LELLO, 1954, p. 952).

30

O mesmo cronista romano acrescenta: dos seus amores, constavam também rainhas, entre as quais Eunoé, da Mauritânia, mulher de Boguda. (SUETÔNIO, 2002, p. 59). Numa outra passagem também de Suetônio o historiador vai mais além dizendo que César era um sedutor inescrupuloso nestes termos: “[...] E porque ninguém duvidava do quanto ele era infame na sodomia e no adultério, Cúrio pai chamou-lhe num de seus discursos, ‘o marido de todas as mulheres e a mulher de todos os homens’.” (SUETÔNIO, 2002, p. 60).

em que era o senhor do mundo mediterrâneo (BRADFORD, 2002, p. 91).

Suetônio deixa claro, quando narra os amores de César, que a jovem ptolomaica o arrebatou: “[...] porém entre todas a que mais amou foi Cleópatra, ao lado de quem, muitas vezes nos festins, ficava até o amanhecer [...] (SUETÔNIO, 2002, p. 59).

No extraordinário romance entre César e Cleópatra, deve-se sempre lembrar que ambos eram políticos tortuosos e impiedosos. Mas é bem provável que houvesse uma verdadeira afeição entre eles, independentemente de uma paixão sexual. César, com seus cinqüenta e dois anos de idade e sua imensa experiência com mulheres, provavelmente estava lisonjeado e, por assim dizer, rejuvenescido pelo corpo e pelas atenções dessa jovem mulher, que além do mais era uma rainha. Os sentimentos de Cleópatra provavelmente não eram os mesmos. É verdade que César era um homem extremamente bonito, mas pode-se imaginar que o amor dela por ele se devia na maior parte a ele ser divertido, espirituoso e inteligente. Também era o homem mais poderoso do mundo. Esses são motivos o suficiente para qualquer mulher amar um homem (BRADFORD, 2002, p. 91).

Plutarco conta como César, irritado com os cortesãos do Faraó, mandou chamar secretamente a exilada princesa de volta à cidade, descreve o primeiro encontro dos dois, explica como se tornaram amantes e em que circunstâncias a guerra alexandrina foi deflagrada:

Cleópatra fez-se acompanhar apenas de um dos seus amigos, Apolodoro de Silícia; embarcou num pequeno navio e chegou à noite ao palácio. Não havendo meio de ali penetrar sem ser reconhecida, envolveu-se num saco de colchão, que Apolodoro amarrou com uma correia, fazendo-a levar até César, pela porta do palácio. Conta-se que foi a astúcia de Cleópatra o primeiro engodo que seduziu César; admirado por seu espírito inventivo e, em seguida, subjugado por sua doçura, pelas graças de sua conversa, reconciliou-a com seu irmão, sob a condição de que partilhasse a soberania real; um grande festim consagrou essa reconciliação. Um dos escravos de César, seu barbeiro, que era o mais tímido e desconfiado dos homens, descobriu percorrendo o palácio, prestando ouvidos a tudo e examinando com atenção tudo que se passava, uma conspiração contra César, tramada por Aquilas, general das tropas do rei, e pelo eunuco Potin. Quando teve provas disso, César colocou guardas em torno da sala e mandou matar Potin. Quanto a Aquilas, recorreu ao exército e desencadeou contra César uma guerra difícil e perigosa, na qual, com poucos soldados, César precisou resistir a uma cidade poderosa e a forças consideráveis (PLUTARCO, 1958, p. 162)

César participou da Guerra Alexandrina, mesmo não estando preparado para enfrentar uma cidade tão poderosa e tomando o partido do adversário mais fraco e menos preparado. Mas a fortuna de César brilhou, conseguiu resistir enquanto estava em desvantagem e isso deu tempo para

que chegassem reforços de seus aliados. E César venceu, podendo, então, desfrutar do romance com a sua rainha.

A guerra Alexandrina terminou após cinco meses. César com certa facilidade atingiu um triunfo tanto político quanto militar. Ele derrotara a oposição aos romanos e instalara no trono do Egito uma rainha que era sua amante, e que logo daria a luz a um filho dele (BRADFORD, 2002, p. 98).

Quanto ao filho de Cleópatra tudo indica que era mesmo filho do ditador romano, nas fontes antigas, mesmo romanas não se refuta tal fato, Suetônio relata que César

[...] permitiu, até, que pusesse no filho que tivera dela o próprio nome. De acordo com alguns historiadores gregos, este filho se parecia com César não só no aspecto, como também no modo de andar. Marco Antonio assegurou ao senado que César havia reconhecido o filho e que Caio Macio, Caio Ópio e outros amigos sabiam que era verdade (SUETÔNIO, 2002, p. 58).

O poder de Cleópatra foi restituído e Roma passou a dominar o país do rio Nilo. Em vez de voltar para casa, César preferiu fazer um cruzeiro fluvial com Cleópatra (MORILLON, 2004, p. 93). Na primavera de 47 a.C, César e Cleópatra embarcaram numa barcaça cerimonial para uma agradável viagem Nilo acima. César estava ansioso para ver um pouco desse país que era uma lenda pela sua história antiga (BRADFORD, 2002, p. 98). Entretanto, precisou interromper esse breve momento de felicidade, pois assuntos urgentes exigiram sua presença no Oriente (MORILLON, 2004, p. 93).

Essa insurreição de Alexandria, embora insignificante por si mesma, teve, no entanto, bastante importância para obrigar o homem todo- poderoso, sem o qual nada podia cumprir-se e nada podia resolver-se a negligenciar seus propósitos [...] as conseqüências do governo pessoal começavam a fazer-se sentir. Vencera a monarquia; porém a mais extrema confusão reinava em toda parte, e o monarca estava ausente (MOMMSEN, 1962, p. 289).

César teve de deixar sua rainha durante a gestação e partiu para o Oriente onde retoma seus negócios e novamente sai vitorioso de uma série de batalhas. Na batalha de Zela, trucida seus oponentes, dizimando os soldados de Fárnaces, soberano do crescente império do Bósforo. Orgulhoso e encantado com seu próprio e vertiginoso sucesso, alardeia seu êxito numa carta a um amigo com a célebre frase “Vim, vi e venci”31. Plutarco nos narra assim tal episódio:

31

VENI, VIDI, VICI - Vim, vi, venci. Esse lema, ainda de uso comum para indicar uma ação rápida, tempestiva e eficaz, é de Caio Júlio César: Plutarco, de fato, informa-nos que, em 47

Chegando à Ásia, César soube que Domício, batido por Fárnaces, filho de Mitrídates, fugira do Ponto com um punhado de soldados; que Fárnaces, continuando vigorosamente seus triunfos, se apodera da Bitínia e da Capadócia e se prepara para invadir a pequena Armênia, na qual provocara a rebelião de todos os reis e dos tetrarcas. César marcha contra Fárnaces com três legiões, travando com ele uma grande batalha, perto da cidade de Zela; destroça todo seu exército e o repele do Ponto. Para fazer notar a rapidez nunca vista de sua vitória, César escreveu a Amâncio, um de seus amigos de Roma, estas três palavras somente: “Vim, vi, venci”. Em latim, as três palavras têm a mesma desinência, o que dá à concisão um caráter ainda mais surpreendente (PLUTARCO, 1958, p. 163)

Após o sucesso de seu inverno egípcio e depois desse novo e espetacular triunfo, não é nada surpreendente que César tivesse total autoconfiança (BRADFORD, 2002, p. 105). Ele finalmente volta para Roma para acertar as contas com seus opositores.

César era, então, o único líder de todo o mundo romano, um monarca de direito, pois era ditador, mas não era um rei, mesmo tendo estabelecido uma linhagem real - era o pai de Cesário, filho de Cleópatra, um faraó presuntivo - ele mesmo não era ainda basileus, pois a agonizante República Romana ainda existia legalmente. Essa foi a última batalha de César, e o embate fatal para a República foi igualmente fatal para ele.

Benzer Belgeler